quinta-feira, 31 de março de 2011

É PRECISO TER UM GALO DO CARAÇAS...

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Em Novembro de 2006, a propósito das intenções do Governo português querer extinguir a Caixa dos Jornalistas, meditei no facto de os assessores de imprensa do Governo socialista de José Sócrates ganharem entre 2400 e 4500 euros... por mês.

E de tanto meditar, aceitei a sugestão de um amigo e fui filiar-me no PS.

Entre os que tinham ordenados-base mais altos estavam os responsáveis da comunicação dos ministros das Finanças, dos Negócios Estrangeiros, da Administração Interna e da Justiça, que recebiam mais do que os do primeiro-ministro.

Era, pensei, a altura exacta para me filiar no PS.

De acordo com o jornal Público (18.06.2006), o elevado valor dos ordenados justificava-se com o facto dos salários não serem obrigatoriamente tabelados, podendo ser negociados entre as partes desde que se abdique das despesas de representação.

Assim, e de acordo com o despacho de nomeação de responsável pela pasta das Finanças, Teixeira dos Santos, a assessora Fernanda Pargana tinha na altura um ordenado-base 4500 euros.

Numa altura em que tudo é «simplex», sobretudo se for mais «PSimplex», o Governo mostrava que, afinal, a tradição continuava a ser o que era e que, como ontem, os "jobs" são para os "boys", os génios são menos importantes do que os néscios desde que estes tenham cartão do partido.

Néscio ou não, o importante era mesmo ser filiado no PS.

O Governo simulou que queria alterar o (mau) estado das coisas mas, mais uma vez, era mais a parra do que a uva. Mais o acessório do que o essencial. Bastava ver que 70% do total de rendimentos brutos declarados em sede de IRS pertenciam a trabalhadores dependentes.

Tudo como dantes. Ou seja, era mesmo a altura para fazer a filiação no PS.

José Sócrates sabia, e continua a saber, como ninguém que a comunicação social é vital para vender gato por lebre, e para além de recrutar jornalistas para assessorar os seus ministros colocou os jornalistas do partido nos locais certos.

Mais uma razão para enviar, em correio registado, a filiação para o Largo do Rato.

Sócrates sabia bem que os jornalistas também sabem que mais vale ser um propagandista de barriga cheia do que um ilustre Jornalista com ela vazia. E como é duro ter a barriga vazia...

Este Governo (tal como os outros) está-se nas tintas para os portugueses em geral e para os Jornalistas em particular. Mas isso nem sequer é relevante, pensei.

E não é relevante porque, regra geral, os Jornalistas sabem contar até 12 sem terem de se descalçar. Assim sendo, fazem contas e chegam à conclusão de que o melhor é estar de acordo, é dizer sempre que sim, é ter o cartão do partido que está no poder.

É que, se não for nos jornais haverá sempre um lugar como assessor que, mais volta menos volta, abre as portas para se ser director de um jornal.

Por alguma razão Inês Pedrosa dizia que "temos cada vez mais jornalistas que saltam das redacções para se tornarem criados de luxo do poder vigente".

A palavra criado não me agradava. Mas entre criado a ganhar bem e jornalista de prato vazio... a escolha pareceu-me simples. Além disso, depois dessa rodagem há sempre a possibilidade de ver criados saltarem do poder para serem directores de jornais.

Apesar de tudo isto, a verdade é que nunca saí da cepa torta. O tempo passou e nada. Nem para criado do poder me chamaram.

Foi então que decidi saber o que se passava com a minha filiação.

Não é que, ao fim de muita procura, descobriram que os serviços tinham metido a minha ficha de inscrição no mesmo sítio onde José Sócrates meteu a maioria dos portugueses: no caixote do lixo.

Digam lá que não é preciso ter um galo do caraças...

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Portugal: CAVACO MARCA ELEIÇÕES PARA 5 DE JUNHO

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NUNO SIMAS – PÚBLICO – 31 março 2011

O Presidente da República, Cavaco Silva, anunciou esta quinta-feira a marcação das eleições legislativas antecipadas para 5 de Junho, na sequência de uma reunião com o Conselho de Estado.

O anúncio da decisão de Cavaco foi feito numa comunicação ao país, cerca das 20h30. O Presidente afirmou também que o Conselho de Estado foi unânime na opinião da necessidade de realizar eleições legislativas antecipadas.

No seu discurso, Cavaco Silva disse que as “eleições devem proporcionar consenso político a médio prazo”.

À tarde, reuniu-se no Palácio de Belém, o Conselho de Estado, órgão de consulta do Presidente.

Relacionados em “Público”:



António Barreto: CRISE POLÍTICA É “GOLPE” DE SÓCRATES PARA SE VITIMIZAR

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“Estamos a pedir em más condições, depois de um golpe de Sócrates que provocou eleições para tentar continuar no deslize e no agravamento em que estávamos”, afirmou Barreto (Adriano Miranda)


PÚBLICO – LUSA – 31 março 2011

O sociólogo António Barreto afirmou que a demissão do Governo foi um “golpe” do primeiro-ministro José Sócrates para provocar eleições, vitimizar-se e que isso aumenta as dificuldades para Portugal se financiar nos mercados.

“Estamos a pedir em más condições, depois de um golpe de Sócrates que provocou eleições para tentar continuar no deslize e no agravamento em que estávamos”, afirmou Barreto, que preside à Fundação Francisco Manuel dos Santos, em declarações à Lusa, à margem do lançamento do livro de Vítor Bento, “Economia, Moral e Política”.

António Barreto acrescentou ainda que o momento actual do país “corresponde à ideia do primeiro-ministro, de provocar uma crise na qual ele possa, eventualmente, passar por vítima”.

O Presidente da República ouve hoje o Conselho de Estado, numa reunião que tem como único ponto “pronunciar-se sobre a dissolução da Assembleia da República”, no quadro da crise política que se seguiu à demissão, há uma semana, do primeiro-ministro.

O presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos acusou ainda José Sócrates de “caluniar” as entidades internacionais “a quem pede ajuda” e de “caluniar os credores” depois de pedir empréstimos.

“Esta duplicidade é um péssimo sinal para o exterior”, acrescentou António Barreto, referindo que, se Portugal tivesse pedido ajuda externa há mais de um ano, teria estado em melhores condições para o fazer, e em melhores condições para cumprir eventuais programas de reformas económicas.

Os juros exigidos pelos investidores no mercado secundário para deter títulos de dívida soberana portuguesa a dois anos superaram hoje o preço da dívida a dez anos, pela primeira vez desde 2006.

A ‘yield’ (remuneração total) exigida no mercado para comprar dívida a dois anos atingiu os 8,17 por cento, acima dos 8,092 por cento cobrados pela dívida a 10 anos, de acordo com a agência de informação financeira Bloomberg.

“Agora estamos em situação praticamente desesperada”, disse ainda o sociólogo, que insistiu na necessidade de realizar uma auditoria às contas públicas.

“Se não se realizarem auditorias, há dois problemas. O primeiro é que damos mais um sinal negativo ao exterior, isto é, que temos algo a esconder. Em segundo lugar, perante o eleitorado português, perante os cidadãos, é um factor de deslealdade inadmissível”, concluiu António Barreto.

OS BRIC DERAM E CONTINUAM A DAR COBERTURA À INTERVENÇÃO...

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… DA OTAN NA LÍBIA E EM ÁFRICA

MARTINHO JÚNIOR

Em Outubro de 2010, antes das eleições no Brasil, escrevi vários artigos com referência a esse acontecimento e, entre eles, aquele que advoguei a defesa dos interesses brasileiros sobre o pré-sal, interligando essa acção com os interesses na defesa do Sul em relação à Amazónia “verde” e à bacia do Grande Congo, em África.

De facto em época eleitoral no Brasil, a defesa em benefício dos interesses do Brasil em relação ao pré-sal foi um assunto bastante debatido, pois o candidato José Serra advogava uma política neo liberal que permitia o enfraquecimento da PETROBRAS e, com isso, a abertura do pré-sal às multinacionais do petróleo, sobretudo as anglo-saxónicas.

Assumir o pré-sal no quadro dos interesses nacionais brasileiros, vocaciona-se no reforço da emergência do Brasil: para além do facto dessa defesa ser extremamente sensível à defesa dos interesses do Sul, é importante também num quadro de associação de componentes emergentes em situação similar em diversas partes do globo, associação com a Rússia, a Índia e a China, mas também com muitos produtores de petróleo e gás dentro ou fora da OPEP (Líbia incluída).

Os BRIC, cada um dos componentes para além de suas fronteiras nacionais, são fulcros e nexos multi-regionais importantes para as possibilidades de multilateralismo e susceptíveis com isso de melhor se encontrarem alternativas à impulsão relativa das políticas hegemónicas eminentemente anglo-saxónicas.

Acompanhar o posicionamento dos BRIC nos relacionamentos internacionais tornou-se assim numa obrigação para os observadores mais atentos, para os estrategas e para todos aqueles que estão implicados na incessante busca de alternativas que fujam à pressão da globalização neo liberal que constrói os termos ambíguos desta hegemonia cujo braço militar é avassaladoramente intempestivo e agressivo.

Por isso, a leitura do posicionamento dos BRIC esbatida no Conselho de Segurança da ONU no quadro dos termos concretos da Resolução 1973 em relação à Líbia, é deveras importante, pois ela fornece elementos indicadores sobre até que ponto os BRIC estão capacitados de partir para um efectivo multilateralismo, capaz de estabelecer nexos de relacionamento com outras nações, povos e estados, entre eles os produtores de petróleo e gás, na América Latina, na África e na Ásia (Médio Oriente incluído).

De forma decepcionante, as respostas dos BRIC no Conselho de Segurança da ONU em relação à Líbia, não só demonstram timidez em assumir implicações geo estratégicas e geo políticas alternativas, como pecaram nas suas previsões no âmbito de sua abstenção: ao permitirem-se caucionar a intervenção sobretudo da França, da Grã Bretanha e dos Estados Unidos na Líbia, em função dum documento carregado de equívocos em relação aos limites e esfera da acção, contribuíram para esconder a natureza da revolta líbia que me parece indiciadora de associação com os interesses das multinacionais franco-anglo-saxónicas e de seus aliados árabes (a interconexão do uso da aviação aliada com as forças no terreno é um facto gritante de coligação) e, pecado dos pecados, não previu uma evolução que abrisse caminho à entrada da OTAN no contencioso da Líbia.

