
ORLANDO CASTRO, jornalista – NOTÍCIAS LUSÓFONAS – 22 setembro 2010
Manuel Maria Carrilho, até agora embaixador de Portugal na UNESCO afirmou hoje à Lusa em Paris que a responsabilidade da sua demissão "foi ao mais alto nível". Está o caldo entornado entre os socialistas? Não. Nada disso. Veja-se o caso, entre outros, de Manuel Alegre.
O ex-ministro da Cultura contraria as afirmações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, embora ressalvando que «não desmente o ministro dos Negócios Estrangeiros».
Manuel Maria Carrilho aludiu, a propósito, que, «parte da rotação (de diplomatas) de Outono foi rotação de Verão» uma vez que alguns dos embaixadores foram nomeados por Diário da República no final de Julho.
O ministro Luís Amado afirmou terça-feira que informou pessoalmente, em Abril, o ex-embaixador na UNESCO (a organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) de que seria substituído.
O chefe da diplomacia portuguesa acrescentou que Manuel Maria Carrilho acatou a decisão.
Falando à margem da Cimeira dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), a decorrer na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, Luís Amado garantiu que não houve motivações políticas para a substituição de Carrilho, tendo a decisão resultado apenas da avaliação do trabalho.
Há, no meio disto tudo, quem por manifesta má intenção chame purga ao que se passou. Tretas socialistas. De alguns socialistas, pelo menos.
Como tudo na vida, mudam-se os tempos... mudam-se as vontades. Num artigo de opinião do jornal Público, há para aí três anos, intitulado "Contra o medo", Manuel Alegre criticava "a confusão entre lealdade e subserviência" que, segundo o socialista agora candidato à Presidência da República, se verificam no Governo de José Sócrates. Recordam-se?
"Há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa História, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE", escreveu Manuel Alegre, acusando o Partido Socialista de "auto-amordaçar-se". Recordam-se?
Mas a vida é mesmo assim, sobretudo nas ocidentais praias lusitanas a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos. O presente (e se calhar o futuro) está para os que sabem assinar apenas o que lhe mandam, para os que têm coluna vertebral amovível e que quase sempre a deixam em casa, para os que pensam com a cabeça do chefe.
Estas são, aliás, características que podem abrir a qualquer cidadão lugares bem remunerados na Assembleia da República portuguesa, nos partidos, no governo, nas empresas públicas etc..
Pelo contrário, os que são daquela espécie profissional que acha que dizer a verdade é a melhor qualidade, que pensa que deve dar voz a quem a não tem, o melhor é ir pregar para outra freguesia ou deixar-se estar no desemprego.
Se, pelo contrário, considera que a única verdade é a verdade do chefe, se para si o importante é ajudar os poucos que têm milhões a ter mais uns milhões, pouco importando os milhões que têm pouco ou nada, se não consegue assinar (porque não sabe assinar) a ficha de candidatura, mas consegue pôr o dedo, ou já é ou será um grande político, autarca, deputado, ministro, gestor, director e por aí fora.
Durante anos (muitos, é certo) Portugal parecia um país sério, mas não era. Agora não parece nem é. São cada vez mais os exemplos (políticos, empresariais etc.) dos que se julgam pianistas só porque compraram um piano. Aliás, continuam a ter em cima do piano a foto em que aparecem a cumprimentar José Sócrates (o cartão do partido, esse está na carteira).
Por outras palavras, se se medir o nível intelectual deste Portugal “made in Largo do Rato” pelo número de pianos, obras de arte etc. é certo que o país está bem colocado.
Numa sociedade onde o que importa é o que se aparenta, onde o relevante é o deslumbrante “play-back” de Luciano Pavaroti quando se tem voz de Zé Cabra, são cada vez mais os que estão na ribalta embrulhados em etiquetas sociais de renome, talvez até importadas de Paris. O presente é, ou parece, ser deles. Se o futuro também o for, então Portugal estará cada vez mais perto de Marrocos.
Não deixa, contudo, de ser elucidativo ver como o acessório é mais relevante do que o essencial, como o embrulho é mais importante do que o produto, como a capa é mais vital do que o conteúdo, como o cargo é mais paradigmático do que tudo o resto.
É uma sociedade de faz de conta, onde o que importa é dizer-se que se tem um stradivarius por que se sabe que ninguém vai querer saber que o instrumento é, afinal, feito com latas de sardinha e foi comprado na Feira da Vandoma, no Porto.
