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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Capalanga - Um micro caso sobre a mesa para discutir a paz social

 
 
MARTINHO JÚNIOR

Há a tendência de alguns a partir do calar das armas, para fazer a apologia do estado angolano na sua azáfama de construção, sob o lema de “Angola é um canteiro de obras”.

Não levam em conta que o capitalismo, em que o lucro é um factor essencial da sua natureza, a que se pode acrescentar a “abertura” neo liberal e a especulação, é causa de desequilíbrios e desigualdades de toda a ordem, com influência evidente na geografia humana das cidades e de todo o país, no fosso das desigualdades e até, como lhe é implícito, na orientação que é dada às acções que são planificadas e levadas a cabo, mesmo que elas sejam de interesse público, ou envolvidas nesse rótulo.

Não levam em conta que foi com capitalismo e em capitalismo que houve a possibilidade de constituição de espaço para o fascismo, o colonialismo, o “apartheid”, ou de suas sequelas (entre elas a do regime de Mobutu, no então Zaire)…

Por outro lado, o capitalismo torna-se um facilitador para a irracionalidade em relação ao clima e ao ambiente, um facilitador de tal grandeza que muitas obras feitas pelo homem em Angola não têm em conta que as alterações climáticas através do aquecimento global, estão a eclodir em espaços de tempo extremamente curtos.

Assim as previsões não são feitas, nem amadurecidas, por que o homem não estuda, não está atento, apesar do “know how” que faz parte do investimento.

O homem em função do capitalismo é egoísta, não faz previsões solidárias, nem procura alternativas socialistas, nem estratégias coerentes a longo prazo e é por isso que há falências gritantes em muitas das realizações em curso em Angola, falências que identificam quem as produzem, como é óbvio...

A capital de Angola está a ser alvo de vícios que surgem conjugados às alterações climáticas: devido aos fenómenos típicos do aquecimento global, as chuvas equatoriais atingiram a sua latitude e, desde Janeiro, a pluviosidade aumentou duma forma sem precedentes, apontando fim a Maio, na melhor das hipóteses.

Ao longo dos nove últimos anos, entre as obras de vulto que o estado se aplicou em parte em benefício do interesse público, estão a reconstrução do Caminho de Ferro de Malange e a auto estrada que saindo de Viana se alcança praticamente o Dondo.

Essas vias, facilmente identificáveis no “Google Earth”, têm direcção oeste – este e são eixos que, interligados a outros (entre eles a auto estrada de circunvalação de Luanda e o novo aeroporto em construção), facilitam a implantação de zonas industrias, comerciais e habitacionais, muitas das quais em construção.

Houve investimento, houve crescimento, há florescimento social nos modos estritos do capitalismo, está-se a dar resposta em parte aos interesses públicos (mas também aos privados que estão a investir nas indústrias, no comércio e assumem a propriedade dos terrenos): os traços dos procedimentos típicos de quem age e pensa em termos capitalistas são evidentes.

Socorro-me neste momento das inundações de que está a sofrer os efeitos uma parte do Capalanga em Viana (também visíveis pelos mais atentos no “Google Earth”).

As obras do Caminho de Ferro de Malange e da auto estrada, conjugadas com a implantação de indústrias em cotas de nível mais elevado, levaram a que muitas águas resultantes das intensas quedas pluviométricas fossem deliberadamente canalizadas para uma bacia onde proliferam construções de pessoas de mais baixa renda (trabalhadores das fábricas, reformados, funcionários públicos e das empresas…).

Nessa bacia, sem que fossem previstos os escoamentos, as águas foram inundando uma a uma as casas dos pobres obrigando ao seu abandono e aumentando a “onda de infortúnios” a que eles têm sido votados.

Houve muitos engenheiros na reconstrução do Caminho de Ferro de Malange, da auto estrada, houve muita gente com saber como é óbvio também na implantação das indústrias, mas faltou neste caso ilustrativo espírito de solidariedade e atenção para com alguns dos representantes das classes sociais mais vulneráveis deste país…

Em alguns sectores, pude apurar: aqueles privados que do alto espreitam salvos como Moisés o caminho das águas, querem a baixo preço aumentar a dimensão dos seus terrenos e começaram já a movimentar-se nessa direcção, contactando meio timidamente, mas contactando, algumas das vítimas apanhadas pelo flagelo…

Não houve da parte do estado, nem das administrações locais ligação suficiente às comunidades, nem capacidade de prevenção, nem solidariedade (pelo menos até agora), pelo que as pessoas estão votadas ao “salve-se quem puder”, sem recursos e em condições ainda mais precárias do que aquelas que usufruíam.

Este exemplo, recolhido em plena capital de Angola, ilustra bem a minha posição ética, cívica e moral em relação ao que eu afirmo ser necessário: a continuidade do movimento de libertação com sentido de vida e com sentido patriótico!

Abriu-se caminho ao ter e esqueceu-se a construção prioritária e solidária do ser.

Convenceu-se que o modelo de socialismo se limitava apenas à “configuração de uma ditadura democrático-revolucionária com um sistema de governo socialista baseado no plano económico único e na direcção centralizada da economia”, quando a criatividade socialista, baseando-se na prioridade para o homem, é uma oportunidade imensa enquanto exercício saudável da construção da paz social.

Convenceu-se que esse modelo afinal só servia para fazer a guerra, “porque não foram capazes de proporcionar o exercício das liberdades e garantias fundamentais e o advento da prosperidade económica e social”… pudera com os encargos da luta contra o colonialismo, o “apartheid” e suas sequelas mobutu-savimbiescas até 2002…

Convenceu-se que “os processos democráticos que estão hoje em curso em quase todos os países em que o Presidente, o Governo e os Deputados são regularmente eleitos pelo povo”, resultantes da revolução pela “democracia representativa e a economia de mercado em quase todo o continente africano, seja através das chamadas Conferências Nacionais Soberanas, seja por outras vias e formas” esgotam o que se deve fazer em prol da Reconstrução e Reconciliação Nacional e Reinserção Social em curso e sobretudo a construção saudável da paz.

Convenceu-se que com a varinha mágica da “alternância democrática”, tudo se resolve: “quando os que estão no poder ganham, há continuidade. Quando os que estão na oposição ganham, há alternância democrática do poder, porque os que lá estavam saem”...

As coisas são como são e se há muitos que se esquecem que só há uma vida para se viver, individualmente a vida é cada vez mais precária e efémera à medida das alterações climáticas e ambientais em curso e por isso é para se viver com respeito pela Mãe Terra, em solidariedade social construída com amor, cidadania e participação, uma vida para se viver com dignidade e coerência, honrando-a ética, moral e civicamente.

Aqueles que abraçaram a luta contra o colonialismo e o “apartheid”, aqueles que experimentaram o sentido de vida do movimento de libertação, identificam-se por inteiro com todo o povo angolano e sabem que é nele e com ele que suas vidas fluem e se esgotam: isso impele-os na sua afirmação e impede-os de correr o risco de seguir atrás de miragens.

O povo angolano e todos os povos do mundo não esgotam suas opções com sentido de vida em mercados de natureza manipulada, nem em alternâncias democráticas representativas previsíveis por e para elites, por muito iluminadas que elas sejam; há todo um compromisso amplo e irrevogável para com ele que urge cumprir.

Aqueles que lutaram contra colonialismo, contra o “apartheid” e suas sequelas, não se deixam equivocar com o “apartheid” social que está a ser instigado como corolário do lado dos ricos e de suas castas na “construção” dum fosso das desigualdades de muito mau augúrio.

Para se lembrarem do caminho que há que evitar em termos de geografia humana, não se coíbem de visitar sempre Talatona e o Cazenga…

… Capalanga é um micro-caso que eu coloco sobre a mesa, procurando desde logo alertar: não é assim que se vai na direcção da construção da paz social, por muito ricos que fiquem alguns e por muito defendidos que outros estejam em suas castas “intocáveis” de que a comunidade humana da SONANGOL se está a tornar claro exemplo!

Martinho Júnior - Luanda

Nota:

As fotografias (de que aqui só se apresenta a de topo por impossibilidades técnicas) foram feitas a 26 e 27 de Fevereiro do 2011 no Capalanga; agora a situação abrangeu cada vez mais famílias porque o lago cresceu imparável, porque não tem escoamento.

De então para cá, apesar de não ter diminuído a intensidade das chuvas, nenhuma medida de fundo foi tomada e não há socorro suficientemente organizado e eficaz em benefício dos habitantes atingidos pelo lago que foi irremediavelmente crescendo.

sábado, 9 de abril de 2011

EM BUSCA DUMA “NOVA” CONSTITUIÇÃO?




MARTINHO JÚNIOR

“Às casas, às nossas lavras às praias, aos nossos campos havemos de voltar. (...) Havemos de voltar à Angola libertada Angola independente”.

Em Angola neste momento, está aberta a discussão duma nova Constituição e por isso, tem-se assistido à proliferação de opiniões sobre o que deverá ser a Lei Fundamental com que se deverá reger a vida no país e sobre como se deverão equacionar as mudanças de parâmetro em relação à Lei ainda em vigor.

A maior parte dessas opiniões são emitidas por especialistas em direito, assim como por políticos dos principais partidos com assento na Assembleia Nacional, pouco espaço restando para os demais.

Em praticamente todo o leque de intervenções há uma questão que me parece fundamental que não é levada em consideração pelos interventores na discussão pública:

A construção da nova Lei Constitucional ao não conferir prioridade ao homem como centro de toda a atenção, inibe os inter relacionamentos possíveis entre as questões que se prendem com a soberania e as que constituem a esfera duma cidadania saudável, responsável e participativa.

Tornar a nova Lei Constitucional um manual de ética substantiva em prol da cidadania, será de facto preocupação dos doutos interventores?