Era possível aos BRIC no Conselho de Segurança da ONU advogar de forma decidida a via do diálogo e da paz, defender intransigentemente essa via perante aqueles que vêem na força militar solução preferencial de uso intermitente, com sinal contraditório (em função dos seus interesses egoístas e hegemónicos, ao ataque no caso líbio, ou na defesa no caso do Bahrein) e esperando o tempo julgado conveniente (20 anos de relacionamento e negócios comuns no caso líbio), espreitando as possibilidades de transição pacífica e sem traumas (ou com o mínimo de traumas possível) na Líbia, evidenciando os interesses do Sul (inclusive os interesses do Sul em relação ao petróleo na Líbia)… mas os discursos das delegações desses países, foram discursos frágeis, vazios de ética e de moral, vazios de convicções e de princípios, carentes de geo estratégia, inócuos de geo política e sobretudo cúmplices da evolução que está agora patente, que foi aliás prevista entre outros pelos vizinhos do Brasil, pelos componentes da ALBA na América Latina, respondendo às reflexões de Fidel sobre o assunto.

Este tipo de discursos continua a abrir espaço aos criminosos que actuam em nome da hegemonia, com todo o arsenal de cosméticas que estão continuamente a ser aplicadas na lavagem cerebral global em curso em relação a eles!...

… São discursos cúmplices que contribuem, por exemplo, para impedir que alguma vez George W. Bush, ou Tony Bair, por maioria de razão e em função de seus crimes contra a humanidade nos Balcãs, no Iraque, no Afeganistão e em tantos outros lugares onde proliferam as mais de 800 bases do sistema, crimes contra os tão apregoados “direitos humanos”, “direitos das minorias” e contra a própria “democracia representativa” (a favor da aristocracia financeira mundial, das oligarquias, das monarquias árabes do petróleo e das elites afins) se venham a sentar antes de quaisquer outros no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional!

Os BRIC, dois deles, Rússia e China, com direito a veto, não souberam defender condignamente os interesses alternativos do Sul no Conselho de Segurança e agora, mais que antes, este tipo de intervenções com uma tremenda carga de ingerência, em nome dos “direitos humanos”, dos “direitos das minorias” e da “democracia representativa”, começa a repercutir nos fragilizados estados e nações do Terceiro Mundo subdesenvolvido, pendendo como uma ameaça que a qualquer momento pode passar do conceito à prática de agressão em qualquer “obscuro rincão do mundo” conforme a arrogância estúpida mas omnipresente de George W. Bush, a postura dum “sargento às ordens do sistema”, uma arrogância que continua patente na acção do AFRICOM (que opera em suporte à OTAN no caso africano da Líbia).

Ao invés de se estimular nos países do Sul e em toda a humanidade as vias de diálogo, de paz, de participação cidadã, democrática e responsável de todos na solução dos problemas, prefere-se a ameaça militar sempre latente e sempre pendente sobre os estados mais frágeis da Terra e até sobre aqueles que, sendo usados em benefício da hegemonia, das oligarquias, das elites e de monarquias feudais, em tempo oportuno (durante décadas), são deitados fora cinicamente através de bárbaros ou refinados processos de ingerência, quando se julga que, em nome da pílula da “democracia representativa” é chegada a hora de actuar.

Os povos, reduzidos agora à designação absurda de “sociedades civis”, tornam-se pasto das ingerências, imolam-se ao “diktat” do modelo das “democracias representativas” que lhes é imposto de maneira tão perversa e objectivamente nada mais fazem em suas expectativas senão abrir espaços a mais cumplicidade e agenciamento das elites nacionais, cada vez mais submissas e “parceiras” nas cumplicidades estimuladas pela hegemonia e só por elas.

É evidente que estas cumplicidades da abstenção perante a evolução do quadro da ingerência franco-anglo-saxónica e aliados árabes, agora tornada agressão da OTAN em consonância com o AFRICOM (a OTAN não tem mandato do CS da ONU e o AFRICOM não está exposto), é também contra cada um dos BRIC, cujas políticas claudicam nas obrigações alternativas que, sendo possíveis, estão a ser deliberadamente abandonadas, não só neste caso da Líbia, mas também em relação a outros teatros contemporâneos (nenhum dos BRIC se pronunciou em relação ao caso do Bahrein, nem se tem pronunciado sempre, conforme deveriam fazer, em defesa dos direitos da Palestina constantemente agredida e alvo de segregação e “apartheid” na região em que se insere durante largas décadas).

No caso do Brasil foi um péssimo exercício no âmbito dos relacionamentos internacionais, na defesa dos seus interesses próprios sobre o pré-sal e do que isso implica geo estrategicamente enquanto fulcral alternativa, pelo que, a visita da Presidente Dilma Roussef e de Lula da Silva a Portugal nesta conjuntura internacional ambígua e carregada de tensões, ilustra bem esse papel de cumplicidades: a Presidente do Brasil escolheu visitar num momento como este, um país que votou a favor da ingerência militar na Líbia como via para resolver o conflito, quando durante tantos anos se estimulou em negócios com a Líbia e com o próprio Kadafi!

É de realçar que essa escolha surgiu na sequência da visita do Presidente Barack Hussein Obama ao Brasil, que foi aproveitada para, a partir do próprio Gabinete da Presidente Dilma Roussef, dar ordem à força tarefa norte americana para actuar no quadro estabelecido pelo CS da ONU na ingerência contra a Líbia!...

Tendo manifestado Portugal no Conselho de Segurança da ONU, que votava a favor, conforme votou, disse que não faria parte das forças de intervenção dos aliados em relação à Líbia, de forma tão cínica e até sinistra como se pode comprovar: é que agora, no quadro da OTAN, que garante a conexão com o AFRICOM, Portugal que está presente nos Balcãs, no Índico Norte, no Afeganistão, pode considerar vir a participar, fora de qualquer mandato explícito da ONU para com a OTAN, participar mesmo que isso não se torne de domínio público, na ingerência-agressão em curso contra a Líbia, dias depois de ter afirmado precisamente o contrário!

Se algum dia hipoteticamente o pré-sal brasileiro motivar uma musculada ingerência externa como a que foi desencadeada agora na Líbia, uma ingerência militar em estreita coligação com rebeldes (?) locais, o que dirá e fará este Portugal tão exemplarmente alinhado com a hegemonia e tão diligente nessa sua submissão a ponto de se auto-desmentir de forma tão flagrante?

Uma parte da resposta poderá ser constatada no papel de Portugal nos exercícios FELINO em curso, um papel de mensageiro privilegiado, um papel introdutório aos conceitos, técnicas e matérias de feição da OTAN e da AFRICOM – a mensagem de que o rótulo humanitário chegou aos exercícios militares, por que já está há muito tempo a ser aplicado na acção militar da ingerência hegemónica um pouco por todo o lado na Terra!

Portugal de forma maquiavélica indicia estar a contribuir para, em direcção a alguns dos países da CPLP, se escolherem alguns dos mesmos tipos de armadilhas que foram montadas na Líbia durante os 20 anos de relacionamento de Kadafi com os ocidentais, com as cumplicidades próprias distendidas durante todo esse período a favor do seu regime e do seu séquito, “distraindo-o” enquanto esperava a sua ajuda na montagem dessas armadilhas, induzindo-o cada vez mais em erros que lhe viriam a ser única e exclusivamente atribuídos, usando-o de forma perseverante e perversa durante esses 20 anos, para depois o deitar fora desta maneira a que todo o mundo está a assistir através das televisões e de todos os canais informativos à escala global!

PAZ SIM, NATO NÃO!

Martinho Júnior - 29 de Março de 2011.

Junto a posição oficial emitida pelo do Brasil “abstinente” no Conselho de Segurança da ONU, que contribuiu para a aprovação da Resolução 1973:

“Senhor Presidente,

O Brasil está profundamente preocupado com a deterioração da situação na Líbia. Apoiamos as fortes mensagens da Resolução 1970 (2011), adotada por consenso por este Conselho.

O Governo do Brasil condenou publicamente o uso da violência pelas autoridades líbias contra manifestantes desarmados e exorta-as a respeitar e proteger a liberdade de expressão dos manifestantes e a procurar uma solução para a crise por meio de diálogo significativo.

Nosso voto de hoje não deve de maneira alguma ser interpretado como endosso do comportamento das autoridades líbias ou como negligência para com a necessidade de proteger a população civil e respeitarem-se os seus direitos.

O Brasil é solidário com todos os movimentos da região que expressam suas reivindicações legítimas por melhor governança, maior participação política, oportunidades econômicas e justiça social.

Condenamos o desrespeito das autoridades líbias para com suas obrigações à luz do direito humanitário internacional e dos direitos humanos.

Levamos em conta também o chamado da Liga Árabe por medidas enérgicas que dêem fim à violência, por meio de uma zona de exclusão aérea. Somos sensíveis a esse chamado, entendemos e compartilhamos suas preocupações.

Do nosso ponto de vista, o texto da resolução em apreço contempla medidas que vão muito além desse chamado. Não estamos convencidos de que o uso da força como dispõe o parágrafo operativo 4 (OP4) da presente resolução levará à realização do nosso objetivo comum – o fim imediato da violência e a proteção de civis.

Estamos também preocupados com a possibilidade de que tais medidas tenham os efeitos involuntários de exacerbar tensões no terreno e de fazer mais mal do que bem aos próprios civis com cuja proteção estamos comprometidos.

Muitos analistas ponderados notaram que importante aspecto dos movimentos populares no Norte da África e no Oriente Médio é a sua natureza espontânea e local. Estamos também preocupados com a possibilidade de que o emprego de força militar conforme determinado pelo OP 4 desta resolução hoje aprovada possa alterar tal narrativa de maneiras que poderão ter sérias repercussões para a situação na Líbia e além.

A proteção de civis, a garantia de uma solução duradoura e o atendimento das legítimas demandas do povo líbio exigem diplomacia e diálogo.

Apoiamos os esforços em curso a esse respeito pelo Enviado Especial do Secretário-Geral e pela União Africana.

Nós também saudamos a inclusão, na presente resolução, de parágrafos operativos que exigem um imediato cessar-fogo e o fim à violência e a todos os ataques a civis e que sublinham a necessidade de intensificarem-se esforços que levem às reformas políticas necessárias para uma solução pacífica e sustentável. Esperamos que tais esforços continuem e tenham sucesso.

Obrigada.”


A GUERRA FASCISTA DA NATO

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Fidel Castro RuzCuba Debate – 29 março 2011

Não era preciso ser um adivinho para saber o que previ com rigorosa precisão em três Reflexões que publiquei no sítio Web CubaDebate, entre 21 de fevereiro e 3 de março: “O plano da NATO é ocupar Líbia”, “Dança macabra de cinismo”, e “A Guerra inevitável da NATO”.

