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sexta-feira, 22 de abril de 2011

A JUVENTUDE NÃO É RASCA, NÃO A ENRASQUEM!



ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

- Artigo censurado por um jornal de Angola

O texto que se segue foi-me solicitado por um jornal de Angola. Foi remetido a tempo e horas. Algumas alterações (que não constam deste artigo) foram acordadas. O trabalho não foi publicado. Explicações? Nenhuma.

Nem todos os jovens concordam que o dia 14 de Abril, que consagra o dia da juventude do MPLA, em memória de Hoji Ya Henda, o patrono da JMPLA, seja igualmente considerado o Dia da Juventude angolana.

Será, com certeza, difícil ou até mesmo inexequível encontar uma data que gere unanimidade. Em democracia o melhor que se consegue, quando se consegue, é um consenso. Encontrar, ou até mesmo criar de raiz, um dia que esteja equidistante das datas assinaladas pelos diferentes partidos seria, creio, a melhor solução para homenagear os jovens angolanos que, de facto, merecem ter um dia que assinale o seu contributo em prol do país.

Desde a independênncia que Angola tem comemorado - com um certo abuso de poder e unicidade só aceitável nos países de partido único - o 14 de Abril como o Dia da Juventude Angolana. Com a abertura ao multipartidarismo, urge que se pense e actue com a abertura de espírito necessária para solidificar um sistema político que alberga, ou deve albergar, a diversidade de opiniões como uma mais-valia de incalculável valor patriótico.

Não é sério, muito menos legítimo e democrático, que se continue a subjugar toda a juventude angolana a uma data que, embora partidariamente relevante, só representa uma parte dos jovens com ligações partidárias e, inclusive, esquece todos aqueles – e não são tão poucos quanto isso – que não se revêem nas estruturas juvenis dessas organizações políticas.

De facto, a comemoração com toda a pompa e mordomias inerentes do 14 de Abril era (e poderá continuar a ser) aceitável como marco interno do MPLA e não como algo que possa representar toda a juventude de um país que, também nesta matéria, pretende respeitar e enquadrar-se nas regras de um Estado de Direito internacional, passada que é (embora muitos ainda não tenham reprado nisso) a fase em que Angola era o MPLA e o MPLA era Angola.

Naquela altura, o MPLA era dono e senhor do país e, por isso, o país sujeitava-se às datas que lhe eram impostas, não tendo sequer hipótese de as discutir. E se a JMPLA era, oficialmente, a única estrutura juvenil do país, fazia sentido que os jovens comemorassem essa data.

Mas, embora nem todos tenham consciência disso, o país é hoje outro, amanhã será ainda um outro, pelo que não pode haver receitas unilaterais feitas à medida, e por medida, de um regime monopoartidário que já não existe.

Enterrado que foi o tempo do partido único, importa que o regime compreenda que em democracia, e em teoria, quem mais ordena é o Povo. E esse Povo não pode estar sujeito a regras, a leis, a datas que mais não foram (algumas ainda são) do que uma forma de perpetuar o culto a valores hoje ultrapassados na esmagadora maioria dos países.

Os angolanos estão, pelo menos uma grande parte deles, pretensamente representados no Parlamento, lugar onde é suposto, em democracia, discutir, analisar, debater tudo e mais alguma coisa que diga respeito à vida dos cidadãos.

Por isso, sobretudo os jovens apartidário mas não apolíticos, perguntam (nem sempre de forma clara e incisiva porque temem ofender os membros do partido que sustenta o Governo): “Acaso a instituição do 14 de Abril como Dia da Juventude Angolana foi, depois dos Acordos de Bicesse, alguma vez discutida no Parlamento?”

Assim sendo, esses jovens apartidário mas não apolíticos, sugerem que se faça um referendo (instrumento que só privilegia e solidifica os valores democráticos) para saber se os jovens das organizações partidárias, das organizações da sociedade civil, ou até mesmo dos não enquadráveis nestas variantes, espalhadas pelo País se revêem no 14 de Abril.

De facto, o governo angolano, no poder deste 1975, não tem tido vontade, embora tenha os meios, para resolver problemas como os de água, luz, lixo, saúde e educação da população em geral. No que tange à juventude, esta não tem casa, não tem educação, emprego e não tem futuro.