22.09.2010 - orlando.s.castro@gmail.com
Manuel Maria Carrilho, até agora embaixador de Portugal na UNESCO afirmou hoje à Lusa em Paris que a responsabilidade da sua demissão "foi ao mais alto nível". Está o caldo entornado entre os socialistas? Não. Nada disso. Veja-se o caso, entre outros, de Manuel Alegre.
O ex-ministro da Cultura contraria as afirmações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, embora ressalvando que «não desmente o ministro dos Negócios Estrangeiros».
Manuel Maria Carrilho aludiu, a propósito, que, «parte da rotação (de diplomatas) de Outono foi rotação de Verão» uma vez que alguns dos embaixadores foram nomeados por Diário da República no final de Julho.
O ministro Luís Amado afirmou terça-feira que informou pessoalmente, em Abril, o ex-embaixador na UNESCO (a organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) de que seria substituído.
O chefe da diplomacia portuguesa acrescentou que Manuel Maria Carrilho acatou a decisão.
Falando à margem da Cimeira dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), a decorrer na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, Luís Amado garantiu que não houve motivações políticas para a substituição de Carrilho, tendo a decisão resultado apenas da avaliação do trabalho.
Há, no meio disto tudo, quem por manifesta má intenção chame purga ao que se passou. Tretas socialistas. De alguns socialistas, pelo menos.
Como tudo na vida, mudam-se os tempos... mudam-se as vontades. Num artigo de opinião do jornal Público, há para aí três anos, intitulado "Contra o medo", Manuel Alegre criticava "a confusão entre lealdade e subserviência" que, segundo o socialista agora candidato à Presidência da República, se verificam no Governo de José Sócrates. Recordam-se?
"Há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa História, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE", escreveu Manuel Alegre, acusando o Partido Socialista de "auto-amordaçar-se". Recordam-se?
Mas a vida é mesmo assim, sobretudo nas ocidentais praias lusitanas a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos. O presente (e se calhar o futuro) está para os que sabem assinar apenas o que lhe mandam, para os que têm coluna vertebral amovível e que quase sempre a deixam em casa, para os que pensam com a cabeça do chefe.
Estas são, aliás, características que podem abrir a qualquer cidadão lugares bem remunerados na Assembleia da República portuguesa, nos partidos, no governo, nas empresas públicas etc..
Pelo contrário, os que são daquela espécie profissional que acha que dizer a verdade é a melhor qualidade, que pensa que deve dar voz a quem a não tem, o melhor é ir pregar para outra freguesia ou deixar-se estar no desemprego.
Se, pelo contrário, considera que a única verdade é a verdade do chefe, se para si o importante é ajudar os poucos que têm milhões a ter mais uns milhões, pouco importando os milhões que têm pouco ou nada, se não consegue assinar (porque não sabe assinar) a ficha de candidatura, mas consegue pôr o dedo, ou já é ou será um grande político, autarca, deputado, ministro, gestor, director e por aí fora.
Durante anos (muitos, é certo) Portugal parecia um país sério, mas não era. Agora não parece nem é. São cada vez mais os exemplos (políticos, empresariais etc.) dos que se julgam pianistas só porque compraram um piano. Aliás, continuam a ter em cima do piano a foto em que aparecem a cumprimentar José Sócrates (o cartão do partido, esse está na carteira).
Por outras palavras, se se medir o nível intelectual deste Portugal “made in Largo do Rato” pelo número de pianos, obras de arte etc. é certo que o país está bem colocado.
Numa sociedade onde o que importa é o que se aparenta, onde o relevante é o deslumbrante “play-back” de Luciano Pavaroti quando se tem voz de Zé Cabra, são cada vez mais os que estão na ribalta embrulhados em etiquetas sociais de renome, talvez até importadas de Paris. O presente é, ou parece, ser deles. Se o futuro também o for, então Portugal estará cada vez mais perto de Marrocos.
Não deixa, contudo, de ser elucidativo ver como o acessório é mais relevante do que o essencial, como o embrulho é mais importante do que o produto, como a capa é mais vital do que o conteúdo, como o cargo é mais paradigmático do que tudo o resto.
É uma sociedade de faz de conta, onde o que importa é dizer-se que se tem um stradivarius por que se sabe que ninguém vai querer saber que o instrumento é, afinal, feito com latas de sardinha e foi comprado na Feira da Vandoma, no Porto.
22.09.2010 - orlando.s.castro@gmail.com
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