Nem sequer os líderes fascistas da Alemanha e da Itália foram tão sumamente descarados por ocasião da Guerra Civil Espanhola desatada em 1936, um episódio de que muitos talvez se tenham lembrado nestes dias.

Decorreram já desde aquela altura exatamente quase 75 anos; porém nada que possa se parecer às mudanças que aconteceram em 75 séculos, ou se quiserem, em 75 milênios da vida humana no nosso planeta.

Às vezes parece que, aqueles que serenamente opinamos sobre estes temas somos exagerados. Atrever-me-ia dizer que se calhar somos ingênuos quando supomos que todos deveríamos ficar cientes do engano ou da colossal ignorância a que tem sido arrastada a humanidade.

Existia em 1936 um intenso enfrentamento entre dois sistemas e duas ideologias aproximadamente equiparadas em seu poder militar.

Então as armas pareciam brinquedos comparadas com as atuais. A humanidade tinha garantida a sobrevivência, apesar do poder destruidor e localmente mortífero das mesmas. Cidades inteiras, e inclusive nações, podiam ser virtualmente arrasadas. Contudo, jamais os seres humanos, em sua totalidade, podiam ser várias vezes exterminados pelo estúpido e suicida poder desenvolvido pelas ciências e as tecnologias desta época.

Partindo destas realidades, resultam vergonhosas as notícias que são transmitidas continuadamente sobre o emprego de potentes mísseis dirigidos por laser, de total precisão; caças-bombardeiros que duplicam a velocidade do som; potentes explosivos que fazem estourar metais endurecidos com urânio, cujo efeito sobre os povoadores e seus descendentes perdura por tempo indefinido.

Cuba expôs na reunião de Genebra sua posição relativamente ao problema interno da Líbia. Defendeu sem hesitar a idéia de uma solução política ao conflito nesse país, e se opôs categoricamente a qualquer intervenção militar estrangeira.

Em um mundo onde a aliança dos Estados Unidos e das potências capitalistas desenvolvidas da Europa se apodera cada vez mais dos recursos e do fruto do trabalho dos povos, qualquer cidadão honesto, seja qual for sua posição perante o governo, opor-se-ia à intervenção militar estrangeira em sua Pátria.

O mais absurdo da situação atual é que antes de se iniciar a brutal guerra no Norte da África, em outra região do mundo a quase 10 000 quilômetros de distância, tinha acontecido um acidente nuclear num dos pontos mais densamente povoados do planeta após um tsunami provocado por um terremoto de magnitude 9 que a um país trabalhador como o Japão já quase lhe custou 30 mil vítimas fatais. Tal acidente não haveria podido produzir-se 75 anos antes.

No Haiti, um país pobre e subdesenvolvido, um terremoto de apenas 7 graus na escala de Richter ocasionou mais de 300 mil mortos, incontáveis feridos e centenas de milhares de lesados.

Todavia, no Japão o terrivelmente trágico foi o acidente na usina termonuclear de Fukushima, cujas conseqüências ainda estão por serem determinadas.

Citarei apenas algumas manchetes das agências noticiosas:

“ANSA.- A usina nuclear de Fukushima 1 está difundindo “radiações extremamente fortes, potencialmente letais”, disse Gregory Jaczko, chefe da Nuclear Regulatory Commission (NRC), o ente nuclear estadunidense.”

“EFE.- A ameaça nuclear pela crítica situação de uma usina no Japão após o sismo, tem disparado as revisões da segurança das plantas atômicas no mundo e tem levado alguns países a paralisarem seus planos.”

“Reuters.- O devastador terremoto do Japão e o aprofundamento da crise nuclear poderia gerar perdas de até 200 000 milhões de dólares na sua economia, mas o impacto global é difícil de avaliar pelo momento.”

“EFE.- A deterioração de um reator após outro na termonuclear de Fukushima continuou alimentando hoje o temor a um desastre nuclear no Japão, sem que as desesperadas tentativas para controlar uma fuga radiativa abrissem uma possibilidade à esperança.”

“AFP.- Imperador Akihito expressa preocupação pelo caráter imprevisível da crise nuclear que abate o Japão após o sismo e o tsunami que mataram milhares de pessoas e deixaram 500 000 sem lar. Informam novo terremoto na região de Tóquio.”

Há notícias que falam de temas ainda mais preocupantes. Alguns mencionam a presença de iodo radiativo tóxico na água de Tóquio, que duplica a quantidade tolerável que podem consumir as crianças mais pequenas na capital japonesa. Uma das informações fala que as reservas de água engarrafada se estão esgotando em Tóquio, cidade localizada em uma prefeitura a mais de 200 quilômetros de Fukushima.

Este conjunto de circunstâncias determina uma situação dramática para nosso mundo.

Posso expressar meus pontos de vista sobre a guerra na Líbia com inteira liberdade.

Não partilho com o líder desse país concepções políticas ou de caráter religioso. Sou marxista-leninista e martiano, como já expressei.

Vejo a Líbia como um membro do Movimento de Países Não Alinhados e um Estado soberano dos quase 200 da Organização de Nações Unidas.

Jamais um país grande ou pequeno, neste caso de apenas 5 milhões de habitantes, foi vítima de um ataque tão brutal pela força aérea de uma organização belicista que possui milhares de caças-bombardeiros, mais de 100 submarinos, porta-aviões nucleares, e suficiente arsenal para destruir o planeta numerosas vezes. Tal situação jamais a conheceu nossa espécie e não existia nada parecido há 75 anos quando os bombardeiros nazis atacaram objetivos na Espanha.

Contudo, agora a desprestigiada e criminosa NATO escreverá uma “bela” historieta sobre seu “humanitário” bombardeamento.

Se Khaddhafi fizer honra às tradições de seu povo e decidisse combater, como tem prometido, até o último alento junto dos líbios que estão enfrentando os piores bombardeamentos que jamais sofreu um país, afundará na lama da ignomínia à NATO e seus projetos criminosos.

Os povos respeitam e acreditam nos homens que sabem cumprir o dever.

Há mais de 50 anos, quando os Estados Unidos assassinaram mais de cem cubanos com a explosão do mercante “La Coubre”, nosso povo proclamou “Pátria ou Morte”. Tem cumprido, e sempre tem estado disposto a cumprir sua palavra.

“Quem intentar se apoderar de Cuba ―exclamou o mais glorioso combatente da nossa história― só recolherá a poeira do seu solo anegado em sangue”.

Peço-lhes me desculpem a franqueza com que abordo o tema.

Fidel Castro Ruz - 28 de março de 2011

Portugueses africanos e portugueses europeus não são, e jamais...

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… poderão ser, a mesma coisa!

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Os portugueses, apesar de viverem muito bem no seu país (só são 700 mil desempregados, 20% de pobres e outros tantos a olhar para os pratos vazios), continuam a aventurar-se por terras angolanas.

Como em tempos dizia o meu amigo Gil Gonçalves, “quando a cabeça não dá para mais nada, a única saída é embarcar para Angola e espoliar mais uns pretos”. Não é só a cabeça que não dá para nada, o próprio país é um deserto e os seus dirigentes uma resistente espécie de parasitas.

Mas, diga-se, a culpa não é só dos portugueses de hoje que, ao contrário dos de ontem, procuram sacar tudo o que podem, começando o exemplo pelos governantes, passando pelos gestores e administradores públicos e restante casta.

A culpa também é dos angolanos que colocaram os de ontem, muitos dos quais deixaram mesmo o cordão umbilical em Angola, ao mesmo nível dos de hoje, ou muitas vezes a um nível bem mais baixo.

Em Angola causa alguma estranheza o facto de, apesar da presença massiva de portugueses, eles nunca serem mencionados nos balanços do Serviço de Migração e Estrangeiros sobre a expulsão de expatriados.

E estranha-se porquê? Porque, mesmo considerando que esses cidadãos são súbditos de sua majestade D. José Sócrates, as vítimas dos serviços de migração são por regra africanos e, de quando em vez, uns chineses.

Em Maio de 2009, o Semanário Angolense dizia que “aos outros imigrantes é exigido o cumprimento da lei, mas aos portugueses não”. E acrescentava: “Muitos até falsificam documentos e dizem-se naturais de Malange – maioritariamente “nasceram” em terras da Palanca Negra –, Huíla, Benguela, mesmo sem nunca lá terem estado”.

E o jornal concluía: “É urgente investigar e descobrir quem promove e protege essa invasão silenciosa de portugueses”.


É verdade que são aos milhares os portugueses africanos que agora nasceram de gestação espontânea, uma espécie de mercenários que nada têm em comum com muitos outros portugueses de outrora, esses sim africanos de alma e coração.

Os novos descobridores vão para a África rica (caso de uma parte de Angola) sacar tudo o que for possível e depois regressam à sua normal e tipificada forma de vida, voltando a ter a porta sempre fechada aos africanos.

Com a conivência consciente de Eduardo dos Santos, que não dos angolanos, Portugal aposta tudo o que tem (lata) e o que não tem (dignidade) nos muitos mercenários que têm as portas blindadas e sempre fechadas, remetendo para as catacumbas todos aqueles portugueses que sempre tiveram a porta aberta.

Como é que se vê a diferença? É simples.

A grande diferença é que os portugueses europeus, os que agora aceleram na tentativa de chegar à cenoura na ponta da vara de Angola, sempre consideraram (quiçá com razão) que até prova em contrário todos os estranhos são culpados.

Já os portugueses africanos, os que deram luz ao mundo, os que choram ao ouvir Teta Lando, Elias Dia Kimuezo, Carlos Lamartine ou os N’Gola Ritmos, entenderam que até prova em contrário todos os estranhos são inocentes.

Em África, os portugueses africanos aprenderam a amar a diferença e com ela se multiplicaram. Aprenderam a ser solidários com o seu semelhante, fosse ele preto, castanho, amarelo ou vermelho. Aprenderam a fazer sua uma vivência que não estava nas suas raízes.

Na Europa, os portugueses aprenderam a desconfiar da diferença e a neutralizá-la sempre que possível. Aprenderam a ser individualistas mesquinhos e a só aceitar a diferença como exemplo raro das coisas do demónio.

Com o re(in)gresso de milhares de portugueses africanos ao Portugal europeu, a situação alterou-se apenas por breves momentos. Tão breves que hoje, 36 anos depois da debandada africana, quase se contam pelos dedos de uma mão os que ainda se assumem como portugueses africanos.

Isto é, muitos dos portugueses europeus que foram para África tornaram-se facilmente africanos. No entanto, ao re(in)gressarem às origens ressuscitaram a velha mesquinhez de um país virado para o umbigo, de um país de portas fechadas. Voltaram a ser apenas europeus.