Por tudo isto, e não só, a juventude quer mais do que nunca ser ouvida e ter, para além de uma voz gritante e activa, possibilidade de dizer de sua justiça, de participar na vida do seu país. O regime ao obrigá-la a aceitar como seu um dia que lhe diz pouco, ou nada, está a atirar a juventude para as margens da sociedade. E, muitas vezes, demasiadas vezes, quando se está na margem escorrega-se para a marginalidade.

Recordo-me de que o membro (entre outras coisas) do Comité Central do MPLA, Kundi Paihama realçar, em Luanda, o contributo da juventude angolana na vida política nacional por ter permitido que hoje o país se possa orgulhar dos seus filhos, pelas grandes vitórias alcançadas ao longo da sua história.

Não fora a modéstia de Kundi Paihama, um angolano de primeira, e ele bem poderia dizer que esteve, e esteve mesmo, nas principais vitórias que fizerem com que o MPLA esteja no poder deste 1975.

Em declarações à Angop, à margem do VI Congresso do JMPLA que decorreu em Outubro de 2009, sob o lema “JMPLA – a certeza de um futuro melhor”, Kundi Paihama frisou que é de louvar a vontade dos jovens virada para o progresso e desenvolvimento do país.

Kundi Paihama destacou o desempenho dos jovens pela causa da nação, abrindo caminho para uma renovação maciça nos vários domínios da vida humana, principalmente no desenvolvimento intelectual, académico e científico, que são mais valias para o progresso de uma pátria.

“Estamos cientes do bom e grande trabalho da direcção do secretariado nacional da JMPLA, que futuramente vai cessar funções, e acreditamos que os futuros dirigentes farão o seu melhor, não só porque as condições serão outras, mas pelo compromisso assumido com o povo”, sublinhou Kundi Paihama.

Kundi Paihama asseverou igualmente que graças ao contributo dos jovens do partido, e não só, Angola conseguiu alcançar vários patamares nos círculos internacionais, nomeadamente político, económico, desportivo e cultural.

Embora seja tudo verdade, a juventude de hoje já consegue (em muitos casos de forma brilhante) pensar pela sua própria cabeça. Não admira, por isso, que muitos jovens ao ouvir estas plavras se recordem igualmente que foi o próprio Kundi Paihama que disse que em Angola existem dois tipos de pessoas, os angolanos e os kwachas, tal como aconselhou estes a comer farelo porque “os porcos também comem e não morrem”.

E tal como Kundi Paihama, também Eduardo dos Santos continua a dizer a todos, mas sobretudo à juventude, que é preciso “honrar e declarar o nosso amor por Angola”.

É verdade. Mas isso não basta. E se os mais velhos fazem do silêncio a sua melhor arma, os jovens falam cada vez mais e, um pouco por todo o pais, vão dizendo que as crianças que mendigam e morrem à fome nas ruas de Luanda também amam Angola. Amam-na e declararam esse amor.

Rui Mingas dizia que, “nos antigamente”, os angolanos apenas tinham “peixe podre, fuba podre, 30 angolares e porrada se refilares”. E hoje, depois da independência e com nove anos de paz absoluta, o que dizem os jovens?

Esses, que serão os líderes naturais de Angola, independentemente do 14 de Abril, continuam a dizer que levam porrada, mesmo sem refilar, e nem peixe ou fuba podre têm.

É, por isso, urgente que o regime olhe a sério para a juventude no seu todo, não apenas para a JMPLA, mesmo para aquela que está fora do país, procurando potenciar os seus conhecimentos e corresponder aos seus anseios.

Importa igualmente que o regime leve em conta que nas mais recentes convulsões sociais, como foram os casos a Tunísia, Egipto e Líbia, a juventude foi quem liderou um processo de mudança. Processo esse que, em qualquer parte do mundo, é irreversível.

Veja-se igualmente o que se passou recentemente em Portugal quando milhares e milhares de jovens, a tal geração à rasca, saíu à rua para – por enquanto pacificamente – dizer que não é fácil respeitar a democracia quando se está de barriga vazia.

Aliás, também em Portugal, como se já não bastasse uma geração à rasca, o governo dteima em que por uma questão de equidade todas as gerações têm de ficar também à rasca. A única excepção é a da geração socialista dos gestores, administradores, directores, assessores e amigos que aceitam ser tapetes do poder.

