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domingo, 27 de março de 2011

UMA LÍBIA ESMAGADA, EM NOME DA DEMOCRACIA

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MARTINHO JÚNIOR

Nos presentes dias, menos de uma semana após o início da intervenção aérea dos aliados na Líbia, já não há verdadeiramente falcões: os falcões são aves de rapina sim, mas por gostarem de carne fresca, ousam perseguir as presas vivas em manobra nos céus pelo que, quantas vezes para garantir a sua sobrevivência, os alvos conseguem não passar a presas, conseguem escapar ao ataque ludibriando o agressor.

O que acontece agora é que pelo menos na Líbia não há ave-alvo autóctone alguma que consiga sequer sulcar os ares e por isso, a caça dos falcões nos céus deixou de existir para dar lugar à voragem dos abutres: é constatar como eles em nome da protecção aos “civis”, atacam os corpos inertes e indefensáveis em terra, em muitos casos dilacerando-os até ao ponto de nem as penas se aproveitarem, na expectativa que através dos malabarismos da “mídia de referência”, os povos e as nações acreditem no rótulo e conteúdo cínico da “mensagem humanística”, da “democracia” e até da “mensagem revolucionária” de quem tão oportunamente as usa como um papel celofane que embrulha um corpo inerte, reduzido à impotência.

Pode agora haver até muita simpatia para com muitas das causas rebeldes líbias, as causas que se referem àqueles que foram vítimas dum regime que deu pouco espaço e contemplação para pelo menos algumas franjas da sociedade líbia, meio feudal, meio tribal, apesar do crescimento do país em infra estruturas, estruturas e técnicas típicas do século XX e XXI…

Pode agora continuar a haver a evocação daqueles deserdados que é preciso defender, aqueles que foram vulnerabilizados, fragilizados, enfraquecidos, marginalizados, etc…. ávidos de democracia e dos seus benefícios (?)…

Pode ainda haver quem coloque a “democracia” no horizonte próximo, na expectativa de, tal como no Iraque e no Afeganistão, dourar a pílula face a fenómenos sócio-políticos que, na Líbia, são interpretados por se arrastarem de forma refractária, a partir do resgate dos beduínos ao deserto e à cultura aferida aos nómadas e às tribos…

Mas não se pode deixar de se constatar em relação aos densos bandos de ave de rapina que pairam sobre o espaço aéreo da Líbia, que esta é mais uma extensa agressão do império com seu cortejo de clientes, desde os falcões e os abutres dos norte americanos, da Gália, de Sua Majestade Britânica, da monarquia espanhola, etc., até de algumas monarquias árabes ciosas de suas meio escondidas causas petrolíferas, que ao mesmo tempo são “pétreas” causas políticas e sociais intra e extra muros.

A osmose conseguida no cadinho de tensões em que se transformou a Líbia, uma obra-prima da autoria dos serviços de inteligência e da ingerência militar dos Estados Unidos, da França (sobretudo da França), da Grã Bretanha e dos outros aliados (com ou sem OTAN), entre os falcões e os abutres que chegam dos céus e os “rebeldes” que actuam no chão, permitiu de facto que a intervenção que chegou dos céus se identificasse com aquilo que em terra os “rebeldes que são agentes” fazem para dar corpo à contradição armada para com o regime.

Na Líbia, onde cerca de 90% da escassa população se concentra no litoral, as cidades são por si todas elas estratégicas, pois ou são sedes administrativas, com importantes portos, ou nós das condutas de petróleo e de gás que chegam aos terminais de exportação na costa do Mediterrâneo.

A arma aérea entrosou-se com o “jogo de palavras” da agressão, por completo com a acção dos rebeldes no solo e o resultado foi que Bengazi não chegou a ser retomada pelas forças armadas da Líbia, que foram perdendo Aldjabia, Brega, Rãs Lanuf (os principais nós de petróleo a oriente), diminuindo gradualmente as potencialidades políticas, económicas e financeiras do regime, de forma a encurralá-lo nas suas opções.

Alguns desses “rebeldes”, aqueles que se recusam a “ser agentes”, que não queriam, não querem, nem quererão que do exterior, às ordens do império, surgissem os argumentos das aves de rapina, interrogam-se hoje da justiça maior, ou menor, de suas causas e poderão estar, alguns deles, com convicção ou com relutância, dispostos até a mudar de campo.