Nessa mesma leva vieram muitos portugueses africanos nascidos em África. Esses não re(in)gressaram em coisa alguma. Mantiveram-se fiéis às suas raízes mas, é claro, tiveram (e ainda têm) de sobreviver.

Apesar disso, só olham para o umbigo de vez em quando e as suas portas só estão meias fechadas.

Acresce que muitos destes acabaram por constituir vida em Portugal, muitos casando com portugueses europeus. Por força das circunstâncias, passaram a olhar mais vezes para o umbigo e a porta fechou-se quase completamente.

Chega-se assim aos filhos, nados e criados como “bons” tugas europeus. Estes só olham para o umbigo e trancaram a porta. Por muito que o pai, ou a mãe, lhes digam que até prova em contrário todos (brancos, pretos, amarelos, castanhos ou vermelhos) são inocentes, eles já pouco, ou nada, querem saber disso.

Por força das circunstâncias, os portugueses africanos diluíram-se no deserto europeu, foram colonizados e só resistem alguns malucos que, por força dos seus ideais, admitiram que o presente de Portugal poderia estar na Europa, mas sempre e desde sempre tiveram a certeza que o futuro estava em África.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

A MARCHA DA VERGONHA

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Patriotismo

Alguns podem ser enganados todo o tempo, todos podem ser enganados por algum tempo, mas é IMPOSSIVEL enganar TODOS todo o tempo. – Abraham Lincoln

Patriotismo; O valor que nos faz viver plenamente nosso compromisso como cidadãos e fomentar o respeito que devemos a nossa Pátria.

PATRIOTISMO é o valor que procura cultivar o respeito e amor que devemos a Pátria, mediante nosso trabalho honesto e a contribuição pessoal ao bem-estar comum.

Talvez para muitos ser Patriota consiste no orgulho de ter nascido numa Potência mundial extraordinariamente rica e poderosa como os EUA (exemplo) ou num País com muitos recursos minerais ou ainda num País de grandes Tradições culturais, para outros provavelmente significa ‘portar’ da cabeça aos pés as cores nacionais em um evento desportivo ou em viajem no exterior do País, alguns mais recatados sentem pertencer ao seu País durante a celebração nacional e só como pretexto para organizar uma festa com seus amigos ou apenas para beneficiar-se dela (da festa) … enfim; achamos pertinente perguntar, se a verdade sobre o Patriotismo se vive ou personaliza-se o que faz toda a diferença ou é um sentimento ocasional e portanto passageiro.

Regra geral, a consciência patriótica parece despertar quando irrompem os desastres (como é o caso actual do Japão), guerras e outros eventos extraordinários, como no caso da apoteótica recepção em Madrid, da selecção de Espanha campeã do mundo de futebol naquele dia Toda a Espanha esteve unida, esqueceram-se assombrosamente as diferenças politicas e ideólogicas, o evento extraordináriamente galvanizou tudo e todos a volta da heróica selecção, provavelmente membros da organização separatista Basca, a ETA ‘enterraram’ as diferenças e também vibraram com os milhões dos demais compatriotas, tornando-se assim num único corpo, a saber: Espanha.

Aconteceu também em Angola durante o CAN-orange, quando a Selecção de ‘todos nós’, estava a ganhar o MALI atingindo a soberba e inacreditável fasquia de 4-0, cada golo resultou numa explosão ‘multicolor’ de Alegria Nacional, todos abraçavam todos, sem olhar a côr politica, racial, religião, social etc, constou-se á-propósito varias anedotas e acontecimentos para demonstrar a UNIDADE NACIONAL ou PATRIÒTICA que se viveu naqueles momentos ímpares e belissimos, eis uma; “Certo individuo amigo do alheio, esgueirou-se na residencia de outrêm, para a pratica da sua ‘profissão’ justamente quando ia dar inicio ao ‘acto’ Os Palancas desferiram mais um Golo, foi uma explosão entre os moradores e hospédes que se encontravam reunidos na sala para o efeito, o amigo do alheio ou melhor o gatuno, do ‘seu’ sitio ‘veio’ a correr para a sala fazendo coro com os demais, distribuindo e recebendo candandos e abraços, ninguém notou que era um ‘infiltrado’ o final da estória são outros quejandos... claro que quando o MALI, começou a reverter a situação de modo implacável, cada golo maliano, era uma espetada no coração de cada Angolano, eventualmente todo o País, respirou silenciosa e uníssonamente de alivio quando o árbitro da ‘partida’ deu por terminado o que parecia ser um eminente desastre nacional.

Mas como lograr ser Patriota num País que Só tem problemas, dificuldades e miséria de toda a índole? “pondo o dedo directamente na ferida”; Quem tem a suprema responsabilidade de mostrar ser verdadeiro PATRIOTA os governantes ou os governados? Quem tem que exigir tal sentimento a quem? Os governantes são os únicos que têm o dever ou o direito de exigir Patriotismo dos governados, ou os governados dos governantes ou vice-versa? É índicio de falta de Patriotismo o governado fazer notar aos governantes de que estão incorrendo em erro, ou faltando com a verdade em determinadas acções, visando o seu proprio bem-estar (dos governantes) ao invéns do bem-estar comum? Por outras palavras, é falta de Patriotismo quando as populações por consequência das acções incompetentes e desatrosas dos governantes pretendem fazer ouvir o seu desagrado, portanto a sua voz?... A desculpa desarrazoada de que o povo tem que “manifestar-se em locais próprios” honestamente não tolhe nem colhe, porque o Povo não faz parte no seu colectivo de nenhum ‘comité de especialidade’ de partido nenhum, não tem acesso a Assembleia Nacional, então! Como fazer ouvir a sua voz? È Patriótico o povo manter-se em silêncio perante tão gritante e dantesca incompetência, corrupção epidémica, roubo selvagem e generalizado do erário público e arbitrário desinteresse nacional, alastramento criminoso da miséria, quando é o mesmo povo a única e exclusiva vitima da sinistra e tenebrosa acção do chamado executivo? É Patriótico alguém colocar ‘quedo e mudo’ de forma voluntária a cabeça na ‘guilhotina’ para o nada?!.. é o suicidio colectivo para o nada algo Patriótico? Ou a acção contrária?

Se partirmos do Principio, que os governantes antes de atingirem tal patamar, ‘namoraram’ ( á-propósito será que o fizeram?!) as populações para convencê-los do seu projecto para a Nação ou para o País, visando única e exclusivamente o BEM-ESTAR das populações ou do povo, (onde?!) durante realizações de comicios, marchas e outras formas de manifestações politica, então estes os que prometeram ‘tais mundos’ obtiveram ‘um certificado do povo’ para dirigir a ‘nau’ para o ‘bom-porto’, têm a obrigação de mostrarem-se ser Bons Patriotas, cumprindo as promessas que de forma voluntária e ‘altruista’ fizeram para com o País, assim os governados têm a obrigação de EXIGIR que os governantes, cumpram com o prometido, mostrando assim por seu turno serem de igual modo Bons Patriotas, porque a Pátria é em primeira e última instância propriedade DO POVO, de todos nós e não de apenas um grupo de individuos que se dizem ‘eleitos’ por alguma acção misteriosamente ‘divina’.

PATRIOTISMO também manifesta-se pelos valores que transmitimos como cidadãos conscientes, boa conduta-moral, respeito pelas leis e pelas autoridades, respeito pelas normas, regras e costumes que comumente regem toda sociedade civilizada. Por outras palavras PATRIOTISMO, significa ser ordeiro, disciplinado, pacifico e contra todas as manifestações da violência, o que não quer dizer, que não se pode realizar manifestações, a manifestação só se torna violenta quando a policia descura de cumprir cabalmente o seu papel, protegendo os manifestantes e cuidar que os oportunistas e arruaceiros não se apoderem dela para fins incofessos. Na minha opinião todos os valores patrióticos resumem-se apenas numa única frase; “ contribuir contínuamente de forma honesta para o bem-estar colectivo”.

Quando os adultos não dão o correcto exemplo civico, regral geral são repreendidos pela sociedade pois que tais individuos representam um perigo a continuidade da salubridade e civilidade nacional, assim também acontece quando os governantes não são exemplos na moral, respeito pelas leis e instituições legais que compõem o espectro juridico-legal do País que governam.

Lembrei-me de dissertar sobre este tão delicado tema, quando nos três primeiros dias de Março, fomos ‘atordoados’ por um anúncio e evento que teria lugar (teve lugar) em 5 de Março, os autores de tal evento classificaram a aderência ao citado movimento, manifestação puramente partidaria, como; PATRIÒTICA e marcha da PAZ. Dando a entender que todos os que por vários motivos, não pertencessem, aderissem ao partido que emitiu tal convocatória e a sua acção, NÃO SÃO ou não serem PATRIOTAS, e consequentemente a favor da guerra, nunca se falou tanto da guerra de forma irresponsávelmente desastrosa, desde a assinatura do chamado protocolo entre os generais Camorteiro e Armando ‘maluco’ da Cruz, como na primeira semana do mês de março. Em alguns pontos do País, muitos populares abandonaram aterrorizados os seus locais costumeiro de residência face a tais persistentes rumores, alimentados de forma criminosa por algumas cabeças de M(elão), que compõem o MPLA-JES, é isto; Patriotismo? É isto ordem e respeito pelas instituições? Significa tal apelo um apelo a PAZ “quando você exibe ameaçadoramente o machado da guerra” e declara aterradoramente que o visado (pela ameaça) é inimigo da paz e anti-Patriota?

Porque os Patriotas (no conceito do MPLA-JES) e cumpridores da Lei estão TODOS ‘localizados’ sob a tutela e a ‘batuta’ do MPLA-JES e este teve/têm o apoio de 86% dos eleitores, os que não votaram no seu M(elão), aproximam-se de “bandidos, que querem o regressso da guerra”. Esquecendo-se obviamente que os 86% que votaram a favor, deram-lhes um ‘certificado’ revogável (pelo menos nas Democracias assim é) para GOVERNAREM e não/NUNCA para se governarem e aterrorizarem a população incluindo os protagonistas (anónimos) da ‘emissão’ do referido ‘certificado’. Foi a marcha de 5 de Março Patriótica?.. uma marcha que representou a continuidade da DITADURA e da corrupção doentia, uma marcha onde se destilou a INTOLERÂNCIA excessiva e exacerbada, que rejeitou, humilhou e espezinhou de forma arrogante os direitos mais elementares dos demais cidadãos, uma marcha composta por muitos elementos chantageados que marcaram presença á-contra gosto com receio de serem notados (a falta) e perderem o emprego na função pública, uma marcha manchada pela corrupção, sob atracção de espectaculo musical e de Cerveja... tal marcha foi sim a MARCHA DA VERGONHA Nacional, porque significou uma tentativa de enterro da débil (muito palúdica) Democracia.