Todos sabemos que o Presidente Eduardo dos Santos disse no dia 6 de Outubro de 2008, que o Governo ia aplicar mais de cinco mil milhões de dólares num programa de habitação que inclui a construção de um milhão de casas, muitas delas para os jovens.

A construção de um milhão de casas para as classes menos favorecidas de Angola e jovens foi, aliás, uma das promessas da então campanha eleitoral mais enfatizadas pelo Presidente da República de Angola e do MPLA.

José Eduardo dos Santos admitia que "não seria um exercício fácil", tendo em conta que o preço médio destas casas, então calculado em cerca de 50 mil dólares.

O Presidente considerou que o executivo de Luanda estava em "sintonia" com as preocupações e a "visão" da organização das Nações Unidas, quando coloca como questão central, como necessidade básica do ser humano, fundamental para a construção de cidades e sociedades justas e democráticas, a questão da habitação.

Eduardo dos Santos frisou ainda que as "linhas de força" traçadas pelo Governo estão orientadas para uma "cooperação activa" entre a administração central e local do Estado, entre o sector público e o privado, com vista à execução de uma nova política que contribua para "a geração de empregos, para o desenvolvimento harmonioso dos centros urbanos, para a eliminação da pobreza e da insegurança, e para a eliminação também das zonas degradadas e suburbanas".

O Presidente anunciou igualmente na altura (2008) que será "cada vez mais acentuada" a preocupação com a urbanização das cidades angolanas e que serão "incentivadas políticas que diminuam a circulação automóvel nos centros dos grandes aglomerados urbanos.

Ao contrário do que eventualmente podem pensar os dirigentes angolanos, a juventude está atenta a tudo isto e é sobretudo isto que a preocupa. A questão do Dia Nacional da Juventude é apenas simbólico embora, na verdade, possa significar (o que não aconteceu até agora) uma forma de congregar e respeitar a diversidade dos jovens angolanos.

E essa forma não pode passar por dizer que toda a juventude se revê no dia 14 de Abril. Longe disso.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

domingo, 17 de abril de 2011

EM ANGOLA NÃO EXISTE CORRUPÇÃO E POBREZA!



ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Finalmente o dono de Angola, no poder há 32 anos sem nunca ter sido eleito, explicou a razão pela qual o país, independente desde 1975 e já com nove anos de paz efectiva, tem 70% de pobres.

Segundo José Eduardo dos Santos, quando ele nasceu já havia muita pobreza na periferia das cidades, nos musseques, e no campo, nas áreas rurais. Citou, aliás, os poetas Agostinho Neto e António Jacinto que, nos seus versos, denunciavam a miséria extrema, e a exploração do contratado, cujo pagamento era fuba e peixe seco e porrada quando se refilava.

O Presidente do MPLA, da República e chefe do Governo (entre outras coisas) falava ontem em Luanda, na cerimónia de abertura da primeira sessão extraordinária do Comité Central do MPLA, que decorre no complexo turístico “Futungo II”, com a participação de 225 dos seus 311 membros.

Eduardo dos Santos denunciou também, pudera!, os oportunistas que pretendem promover a confusão no país para provocar a subversão da ordem democrática estabelecida na Constituição da República, e derrubar governos eleitos, a favor de interesses estrangeiros.

“Hoje há uma certa confusão em África e alguns querem trazer essa confusão para Angola”, declarou o dono do país, adiantando que “devemos estar atentos e desmascarar os oportunistas, os intriguistas e os demagogos que querem enganar aqueles que não têm o conhecimento da verdade".

Como diria o seu amigo primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, ainda está para nascer um presidente do MPLA, de Angola e chefe do Governo, que tenha feito melhor do que José Eduardo dos Santos.

José Eduardo dos Santos adiantou que nas chamadas redes sociais, que são organizadas via Internet e nalguns outros meios de comunicação social, fala-se de revolução, mas não se fala de alternância democrática.

Como dono da verdade, José Eduardo dos Santos esquece-se que para haver alternância democrática é preciso que antes existe democracia.

Diz ele, do alto da sua sábia cátedra, que pôr os vivos (e até os mortos) a votar – mesmo que de barriga vazia – é democracia.