A “nova” Constituição não está por isso a ser pensada em função do espaço prioritário que deveria ser conferido ao exercício de cidadania, enquanto fórmula de integrar nos mecanismos de decisão aos mais diversos níveis, os cidadãos, as comunidades, o povo angolano, exprimindo desse modo a prioridade para o homem.

O eleitor é quase só visto como tal, no outro extremo, como uma criatura que vai colocar um boletim de voto de tempos a tempos numa urna e que por tal é “representado”, sem mais “voto na matéria” em relação à vida em comunidade, em sociedade, em relação ao estado, permanecendo como passivo receptor de quem detém por inteiro o poder e suas rédeas no longo intervalo entre eleições!

O exercício de soberania está assim despido de maior capacidade de mobilização de todo o povo angolano na direcção das ingentes tarefas de reconstrução e de reconciliação, em busca duma identidade que seja também capaz de se integrar nos espaços regionais onde se encontra o país e possibilitar o empenho solidário em relação a outros povos próximos e de outros continentes, mas fica aberta à intervenção de grupos barricados no poder económico e financeiro.

Esse facto é ilustrativo de quanto se perdeu o sentido do movimento de libertação, ao se ir buscar as receitas pródigas da lógica capitalista neo liberal, uma lógica que com os parâmetros da “democracia representativa” promove desequilíbrios, faz aumentar o foço das desigualdades, provoca a injustiça social e tensões que vão fervendo muito em especial nos ambientes mais cosmopolitas das maiores cidades do país, onde se espelham com toda a evidência os impactos dos conflitos prolongados no tecido humano de todo o país.

Desse modo os que têm dado a sua opinião sobre o que deverá ser a nova Constituição, não dão relevância aos aspectos fundamentais de cidadania, inclusive enquanto pedagogia para melhor se vencer as sequelas humanas da guerra (tanto as sequelas psicológicas, quanto sociológicas, como as de índole cultural, considerando os factores antropológicos), por exemplo:

- Alegam que deverá o Chefe de Estado ser eleito não directamente pelo eleitorado, por todo o povo angolano, mas deverá ser uma emanação da Assembleia Legislativa, um Chefe de Estado que é o “cabeça de lista” do partido, ou coligação de partidos que vencerem as eleições e dão como exemplo o que se passa na África do Sul.

- Desconheço se há intervenções no sentido de ao menos se poderem realizar consultas em referendo o universo do eleitorado, particularmente sobre assuntos que se prendam aos fenómenos relativos à vida, ao exercício da soberania, ao exercício de cidadania saudável, responsável e participativa…

- Desconheço se têm havido intervenções no sentido do aprofundamento da democracia, conferindo espaço a essa cidadania responsável e participativa que sintetiza a linha de força do meu argumento e no entanto nada parece estar previsto para alguma vez se colocar numa instituição ao nível da Assembleia Nacional, a expressão Nacional da participação cidadã activa.

- Como serão alguma vez e assim, equacionadas as questões relativas aos direitos das minorias?

- Como se deve equacionar as questões da opinião pública e sua inter relação com o poder, com o estado, com os vários intervenientes sociais, inclusive enquanto elementos de pressão que reflectem os interesses de opinião de classe?

- Desconheço se as questões de responsabilidade cidadã em relação ao ambiente e à natureza, inclusive aquelas que se prendem com a exploração e utilização das riquezas naturais, são minimamente “tidas ou achadas” privilegiando os interesses de toda a nação e dos espaços regionais de integração, ao invés de deixar que elas sejam “pasto” de desequilíbrios que só beneficiam entidades privadas “emparceiradas” com multinacionais que em África se têm por vezes constituído em sanguinolentas “aves da rapina”, ou que sejam capazes de, “sem limites nem fronteiras”, contaminar os próprios expedientes de paz e aprofundamento da democracia.

Mantendo-se a lógica capitalista de pendor neo liberal dominante, a “democracia representativa” serve às mil maravilhas para que as novas elites se consolidem, sem que ao menos seja dado início a um processo de luta saudável contra a corrupção, se iniba definitivamente a tendência para as “parcerias público privadas” causadoras dos processos de deliquescência da “res publica”, sem se adoptarem as medidas convenientes para controlar bancos, sem se aplicar as escalas tributárias adequadas à transparência com que se deve nortear o próprio estado, sem que haja transparência na prestação de contas (a começar pela SONANGOL)…

Desse modo, a influência dos “lobbies” em relação ao exercício do poder marca indelevelmente a “representatividade”, marginalizando a lógica eminentemente socialista que é opção própria de muitos cidadãos e de praticamente nenhum partido (é só analisar as opiniões dos seus políticos)…

Os que são fluentes na lógica capitalista de pendor neo liberal dominante, tornaram-se clientes do sistema, ficando “pela rama” até no exercício das capacidades de oposição, sem dar abertura às alternativas que respeitando o sentido do movimento de libertação visam aprofundar a democracia e, no que diz respeito aos fenómenos sociais, interpretá-los tendo em conta os relacionamentos causa – efeito e segundo a perspectiva marxista.

O sistema vigente, conferindo imensas potencialidades às novas elites, não inibem as parcerias “contra natura” que irremediavelmente se vão assistindo, uma fórmula que eu sintetizo no paradoxo de serem alguns daqueles que mais foram influenciando no colonialismo, no “apartheid”, na proliferação de “bantustões” e de “neo colónias”, os que se vão aliando a essas novas elites, conforme uma tão evidente “radiografia” do processo histórico contemporâneo na África Austral como a que nos transmite por exemplo Jaime Nogueira Pinto nos “Jogos Africanos”, respondendo sempre “à voz do dono”.

Ao rejeitar intelectualmente uma Constituição que se abra à neo colónia, não posso deixar de lembrar as sábias palavras de Miguel d’Escoto na sua intervenção na Conferência de Alto Nível realizada entre 24 e 26 de Junho do corrente ano, sobre a Crise Financeira e Económica Mundial, em Nova York:

“Não é humano, nem responsável construir uma Arca de Noé que salve somente o sistema económico que impera, deixando a grande maioria da humanidade à sua própria sorte, sofrendo as nefastas consequências dum sistema imposto por uma irresponsável, se bem que poderosa minoria.

Temos que tomar colectivamente um conjunto de decisões que atendam o mais possível a todos, incluindo a grande comunidade de vida e a Casa Comum, a Mãe Terra”.

Voltar às casas, às nossas lavras, às praias, aos nossos campos”, voltar “à Angola libertada, à Angola independente”, não pode corresponder apenas uma decisão visionária dum poeta, circunscrita aos termos limitados de sua corajosa e digna vida, circunscrita aos caboucos duma pátria, por que ela, para se tornar alguma vez efectiva, deve merecer a equação duma vontade colectiva que só se poderá tornar sustentável com o esforço de sucessivas gerações!

O caminho que se está a seguir não honra o poeta, nem aqueles que pavimentaram heroicamente os caboucos da independência e do não alinhamento!

A social democracia que tomou conta do aparelho do movimento de libertação, indicia cada vez mais que não dá garantia alguma, muito pelo contrário, de se constituir em vanguarda na prossecução de esforços tendo como objectivo o aprofundamento da democracia seguindo a trilha da participação e, com isso, demonstra que não pretende dar sequência justa ao próprio movimento de libertação!

Martinho Júnior - 17 de Setembro de 2009.

Nota:

Quando emiti a minha opinião sobre a então futura Constituição de Angola, é evidente que essa opinião “não contou”: não houve partido algum que se aproximasse do meu ponto de vista, inclusive aqueles que agora, com mais ou com menos fervor, defendem o que consideram “direitos humanos”, ou “direitos das minorias”

Essa constatação é sintomática: não há partido algum em Angola que esteja a pôr em causa, de forma consistente e esclarecida, a lógica capitalista e o cortejo de injustiças que ela fomenta, desde as medidas neo liberais que têm sido implementadas duma forma sem precedentes, até às medidas redundantes da especulação financeira, que tão bem se prendem ao “emaranhado” das conexões sob o rótulo das “parcerias público-privadas”.

Os constitucionalistas foram logicamente os “catedráticos” portugueses, que se inspiraram em Constituições que têm dado azo às aberturas neo liberais e à especulação financeira e os reflexos no estado são visíveis: são aqueles que estão aferidos a esses constitucionalistas (e à produção constitucional que eles ao longo de suas vidas têm advogado) que estão colocados nos pontos-chave dos mecanismos de decisão e execução.

Da parte dos interesses foi óbvio que nem sequer quiseram dar uma olhada às Constituições dos países latino-americanos, muito menos às Constituições dos componentes da ALBA, como se a busca pela independência, 200 anos após o hastear das bandeiras, fosse um perigo a evitar e a esquecer deste lado do Atlântico Sul.

Foi-se buscar o que de mais arcaico existe, em termos de Constituição, para se fugir aos processos legítimos de sustentação jurídica de independência, soberania, cidadania, aprofundamento da democracia e lógica com sentido de vida!

Por este andar parece que vai chegar um dia em que os seguidores da cartilha que se vai instrumentalizando vão perguntar se alguma vez houve libertação e se era mesmo necessário continuar a saga da libertação!

É nesse e com esse ambiente jurídico-institucional que cresce o fosso das desigualdades em Angola, confundindo tantas vezes crescimento económico com desenvolvimento sustentável, até por que o segundo está subalternizado quase por completo ao primeiro.

Em alguns casos, para aqueles que lutaram contra o “apartheid”, nada mais resta senão ver-se instalar na geografia social de nossas próprias cidades, de construções fisicamente orientadas para implementar regras, comportamentos e atitudes de “apartheid”: é só constatar-se, por exemplo, a distância entre os condomínios fechados (e com muros altos alguns dele coroados de arame farpado) de Talatona e o Cazenga, na cidade de Luanda (aproveite-se agora, que está de chuva).