PATRIOTA óbviamente esta relacionado com a palavra PÀTRIA, o amor a Patria é que produz o Patriotismo, portanto ser patriota nunca esta relacionado com a fidelidade e lealdade a homem nenhum ou a um partido politico, pois que nenhum Partido politico e nenhum homem, esta acima dos sagrados e inalienáveis interesses da Nação ou da Pátria. Tais individuos (os que arrogam a ímpia exclusividade) assemelham-se aquele que presunçosamente se jactou; “Eu sou a Líbia” (e todos ‘presenciamos’ as consequências de tal pronunciamento) provavélmente há em Angola quem diga, por palavras e actos “Eu sou Angola”, (vivemos na carne as consequências de tal presunção vergonhosa, e devemos preparar-mo-nos para o pior tal como esta acontecendo na Libía) que abominavel e pecaminosa jactância anti-patriótica.

Em Angola, a maior parte dos governantes estão longe de serem o exemplo de; BOM CIDADÃO, lealdade, boa conduta, boa moral, respeito as leis, respeito ao prôximo, e interessados exclusivamente no bem-estar colectivo. Tais individuos, jamais dizem a verdade, a mentira faz parte do seu dia-a-dia, a maior parte deles são poligámos inveterados (com JES a cabeça, o ‘tal’ que deveria ser o estandarte da boa moral, o mais alto exemplo) alguns são pedófilos, abusam sexualmente rapariguinhas ainda na adolescência, corropendo-as com alguns Usd, mancham e desfazem milhares de lares, seduzindo e corrompendo esposas alheias, por ostentarem e jactarem-se das suas ilicitas riquezas, e ilegal promiscuidade, com consequências desastrosas para a boa moral africana que herdamos dos nossos ilustres antecessores, levam impiedosamente a reboque o País inteiro, para tudo que é imundo, replectem um desinteresse total ao bem-estar do povo, produzem julgamentos ilegais, Lançam para as prisões gente inocente, cujo único crime foi ousar pensar diferente, ostracizam todos aqueles que não se revêm nas suas cores Partidarias.

A UNICEF regista que Angola está localizado entre os Países do mundo onde morrem mais crianças, um autêntico genocidio, assim; Angola esta localizado entre os Países do mundo onde não há PAZ social, o que quer dizer entre outras ‘coisas’ esta entre os Países do mundo onde não há JUSTIÇA e LIBERDADE. Um governo ou executivo responsavel por tais ‘eventos’ não espelha o Patriotismo e não é Patriota, reflectido na prosecução constante e contínua do bem-estar colectivo, é simplesmente TERRORISTA e precussora inegável da GUERRA.

Um governo que PROIBE com ameaças Nazista-Estalinista e Gaddafiano, manifestações que não são ‘paridas’ no seu seio, e exalta um temor mórbido por qualquer acção colectiva, até uma manifestação pacifica de mulheres contra a violência doméstica ou de reivindicação salarial da Ngaxôto Lda, Que não tenha cartazes com rosto de JES e bandeiras do MPLA-JES, assusta-os e é cognominada imediatamente de manifestação anti-governo, e a policia de intervenção rapida é chamada para a reprimir, é isso exemplo de Patriotismo?

Angola, necessita com urgência de um governo PATRIOTA, que apele e promova marchas solenes de PATRIOTISMO primeiro entre os pares, espelhando boa e salutar governação, produzindo e defendendo primária e intrasigentemente a Justiça e transparente comportamento moral dando o correcto e positivo exemplo ao resto da sociedade e exultar o desenvolvimento social, depois sim levar á reboque todas as forças viva do País, que o farão de bom grado e de forma natural e instintiva.

Porque o exemplo que vislumbramos do MPLA-JES é o da; Incompetência total, ‘escabrosa’ Corrupção, e Roubo ininterrupto, intolerància a todos os niveis, “Ngombelismo”, desordem e total desrespeito as sacra tradições dos nossos antepassados e ao bem-estar comum, enfim é o mais vivo exemplo ANTI-PATRIOTA.

Por isso, governar com PATRIOTISMO é cuidar, especialmente dos pobres, dos que mais sofrem, dos humilhados e ofendidos, é isso que faz desenvolver o País quando os seus cidadãos (independentemente da cor da pele, origem social ou partidária) se sentem protegidos pelas instituições nacional, principalmente do executivo.

Governar é cuidar todos os dias para que a “boa muda” possa florescer e encantar.

Nguituka Salomão

Angola24horas.com

OITO MILHÕES COM FOME PRECISAM DE AJUDA DE EMERGÊNCIA

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Mais de oito milhões de pessoas na África Oriental precisam de ajuda alimentar de emergência devido à recente seca, o que significa um aumento de dois milhões de pessoas, segundo um comunicado das Nações Unidas.

Mais de oito milhões de pessoas na África Oriental precisam de ajuda alimentar de emergência devido à recente seca, o que significa um aumento de dois milhões de pessoas, segundo um comunicado das Nações Unidas hoje divulgado.

As fracas chuvas registadas entre Outubro e Dezembro agravaram a falta de água e ajudaram à deterioração das condições do gado de pasto no Djibouti, Etiópia, Quénia, Somália e Uganda, situação que piorou com conflitos, elevados preços dos alimentos e condições de saúde de pessoas e animais, segundo a agência Coordenadora dos Assuntos Humanitários da ONU (OCHA).

A esmagadora maioria das pessoas mais afectadas recentemente pela falta de alimentos é do Quénia. Registaram-se surtos de doenças relacionadas com a seca no país, que levaram à morte de mais de cinco mil animais só em Janeiro.

Segundo as Nações Unidas, os níveis de desnutrição grave estão a aumentar. Uma pesquisa recente no sul da Somália registou taxas de desnutrição grave na ordem dos 30% da população, enquanto no Djibouti e no Quénia e se situam entre os 20% e os 25%.

"O que causa extrema preocupação é a escassez acentuada de água", refere o documento da ONU.

O sector da educação está também a ser fortemente afectado, com o aumento do número de crianças em idade escolar e de professores que tiveram de emigrar à procura de água e de zonas com alimento.

Só na Somália, mais de 400 escolas fecharam devido à seca desde Dezembro, afectando cerca de 55 mil alunos. Na Etiópia há relatos de 58 mil desistências de estudantes.

LONDRES LUTA PELOS SERVIÇOS PÚBLICOS

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Uma multidão nas ruas contra cortes de verbas e medidas de “austeridade” do governo conservador

Alan Jones, The Independent, UK 26/3/2011 – Outras Palavras - Tradução Coletivo Vila Vudu

Um protesto de massas agitou, no sábado (26/3), as ruas de Londres contra “os cortes de austeridade” que o governo planeja impor nos gastos públicos, no que todos estimam que já seja o maior movimento de massas há anos, e que traz dura mensagem ao governo do primeiro-ministro David Cameron.

Estimava-se que cerca de 100 mil ativistas — sindicalistas e outros grupos viessem à rua –, mas já está claro que esse número foi largamente ultrapassado: centenas de milhares de manifestantes, de todo o país, vieram a Londres. As primeiras estimativas falam de pelo menos 250 mil manifestantes, mesmo antes do início da marcha.

Um primeiro grupo de centenas de sindicalistas interrompeu o tráfego no centro comercial da cidade. A marcha começou com fogos de artifício e rojões, quando a multidão começou a deslocar-se de Piccadilly Circus para Oxford Street e Regent Street.

Na Bond Street, houve confronto entre um grupo de manifestantes e a polícia. Uma agência do Royal Bank of Scotland foi atacada com garrafas de vidro e restos de comida. Muitos manifestantes cobriam o rosto com lenços e levavam bandeiras vermelho-pretas. Gritavam “a rua é nossa” e carregavam cartazes com “não aos cortes!” Uma linha de 50 policiais foi obrigada a recuar e dispersou, sobrepujada pela massa de manifestantes.

Muitas lojas fecharam, tentando resistir ao avanço de manifestantes vestidos de negro dos pés à cabeça, que forçavam as vitrines e portas. O grupo desceu por Topshop até a Oxford Street, quebrando janelas e lançando bexigas carregadas de tinta. Muitos cantavam “paguem os impostos que nos faltam”, enquanto a polícia tentava proteger lojas de roupa e vitrines.

Dave Prentis, secretário-geral da Unison, disse à Press Association que o número de manifestantes “é absolutamente gigantesco e mostra o estado de espírito dos trabalhadores, furiosamente contra os cortes que o governo deseja nos impor”.

Enquanto esperava que a marcha chegasse ao ponto onde estava, para inserir-se na linha de frente dos manifestantes, acrescentou: “Esperávamos muita gente, porque só a Unison organizou 500 ônibus e vários trens especiais para trazer gente que se inscreveu. Mas o que se vê aqui é simplesmente inacreditável”.

“São famílias inteiras, trabalhadores comuns, muitos trouxeram os filhos, para dizer alto e claro a David Cameron que suspenda esses cortes inadmissíveis que estão provocando o fim de dezenas de milhares de empregos e o fechamento de serviços públicos essenciais, entre os quais bibliotecas, hospitais e postos de saúde.”

Os manifestantes começaram a chegar a Londres horas antes da marcha, o que converteu o Embankment num mar de bandeiras e cartazes, muitos balões e discursos, que encheram completamente as margens do Tâmisa.

Bandas, músicos, coros, artistas e bailarinos tocavam, cantavam e dançavam à frente da marcha, e dezenas de milhares de pessoas, muitos trazendo crianças sobre os ombros ou no colo, crianças pequenas e crianças maiores, que tocavam cornetas e apitos, enquanto, pacientemente, andavam pelo centro de Londres em direção ao Hyde Park.

O líder do partido Labour, Ed Miliband, ainda dava retoques no discurso que faria, instantes antes de começar a falar.

Ed Balls, ‘Shadow chancellor’, foi vaiado por alguns manifestantes, quando se apresentou para falar com os líderes sindicalistas que abriam a marcha, logo pela manhã.

Disse que o partido Labour está decidido a continuar a trabalhar contra os cortes nos gastos públicos e a favor de que se criem mais empregos e construam-se mais casas, se voltar ao poder.

A multidão respondeu: “E o que você fará por nós, Ed?”

Len McCluskey, secretário-geral de Unite, estimou em meio milhão de pessoas o número de manifestantes.

“É incrível. Nunca antes se viu tanta gente em manifestação contra o governo. Dessa vez, o governo não conseguirá fingir que não nos viu.”