Entre eles encontra-se Thierry Meyssan, que no Réseau Voltaire, com a lucidez que lhe é possível, contribui para colocar à vista desarmada aquilo que é escondido pelos tutores duma parte substancial da rebelião e agora da agressão sob o rótulo de “humanitária”: a ossatura, as articulações, os tendões e os músculos do que dá realmente vitalidade ao corpo terrestre distendido.

A Líbia é hoje uma pré-nação fisicamente dividida, ensanguentada, desgastada (o trabalho de largas décadas começa a estar em causa) e em plena guerra fratricida; o que de legítimo havia contra a actuação do regime nas últimas duas décadas é pulverizado com a chegada das aves de rapina em estreita consonância com uma rebeldia que desde os primeiros dias não pôde esconder as suas armas, nem a origem duma parte de sua capacidade decisória.

Por outro lado, com o progressivo desmantelamento de suas forças armadas, aqueles que são favoráveis a Kadafi, os “civis” julgados “maus”, estão a ser por seu turno armados, pelo que de ambos os lados das linhas serão os “civis”, “bons e maus”, que cada vez mais se vão envolver e defrontar.

O Conselho de Segurança da ONU funcionou perfeitamente a favor da grande manipulação armada do império e da hegemonia:

- Os três africanos membros não permanentes, a Nigéria sensível aos interesses norte americanos e às multinacionais do petróleo anglo-saxónicas, o Gabão cronicamente agenciado pelos franceses e a África do Sul tão próxima da matriz elitista que chegou de Oxford desde os tempos de Cecil John Rhodes, deram o voto verde no sentido de permitir o ataque das aves de rapina; por isso é inútil qualquer papel da Unidade Africana!

- Como se isso não bastasse, potências com direito a veto como a Rússia e a China, cientes das falências e lacunas de redacção, na hora da tomada de decisão abstiveram-se e enterraram a cabeça na areia para não se reverem na sua própria cumplicidade.

- De nada valeu a relativa cisão europeia registada nos bastidores e nos entendimentos-relacionamentos geo estratégicos da França e Grã Bretanha (que votaram a favor da ingerência) para com a Alemanha (que se absteve da ingerência), com Portugal, pateticamente a portar-se como uma híbrida e equilibrista criatura: enquanto votou pelo sim, não vai participar no esforço de guerra tal qual a Alemanha, pelo menos enquanto a OTAN não entrar oficial e oficiosamente na dança…

Os africanos foram transparentes do “sim” de suas opções:

- A Nigéria federal, está completamente enfeudada aos ditames das multinacionais e da hegemonia norte americana e há que garantir nesses termos o futuro das suas elites…

- O Gabão, com uma elite encastelada no poder em continuidade dos longos anos de governação de Omar Bongo, só podia dar a resposta favorável aos estímulos e interesses da França, a contar que no futuro continuará a beneficiar dessa “protecção”, que está na forja aliás do processo histórico da elite do regime…

- A África do Sul, que ultrapassou os problemas históricos e étnicos, primeiro com a formação da União Sul Africana, depois com a queda do “apartheid”, precisa garantir o concerto das elites nacionais (agora com a ascensão das elites “negras”), a coberto da hegemonia de origem vitoriana a um prazo tão dilatado quanto o possível…

Todos os africanos estão, em maior ou menor grau, manipulados por via de suas elites pela hegemonia do império e agora, até o facto de impedirem a presença do Quartel General do AFRICOM, é um embuste, por que ele está em África no comando das operações e logo de que maneira….

Por isso, império e contra revolução, relativamente surpresos mas sempre muito atentos e dispostos a recuperar na Tunísia, no Egipto, no Iémen, no Bahrein, na Jordânia, na Argélia, em Marrocos, na Arábia Saudita, até na Síria, ou no Irão, dão sinal evidente de passarem a “comandar as operações em plena contra ofensiva” e, para esse efeito, têm um trunfo que emergiu para um primeiro plano e se está a tornar incontornável, para que o resto se dilua, em especial aquilo que é conveniente diluir-se como os casos da Arábia Saudita, da Jordânia, de Marrocos, do Bahrein… salvando os reis, salvando o petróleo a favor dos seus interesses e procurando “democratizar” à sua maneira e com agentes seus as repúblicas, em especial naqueles países cujos estados se torna imperioso castigar “em nome da democracia”!