“Para essa gente, revolução quer dizer juntar pessoas e fazer manifestações, mesmo as não autorizadas, para insultar, denegrir, provocar distúrbios e confusão, com o propósito de obrigar a polícia a agir e poderem dizer que não há liberdade de expressão e não há respeito pelos direitos” referiu o único presidente dos países lusófonos que nunca foi eleito.

José Eduardo dos Santos considera que os seus opositores têm medo das próximas eleições de 2012, pois sabem que a maioria dos eleitores não vai votar a favor deles.

Nisso tem razão. Um povo com fome vota certamente em quem lhe der um saco de fuba. Além disso, como nas anteriores eleições, nada de anormal irá acontecer se em alguns círculos votarem no MPLA mais de 100% dos eleitores inscritos...

José Eduardo dos Santos diz que os opositores querem apenas colocar fantoches no poder, que obedeçam à vontade de potências estrangeiras que querem voltar a pilhar as riquezas e fazer o povo voltar à miséria de que se está a libertar com sacrifício.

Tem razão. Embora o MPLA pilhe as riquezas e o povo desde 1975, sempre tem a seu favor o facto de impor que os estrangeiros só pilhem se for em parceria com o clã Eduardo dos Santos.

O dono de Angola lamentou o facto de ninguém se lembrar de dizer que a pobreza não é recente e que é uma pesada herança do colonialismo e uma das causas que levou o MPLA a conduzir a luta pela liberdade, para criar o ambiente político necessário para resolver esse grave problema.

Pois é. Embora tenha comprado o país em 1975, o MPLA continua a responsabilizar o colonialismo e até, talvez, não fosse despiciendo falar também da responsabilidade de D. Afonso Henriques.

Utilizando uma calculadora certamente “made in Coreia do Norte”, Eduardo dos Santos diz que os índices de pobreza, que estavam em cerca de 70 por cento, baixaram em 2010 para cerca de 37 por cento.

Mais uma vez o dono do país, modesto como é, peca por defeito. É que se fizer o cálculo ao seu clã e aos vassalos que o rodeiam, o índice de pobre é 0 (zero).

Segundo Eduardo dos Santos, no quadro do Programa de Luta contra a Pobreza, se continuar com esse ritmo de redução, a pobreza deixará de existir dentro de alguns anos.

Tem, mais uma vez, razão. Aliás, se o regime angolano excluir dos cálculos da pobreza todos os que são... pobres, pode já anunciar o fim da pobreza.

José Eduardo dos Santos afirmou também que apesar de não existir país nenhum no mundo sem corrupção, o Governo está a fazer esforços para combater este mal.

Aí está a prova de que o MPLA deve mudar o regime legal. É que se a lei não considerar a corrupção como um crime, o país deixa de ser o local do mundo com mais corruptos por metro quadrado.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Vislumbram-se eleições em Angola? Então a UNITA que deponha...



... o que não tem: armas!

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Em três anos já foram recolhidas em Angola mais de 80 mil armas que, segundo o Governo, estavam em mãos indevidas. Isto quer dizer, em mãos de gente da UNITA.

Sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, um acto eleitoral, o regime angolano reedita a velha técnica de que a UNITA continua a ter – mesmo passados nove anos sobre a sua rendição - paióis espalhados por todo o país.

O MPLA sabe a lição toda, mesmo que continue a ler livros já fora de uso. Com especialistas portugueses e brasileiros, protecção cubana e petróleo roubado a Cabinda, tem tudo e mais alguma coisa para perpetuar a ditadura, mesmo que rotulada de democracia.

Apesar disso, sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, um acto eleitoral, o regime dá logo sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições e de ver a UNITA a governar o país.

Para além do domínio quase total dos meios mediáticos, tanto nacionais como estrangeiros, o MPLA aposta forte numa estratégia que tem dado bons resultados. Isto é, no clima de terror e de intimidação.
No início de 2008, notícias de Angola diziam que, no Moxico, “indivíduos alegadamente nativos criaram um corpo militar que diz lutar pela independência”.

Disparate? Não, de modo algum. Aliás, um dia destes vamos ver por aí Kundi Paihama afirmar que todos aqueles que têm, tiveram, ou pensam ter qualquer tipo de arma são terroristas da UNITA.