Centenas de policiais postaram-se à frente do Parlamente, por trás de uma barreira de placas de metal, quando a marcha passou por ali e seguiu para Whitehall, onde, ano passados ocorreram cenas de violência em manifestações estudantis.

Peter Keats, 54, de Lowestoft, Suffolk, já festejava o sucesso da manifestação, quando ainda estava chegando gente, às 11h30. Erguendo uma taça de vinho branco, disse: “Brindo ao sucesso da manifestação e brindo às pessoas que saíram às ruas”.

“A imprensa estã falando de 100 mil pessoas, mas há muito mais. Espero que chegue a meio milhão. Espero que o governo comece a ouvir o que tanta gente tem a dizer”.

Mr Keats, que trabalha para Jobcentre Plus, acrescentou: “Pessoalmente, acho errado o modo como os pobres estão sendo sacrificados. Nem me preocupo muito comigo, mas meus clientes estão cada dia mais vulneráveis e preocupo-me com eles e com os filhos desse país.”

Alan Dowling, 40, trabalha para a UK Border Agency em Sheffield. Disse que os cortes o levaram a sair de casa para participar da marcha. Disse que teve de sair de casa às 4h40 da madrugada, para chegar a Londres a tempo.

“Outro dia, o ministro da imigração disse, pela TV, que temos de fazer mais. Como podemos fazer mais, se nos tiram pessoal, se cortam verbas, se cortam empregos?”, perguntou. (…)

Keith Williamson, 55, professor no Shelley College, Huddersfield, disse: “O governo diz que não há cortes na educação, mas é mentira. Estamos ameaçados de perder vários alunos, porque eles perderão as bolsas de manutenção, sem as quais não poderão continuar os estudos.”

Cerca de 50 gurkhas uniram-se à manifestação, em apoio às subvenções.

Ragprasad Purja, 44, gurkha do Nepal, que vive em Morden, sul de Londres, disse: “Os gurkhas lutam por esse país há 200 anos. Os cortes nos benefícios afetarão muitos de nós. Os cortes têm de parar.”

Mais de uma hora depois do início da marcha, ainda estava chegando gente. Richard Evans, 46, andou 166 milhas, de Cardiff, para unir-se à manifestação. “Queria encorajar as pessoas a tomar um ônibus e vir. Acho que o melhor modo de fazer isso, é dar o primeiro passo.” Mr. Evans partiu de Cardiff sábado passado, e chegou a Londres na noite de 6ª-feira, em torno das 20h. Mr Evans, que lamentou apenas que “meus pés estão muito doloridos”, agradeceu as pessoas que o acompanharam por trechos da caminhada e os muitos que o estimularam pelo Facebook.

quarta-feira, 30 de março de 2011

ZÉ ALENCAR, UM BRASILEIRO

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MAIR PENA NETO – DIRETO DA REDAÇÃO

Existem pessoas que demonstram tanto amor pela vida que chegam a nos constranger quando desanimamos diante de nossas mazelas diárias. O ex-vice-presidente José Alencar, que morreu aos 79 anos após longa batalha contra um câncer demolidor, era um sujeito assim. Apaixonado pela vida e, sobretudo, pelo Brasil.

Zé Alencar era um típico brasileiro. Mais um Zé, como Lula o chamava, e como nos sentíamos à vontade de chamá-lo diante da intimidade a que nos convidava. O vice-presidente era aquela figura que a gente gosta de encontrar em qualquer lugar para trocar uma prosa. E sua prosa tinha conteúdo.

O ex-vice-presidente foi um self made man, que provou a mobilidade social que o Brasil permite. E o fato de ter passado de pobre a milionário não o tornou conservador, como sói acontecer. Zé Alencar se aliou a Lula e o acompanhou durante os oito anos de presidência, enfrentando os preconceitos destilados pelas classes dominantes contra a figura do operário. Acreditou e se engajou em um processo que mudou o país e fez renascer a confiança do povo em sua própria capacidade.

Zé Alencar era parte indissociável desse povo e se manifestava como ele. Era muito fácil entender o que dizia com seu jeito simples e profundo. Se bateu durante todo o tempo em que esteve na vice-presidência contra as altas taxas de juros. Parte da imprensa até tentou ridicularizá-lo, como faz com quem mantém a coerência das idéias. Mas ele não arredou pé. Apontava os prejuízos causados ao setor produtivo, do qual era empresário, e à população, que via o custo dos empréstimos encarecer.

Sua pregação faz total sentido e deve ser levada adiante em sua memória no momento em que os arautos do mercado tentam interferir na condução da política econômica e fomentar a alta dos juros, tão ao gosto dos rentistas.

Alencar também foi um nacionalista assumido, quando os “modernos” tentam eliminar a questão do nacional, assim como fazem com as ideologias. A preocupação de Alencar era o Brasil, sua autonomia e inserção soberana no mundo globalizado. Não temia ser “jurássico” quando se tratava de defender o Brasil dos ataques econômicos dos capitais especulativos.

Zé Alencar foi um exemplo em vida e diante da morte, que jamais temeu. “O que eu temo é a desonra”, afirmou certa feita. O vice de Lula se foi com a certeza de que honrou a todos nós e ao Brasil.

* Jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.

KADAFI E AS POTÊNCIAS OCIDENTAIS

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As potências ocidentais, lideradas pelos EUA, botam a boca no trombone em defesa dos direitos humanos na Líbia. E as ocupações genocidas do Iraque e do Afeganistão? Quem dobra os sinos por um milhão de mortos no Iraque? Quem conduz à Corte Internacional de Justiça da ONU os assassinos confessos no Afeganistão, os responsáveis por crimes de lesa-humanidade? Por que o Conselho de Segurança da ONU não diz uma palavra contra os massacres praticados contra os povos iraquiano, afegão e palestino?

O interesse dos EUA e da União Europeia não é a defesa dos direitos humanos na Líbia. É assegurar o controle de um território que produz 1,7 milhão de barris de petróleo por dia, dos quais depende a energia de países como Itália, Portugal, Áustria e Irlanda.

O caso do Iraque é exemplar: os EUA inventaram as jamais encontradas “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein para exercer o controle sobre um país que é o segundo maior produtor mundial de petróleo – 2,11 milhões de barris por dia, só superado pela Arábia Saudita. E possui uma reserva calculada em 115 bilhões de barris. Soma-se a essa riqueza o fato de ocupar uma posição geográfica estratégica, já que faz fronteiras com Arábia Saudita, Irã, Jordânia, Kwait, Síria e Turquia.

No próximo dia 20 de março, completam-se oito anos que os EUA e parceiros invadiram o Iraque sob o pretexto de “estabelecer a democracia”. O governo de Maliki está longe do que possa ser considerado uma democracia. Em fevereiro último, milhares de iraquianos foram às ruas para reivindicar trabalho, pão, eletricidade e água potável. O exército os reprimiu brutalmente, com mortes, detenções arbitrárias e sequestro de ativistas. Nenhuma potência mundial clamou em favor do direitos humanos nem sugeriu que Maliki responda perante tribunais internacionais.

A ONU é, hoje, lamentavelmente, uma instituição desacreditada. Os EUA a utilizam para aprovar resoluções que justifiquem seu papel de polícia global a serviço de um sistema injusto e excludente. Quando a ONU aprova resoluções que contrariam a Casa Branca – como a condenação do bloqueio a Cuba e da opressão dos palestinos – ela simplesmente faz ouvidos moucos.

Kadafi está no poder desde 1969. São 42 anos de ditadura. Por que os EUA e a União Europeia jamais falaram em derrubá-lo? Porque, apesar de seus atentados terroristas, era conveniente manter ali um déspota que atraía investimentos estrangeiros e impedia que chegassem à Europa os imigrantes ilegais da África subsaariana, ou seja, todos os países ao sul do deserto de Saara.

Agora que o povo líbio clama por liberdade, os EUA ocupam posições estratégicas no Mediterrâneo. Barcos anfíbios, aviões e helicópteros são transportados pelos navios de guerra US Ponce e US Kearsarge. A União Europeia, por sua vez, não está preocupada com a democracia na Líbia, e sim em evitar que milhares de refugiados desembarquem em seus países combalidos pela crise financeira.

Temem ainda que a onda libertária que assola os países árabes, produtores de petróleo, elevem o preço do produto, onerando ainda mais as potências ocidentais, que lutam com dificuldade para vencer a crise do sistema capitalista.

Fala-se em estabelecer uma “zona de exclusão aérea” na Líbia. Isso significa bombardear os aeroportos do país e todas as aeronaves ali estacionadas. E exige o envio de porta-aviões às costas africanas. Em suma: uma nova frente de guerra.

O fato é que a Casa Branca foi surpreendida pelo movimento libertário no mundo árabe e, agora, não sabe como proceder. Era mais cômodo prosseguir cúmplice dos regimes autoritários em troca de fontes de energia, como gás e petróleo. Mas como opor-se ao clamor por democracia e evitar o risco de o governo de tais países cair em mãos de fundamentalistas?

Kadafi chegou ao poder com amplo apoio popular ao derrubar o regime tirânico do rei Idris, em 1969. Mordido pela mosca azul, com o tempo esqueceu todas a promessas libertárias que fizera. Em 1974, valendo-se da recessão mundial, expulsou as empresas ocidentais, expropriou propriedades estrangeiras, e promoveu uma série de reformas progressistas que fizeram melhorar a qualidade de vida dos líbios.

Finda a União Soviética, a partir de 1993 Kadafi deu boas-vindas aos investimentos estrangeiros. Após a queda de Saddam, temendo ser a bola da vez, assinou acordos para erradicar armas de destruição em massa e indenizou vítimas de seus atentados terroristas. Tornou-se feroz caçador de Osama Bin Laden. Pediu ingresso no FMI, criou zonas especiais de livre comércio, abriu o país às transnacionais do petróleo e eliminou os subsídios aos produtos alimentícios de primeira necessidade. Iniciou o processo de privatização da economia, o que fez o desemprego aumentar cerca de 30% e agravar a desigualdade social.

Kadafi mereceu elogios de Tony Blair, Berlusconi, Sarkozy e Zapatero. Como ao Ocidente, desagradou-lhe a derrubada dos governos tirânicos da Tunísia e do Egito. Agora, atira contra um povo desarmado que aspira vê-lo fora do poder.

Para as potências ocidentais, Kadafi tornou-se uma carta fora do baralho. O problema, agora, é como derrubá-lo de fato sem abrir uma nova frente de guerra e tornar a Líbia um “protetorado” sob controle da Casa Branca. Se Kadafi resistir, Bin Laden pode ganhar mais um aliado ou, no mínimo, um concorrente em matéria de ameaças terroristas.