Nove anos depois da ausência de tiros, relembro o que escrevi sobre o que poderia e deveria ser para mim a Constituição de Angola, pois aqueles que lutaram contra o colonialismo e o “apartheid”, deveriam ser os primeiros a assumir a luta para, ao se reconstruir e ao se reconciliar Angola, impedirem-se as (imensas) possibilidades do choque neo colonial gerado nos impactos das políticas de portas abertas de âmbito neo liberal e para que Angola trouxesse benefícios de forma tão equilibrada quanta a possível, para todos os angolanos.

Nove anos depois, a classe média-alta angolana, formada por empresários e executivos de várias instituições e entidades, range sob a pressão das elites, que são capazes de, em função dos seus emparceiramentos desregrados e que só visam o lucro tão fácil (e arrogante) quanto o possível, aproveitar o fosso das desigualdades para instalarem até os “retornados” de mau augúrio, a coberto das crises alheias como as que evoluem em Portugal.

Trinta e cinco anos depois da independência, está aí o “retorno dos retornados” e só falta cantar o “Angola é nossa”

Pela minha ousadia, a história me absolverá!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

INEVITABILIDADES

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MARTINHO JÚNIOR

Quando assumi em “Salvar a Líbia” o argumento de ser imprescindível a via do diálogo e da paz, conforme proposta do Presidente Hugo Chavez para o caso da Líbia, baseei-me fundamentalmente no facto de que as sucessivas agressões de carácter imperialista nos Balcãs, no Iraque, no Afeganistão, na Somália e onde quer que seja, em nada contribuírem para a causa dos povos do Terceiro Mundo, nem da humanidade, nem do planeta, muito pelo contrário.

A única coisa que as potências conseguiram nas regiões que “domesticaram” em nome da liberdade e da democracia, sacrificando quantas vezes as suas próprias forças armadas, foi instalar governos agenciados que procuram abrir as portas aos interesses das multinacionais mercenários e da conveniência da hegemonia, ainda que à custa de milhares e milhares de mortos, de destruições incontáveis, de rapina, de crimes de toda a ordem e da mentira continuada sobre a democracia, o desenvolvimento e a paz.

Na Líbia logo à partida as armas estavam presentes do lado dos revoltosos, o que não aconteceu nos outros países árabes sacudidos pelas revoltas e isso era por si um indicador que se estava a desencadear um processo distinto dos outros, tanto ou mais distinto quanto, para aqueles que têm acesso ao Jane’s Defence Book, se poder evidenciar que as armas que fazem uso os rebeldes não podem pertencer ao arsenais das forças armadas líbias.

Na amálgama inevitável das entidades e organizações rebeldes em oposição ao regime de Kadafi, destaco o Libya Islamic Fighting Group (Al-Jama’a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya), que segundo Michel Chossudovski (bastante documentado) é reconhecido aliado do Al-Qaeda desde que foi formado no Afeganistão para integrar a oposição à presença soviética naquele país, quer dizer: agora temos a OTAN, sob orientação da CIA e do MI5, a mover-se e envolver-se em teatros operacionais integrando e instrumentalizando organizações terroristas!...

É esse tipo de manipulações que se expandem do cadinho de manipulações estimuladas pelo que considero como tandem James Baker com George Soros e suas “revoluções coloridas”.

A trilha dos artigos que fui produzindo por outro lado, procurava sensibilizar a opinião pública para o facto de ser necessário muito mais que a revolta para se provocarem alterações profundas no Médio Oriente e no Norte de África, pelo que na realidade se começa a confirmar uma mudança de moscas com ligeiras alterações de figurino, sendo as organizações de massas, organizações sindicais e partidos à esquerda, relegados para o lugar e contencioso da oposição aberta ou clandestina.

Esse “destino” não tem em conta, como é evidente, o avolumar das contradições da lógica do capitalismo especulativo neo liberal… mas até que ponto se conseguirão resultados a curto prazo em função dos programas alternativos da esquerda, quando os obstáculos se sucedem uns atrás dos outros?

É contudo desse fermento à esquerda, cujos contornos se irão definindo nos próximos embates, que a partir de agora poderá despontar o que quer que se aproxime da revolução, que venha a assumir alternativas ao figurino de contingência em todas as nações árabes, principalmente na Tunísia, no Egipto e no Iémen.

A América Latina teve de esperar 200 anos, apesar de tantos heróis e mártires, de tantos avanços e recuos, de tantas esperanças defraudadas, para chegar à oportunidade da “2ª independência”, uma oportunidade que não se pode furtar mesmo assim a avanços e recuos do tipo das Honduras e do Haiti.

É inevitável que o pensamento universal à esquerda acompanhe com expectativa as revoltas árabes em cadeia, mas assumam uma posição muito cautelosa, por que lhes é proibido embarcar em aventuras: se na América Latina só após 200 anos se começou a enveredar pelo amadurecimento das respostas face ao império, à hegemonia, às elites nacionais, à lógica capitalista e às ingerências neo liberais, não é com revoltas com longevidade máxima de vinte anos, que se pode confirmar com consistência uma revolução.

As revoltas na Palestina foram-se sucedendo durante décadas, mas a coligação norte americana – europeia com o envolvimento no terreno de Israel, tem conseguido neutralizar a legitimidade das revoltas, chegando ao extremo de implantar um autêntico regime de “apartheid” na região.

Será que a esquerda emergente na Tunísia, no Egipto, no Iémen e em outros países da região, conseguirão estabelecer nexos com as revoltas palestinas? Em que termos?

Esse tipo de inevitabilidades, à medida que o conflito na Líbia se vai arrastando, confirma-se da maneira mais perniciosa.

A Líbia possui as maiores reservas de petróleo do continente africano, reservas extraordinariamente atractivas, pois a sua exploração é das mais baratas do mundo, um dólar por barril, o que gerou a inevitabilidade do engodo do império, conforme as mensagens expostas pelo jornal Público de Espanha, referentes ao Wikileaks, mensagens de 2006 a 2010 que revelam os apetites dos maiores operadores ocidentais.

… Pôr fim ao regime de Kadafi, era uma inevitabilidade para esses apetites, pois Kadafi obstruía os termos mais favoráveis às multinacionais em muitas tentativas de chegar ao crude… era só necessário esperar a oportunidade para melhor avançar…

Vários analistas têm vindo a denunciar os propósitos do império e entre eles realço o argumento de Tariq Ali no “The Guardian” (29 de Março de 2011):

“A intervenção dos Estados Unidos e da OTAN na Líbia com a cobertura do Conselho de Segurança das Nações Unidas, é parte da resposta orquestrada para mostrar apoio a um movimento contra um mau governante particular e, por o fazer, pôr fim às rebeliões árabes confirmando o controlo ocidental da situação, confiscando o seu ímpeto e espontaneidade e buscando restaurar o stato quo anterior”.

É evidente que, ao colocar no interior das revoltas as organizações afins e seus agentes, faltava ao império “fechar o processo” e a Líbia rica em petróleo, em gás e em águas subterrâneas, foi a “pedra filosofal” da arquitectura para domar as tendências para as mudanças e colocar os estados onde se registam os movimentos de rebeldia no lugar que lhes está “inevitavelmente” destinado na geometria da hegemonia.

Era inevitável que a coligação aliada fosse formada essencialmente pelos Estados Unidos, a França e a Grã Bretanha, as potências do império mais interessadas e empenhadas em toda a região e, se os Estados Unidos têm na mão as chaves da consistência da monarquia Saudita e satélites, se a Grã Bretanha teve sempre laços preferenciais no Médio Oriente, era a França o elo mais importante para o Norte de África (como o é para o Golfo da Guiné), tendo em conta, no caso do Norte de África, os relacionamentos com o Egipto, a Tunísia, a Argélia e Marrocos.

Inevitável é pois a manobra para “Salvar os Reis” e o petróleo e, com eles, reforçar a aliança a partir da Liga Árabe em direcção à Líbia, com o fito até de justificar a ingerência com agressão militar.

Toda a geo política e geo estratégia do império em relação à Líbia e por causa de todos os encadeados do Médio Oriente e do Norte de África foi e é inevitável e agora, pouco a pouco, os seus aspectos vão corroborando essa inevitabilidade:

Confirma-se a presença da CIA junto dos rebeldes, pela boca dos maiores responsáveis pela política externa dos Estados Unidos.

Confirma-se que o armamento dos rebeldes e o treino de suas forças tem sido levado a cabo a partir de fornecedores e componentes externos que utilizaram território do Egipto, devassando a fronteira desse país com a Líbia para penetração, ligação e coordenação (Al Jazeera).

Confirma-se finalmente que os rebeldes podem ter “danos colaterais” provocados pela sua arma aérea, a arma aérea que lhes está a ser propiciada pelos países da coligação do império e pela OTAN (ANSA).

A queda de Kadafi, de enfraquecimento em enfraquecimento, surge cada vez mais como inevitável e o que se lhe seguirá confirmará a rapina de África, por muito “coloridas” que sejam as fórmulas empregues para a edificação do estado líbio de feição e conveniência do império.

Martinho Júnior - 4 de Abril de 2011

Nota:

Tendo em conta os fundamentos da análise de Michel Chossudovski (“O nosso homem na Líbia”) constata-se que a Rádio Televisão Portuguesa está, pelas mão do estado português e para além do enfeudamento de Portugal à OTAN, a desempenhar este papel: difunde nos noticiários Internacionais e do canal África, em horários nobres e para todo o mundo lusófono, as acções dos rebeldes líbios que incluem as acções dos grupos ligados ao Al-Qaeda e estão integrados no Libya Islamic Fighting Group (Al-Jama’a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya).