E, na ausência de melhor motivo para aniquilar os adversários que, segundo o regime, são isso sim inimigos, o MPLA poderá sempre jogar a cartada, tão do agrado das potências internacionais que incendeiam muitos países africanos, de que há o perigo de terrorismo, de guerra civil.

Se no passado, pelo sim e pelo não, falaram de gente armada no Moxico, agora deverão juntar o Bié ou o Huambo.

Kundi Paihama, um dos maiores especialistas de Eduardo dos Santos nesta matéria, não tardará a redescobrir mais uns tantos exércitos espalhados pelas terras onde a UNITA tem mais influência política, para além de já ter dito que quem falar contra o MPLA vai para a cadeia, certamente comer farelo.

Tal como mandam os manuais, o MPLA começa a subir o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenir os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo.

Além disso, nos areópagos internacionais vai deixando a mensagem de que ainda existem por todo o país bandos armados que precisam de ser neutralizados.

Aliás, como também dizem os manuais marxistas, se for preciso o MPLA até sabe como armar uns tantos dos seus “paihamas” para criar a confusão mais útil. E, como também todos sabemos, em caso de dúvida a UNITA será culpada até prova em contrário.

Numa entrevista à LAC - Luanda Antena Comercial, no dia 12 de Fevereiro de 2008, o então ministro da Defesa, Kundi Paihama, levantou a suspeita de que a UNITA mantinha armas escondidas e que alguns dos seus dirigentes tinha o objectivo de voltar à guerra.

Kundi Paihama, ao seu melhor estilo, esclareceu, contudo, que os antigos militares do MPLA, "se têm armas", não é para "fazer mal a ninguém" mas sim "para ir à caça". Ora aí está. Tudo bons rapazes.
Quanto aos antigos militares da UNITA, Kundi Paihama disse que a conversa era outra e lembrou que mais cedo ou mais tarde vai ser preciso falar sobre este assunto.

Na entrevista à LAC, Kundi Paihama disse textualmente: "Ainda hoje se está a descobrir esconderijos de armas". Disse e é verdade.

Todos sabemos que, entre outros, Alcides Sakala, Lukamba Gato, Isaías Samakuva e Abílio Camalata Numa têm em casa um arsenal de Kalashnikov, mísseis Stinguer e Avenger, órgãos Staline, katyushas, tanques Merkava e muito mais.

Se calhar este armamento já está um bocado enferrujado. Mas, mesmo assim, o regime está preocupado...

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.
 
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

SÃO MESMO (E DE QUE MANEIRA) TODOS IGUAIS!

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A página do Facebook de Fernando Nobre foi bombardeada com milhares de comentários negativos de utilizadores que não gostaram de o ver associado ao PSD. A página foi, entretanto, fechada pelo administrador. (*) - clique foto para ampliar e ler

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Fernando Nobre estava, e bem, convicto de que iria fazer "história" ao candidatar-se à Presidência da República portuguesa, fosse qual fosse o resultado.

E se essa foi uma forma positiva de fazer “história” (14 po cento dos eleitores que voram pensaram, tal como eu, dessa forma), ao aceitar ser cabeça-de-lista do PSD por Lisboa e candidato a presidente da Assembleia da República, Fernando Nobre e Passos Coelho escreveram uma, mais uma, página putrefacta dessa mesma história.

Se Fernando Nobre ao candidatar-se à Presidência da República mostrou ser capaz de dignificar o que restava da Pátria de Fernando Pessoa, ao alinhar agora com o PSD provou que, afinal, vendeu gato por lebre e que, sob a máscara da cidadania, não passa de mais um.

"Seja qual for o resultado, nós já fizemos história em Portugal. Já demonstrámos que a cidadania e a sociedade civil portuguesas decidem a partir de agora querer ser ouvidas, escutadas e participar num reforço da nossa democracia", disse Fernando Nobre.

Pois é. Que Passos Coelho queira entregar de bandeja o Governo do seu país novamente a José Sócrates, é um problema dele e dos que nele e no seu partido acreditam.

No entanto, Fernando Nobre, que aparentava ser um cidadão de corpo inteiro, que parecia ter uma honorabilidade à prova de bala (ao contrário da maioria dos políticos portugueses) acaba por também se “vender” por um prato de lentilhas (ser deputado e eventualmente presidente do Parlamento).