O discurso do Ocidente é a democracia. O interesse, o petróleo. E para o capitalismo, só isto interessa: privatizar as fontes de riqueza. Enquanto a lógica do capital predominar sobre a da liberdade, o Ocidente jamais conhecerá verdadeiras democracias, aquelas nas quais a maioria do povo decide os destinos da nação.

Costa do Marfim: CS da ONU discute sanções em reunião de emergência

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Rui Nunes - LUSA

Nações Unidas, Nova Iorque, 30 mar (Lusa) -- O Conselho de Segurança das Nações Unidas votará hoje, um projeto de resolução com sanções ao presidente cessante da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, e próximos, noticia a France Presse.

O texto exige a Gbagbo que abandone o poder e passe a presidência do país ao presidente reconhecido pela comunidade internacional, Alassane Ouattara.

Mas alguns países têm reservas sobre algumas passagens do texto, sublinharam alguns diplomatas.

MPLA PREPARA CENSURA À INTERNET

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

O governo do regime de sua majestade D. Eduardo dos Santos vai avançar com uma lei que visa tentar pôr na ordem (do MPLA) e em ordem (igualmente do MPLA) o que circula na Internet em Angola e que, é claro, desagrada aos donos do reino.

Sua majestade não gosta (e tem razões para isso) do que sobre o seu regime é dito nos meios de informação do ciberespaço e vai tentar que, pelo menos no seu reino, sejam censurados, tal como faz com muita da comunicação tradicional.

De acordo com a ONG Artigo 19, organização, com sede em Londres, de defesa e promoção da liberdade de expressão e da liberdade de informação em todo o mundo, os tópicos das dez principais ameaças à liberdade de expressão/liberdade de imprensa são:

«1. Aumento do controlo governamental sobre os media através de uma série de mecanismos, incluindo influência política sobre os média, registos punitivos e requerimento de licenças, propriedade política, e recurso a regras antiquadas.»

Não é, mas poderia ser, tirada a papel químico do que se passa em Angola, mesmo quando esse controlo não é feito formalmente mas, como mandam as regras de atirar a pedra e esconder a pata, através de mercenários e outras espécies de chefes de posto colocados em locais estratégicos (administrações, direcções, chefias).

«2. Leis cíveis e criminais sobre difamação, injúria e ofensa, as quais penalizam declarações factuais ou opiniões, ou as quais protegem a reputação de símbolos, instituições estatais ou religiosas, ou contam com duras penalidades.»

Isto é, fazendo fé no que se passa no reino de Eduardo dos Santos, a liberdade dos jornalistas termina (e bem) onde começa a dos donos do país, por exemplo. No entanto, a dos donos do país – por exemplo – nunca termina. O importante não é o interesse público mas, antes, o público que interessa aos interesses privados de quem manda.

«3. Violência contra jornalistas e fracasso na prevenção e investigação de tais ataques, e em levar perante a justiça os seus responsáveis.»

No recato dos areópagos do poder, os donos do país puxam da pistola sempre que ouvem falar em jornalistas (sobretudo dos que não são seus assalariados). Quando na praça pública, são defensores desde pequeninos da liberdade de Imprensa.

«4. A falha por parte de uma maioria de estados em adoptar leis que garantam o direito de acesso à informação, e a fraca concretização de tais leis em muitos estados.»

Neste caso, digo eu, Angola é diferente. Todos os jornalistas têm acesso livre à informação... oficial. É claro que, na maioria dos casos, esse material não é informação mas, isso sim, propaganda. Mas também é verdade que os donos do país não têm culpa de considerarem informação o que os jornalistas (alguns e cada vez menos) dizem ser propaganda...

«5. Discriminação contra os grupos historicamente desfavorecidos, os quais lutam pelo exercício do seu direito à liberdade de expressão.»

Nada disso. Em Angola não há grupos desfavorecidos. Os que existem são-no de livre vontade. Se todos quiserem ser do MPLA passam a ser cidadãos de primeira e dessa forma entram na classe dos favorecidos.

«6. Pressões comerciais, incluindo o acréscimo da concentração da propriedade dos média e o risco de que os emissores de rádio públicos percam posição no decurso do processo de conversão digital em muitos países.»

A concentração dos media é, apenas, a parte visível do controlo por parte do poder económico e político do regime. É muito mais fácil controlar, ou comprar, ou subordinar, meia dúzia de empresas do que dezenas de meios. Além disso, tem a clara vantagem de ser mais fácil transformar jornalistas em operários das linhas de enchimento de conteúdos “made in MPLA”.

«7. Desafios para a capitalização de fundos públicos que suportem o serviço público e comunitário de rádio.»

Não se aplica, julgo, ao reino de Eduardo dos Santos.

«8. Utilização dos interesses de segurança nacional para justificar limitações excessivas à liberdade de expressão.»

As limitações à liberdade de imprensa, de expressão e de todas as outras liberdades, têm por base exclusivamente a segurança dos interesses político-partidários de quem está no poder há 32 anos sem nuca ter sido eleito.

«9. Restrições governamentais à Internet, através da imposição de paredes de fogo e filtros, ou bloqueando websites e domínios web.» Ora aí está. A rapaziada do regime está atenta e vai crivar tudo o que existe, deixando apenas passar para consumo interno o que interessar ao dono do país.

«10. Acesso limitado à Internet por parte de camadas da população vulneráveis, tais como pobres, populações rurais e envelhecidas.»

Pois é. No reino angolano, com 70 por cento de gente pobre, não admira que entre um saco de fuba e a Internet (que muitos nem sabem o que é) seja fácil a escolha.

O artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (que, obviamente, não se aplica a Angola) estabelece: «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.»

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

A JUVENTUDE EM CABINDA SAI À RUA NO DIA 10 DE ABRIL

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José Manuel, Cabinda - VOA News

A juventude em Cabinda sai a rua no próximo dia 10 de Abril de corrente para umamarcha pacífica em resposta ao comunicado do executivo em negociar o problema deCabinda difundido no dia 10 deste mês.

Os mesmo evocam os números um e dois do artigo quadragésimo sétimo daconstituição para levarem avante esta sua iniciativa que de principio deverapartir do bairro primeiro de Maio passando por algumas ruas da cidade e culminarjunto ao centro cultural Chiloango como uma declaração de reflexão sobre ahistoria passada, historia contada e a historia vivida.

AUTORIZADA MANIFESTAÇÃO PARA ESTE SÁBADO EM LUANDA

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LUSA

Luanda, 30 Mar (Lusa) -- O Governo Provincial de Luanda autorizou a manifestação convocada para o próximo sábado, na capital angolana, pela liberdade de expressão em Angola, convocada por um grupo de jovens, confirmou hoje à agência Lusa fonte oficial.

Contactado o porta-voz do governo provincial, Ladislau Silva, este confirmou a autorização da iniciativa, a que se referiu como "reunião", convocada para as 13:00 (mesma hora em Lisboa) do próximo sábado, no Largo da Independência.

O porta-voz do comando provincial de Luanda da Polícia Nacional subintendente, Jorge Bengue, disse que a polícia vai garantir a segurança.


BEM QUE KADHAFI PODERIA UTILIZAR O MAGALHÃES!



ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Qualquer boa democracia tem uma listagem dos ditadores bons e dos ditadores maus, dos terroristas bons e dos terroristas maus. Sendo ainda certo que os maus de hoje foram os bons de ontem, e os maus de ontem serão os bons de amanhã.

Hoje, o ministro dos Negócios estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, considerou que o apoio militar da coligação internacional aos rebeldes líbios é uma "ingerência" nos assuntos internos da Líbia.

Por diversas vezes aqui se disse que Muammar Kadhafi, o tal a quem José Sócrates chamou de “líder carismático”, não era flor que se cheire.

Mas o cheiro, o mesmo cheiro, já tem décadas e isso nunca incomodou os donos do mundo, tal como não incomoda que o presidente de Angola, há 32 anos no poder sem ter sido eleito, tenha 70 por cento da população na pobreza.

"Consideramos que a ingerência da coligação numa guerra que, no fundo, é interna, civil, não foi sancionada pela resolução do Conselho de Segurança da ONU", que previa o recurso à força para proteger os civis contra a repressão do regime do coronel Muammar Kadhafi, declarou Lavrov.
E é verdade. A missão seria, supostamente, para proteger civis e não para ajudar civis a derrotar militarmente o ditador. É claro que, todos sabem, civis com armas ao lado de Kadhafi são terroristas, civis com armas do outro lado são heróis.

"A defesa da população civil continua a ser a nossa prioridade", disse Lavrov, mas acrescentou: "há uma diferença sensível entre ataques aéreos contra os meios de defesa anti-aéreos líbios e contra colunas de tropas" fiéis ao dirigente da Líbia.

Serguei Lavrov reconheceu a legitimidade da entrega do comando da operação à NATO, mas voltou a sublinhar que as operações militares devem exclusivamente visar a protecção da população civil.

"Essa decisão corresponde aos parâmetros previstos na resolução 1973. Nela está escrito que podem resolver as tarefas previstas no documento tanto países como organizações internacionais e regionais que se disponham para isso. A NATO é uma delas e, por isso, todos os processos foram observados", precisou.

"Processos são processos, mas os poderes previstos na resolução podem ser utilizados apenas com o objectivo da protecção da população civil", sublinhou.

É de facto uma chatice. Bem que Kadhafi poderia ter resolvido a questão de outra forma, fazendo o mesmo que os seus homólogos do Egipto e da Tunísia.

Bastava pegar num dos “Magalhães” oferecidos pelo seu ex-grande amigo português e, pela Internet, transferir mais uns milhões para um qualquer paraíso.

Mas como é teimoso... lá tiveram os donos do mundo de pegar na listagem dos bons e dos maus para saberem quem iriam matar.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

RETRATOS DA REVOLUÇÃO, AOS CEM DIAS

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Pouco antes de morrer de suas queimaduras o vendedor de vegetais tunisino Mohamed Bouzazi, que se imolou pelo fogo, foi visitado por funcionários do governo da Tunísia.

Antonio Martins – Outras Palavras

Em 17 de dezembro de 2010, Mouhamed Bouzazi, um vendedor ambulante tunisino de 26 anos, postou uma mensagem1 no Facebook, ateou fogo ao corpo (ele morreria em 4 de janeiro) e acendeu fagulha num barril de pólvora. Seu gesto desencadearia uma onda revolucionária poucas vezes vista na História, numa das regiões mais tensas, ricas e oprimidas do planeta. O mundo árabe, visto costumeiramente como um lugar de estagnação política, tornou-se centro de reviravoltas, inovações e esperança. Cem dias depois, o futuro da revolução permanece em aberto.

