quinta-feira, 23 de setembro de 2010

JOGO DE CENA

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ANTONIO TOZZI – DIRETO DA REDAÇÃO

Erenice Guerra é o símbolo da administração pública. Ministra da Casa Civil e auxiliar próxima da candidata (praticamente eleita) Dilma Roussef, ela herdou o cargo e aproveitou para literalmente se aproveitar do cargo. Por sinal, o mais importante da Administração Federal.

Depois de denúncias feitas por reportagens da chamada “imprensa PIG”, a mulher tentou o surrado argumento de que tudo não passava de “acusações eleitoreiras para prejudicar a candidata petista”.

Logicamente, o argumento não se sustentou e ela apresentou uma carta de renúncia para, supostamente, ter mais tempo de provar sua inocência – e a de membros de sua família. Porque seus filhos montaram um bem azeitado esquema de propina para liberar financiamentos usando, é claro, a influência dentro do Palácio do Planalto.

No início, tentou-se desqualificar as denúncias, mas à medida que o tempo foi passando a situação de Erenice se tornou insustentável e ela pediu demissão – ou foi obrigada a pedir para não ser exonerada.

Por aí, já dá para perceber quem estará (continuará?) no comando dos esquemas palacianos caso a candidata da situação confirmar o favoritismo e vencer a eleição presidencial.

O pior mesmo é o jogo de cena promovido pelo Executivo. Depois de ver que não podiam mesmo salvar a correligionária, deram os anéis para salvar os dedos. E jogaram Erenice aos abutres.

Como foi feito isto? Simples, com uma bem orquestrada ação para tentar mostrar ao público que o governo não era conivente com o esquema da servidora. Ou, então, que foi relapso. Por isto, soltaram uma nota dizendo que ela já estava sendo investigada por não ter apresentado informações confirmando sua participação ou a de membros de sua família em empresas e outras atividades.

O irônico é que a tal “censura ética” só chegou depois de Erenice ter deixado o governo. Estranho, não? Quer dizer, se os jornalistas não tivessem feito um bom trabalho de reportagem e descoberto o esquema de venda de facilidades, o chamado lobby, provavelmente ela nunca teria recebido a censura ética.

O presidente, por sua vez, pressionou para a saída da mulher do governo a fim de evitar que o episódio possa causar embaraços à candidatura de Dilma Roussef.

E aproveitou para faturar politicamente. Ou seja, mais uma vez, garantiu nada saber sobre o esquema do clã Guerra, e em vez de admitir que neste governo há mesmo muita corrupção, optou pela velha cantilena de que “neste governo apura-se as denúncias e pune-se os culpados”.

Erenice, por sua vez, brande a marca da injustiça. Só que fica a questão: Se era inocente por que renunciou? E se nada sabia sobre o esquema de corrupção revelou-se incompetente, incapaz, portanto, de continuar num cargo alto tão alto da República.

Sobre os efeitos negativos na campanha de Dilma, duvido que isto prejudique sua campanha, porque o povão e o empresariado – grande beneficiário do atual governo (basta ver os enormes lucros dos bancos) - parecem ter assimilado bem o estilo do rouba, mas faz, consagrado por políticos antigos e ressuscitado atualmente.

E como o brasileiro está satisfeito tudo vai ficar como está. O jeito é torcer para a imprensa continuar alerta, porque senão vai ser uma festa.

* Foi repórter do Jornal da Tarde e do Estado de São Paulo. Vive nos Estados Unidos desde 1996, onde foi editor da CBS Telenotícias Brasil, do canal de esportes PSN, da revista Latin Trade e do jornal AcheiUSA.
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