Durante a capanha elitoral, Fernando Nobre não teve medo (ou foi só um investimento?) de criticar as medidas de austeridade do Governo socialista e de José Sócrates, apoiadas pelo PSD e por Cavaco Silva, considerando – tal como a esmagadora maioria dos cidadãos - que penalizavam os portugueses mais pobres (20% da população) e os que estão ligeiramente acima do limiar da pobreza (mais 20%).

Fernando Nobre demonstrou, entre outras coisas, que ou os políticos portugueses deixam de cantar no convés enquanto o navio se afunda, ou sujeitam-se a que o Povo saia à rua e os afunde.

Agora veio a confirmar-se que ele apenas quer também um lugar no convés do navio.

Fernando Nobre foi ao Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, lançar a sua candidatura e mostrar (julgaram os ingénuos, como eu) que ainda era possível Portugal dar, voltar a dar, luz ao mundo.

Feitas as contas, tudo não passou de uma encenação.

“Quando são os próprios políticos a eximir-se das suas obrigações, à plebe só resta numa primeira fase mandar as eleições às malvas e, depois, sair à rua. Felizmente que, antes da sair à rua, os portugueses vão dar uma oportunidade a um português, cidadão do mundo, filho da Lusofonia: Fernando Nobre”, escrevi eu aqui quando publicamente assumi o meu apoio ao presidente da AMI.

Razão tinha Cavaco Silva quando disse que “a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas depende, em boa parte, da forma como aqueles que são eleitos actuam no desempenho das suas funções”.

Pois é. Se o país mudar de políticos, o Povo não quererá mudar de país. Muitos já tinham as malas feitas mas, com a luz que acreditaram que Fernando Nobre iria colocar no fundo do túnel... voltam a acreditar em Portugal.

Hoje só lhes resta zarpar.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

(*) Compilado de Alto Hama no título: E o PS ri-se a bandeiras despregadas - adaptação FB


domingo, 10 de abril de 2011

Ana Gomes confirma que, no reino de José Sócrates, nem as moscas mudam!

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Nem o salão vazio do congresso do PS (os donos do partido tinham mais o que fazer) impediu a eurodeputada Ana Gomes de dizer o que pensa.

Ana Gomes disse, afinal, o que todos os socialistas que ainda conseguem pensar com a própria cabeça sabem. A diferença está que para o dono do partido, José Sócrates, só os que pensam como ele é que merecem alguma coisa.

Por alguma razão os socialistas que discursaram em Matosinhos apenas disseram com outras palavras o que o chefe já tinha dito. Foi, no que os acólitos de Sócrates chamam de unanimidade e coesão, apenas um exercício de ventriloquia.

Ana Gomes disse que na governação socialista "nem tudo foram rosas", defenedendo que para continuar a merecer a confiança dos portugueses o PS não precisa de "unanimismos", mas de "empenhamento crítico".

Dizer tal coisa é, no âmbito do PS (Partido de Sócrates), um crime muito grave, desde logo porque põe em causa a capacidade divina do chefe e o estatuto de submissão acéfala e invertebrada que enquadra todos os seus vassalos.

Ana Gomes deveria saber isso. Tal como deveria saber que este PS prefere ser assassinado pelo elogio patético do que salvo pela crítica.

"Para continuar a merecer a confiança dos portugueses é preciso que o PS assuma que nem tudo foram rosas na governação e que nem sempre a rosa cheirou muito bem. O PS também cometeu erros e assumi-los será meio caminho andado para os corrigirmos", defendeu Ana Gomes.

Ainda bem, para ela, que o sumo pontífice e os seus apaniguados não estavam no congresso. Então a rosa nem sempre cheirou bem? Então o PS também comete erros? Onde é que Ana Gomes cheirou ou viu tais coisas?

De facto, segundo o perito dos peritos socialistas e líder carismático, as rosas passaram obrigatoriamente a cheirar todas bem desde que ele chegou à liderança, e que se saiba também desde essa altura nunca mais o PS cometeu qualquer erro.

Para a eurodeputada, a nacionalização dos "ossos" do BPN "sem nacionalizar as empresas lucrativas do grupo SLN" e o "desvio e desperdício de dinheiros do Estado em consultadorias, 'outsorcing' e corrupção em várias empresas públicas", são alguns dos erros da governação socialista.