Considero que isso deve ser profusamente divulgado para todo o mundo e peço a quem acompanhe meus artigos no Página Um para divulgar com as seguintes perguntas que quanto a mim inevitáveis são:

1 ) A quem beneficia Portugal com este papel?

2 ) Como os contribuintes portugueses vão digerir uma RTP que até já está a passar nos noticiários nobres, propaganda de grupos que incluem ligações tão estreitas com a Al-Qaeda?

PAZ SIM, NATO NÃO!!!

"Our Man in Tripoli": US-NATO Sponsored Islamic Terrorists Integrate Libya's Pro-Democracy Opposition

by Prof. Michel Chossudovsky



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Martinho Júnior: Oxalá o povo português saiba defender o que o defende…

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As próximas eleições em Portugal poderão contribuir para uma muito maior clarificação dos limites entre dois campos: entre aqueles que não têm outros horizontes para oferecer senão o capitalismo especulativo que os ata de há várias legislaturas a Bruxelas e a Berlim, com o peso de cada vez mais sacrifícios impostos ao povo português e aqueles que, estando dispostos a encontrar alternativas, assumem Lisboa para todos os portugueses!

A esquerda pode e deve, duma vez por todas, apresentar-se unida, sem que haja descaracterização dos partidos que a constituem e sem barreiras na abertura a outros patriotas independentes.
Julgo que o apelo ao patriotismo do povo português, apontando o que se deve fazer para impedir que as aves de rapina dilacerem o corpo social é imprescindível, é um acto de coerência, de honradez e sobretudo de amor e identidade.

A Portugal nestas eleições é oferecida uma encruzilhada: oxalá o povo português saiba escolher o que o defende e obstruir o que o ataca, saia do feudo da Inquisição da qual ainda não se libertou, nem com o 25 de Abril! (Martinho Júnior)

Jerónimo de Sousa quer “governo patriótico e de esquerda”

PCP não descarta coligação com Bloco de Esquerda para formar governo

PÚBLICO – LUSA

O líder do PCP disse hoje esperar que as eleições legislativas permitam um governo patriótico de esquerda, e que o partido está disponível para fazer alianças com o BE, depois das eleições, desde que este clarifique os seus objectivos.

“Há muitos homens e mulheres, portugueses preocupados com o futuro do país, que procuram dar uma contribuição para travar este rumo. Em relação ao BE, é preciso que clarifique os seus objectivos, mas não temos nenhum preconceito em considerar que existam portugueses também preocupados com a situação, dispostos a fazer um esforço para esse governo patriótico e de esquerda”, afirmou Jerónimo de Sousa.

O secretário-geral do PCP falou depois do partido ter decidido ir a votos em coligação com o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) para as eleições legislativas. Jerónimo de Sousa expressou a expectativa de que as eleições permitam a formação de um governo patriótico de esquerda.

“Um governo cuja viabilidade e apoio político e institucional está nas mãos do povo português com a sua posição, a sua luta e o seu voto”, declarou o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, no final da reunião do Comité Central.

O órgão máximo do PCP considerou que a formação de um “governo patriótico e de esquerda” é um “imperativo inadiável” e recusou a ideia de um “governo de salvação nacional” constituído pelo PS, PSD e CDS-PP, “aqueles que têm enterrado e querem continuar a enterrar o país”.

Jerónimo de Sousa frisou que o secretário-geral do PS, José Sócrates, já se afirmou disposto “a trilhar o mesmo caminho” das medidas de austeridade e dos “PEC”. “Como não estamos em tempo de milagres, não acreditamos nessa mudança”, afirmou.

Para Jerónimo de Sousa, um “governo patriótico e de esquerda” seria a verdadeira “alternativa política” para o país, que “não pode ficar condenado” ao “governo do arco-da-velha política”, disse, referindo-se às propostas para um Governo PS, PSD e CDS-PP.

Uma política alternativa deverá apostar “na renegociação da dívida”, na diversificação das fontes de financiamento e das relações económicas”. Jerónimo de Sousa insistiu que a chamada “ajuda do FMI” não é uma ajuda, é um “perigo” para a soberania, direitos sociais, sector público, para o emprego e para os salários.

“Apetece-me dizer que o que o PS e o PSD propõem é apenas a escolha da árvore em que o país pode ser enforcado. Nós não aceitamos nem FMI nem essa ajuda entre aspas que procura por em causa a nossa soberania”, afirmou.

Para preparar as eleições legislativas de 5 de Junho, o Comité Central do PCP marcou para o dia 17 de Abril um Encontro Nacional e vai lançar uma acção nacional que visa atingir o milhão de contactos de rua com trabalhadores.

domingo, 3 de abril de 2011

NOVE ANOS DEPOIS

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MARTINHO JÚNIOR

Comemora-se em Angola os nove anos em que finalmente o país chegou ao calar das armas e iniciou pela primeira vez depois da independência uma era que pode conduzir à melhoria substantiva do bem estar de todo o povo angolano.

Começo por lembrar, com a sensibilidade dum antigo combatente, os resgates maiores que foram alcançados até agora com o movimento de libertação na África Austral, 50 anos depois do início da luta armada em Angola:

1º - A independência nacional a 11 de Novembro de 1975 e, pela primeira vez, terem os angolanos possibilidades que nunca antes beneficiaram de se tornarem os autores maiores de sua própria história e de sua própria vivência em sociedade em busca de identidade nacional, dignidade, desenvolvimento sustentável, paz, democracia e justiça social.

2º - O fim do “apartheid” a 10 de Maio de 1994 (data em que, em resultado de eleições 1 homem, 1 voto, o Presidente Nelson Mandela tomou posse na África do Sul), que conduziu às possibilidades de se inaugurar efectivamente uma época de paz, de democracia multipartidária, de reconciliação e reconstrução nacional, factores que se repercutiram em toda a África Austral.

Em qualquer desses acontecimentos, nunca Angola foi alvo da atenção internacional no sentido de serem ressarcidas dívidas históricas para com o seu povo:

- A primeira por parte de Portugal, em função das responsabilidades em termos de escravatura, ocupação, fascismo e colonialismo.

- A segunda por parte da África do Sul, cujo regime fascista de “apartheid” foi o responsável maior por uma guerra de agressão de grandes proporções, uma guerra de riscos acrescidos se tivermos em conta que o regime sul africano detinha capacidade militar nuclear, bem como de algumas das sequelas que em Angola se estenderam até o 4 de Abril de 2002.

A expectativa em relação ao pagamento dessa dívida praticamente nunca se pôs, por que ela é de tal ordem, envolve questões de natureza tão complicada, que será impossível alguma vez Portugal ou a África do Sul pagarem…

No primeiro caso a dívida teria de ser levada em consideração em relação à esmagadora maioria dos países componentes da costa ocidental africana e praticamente a toda a América Latina, se tivermos em conta o que diz respeito a escravatura e a ocupação.

No segundo caso, seria mais exequível o pagamento da dívida, mas o carácter dos governos sul africanos de Nelson Mandela e Thabo M’Beki esteve longe de vir a corresponder a iniciativas de aproximação, pelo menos ao nível do que foi feito recentemente por Jacob Zuma junto ao marco da batalha de Cuito Cuanavale, pelo que qualquer veleidade no sentido de pagar qualquer espécie de compensação a Angola nem sequer foi alguma vez levantada “a sério”.

A ausência de tiros em Angola haveria de ter de esperar todavia até 2002, por imperativos de interesses internacionais característicos do final da chamada Guerra Fria conjugados a uma contínua e desgastante rebelião chefiada por Savimbi, uma rebelião que se entrosou com os conflitos em cadeia que eclodiram por uma vasta região da África Central e Grandes Lagos, que conduziu o país a traumas e destruições de tal ordem que só com muitos anos se pode evocar uma recuperação sofrível do seu povo e das suas infra-estruturas, estruturas, bens e equipamentos.

A chamada “comunidade internacional”, ou seja os estados capitalistas com interesses históricos na região, jamais consideraram ressarcir Angola também das dívidas duma ingerência tão destruidora como a última que foi levada a cabo até 2002, (a Iª guerra mundial africana, para Angola a guerra dos diamantes de sangue), malgrado uma progressiva viragem de opinião e opções em relação aos “assuntos angolanos”.

Aos apelos de Angola para darem sua contribuição para a reconstrução nacional (até o “plano Marshall” foi evocado à memória), nada de concreto se desencadeou e, por isso o estado angolano sustentou e sustenta o recurso à China, que tem vindo a desenvolver laços económicos duma forma sem precedentes, dando uma substancial contribuição para o crescimento do país em termos de infra estruturas, estruturas e tecnologias.

Com esse âmbito, pouco a pouco vai ganhando consistência a ideia da premente necessidade do aumento das relações Sul – Sul para melhor enquadrar Angola e para que os angolanos melhor se relacionem a nível internacional.

Se não valorizaram a ajuda a Angola, os países ocidentais reagiram de forma inequívoca a favor da adopção da lógica capitalista de sua conveniência e sobretudo a favor de políticas neo liberais, por que é através delas que melhor podem os ocidentais implementar as “engenharias sociais” adequadas aos seus interesses e as manipulações a que recorrem.

Tirando partido dos sectores do petróleo e dos diamantes, as instituições foram-se modelando à feição de medidas neo liberais, que com o recurso a parcerias foram injectando em Angola capacidades e acções que muito contribuíram para a construção das elites correntes e também para o seu distanciamento em relação às outras classes sociais.

A sociedade angolana que viveu a sucessão de conflitos e de guerras (umas justas, a última injusta, escusada), aos traumas advenientes do passado, está condenada a juntar pois, apesar do crescimento bem visível, os traumas que resultam do fosso das desigualdades, com todas as tensões adicionais que isso implica na sociedade contemporânea.