As mudanças já alcançadas são extraordinárias. Duas longas ditaduras – a tunisiana e a egípcia – caíram. Repressões brutais, com dezenas de mortos, não foram até o momento capazes de conter as multidões rebeladas no Iêmen, Bahrain e Síria (onde o ministério renunciou nesta manhã – 29/3 – e pode haver mudanças importantes nas próximas horas). A chama da revolta, embora temporariamente contida, continua acesa no Marrocos (cuja realeza tarda em implementar reformas anunciadas), Argélia e Jordânia.

Na Arábia Saudita, o velho soberano viu-se obrigado a oferecer múltiplos benefícios sociais, para tentar evitar o contágio de seu reino. Tudo indica que, a médio prazo (principalmente quando o Egito puder voltar-se para fora), os ventos da mudança questionarão a dominação israelense sobre a Palestina – onde manifestações de jovens começam a exigir o fim da rivalidade sectária entre Fatah e Hamas, os dois grupos políticos tradicionais.

As novidades políticas são extraordinárias e repercutirão muito além do Oriente Médio. Na Tunísia, e principalmente no Egito, pode-se falar num novo tipo de revolução. Ela marca, como definia Trotsky, “a entrada forçada das massas no governo de seu próprio destino”. Mas quanta diferença, em relação aos objetivos e meios pensados pelo velho revolucionário russo…

As novas multidões não se organizaram em partidos – autoconvocaram-se horizontalmente, usando como ferramentas as redes sociais. Não parecem desejar a “conquista” do poder político – e, sim, condições para que todos possam construir, coletivamente, o futuro comum. Nem crêem que a superação do capitalismo possa ser feita num momento mágico, em que se tomam as fortalezas das velhas classes dominantes e se instaura um “poder revolucionário” – que passa a comandar a construção da nova ordem.

Ainda assim – e, talvez, por isso mesmo… –, a ação dos jovens árabes subverte o modo hoje hegemônico de organizar a vida social. Toni Negri e Michael Hart notaram que, na Tunísia e Egito, o novo motor da transformação foi “a juventude altamente educada, cujas ambições são frustradas” pela mediocridade da vida quotidiana. Este novo sujeito social deseja “não somente acabar com a dependência e a pobreza, mas também empoderar e dar autonomia à população inteligente e altamente capaz”.

Mas tal desejo choca-se contra um capitalismo que concentra obsessivamente riqueza e poder. Por isso, imaginam Negri e Hart, só haverá saída se for possível “inventar” formas horizontais – portanto, pós-capitalistas – de administrar a produção social, a distribuição de riquezas e os recursos naturais. Em outras palavras, trata-se de constituir uma nova democracia, que permita optar todos os dias, não apenas nas eleições; e em que a multidão – ela própria, não seus “representantes” – assuma as decisões centrais.

Esta invenção tende a se tornar um projeto comum da juventude – no mundo árabe, nas periferias das metrópoles latino-americanas, nas universidades europeias, nos call-centers da Índia, nas fábricas da China. O desejo eclodiu primeiro no Oriente Médio, onde tomou forma de revolta. Lá, tudo é mais urgente, porque não havia nem a democracia de (cada vez mais) baixa intensidade que persiste no Ocidente. Porém, outras primaveras virão…

* * *

O ineditismo e a velocidade da revolução nocautearam rapidamente dois déspotas. Zine Ben Ali, na Tunísia, e Hosni Bubarak, no Egito, controlavam com mão de ferro a oposição tradicional. Mas não souberam como reagir diante de jovens rebeldes que se preocuparam em dialogar com toda a sociedade, e criaram, na Praça Tahrir, um mundo em que cabiam todos os projetos reprimidos. Ambos haviam caído em 11 de fevereiro, menos de dois meses após a imolação de Mouhamed Bouzazi.

Mas as revoluções não são passeios. Passada a surpresa inicial, os ventos da mudança seriam confrontados por poderes que se esforçam, na feliz definição de Immanuel Wallerstein, por “enquadrá-los, limitá-los ou redirecioná-los”. Três processos contrários à revolução seriam, então, desencadeados: uma nova onda, muito mais selvagem, de repressão às revoltas, por parte das ditaduras; a presença do fundamentalismo islâmico; e a intervenção das potências ocidentais.

Brutalidade dos ditadores: A violência política é algo constante nas ditaduras do Oriente Médio, e já havia sido usada contra a multidão na Tunísia, Egito e Bahrain. Mas a escala em que Muammar Gaddafi a praticou na Líbia, a partir de 18 de fevereiro, não tinha paralelos até então.

Já não se tratava da brutalidade da polícia ou dos capangas (às vezes, montados em folclóricos camelos…). O ditador dirigia o poder de fogo do exército e da aviação militar contra a população das cidades rebeladas. Houve centenas de mortos, em duas ondas. Primeiro, o ditador combateu os levantes que tiraram de seu controle cidades a leste e oeste de Tripoli, a capital. Em muitas delas, isto foi inútil. Parte das formas armadas (assim como embaixadores e ministros) desertou ou aderiu à revolta.

Mas o poder militar dos opositores era inferior ao do exército leal ao regime. Por isso, após um período sob intensa pressão (em 27/2, Gaddafi perdeu Zawiyah, uma cidade a apenas 50 quilômetros de Tripoli), o ditador rearticulou-se, reagrupou suas forças e reconquistou pelas armas, entre 5 e 18/3, quase todas as cidades rebeladas.

O movimento gerou duas consequências. Na Líbia, a rebelião também militarizou-se – o que parece ter-lhe tirado o ímpeto transformador. A tomada de Benghazi, o centro dos rebeldes no Leste do país, foi marcada pela formação de comitês populares que se encarregavam dos serviços públicos (ler relatos 1 2). Esta democratização ampla, inspirada no Cairo e em Túnis, não se manifesta nos relatos e imagens recentes – onde aparecem apenas homens armados, a bordo de veículos de uso em combate, adotando posturas autoritárias.

No Oriente Médio, como previra o mesmo Wallerstein (ler A Líbia e a Esquerda), a selvageria foi vista como um sinal verde para outros ditadores. Criado o precedente, que impediria cada tirano de afogar em sangue as ameaças contra seu poder?

Em 18 de março, franco-atiradores postados no topo de edifícios em Sama’a, a capital do Iêmen, alvejaram participantes de uma manifestação. Mataram pelo menos 45 pessoas, e feriram centenas. Entre 19 e 26 de março, tropas sírias investiram contras as cidades rebeladas de Daraa, Banyas e Diez ez Zor. Cálculos dos manifestantes e de organizações de direitos humanos falam em 150 mortes.

Manipulação do Islã: A tentativa de islamizar a revolta é quase natural, numa parte do mundo em que a religião foi, durante décadas, o único refúgio seguro contra as múltiplas pressões do ocidente. O processo surge de forma mais nítida no Bahrain, onde uma maioria muçulmana xiita parece fazer da disputa sectária (contra os muçulmanos sunitas, que governam o país) o mote de sua revolta.

Mas ecos de um islamismo manipulado são ouvidos até mesmo no Egito. Em 19 de março, partidários do ex-ditador Hosni Mubarak hostilizaram, com insultos e pedradas, o diplomata (e possível candidato à Presidência) Muhammad ElBaradei, que se preparava para votar, num plesbiscito sobre reforma política. Baradei, que presidiu a Agência Internacional de Energia Atômica, é “acusado” (inclusive nos jornais egípcios de maior tiragem) de… ser casado com uma sueca.

É evidente que tais preconceitos nada podem oferecer, a setores sociais que desejam conectar-se como o mundo e transformá-lo. Mas os jovens que lideram as transformações, são, nas sociedades árabes, minoritários – ainda que muito ativos e dispostos a um diálogo social amplo. Por isso, não se deve desprezar a força da tradição.

Imperialismo “humanitário”: Entre as forças interessadas em desviar ou ao menos neutralizar a revolta, a que vive situação mais contraditória são os Estados ocidentais. No Oriente Médio, estão em dificuldades. Aliaram-se por décadas com os ditadores agora em xeque. Esta relação, somada a sua aliança estratégica com Israel, tornou-os cada vez menos admirados pela rua árabe. Mesmo Barack Obama, cuja eleição foi acolhida com entusiasmo, desgastou-se rapidamente. Uma enquete realizada na região, em agosto do ano passado, revelou que apenas 20% dos entrevistados viam positivamente a atuação do presidente norte-americano (o líder mais popular era o presidente turco, Recep Erdogan).

Disfarçada de “ajuda humanitária”, a invasão da Líbia visa, principalmente, enfrentar esta situação embaraçosa – um objetivo ainda mais urgente que controlar o petróleo daquele país. A ação militar oferece ao “Ocidente” a oportunidade de se associar à luta contra um ditador. Procura apagar as relações de grande cumplicidade que Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Itália mantiveram, ao menos nos últimos dez anos com Gaddafi. Acima de tudo, a operação procura permitir que estes países participem do novo tabuleiro da região em outras condições – que não a de meros apoiadores das tiranias.

No plano mundial – vale lembrar que o vendaval árabe pode ter repercussão planetária –, o objetivo é igualmente ousado. Quase vinte anos após as guerras civis sangrentas que dissolveram a Iugoslávia, busca-se recauchutar, perante parte da opinião pública, o velho conto das “intervenções humanitárias”. O desdobramento ideológico desta tentativa é claro. Ele pretende sugerir que as novas revoluções são um fenômeno de importância apenas local. As democracias ocidentais estariam saudáveis. Seriam, inclusive, suficientemente generosas para amparar os que lutam pelos direitos humanos em outras partes do globo.

* * *

O esforço para neutralizar as revoluções árabes é, paradoxalmente, o sinal mais claro de que estão vivas. Incomodam. Desafiam. Constituem nesse momento, para lembrar mais uma vez Wallerstein, “a luta fundamental” – aquela em que é possível enxergar, em forma concentrada, inúmeros processos de transformação em curso pelo mundo.

A melhor maneira de estar com elas é conhecê-las e acompanhar seus movimentos. Cem dias após seu início, Outras Palavras inicia, com este texto, a publicação de uma série de artigos que analisará, país por país, o estado das transformações.

1“Estou viajando mãe. Perdoe-me. Reprovação e culpa não vão ser úteis. Estou perdido e está fora das minhas mãos. Perdoe-me se não fiz como você disse e desobedeci suas ordens. Culpe a era em que vivemos, não me culpe. Agora vou e não vou voltar. Repare que eu não chorei e não caíram lágrimas de meus olhos. Não há mais espaço para reprovações ou culpa nessa época de traição na terra do povo. Não estou me sentindo normal e nem no meu estado certo. Estou viajando e peço a quem conduz a viagem esquecer.”