quinta-feira, 5 de agosto de 2010

UMA VITÓRIA DA BUROCRACIA


JOSÉ INÁCIO WERNECK * – DIRETO DA REDAÇÃO

Bristol (EUA) – Ao sair do avião que me trouxe de volta, ouço por acaso uma conversa entre dois patrícios: "Adoro o Brasil, mas é um país muito complicado".

"Amém", pensei com meus botões. Sempre que viajo de volta a esse torrão onde em fevereiro tem carnaval, surpreendo-me com o contraste entre o que ouço e leio sobre o nosso progresso e a pobreza que não esconde sua face em nossas ruas.

Por que, se há tanto investimento entrando no país, não vemos os recursos refletidos na vida do povo? Por que pobres vendendo balinhas em cada sinal de trânsito? E os deficientes físicos, esmolando? Onde está a ação social do Estado?

Ao emergir do metrô no Centro do Rio, nos deparamos com um Pátio dos Milagres de uma população pobre e mal vestida, contrastando com a bela paisagem da Cinelândia, a arquitetura do Teatro Municipal, as largas avenidas.

Pouco antes de minha viagem, tinha lido que o nível de desemprego tem caído no Brasil, mas o que ninguém fala é no sub-emprego. Botar gasolina no tanque de seu carro é emprego? Manobrar elevador do terceiro para o quinto andar é emprego? No mundo industrial tais empregos já acabaram.

O trânsito no Rio de Janeiro (já para não falar do de São Paulo) é infernal, o que é preocupante, com a aproximação da Copa do Mundo e das Olimpíadas. A favelização da cidade é impressionante, inexorável, avassaladora. Tais moradias precárias são construídas ao arrepio das leis, pois algumas se erguem em áreas de reserva florestal, e das normas de construção, já que desabam com uma chuva mais forte.

Um fator preponderante para as favelas é encontrado na persistência de uma estrutura social que, em pleno século XXI, ainda permite às famílas da classe média manter empregadas. Conheço senhoras que nunca aprenderam a cozinhar, pois nunca precisaram. A escrava do Império virou a empregada doméstica da República.

O resultado é um curioso aglomerado ao redor de todo edifício residencial das zonas "bem" da cidade, com empregadas, garagistas, lavadores de automóvel, cidadãos que "quebram o galho" como bombeiros, eletricistas ou biscates em geral.

Li que o atual prefeito disse que ia dar um "choque de ordem", mas o que choca é a desordem. Como é possível que guardadores de automóvel, trabalhando para o governo, dêem ao contribuinte um tíquete de dois reais para colocar no pára-brisas mas exijam o pagamento de ao menos quatro?

É mesmo um país complicado e nem estamos falando da burocracia sufocante de que falavam os dois brasileiros no avião. Há uns 40 anos houve um Ministro, Hélio Beltrão, que pretendeu acabar com a burocracia, mas a burocracia é que acabou com ele.

* É jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou "Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos", estudo sociológico, e "Sabor de Mar", novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut

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