O que seria de esperar do estado angolano, uma vez que do ocidente ninguém quis ajudar Angola na reconstrução nacional, perante as circunstâncias internacionais, seria um muito maior cuidado em relação primeiro ao estabelecimento da lógica capitalista que abraçou a partir de 1985, quando começou por tocar profundamente no carácter de sua própria segurança, segundo à adopção das políticas e incentivos neo liberais que, particularmente após 1992, conduziram a uma abertura de portas de tal ordem que resultam hoje numa profusão de riscos da mais diversa natureza e duma forma sem precedentes.

A economia angolana após as situações sucessivas de guerra, está praticamente assente no sector do petróleo e dos minerais e essa fragilidade, ao ser induzida à lógica capitalista neo liberal, ficou intimamente associada à gestação de novas elites que se foram coligando a interesses internacionais alguns dos quais com um lastimoso passado em relação à história recente de Angola, novas elites que muito contribuíram para o fosso de desigualdades que se incrementou com o crescimento económico.

Ao contrário do que esperavam aqueles que não tiveram outra alternativa senão de armas na mão se empenharam para resgatar o povo angolano do fascismo, do colonialismo e da agressão do “apartheid”, ao invés de se optar pelo início dum desenvolvimento sustentável voltado para a prioridade humana em sequência do próprio movimento de libertação, o que eu considero o sentido da vida, optou-se por um crescimento “macro económico” que se tem vindo a tornar num autêntico esteio para o aumento do fosso das desigualdades, promotor de riscos e manipulações acrescidos que podem colocar em causa a frágil plataforma de paz, melhor, de ausência de tiros, que se conseguiu em 2002.

As opções seguindo a lógica capitalista e os “conteúdos” do “mercado” neo liberal sustentam o momento e, com a abertura de portas pouco cuidada do país, as contradições sociais têm vindo a ser incrementadas, tornando-se o ambiente sócio-político aferido a manipulações de ordem crescente, uma parte delas procuração de autênticas ingerências.

Em Angola não há partido algum, nem tendência alguma com expressão política clara, nem organizações sociais fortes, que estejam dispostos às alternativas em relação à lógica capitalista e ao neo liberalismo, o que quer dizer que duma forma ou de outras todos, oposições incluídas, estão de acordo com essa lógica; só aqueles que são fieis à origem do movimento de libertação, tendo em conta os seus objectivos maiores, parecem perseguir opções com sentido de vida e, com elas estão dispostos ao aprofundamento das culturas de paz, desenvolvimento sustentável e democracia.

Alguns desses, por defenderem essa linha de há muito têm vindo a experimentar injustiças e até situações gravosas que, se implicaram uma relativa marginalização em relação a muitas instituições angolanas, têm resultado no facto de se terem vindo a tornar publicamente esquecidos pelas novas gerações, conforme se pode constatar nos termos actuais de suas próprias manifestações.

Por muito ignorados que eles sejam, a história os absolverá, por que se foram sempre lembrando no decurso de suas efémeras vidas, que o grande objectivo nacional é a libertação de todo o povo angolano, não os privilégios de alguns, nem tampouco a abertura de espaços para as ingerências.

Lutaram contra fascismo, colonialismo e “apartheid” e estão a dar a sua modesta contribuição para que Angola não seja pasto de neo colonialismo, nem do império.

As novas gerações, em resultado do pouco estudo da história contemporânea do seu país, deveriam já ter percebido que há muitos angolanos antigos combatentes, que respeitarem o movimento de libertação, respeitaram o sentido de vida que lhes foi transmitido de forma solidária a partir do próprio processo de luta e não caucionam nem a lógica capitalista, muito menos a injecção neo liberal em Angola.

Eles sabem que, se tendo sido dada a oportunidade ao ocidente de ajudar Angola na sua reconstrução nacional, tendo sido pelo ocidente essa oportunidade votada ao ostracismo, o ocidente não deveria ter o recurso a ética, nem a moral, para dinamizar o que quer que seja em direcção a Angola, muito menos a injectar políticas neo liberais para construir elites de sua feição, especular em relação às riquezas do país e promover mal paradas manipulações.

Para esses, como é óbvio, há que não perder a oportunidade que se oferece pela ausência de tiros e tudo farão para evitar o aumento de tensões e riscos de conflito, mas a encruzilhada em que se encontra Angola, se lhes dá a vantagem de melhor se aperceberem dos fenómenos correntes, dá-lhes também a fraqueza de suas opções não terem sido entendidas, muito menos aplicadas de forma coerente em estreita consonância com as mais legítimas aspirações do povo angolano, conforme a projecção realizada nas primeiras décadas da actuação do movimento de libertação e na primeira década do estado angolano.

Sob o ponto de vista ético e moral, eles têm a profunda convicção que é insustentável o aumento do fosso das desigualdades cada vez mais sentido em Angola, pelo cortejo imenso de contradições e manipulações que acarreta, sabem que esse fosso das desigualdades tem origem nas opções de lógica e de abertura (particularmente a abertura ao ocidente) nos termos das características actuais da economia angolana e têm a seu favor o facto de terem sido dos primeiros a alertarem poder e sociedade para os riscos, durante a década de 80!

Essa corrente de ideias e convicções não se identifica com corrupção, nem com oportunismo e, se não tem maior expressão pública, inclusive nos termos de seu comportamento cívico exemplar, é preciso não esquecer que em função de sua força histórica ela subsiste nos subterrâneos da pátria angolana para além da temporalidade das gerações.

As novas gerações não têm muitos desses patriotas como referência, nem tampouco estão devidamente atentas aos riscos do neo liberalismo que, se promovem elites, fazem também em relação aos jovens a mobilização através de slogans e mensagens de conveniência, esquecendo a história e estabelecendo um corte em relação ao passado, quando esse passado é muito mais rico do que possam eles supor.

Aos desequilíbrios parece-me ser proibitivo adicionar mais desequilíbrios.

A saída para um outro diálogo em Angola, um diálogo cívico e pedagógico abrangente e amplo que reforce os parâmetros da paz, que contribua para se ultrapassar os traumas, um outro diálogo que impeça a contradição entre gerações e, ao respeitar o passado, saiba promover o homem no presente e para o futuro, está em aberto, restando saber até que ponto os angolanos, todos os angolanos, estão despertos para responder aos desafios, sem mais ingerências, por mais veladas que elas sejam, sem mais ingerências do que aquelas que já ocorreram particularmente da década de 90 até aos nossos dias!

Martinho Júnior - 3 de Abril de 2011

sábado, 2 de abril de 2011

VENCER OS TRAUMAS

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MARTINHO JÚNIOR

Se há nação no mundo que, apesar da riqueza histórica e humana de sua revolução, viveu ao longo de mais de 200 anos situações gravosas que levaram à projecção de traumas de natureza mais diversa, traumas acumulados geração atrás de geração, essa nação é o Haiti.

Por isso mesmo a “comunidade internacional”, tão deliberadamente pródiga em semear tensões, conflitos e guerras, ao invés do que pratica de forma ostensiva e avassaladora, deveria estar vocacionada a contribuir para resgatar a nação haitiana (e todas as nações subdesenvolvidas do planeta), das sequelas acumuladas ao longo de todo o seu turbulento processo histórico de 500 anos, no caso do Haiti uma situação agravada pelos desastres a que ultimamente tem sido sujeita sua sociedade (um terramoto devastador, seguido duma epidemia de cólera cujo fim parece estar finalmente próximo, após meses de intenso labor).

Seria de supor que nas presentes condições psicológicas as tensões eclodissem uma vez mais com intensidade em época de eleições, até por que as experiências anteriores relativas ao exercício da Presidência por parte de Jean-Bertrand Aristide, foram defraudadas na sua legitimidade democrática e as experiências no 1º turno das actuais eleições, registaram exemplos negativos que colocaram interrogações sobre como evoluiria o comportamento das pessoas no 2º turno que agora se realizou.

Parece ter havido um esforço conjugado das instituições nacionais, não só aquelas directamente envolvidas, como das instituições internacionais com intervenção na vida do país, entre elas as instituições da ONU cuja composição humana abarca um bastante expressivo e diversificado contingente brasileiro.

Imediatamente antes do 2º turno foi-se gerando um ambiente político propício ao acontecimento, recebendo o Haiti em Janeiro o ex ditador Jean-Claude Duvalier, que se manifestou disposto a regressar a fim de dar a sua contribuição à reconstrução nacional, assim como o “controverso” padre salesiano exilado Jean-Bertrand Aristide, que por duas vezes havia sido conduzido à Presidência e há 7 anos vivia exilado na África do Sul.

Apesar do pessimismo de alguns sectores nacionais e internacionais em relação a esses regressos emblemáticos, eles, os termos de aceitação de integração e compromisso dessas entidades, assim como a divulgação da sua chegada, acabaram por contribuir para que o ambiente se tornasse suficientemente estável para a realização do 2º turno, que beneficiou também dum grau de organização mais adequado.

O primeiro pessimismo referiu-se ao regresso do ex ditador, que poucas ou nenhumas simpatias populares tem no Haiti, diga-se de passagem, mas que ainda possui envolvências importantes em alguns sectores das elites nacionais e apoios no exterior.

É evidente que ele seguirá a trilha do crescimento em função das correntes neo liberais, aquelas mesmas correntes que impulsionam deliberadamente o fosso das desigualdades e os traumas característicos do capitalismo especulativo de nossos dias.