A contradição-manipulação entre os que advogam direitos humanos e direitos das minorias em prejuízo dos direitos das soberanias, das nações e dos estados sobre os quais pende o anátema de regimes que são apontados como ditatoriais, é uma corrosão que, sendo aplicada a partir da gestão do AFRICOM, vai continuar a ser aplicada gota a gota, receita a receita, em África, com ou sem a introdução da OTAN!

Em muitos casos bastam os capacetes azuis da ONU para levar por diante os projectos do império e da contra revolução.

Sobre aqueles que exercerem o papel de anátema, por muito bons e fieis que sejam, como Ben Ali, ou Mubarak, a sentença de “usa deita fora” prevalece, para que haja apenas a mudança de moscas num figurino que pouco muda, por que na essência a revolta foi-o para melhor garantir a lógica capitalista!

Para os menos bons, figura em que se enquadra cada vez mais Laurent Gbagbo na Costa do Marfim, o castigo irá ser necessariamente outro e daí, com ou sem OTAN, o empenhamento da França, neste caso integrando a força destacada pela ONU, a mesma França tutora do jamais justiçado assassino que é Blaise Campaoré, cujo regime se prolonga tanto ou mais tempo que os outros, tal como no se prolongou no Gabão de Bongo, ou no Togo de Eyadema, ou no Zaire de Mobutu…

Em África começa a pairar o espectro do seu mapa ser redesenhado, com tão frágeis fronteiras e em muitos casos ainda mais frágeis identidades nacionais.

Depois do Sudão, a Líbia pode ser a sequência, como a Costa do Marfim, como nos Grandes Lagos e… Angola (se levarmos em consideração os casos de Cabinda e da Lunda-Tchokwe)…

Na Líbia, depois dos cenários típica e intimamente associados do casamento entre as aves da rapina com o estranho mas relativamente móvel corpo rebelde, um corpo cuja massa corre o risco de se tornar única e simplesmente num apêndice, num fluxo fantoche, o império avança e a sua maior vítima face ao regime de Kadafi é o povo líbio, a pré-nação agora dividida que constitui a Líbia, os povos de África que começam a ser tocados pelos mesmo tipo de vírus espalhados nas nações árabes, os seus estados nacionais e uma vez mais, em nome da “democracia” e da “protecção dos civis” de facto em prejuízo de toda a humanidade…

A OTAN finalmente, sob os auspícios especiais da França e da Grã Bretanha, lá chegou a acordo: vai empenhar os 28 componentes que a compõem durante os próximos três meses, começando com a exclusão aérea para evoluir para outras operações, cumprindo-se assim com o que foi previsto por Fidel em suas reflexões.

Para esses, um campo de tiro ao alvo real e sem riscos de maior, é extremamente importante: vai-se reduzir o número dos exercícios militares por que se tornaram escusados e por que eles se tornaram desnecessários, vão-se utilizar armas que de outra forma seriam desmanteladas sem serem alguma vez utilizadas… que desperdício…

Perante as falências de cidadania e de liberdade que existem na Líbia de Kadafi e na estranha forma de cidadania e liberdade dos rebeldes, nada justifica a decisão do Conselho de Segurança da ONU nos termos em que foram tomadas e sabendo-se dos objectivos reais do império.

Uma vez mais recordo as sábias palavras-síntese de Agostinho Neto, palavras que eram e são um grito contra a rapina e as guerras coloniais: “a África é um corpo inerte onde cada abutre vem depenicar o seu pedaço!”

Essa é a condição da Líbia esmagada pelos bandos de falcões e de abutres que pululam pelo império em nome duma cosmética de “democracia”, tal como nos Balcãs, no Iraque, no Afeganistão, por que o que importa ao mudar as moscas, é que elas sejam “parceiros”, ou melhor, agentes preferenciais no quadro das elites locais, tal como a América Latina foi experimentando ao longo dos seus 200 anos de subdesenvolvida “independência”, apesar da resistência e da indómita vontade de tantos esclarecidos heróis e mártires...

Martinho Júnior - 25 de Março de 2011

2 comentários:

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