sexta-feira, 24 de setembro de 2010

OS JORNALISTAS E MARIA BARROSO

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ORLANDO CASTRO, jornalista – NOTÍCIAS LUSÓFONAS

A comunicação social devia “preocupar-se em dar o lado positivo das coisas”, em vez de privilegiar, como faz actualmente, o “negativo” e o “violento”, disse hoje à Lusa a presidente da Fundação Pro Dignitate.

Provavelmente será por isso que, no país de Maria Barroso, os jornalistas estão em vias de extinção, dando lugar aos produtores de conteúdos de linha branca, muitos dos quais têm de se descalçar para contar até 12.

Contactada telefonicamente a partir de Lisboa, Maria Barroso, que se encontra em Providence, no estado norte-americano de Rhode Island para acções relacionadas com o trabalho da instituição a que preside com as comunidades lusófonas residentes na região, lamentou que a imprensa não dedique mais atenção à promoção da tolerância.

Que chatice! Como é que os poucos jornalistas que ainda o são poderiam dar mais atenção à promoção da tolerância se, cada vez mais, são obrigados a pensar com a barriga?

“Nós queremos fazer aquilo que o papa João Paulo II falava: a semeação do amor, baseada na justiça, na igualdade, na paz. É nisso que nós temos de trabalhar, se não que mundo deixamos nós às gerações futuras? E os média têm aí uma responsabilidade extremamente importante”, vincou.

Ter, até tiveram. Era no tempo em que aprendiam a dar voz a quem a não tinha, era no tempo em que sabiam que se o jornalista não vive para servir... não serve para viver. Agora não. Agora entre um jornalista competente e um néscio com uma boa cunha, a escolha é fácil.

Maria Barroso acrescentou que a imprensa actual “insiste naquilo que é negativo nos programas e no que é violento”. Ora, frisa, “é preciso não que haja censura mas que haja preocupação em dar o lado positivo das coisas, para ajudarmos a criar, enfim, não só o amor à paz, como também o orgulho de pertencer ao país que promove estas acções, neste caso Portugal”.

Isso foi chão que deu, há muito, muito tempo, uvas. Agora a regra é só uma: vender. E para atingir esse desiderato vale tudo. Tudo, nem que seja na horizontal, com as duas mãos ou com a boca. Desses é que é o reino dos media nas ocidentais praias lusitanas.

No Jornalismo, como certamente (ainda) se recordará Maria Barroso, se um jornalista não procura saber o que se passava era um imbecil. Se soubesse o que se passava e se calava era um criminoso.

Sempre existiram, é verdade, imbecis e criminosos. Mas nunca, como agora, ser imbecil e criminoso é condição sine qua non para ser “jornalista” mas, sobretudo, para ser director e até administrador. Isto já para não falar em ser deputado, assessor, gestor, administrador ou até membro do Governo.

Por alguma razão, quando em 2004 chegou à liderança do PS, José Sócrates jurou a pés juntos que a liberdade de imprensa era para si sagrada... Chegou depois à liderança do Governo e instituíu que “é assim que eu quero e é assim que vai ser". E não lhe faltam seguidores.

Segundo a organização internacional não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que claramente nada percebe da poda, a liberdade de imprensa em Portugal diminuiu, registando uma queda do 16º para o 30º lugar na lista dos países que mais respeitam o trabalho dos jornalistas.

Por outras palavras, o poder quer que os jornalistas perguntem não o que o Estado/país/bordel pode fazer por eles, mas sim o que eles podem fazer pelo bordel/país/Estado.

E o que melhor podem fazer é aceitar que para serem um dia directores ou administradores de um jornal têm de ser criados do poder.

“E não há dúvida nenhuma de que, aconteça o que acontecer, a imprensa, uma imprensa livre, continuará a ser um dos grandes pilares da democracia”, disse recentemente María Teresa Fernández de la Vega na abertura do Congresso Mundial de Jornalistas “La Pepa 2012”, que decorreu em Cádis, Espanha.

Se uma imprensa livre é um dos grandes pilares da democracia, a dita está, no reino lusitano de Sua Excelência José Sócrates Pinto de Sousa, coxa. Muito coxa. Até porque não baste dizer que existe democracia porque “é assim que eu quero e é assim que vai ser".

Em Portugal, como certamente sabe Maria Barroso, José Sócrates chegou tão cedo que deu carácter não só legal como nobre ao facto de o servilismo ser regra para bons empregos, garantindo que esses servos vão estar depois a assessorar partidos, empresas ou políticos. Sempre, é claro, levando em conta que uma imprensa livre é um dos grandes pilares da democracia.

E quando alguém contesta, ele limita-se a dizer, com todo o espírito democrático: “É assim que eu quero e é assim que vai ser".

2.09.2010 - orlando.s.castro@gmail.com
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