O segundo pessimismo, levantado pelos Estados Unidos e França em relação a Jean-Bertrand Aristide, foi formulado, em desespero de causa, na base de haver indício de tráfico de drogas em relação a apoiantes seus…

Forçado ao exílio quando ocupava o cargo de Presidente para o qual tinha sido eleito, Jean-Bertrand Aristide teve de esperar sete anos para voltar e para isso teve de haver um terrível terramoto, uma epidemia de cólera que ameaçava passar fronteiras espalhando-se pelos arquipélagos e nações vizinhas e eleições em relação às quais não se pôde candidatar, nem o partido que o apoia, o Fanmi Lavalas, que possui uma base de mobilização popular historicamente forte, no campo e na massa de deserdados das comunidades urbanas.

Jean-Bertrand Aristide voltou finalmente privilegiando uma trilha eminentemente cívica e prometendo, ao não se candidatar, nem ao seu partido, envolver-se no reforço de programas de educação, procurando evitar os desgastes originados em interesses que têm optado por provocar seus amplos apoios populares, para depois atribuir a culpa a esses apoios pela “desestabilização”…

Na profundidade da sociedade porém, as respostas relativas à questão de se a complexa sociedade haitiana se vai tornar definitivamente mais estável ou não ainda não poderão ser dadas de forma optimista, pois o jogo de tendências entre as várias opções está presente e possui raízes sociais importantes, interligando-se com as opções que chegam do exterior, entre elas as opções do império.

Mesmo com o impacto de fortes políticas de reconstrução nacional que conduzam ao crescimento, efectivamente o capitalismo contemporâneo dominado pelo neo liberalismo (com reflexos sobretudo nas elites nacionais e nos relacionamentos com as outras classes a nível interno) e o ambiente que se vive a nível internacional (particularmente o papel de intervenção sistemática a que se reservam os Estados Unidos e seus aliados em substância da hegemonia), são obstáculos não descuráveis que se colocam ao objectivo de recuperar o Haiti dos traumas acumulados e que atingem com tanto impacto a vida humana e o ambiente natural do país.

O fosso das desigualdades que as sociedades do Terceiro Mundo se tornaram expoente maior, uma vez que as elites nacionais são minorias e a pobreza está disseminada, é o cadinho que torna possível ingerências com condimentos locais, mas estritamente vinculadas aos interesses que surgem do exterior, através das escancaradas portas abertas pelas correntes neo liberais.

A “bomba de controlo remoto” em que se estão a tornar as “engenharias sociais” nas nações subdesenvolvidas, “engenharias sociais” que dão corpo a políticas de ingerência onde proliferam mecanismos e instrumentos das potências (o Haiti é disso também outra amostra histórica), é por si uma ameaça à estabilidade, um impedimento que se relaciona com todos os aspectos inerentes ao crónico subdesenvolvimento que é imposto.

A contribuição cubana para que as dores do Haiti sejam ao menos diminuídas tem sido relevante de há 12 anos a esta parte e são inspiradoras de intercomunicabilidade com iniciativas do povo do Haiti (continua a crescer o número de médicos haitianos formados em Cuba com actuação crescente a nível nacional) e de outros povos (é o caso dos relacionamentos em curso com o Brasil e sua presença no Haiti).

Creio que esse inter relacionamento está em parte na origem do relativo sucesso alcançado imediatamente antes, durante e depois do 2º turno das eleições no Haiti, até por que a organização melhorou muitos dos aspectos que antes ou foram descorados, ou nem sequer tinham sido considerados.

Esse sucesso aponta para que a presença de Jean-Bertrand Aristide possa derivar para se alcançar uma mobilização cívica incontornável, em particular se essa mobilização conseguir manter-se imune às provocações: recuperar de traumas só será possível com um forte impacto de medidas na educação e na saúde e, nesse aspecto, não haverá candidato algum às eleições no Haiti que não tenha de levar esse esforço em conta, colocando efectivamente o homem como prioridade.

Fazer crescer não é desenvolver de forma sustentável e só há sustentabilidade nas políticas de reconstrução nacional onde quer que elas sejam praticadas, se o homem se tornar na prioridade cívica e cidadã, no âmbito duma democracia plena que não se esgote em agenciadas representatividades.

Isso é válido para o Haiti, como para todas as nações e povos da Terra, a começar pelos Estados Unidos e Europa, uma Europa que vai evidenciando cada vez mais exemplos do caminho que os povos devem saber evitar.

Vencer os traumas é também vencer de forma inteligente, mobilizada e exemplarmente responsável as opções do império!

Martinho Júnior - 2 de Abril de 2011.

quinta-feira, 31 de março de 2011

OS BRIC DERAM E CONTINUAM A DAR COBERTURA À INTERVENÇÃO...

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… DA OTAN NA LÍBIA E EM ÁFRICA

MARTINHO JÚNIOR

Em Outubro de 2010, antes das eleições no Brasil, escrevi vários artigos com referência a esse acontecimento e, entre eles, aquele que advoguei a defesa dos interesses brasileiros sobre o pré-sal, interligando essa acção com os interesses na defesa do Sul em relação à Amazónia “verde” e à bacia do Grande Congo, em África.

De facto em época eleitoral no Brasil, a defesa em benefício dos interesses do Brasil em relação ao pré-sal foi um assunto bastante debatido, pois o candidato José Serra advogava uma política neo liberal que permitia o enfraquecimento da PETROBRAS e, com isso, a abertura do pré-sal às multinacionais do petróleo, sobretudo as anglo-saxónicas.

Assumir o pré-sal no quadro dos interesses nacionais brasileiros, vocaciona-se no reforço da emergência do Brasil: para além do facto dessa defesa ser extremamente sensível à defesa dos interesses do Sul, é importante também num quadro de associação de componentes emergentes em situação similar em diversas partes do globo, associação com a Rússia, a Índia e a China, mas também com muitos produtores de petróleo e gás dentro ou fora da OPEP (Líbia incluída).

Os BRIC, cada um dos componentes para além de suas fronteiras nacionais, são fulcros e nexos multi-regionais importantes para as possibilidades de multilateralismo e susceptíveis com isso de melhor se encontrarem alternativas à impulsão relativa das políticas hegemónicas eminentemente anglo-saxónicas.

Acompanhar o posicionamento dos BRIC nos relacionamentos internacionais tornou-se assim numa obrigação para os observadores mais atentos, para os estrategas e para todos aqueles que estão implicados na incessante busca de alternativas que fujam à pressão da globalização neo liberal que constrói os termos ambíguos desta hegemonia cujo braço militar é avassaladoramente intempestivo e agressivo.

Por isso, a leitura do posicionamento dos BRIC esbatida no Conselho de Segurança da ONU no quadro dos termos concretos da Resolução 1973 em relação à Líbia, é deveras importante, pois ela fornece elementos indicadores sobre até que ponto os BRIC estão capacitados de partir para um efectivo multilateralismo, capaz de estabelecer nexos de relacionamento com outras nações, povos e estados, entre eles os produtores de petróleo e gás, na América Latina, na África e na Ásia (Médio Oriente incluído).

De forma decepcionante, as respostas dos BRIC no Conselho de Segurança da ONU em relação à Líbia, não só demonstram timidez em assumir implicações geo estratégicas e geo políticas alternativas, como pecaram nas suas previsões no âmbito de sua abstenção: ao permitirem-se caucionar a intervenção sobretudo da França, da Grã Bretanha e dos Estados Unidos na Líbia, em função dum documento carregado de equívocos em relação aos limites e esfera da acção, contribuíram para esconder a natureza da revolta líbia que me parece indiciadora de associação com os interesses das multinacionais franco-anglo-saxónicas e de seus aliados árabes (a interconexão do uso da aviação aliada com as forças no terreno é um facto gritante de coligação) e, pecado dos pecados, não previu uma evolução que abrisse caminho à entrada da OTAN no contencioso da Líbia.

Era possível aos BRIC no Conselho de Segurança da ONU advogar de forma decidida a via do diálogo e da paz, defender intransigentemente essa via perante aqueles que vêem na força militar solução preferencial de uso intermitente, com sinal contraditório (em função dos seus interesses egoístas e hegemónicos, ao ataque no caso líbio, ou na defesa no caso do Bahrein) e esperando o tempo julgado conveniente (20 anos de relacionamento e negócios comuns no caso líbio), espreitando as possibilidades de transição pacífica e sem traumas (ou com o mínimo de traumas possível) na Líbia, evidenciando os interesses do Sul (inclusive os interesses do Sul em relação ao petróleo na Líbia)… mas os discursos das delegações desses países, foram discursos frágeis, vazios de ética e de moral, vazios de convicções e de princípios, carentes de geo estratégia, inócuos de geo política e sobretudo cúmplices da evolução que está agora patente, que foi aliás prevista entre outros pelos vizinhos do Brasil, pelos componentes da ALBA na América Latina, respondendo às reflexões de Fidel sobre o assunto.

Este tipo de discursos continua a abrir espaço aos criminosos que actuam em nome da hegemonia, com todo o arsenal de cosméticas que estão continuamente a ser aplicadas na lavagem cerebral global em curso em relação a eles!...

… São discursos cúmplices que contribuem, por exemplo, para impedir que alguma vez George W. Bush, ou Tony Bair, por maioria de razão e em função de seus crimes contra a humanidade nos Balcãs, no Iraque, no Afeganistão e em tantos outros lugares onde proliferam as mais de 800 bases do sistema, crimes contra os tão apregoados “direitos humanos”, “direitos das minorias” e contra a própria “democracia representativa” (a favor da aristocracia financeira mundial, das oligarquias, das monarquias árabes do petróleo e das elites afins) se venham a sentar antes de quaisquer outros no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional!

Os BRIC, dois deles, Rússia e China, com direito a veto, não souberam defender condignamente os interesses alternativos do Sul no Conselho de Segurança e agora, mais que antes, este tipo de intervenções com uma tremenda carga de ingerência, em nome dos “direitos humanos”, dos “direitos das minorias” e da “democracia representativa”, começa a repercutir nos fragilizados estados e nações do Terceiro Mundo subdesenvolvido, pendendo como uma ameaça que a qualquer momento pode passar do conceito à prática de agressão em qualquer “obscuro rincão do mundo” conforme a arrogância estúpida mas omnipresente de George W. Bush, a postura dum “sargento às ordens do sistema”, uma arrogância que continua patente na acção do AFRICOM (que opera em suporte à OTAN no caso africano da Líbia).

Ao invés de se estimular nos países do Sul e em toda a humanidade as vias de diálogo, de paz, de participação cidadã, democrática e responsável de todos na solução dos problemas, prefere-se a ameaça militar sempre latente e sempre pendente sobre os estados mais frágeis da Terra e até sobre aqueles que, sendo usados em benefício da hegemonia, das oligarquias, das elites e de monarquias feudais, em tempo oportuno (durante décadas), são deitados fora cinicamente através de bárbaros ou refinados processos de ingerência, quando se julga que, em nome da pílula da “democracia representativa” é chegada a hora de actuar.

Os povos, reduzidos agora à designação absurda de “sociedades civis”, tornam-se pasto das ingerências, imolam-se ao “diktat” do modelo das “democracias representativas” que lhes é imposto de maneira tão perversa e objectivamente nada mais fazem em suas expectativas senão abrir espaços a mais cumplicidade e agenciamento das elites nacionais, cada vez mais submissas e “parceiras” nas cumplicidades estimuladas pela hegemonia e só por elas.

É evidente que estas cumplicidades da abstenção perante a evolução do quadro da ingerência franco-anglo-saxónica e aliados árabes, agora tornada agressão da OTAN em consonância com o AFRICOM (a OTAN não tem mandato do CS da ONU e o AFRICOM não está exposto), é também contra cada um dos BRIC, cujas políticas claudicam nas obrigações alternativas que, sendo possíveis, estão a ser deliberadamente abandonadas, não só neste caso da Líbia, mas também em relação a outros teatros contemporâneos (nenhum dos BRIC se pronunciou em relação ao caso do Bahrein, nem se tem pronunciado sempre, conforme deveriam fazer, em defesa dos direitos da Palestina constantemente agredida e alvo de segregação e “apartheid” na região em que se insere durante largas décadas).

No caso do Brasil foi um péssimo exercício no âmbito dos relacionamentos internacionais, na defesa dos seus interesses próprios sobre o pré-sal e do que isso implica geo estrategicamente enquanto fulcral alternativa, pelo que, a visita da Presidente Dilma Roussef e de Lula da Silva a Portugal nesta conjuntura internacional ambígua e carregada de tensões, ilustra bem esse papel de cumplicidades: a Presidente do Brasil escolheu visitar num momento como este, um país que votou a favor da ingerência militar na Líbia como via para resolver o conflito, quando durante tantos anos se estimulou em negócios com a Líbia e com o próprio Kadafi!

É de realçar que essa escolha surgiu na sequência da visita do Presidente Barack Hussein Obama ao Brasil, que foi aproveitada para, a partir do próprio Gabinete da Presidente Dilma Roussef, dar ordem à força tarefa norte americana para actuar no quadro estabelecido pelo CS da ONU na ingerência contra a Líbia!...

Tendo manifestado Portugal no Conselho de Segurança da ONU, que votava a favor, conforme votou, disse que não faria parte das forças de intervenção dos aliados em relação à Líbia, de forma tão cínica e até sinistra como se pode comprovar: é que agora, no quadro da OTAN, que garante a conexão com o AFRICOM, Portugal que está presente nos Balcãs, no Índico Norte, no Afeganistão, pode considerar vir a participar, fora de qualquer mandato explícito da ONU para com a OTAN, participar mesmo que isso não se torne de domínio público, na ingerência-agressão em curso contra a Líbia, dias depois de ter afirmado precisamente o contrário!

Se algum dia hipoteticamente o pré-sal brasileiro motivar uma musculada ingerência externa como a que foi desencadeada agora na Líbia, uma ingerência militar em estreita coligação com rebeldes (?) locais, o que dirá e fará este Portugal tão exemplarmente alinhado com a hegemonia e tão diligente nessa sua submissão a ponto de se auto-desmentir de forma tão flagrante?

Uma parte da resposta poderá ser constatada no papel de Portugal nos exercícios FELINO em curso, um papel de mensageiro privilegiado, um papel introdutório aos conceitos, técnicas e matérias de feição da OTAN e da AFRICOM – a mensagem de que o rótulo humanitário chegou aos exercícios militares, por que já está há muito tempo a ser aplicado na acção militar da ingerência hegemónica um pouco por todo o lado na Terra!

Portugal de forma maquiavélica indicia estar a contribuir para, em direcção a alguns dos países da CPLP, se escolherem alguns dos mesmos tipos de armadilhas que foram montadas na Líbia durante os 20 anos de relacionamento de Kadafi com os ocidentais, com as cumplicidades próprias distendidas durante todo esse período a favor do seu regime e do seu séquito, “distraindo-o” enquanto esperava a sua ajuda na montagem dessas armadilhas, induzindo-o cada vez mais em erros que lhe viriam a ser única e exclusivamente atribuídos, usando-o de forma perseverante e perversa durante esses 20 anos, para depois o deitar fora desta maneira a que todo o mundo está a assistir através das televisões e de todos os canais informativos à escala global!

PAZ SIM, NATO NÃO!

Martinho Júnior - 29 de Março de 2011.

Junto a posição oficial emitida pelo do Brasil “abstinente” no Conselho de Segurança da ONU, que contribuiu para a aprovação da Resolução 1973:

“Senhor Presidente,

O Brasil está profundamente preocupado com a deterioração da situação na Líbia. Apoiamos as fortes mensagens da Resolução 1970 (2011), adotada por consenso por este Conselho.

O Governo do Brasil condenou publicamente o uso da violência pelas autoridades líbias contra manifestantes desarmados e exorta-as a respeitar e proteger a liberdade de expressão dos manifestantes e a procurar uma solução para a crise por meio de diálogo significativo.

Nosso voto de hoje não deve de maneira alguma ser interpretado como endosso do comportamento das autoridades líbias ou como negligência para com a necessidade de proteger a população civil e respeitarem-se os seus direitos.

O Brasil é solidário com todos os movimentos da região que expressam suas reivindicações legítimas por melhor governança, maior participação política, oportunidades econômicas e justiça social.

Condenamos o desrespeito das autoridades líbias para com suas obrigações à luz do direito humanitário internacional e dos direitos humanos.

Levamos em conta também o chamado da Liga Árabe por medidas enérgicas que dêem fim à violência, por meio de uma zona de exclusão aérea. Somos sensíveis a esse chamado, entendemos e compartilhamos suas preocupações.

Do nosso ponto de vista, o texto da resolução em apreço contempla medidas que vão muito além desse chamado. Não estamos convencidos de que o uso da força como dispõe o parágrafo operativo 4 (OP4) da presente resolução levará à realização do nosso objetivo comum – o fim imediato da violência e a proteção de civis.

Estamos também preocupados com a possibilidade de que tais medidas tenham os efeitos involuntários de exacerbar tensões no terreno e de fazer mais mal do que bem aos próprios civis com cuja proteção estamos comprometidos.

Muitos analistas ponderados notaram que importante aspecto dos movimentos populares no Norte da África e no Oriente Médio é a sua natureza espontânea e local. Estamos também preocupados com a possibilidade de que o emprego de força militar conforme determinado pelo OP 4 desta resolução hoje aprovada possa alterar tal narrativa de maneiras que poderão ter sérias repercussões para a situação na Líbia e além.

A proteção de civis, a garantia de uma solução duradoura e o atendimento das legítimas demandas do povo líbio exigem diplomacia e diálogo.

Apoiamos os esforços em curso a esse respeito pelo Enviado Especial do Secretário-Geral e pela União Africana.

Nós também saudamos a inclusão, na presente resolução, de parágrafos operativos que exigem um imediato cessar-fogo e o fim à violência e a todos os ataques a civis e que sublinham a necessidade de intensificarem-se esforços que levem às reformas políticas necessárias para uma solução pacífica e sustentável. Esperamos que tais esforços continuem e tenham sucesso.

Obrigada.”


segunda-feira, 28 de março de 2011

A VIABILIDADE “MODERNA” DO NEO COLONIALISMO

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MARTINHO JÚNIOR

Em “Castas das Arábias” reflecti sobre o carácter da aristocracia financeira mundial, das oligarquias corporativas afins, das “pétreas” monarquias da Arábia Saudita e da formação das elites no Terceiro Mundo, perseguindo a imagem e a semelhança da composição humana do poder de que se nutre a globalização por todos os aderentes, por mais insignificantes que eles pareçam, ou aparentemente longínquos que eles existam.

Os “usa, deita fora” em que se tornaram Ben Ali e Osni Mubarak formaram enquanto no poder eminentemente elitista que criaram, sob a orientação dos serviços de inteligência dos Estados Unidos, da Grã Bretanha, de Israel e da França, autênticas “Castas das Arábias” com uma incomensurável capacidade conservadora e financeira afim.

Na Líbia, Kadafi também “funcionou” assim durante os últimos 20 anos, só que, com a sua trajectória primeira e com as características meio feudais da sociedade líbia e do seu regime (em que as tribos foram propositadamente “conservadas” num gigantesco “banho maria” humano), acabou por se tornar num “usa, deita fora” organicamente mais “duro de roer” e portanto mais insuportável, mais insubmisso.

Não é sobre as “Castas das Arábias” que eu contudo hoje vou escrever, é sobre a manipulação contraditória ao abrigo dos “Jogos Africanos de George Soros”, isto é, sobre aqueles que foram, são e serão manipulados e arregimentados para, ao “rebentarem” com os regimes dos “ditadores”, pela via da revolta controlada, propiciarem ao nível do poder a injecção do paradigma institucionalizado da “democracia representativa”, mantendo inalterável a lógica capitalista, mas garantindo a dança das “moscas” ao serviço, como autênticos “sargentos às ordens” cíclicos do sistema articulado entre aristocracia financeira mundial, as oligarquias corporativas, as monarquias Arábicas e as elites do Terceiro Mundo, criando a ilusão-cosmética da democracia, os espelhos da democracia e, em alguns casos, ainda que fugazmente, até da revolução.

Quais são os sectores sociais arregimentados para estabelecer a manipulação contraditória às “Castas das Arábias”?

Mesmo que haja a inclusão na rebelião de organizações sociais com mérito na defesa dos trabalhadores, dos pobres, dos mais desfavorecidos, mais vulneráveis, mais fragilizados, mais marginalizados, os vínculos do tandem James Baker – George Soros, ciosos de reduzir ao máximo os custos da “filantropia”, trabalham lançando entre as organizações em revolta o impacto da “Open Society” alimentando sobretudo intelectuais jovens captados pela via das lutas em benefício dos “direitos humanos” e dos “direitos das minorias”, de forma a que eles obtenham o máximo de aderência na juventude nacional e / ou em nacionalidades “emergentes” (a exemplo do que aconteceu no relacionamento Sérvia – Kosovo).

Com essa mobilização da juventude, a “Open Society” tem garantido o emprego duma parte do capital Quantum “especulativo” na “filantropia”, por que a sua acção vai desembocar naqueles que encontrando-se vulneráveis, frágeis e marginalizados, em vida precária, no sub emprego, ou no desemprego, têm a força e a energia de até, se preciso for, auto-imolarem-se para atear a chama da revolta, com toda a explosiva carga atómica de acção psicológica ao dispor.

Nas “revoluções coloridas” são os jovens que, por causa do conseguido “fim da história”, se tornam fáceis de enquadrar, de manipular e de organizar a baixo custo, que se movem deliberadamente contra o poder, as “Castas das Arábias” locais, conservadoras, corruptas e especuladoras, garantindo com sua “pureza” e inexperiência mas extrema voluntariedade, os termos essenciais da manipulação explosiva pela carga atómica que contém: eles são capazes da revolta mas por si, sem liderança efectiva de outra origem que não seja a “Open Society”, são incapazes de uma verdadeira revolução com profundas implicações económicas, financeiras, mediáticas e sobretudo sócio políticas e institucionais.

Por isso se torna possível à manipulação contraditória da revolta controlar a força e a energia da juventude, moldando-a à implantação da “democracia representativa”, sem melhores alternativas ou horizontes.

Esse expediente “ferve” essencialmente nos estados republicanos, na Tunísia, no Egipto, no Iémen, na Líbia, na Argélia, por que nas monarquias, as “castas naturais” dos reis, dos sultões, dos emires e dos sheiks, implantados nas mais suculentas regiões do petróleo, colocando acima da grande manipulação contraditória, escapam aos riscos maiores (é viável e é possível ao império “Salvar os Reis”).

Vista nestes termos a utilização abusiva da juventude moldada a reflexos psicológicos desencadeados em cadeia até ao êxtase das emoções, é uma autêntica arma psicológica e social de efeitos devastadores, uma autêntica “bomba atómica” contra os alicerces humanos e sociais das “Castas das Arábias” que pululam no Terceiro Mundo, mesmo aquelas que têm passado histórico honroso, ou se procurem consolidar erigindo-se sobre uma pretensa base de betão.

O recurso implica em muitos casos um verdadeiro “conflito de gerações”, com as gerações mais antigas a alinharem com o poder das elites conservadoras e financeiras, em contradição com a juventude mobilizada.

No conflito de gerações em sociedades deliberadamente estáticas durante pelo menos duas décadas, é explorado ao extremo a caducidade conservadora e física dos velhos face às prementes necessidades dos jovens ávidos por consumo e poder.

Os processos de ingerência por via das “revoluções coloridas”, ou se preferirem, mais ou menos “coloridas”, possuem “ementas” e “variantes” perfeitamente adaptáveis e “pragmaticamente adequadas”, valorizando aspectos sócio-políticos e culturais: a manipulação contraditória na dialéctica adoptada, é garantida por uma ampla “engenharia social” redundante do fosso das desigualdades que foi instalado no quadro da lógica capitalista e só quando os “usa, deita fora” se tornam mais “duros de roer”, surgem as musculadas componentes externas, como no caso da Líbia, ou do Bahrein, para “atacar”, ou para “defender”, o que faz prevalecer até ao infinito a sensação de “dois pesos e duas medidas”.

Esta é a “nova doutrina de choque” que faz uso da “engenharia social”, da manipulação contraditória, como uma carga atómica social maquiavélica a fim de moldar o poder e as elites do Terceiro Mundo, a começar pelas Árabes, desde que não ponham em causa a questão “pétrea” de “Salvar os Reis” e, com isso salvar o petróleo que interessa à hegemonia do império.

Na Líbia, o ataque ao regime só é possível por parte dos rebeldes, por que os aliados são a sua força aérea, a arma que está a ser determinante no volte face quanto à correlação de forças: sem essa força aérea, os “rebeldes de Bengazi” teriam sido derrotados e Bengazi teria sido tomada pelo regime.

O lugar dos rebeldes seria nesse caso o deserto imenso a sul, ou o outro lado da fronteira do país, ou a fuga para qualquer ponto de apoio disponível no Mar Mediterrâneo.

Desenha-se neste momento precisamente o contrário: aproxima-se a “estocada final” ao regime de Kadafi com a eminente arquitectura da ofensiva final sobre Tripoli, marcando uma a uma as cidades, os portos e os terminais do petróleo e do gás que se estendem pelo litoral líbio onde se concentra mais de 90% da população e onde existem as infra estruturas, estruturas, meios e equipamentos essenciais à vida do país..

No quadro da resistência de Kadafi, outro cenário é o da hipótese de “balcanizar” a Líbia, dividindo-a em dois ou mais “feudos étnicos”, o que descaracterizará por completo a “revolução verde” nos seus fundamentos e objectivos maiores, transformando essa revolução num dinossauro, ou num muito dócil animal, nessa altura sem Kadafi, como é lógico.

Este cenário, possível se for suspensa a “força aérea rebelde” quando Tripoli estiver à mercê, lembre-se, pode ser uma sequência dum caso próximo e recente: o do Sudão.

Esta é a sorte que espera a África ao longo desta década e foi para isso que foi criados ainda em tempo de George W. Bush o AFRICOM, o primeiro comando do Pentágono que integrou “componentes civis” adaptados aos conceitos das “sociedades civis” (um termo que a linguagem neo liberal usa rigorosamente em substituição de povo, ou povos): a juventude africana será alvo da maior mobilização contra revolucionária de que a história contemporânea de África alguma vez registou após a descolonização e a luta contra o “apartheid”, incluindo no que diz respeito aos vínculos para o interior das forças armadas nacionais das precárias nações africanas, vínculos esses em fase de proliferação, por vezes estabelecidos laboriosamente da forma mais subtil possível.

A mensagem do AFRICOM e da OTAN está a ser subtilmente instalada por exemplo, nos termos “conseguidos” entre outros, por exercícios como os que a CPLP desenvolve: os “FELINO”.

… As condutas ditas “humanitárias” dos “FELINO”, cada vez se aproximam mais dos padrões estimulados pelo AFRICOM e a OTAN…

Em alguns casos recalcitrantes, as revoltas integrarão projecções que gerarão “novas nacionalidades”, o que está latente em muitas dilaceradas identidades africanas que, é preciso sempre lembrar, estão a ser construídas (?) a partir das geometrias e linhas da Conferência de Berlim, no início da Revolução Industrial.

Em Angola, para além da manipulação contraditória que está a dar os primeiros sinais já com algum detalhe do lado do braço da “especulação financeira”, como do lado da “filantropia” da “Open Society” (que roda à volta do Bloco Democrático, que tem como Presidente o “Open Society” Justino Pinto de Andrade, com ramificações ainda ténues mas cada vez mais expostas para o exterior na direcção dos Fóruns Sociais Mundiais e, em Portugal, para o Bloco de Esquerda), Cabinda e a Lunda-Tchokwe perfilam-se no horizonte das “nacionalidades emergentes” a partir dos “direitos humanos” e dos “direitos das minorias” resultantes da dialéctica que está em curso desde os alvores do século XXI, com todos os sentidos postos ainda no petróleo (para o primeiro caso) e para os diamantes (para o segundo).

É assim que o império garante a viabilidade “moderna” do neo colonialismo!

Isso nada tem a ver com supostas “teorias de conspiração”: as práticas de conspiração do império estão inscritas na textura da “engenharia social” que caracterizam o capitalismo no geral e o neo liebralismo, em particular, com impactos sociais cada vez mais tempestuosos nas fragilizadas sociedades do Terceiro Mundo.

África é, neste caso, ao mesmo tempo “um cadinho de experiências” e um “renovado pátio traseiro” dos Estados Unidos e da Europa, mesmo aquela Europa aparentemente mais relutante e “em regime de abstenção” como a Rússia e a Alemanha.

Dos outros, da Ásia (Índia e China), como da América do Sul (Brasil), a abstinência é sinal evidente de caução financeira ao império, como de impotência perante o seu tão nefasto exercício humano, como de inteligência e músculo militar.

Martinho Júnior - 27 de Março de 2011.