Ora, ora! Ana Gomes está a ver o filme ao contrário. Tudo o que aponta como erros da governação socialista são, afinal, a imagem de marca dos governos de José Sócrates.

Ana Gomes, que provavelmente julgou que estava a falar para congressistas de um partido livre e democrático, falou dos caminhos a seguir, referindo "transparência e justiça na distribuição dos sacrifícios", a começar por bancos e transacções financeiras que "não podem continuar a ser escandalosamente privilegiadas na fiscalidade", bem como a renegociação das parcerias público-privadas".

Que grande puxão de orelhas Ana Gomes vai levar do dono do PS. Ela deveria lembrar-se do que em tempos António Barreto disse a propósito de José Sócrates: “não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação”.

Ou ainda de que “o primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Polícia colonial de Angola ameaça de morte jovem...

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… promotor da manifestação em Cabinda

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Um grupo de jovens, liderada por Júlio do Nascimento Paulo, avisou o governador da colónia angolana de Cabinda, Mawete João Baptista, que os jovens vão sair à rua no domingo.

Os jovens pretendem uma maior transparência nas negociações que o próprio governo angolano revelou em comunicado.

De facto, ao invés de corporizar acções de aproximação, a acção de Angola foi em sentido contrário. Desde essa altura, Cabinda tem vivido os seus dias mais dolorosos com o assassinato bárbaro dos comandantes Pirilampo e Sabata.

Como se isto não fosse suficiente, Luanda tem em velocidade acelerada uma campanha de desinformação ao nível interno para provocar a divisão entre os cabindas.

Apesar de os jovens cabindas cumpriram todos os trâmites legais, a posição do governo colonial continua a ser de uma manifesta prepotência.

Ontem chamaram os jovens e puseram-nos diante de um facto consumado: não podiam realizar a manifestação. Para consubstanciar essa arrogância e prepotência, quiseram que os jovens assinassem um documento que, para além de vexatório, estava cheio e erros.

Os jovens negaram peremptoriamente assinar o documento e abandonaram a sala.

Durante a noite, e não foi a primeira vez, elementos do regima, SINFO, foram a casa de Júlio do Nascimento Paulo, rebentaram a porta, ameaçaram-no de morte e bloquearam-lhe o telemóvel, que é da Movicel, empresa do general “Kopelipa” e de outros oficiais.

A vida de Júlio do Nascimento Paulo e companheiros corre perigo, bem como a de todos os outros membros da Sociedade Civil.

No domingo, dia da manifestação, porque os jovens decidiram, mesmo assim, saír à rua, é previsível o cenário habitual: polícia e militares com cães; helicópteros e a casa do Padre Congo, em Lândana, cercada de militares que o impedirão de sair.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

O que diz aquele perito que nunca se engana e que raramente tem dúvidas

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Cavaco Silva nunca se engana e raramente tem dúvidas. Por isso diz que o mal da economia portuguesa está nas finanças públicas, e explica que o "medo" dos políticos dificulta a sua correcção, malgrado defender um quase poder de veto para o ministro das Finanças.

O actual presidente da República e ex-primeiro-ministro considera que Portugal tem no máximo um ano e meio para inverter a tendência de degradação da situação económica.

"Parece-me que as medidas que têm de ser tomadas para inverter a situação de marasmo e evitar grandes preocupações quanto ao que acontecerá (...) e da redução dos apoios estruturais da Comunidade requerem um apoio parlamentar maioritário", afirma Cavaco Silva.

"Se não for assim, estou pessimista", acrescentou no final de uma conferência, intitulada "Política Orçamental: Passado, Presente e Futuro".

Para o também economista, professor universitário, ex-primeiro-ministro e presidente da República será, contudo, "muito complicado" para o Governo resolver "o problema mais grave" que afecta a economia portuguesa: a crise nas finanças públicas.

"Os políticos, como pessoas normais que são, têm medo, e será precisa muita coragem política para adoptar políticas necessárias, mas cuja viabilidade política é duvidosa", afirmou, sublinhando: "Não será nada fácil".

Lembrando que o Ecofin "está a olhar de forma muito particular para Portugal", Cavaco Silva defendeu que a solução passa, necessariamente, por "reforçar os poderes do ministro das Finanças", que deve contar com o apoio incondicional do primeiro-ministro e dispor "de um poder quase de veto sobre os restantes ministérios".

O objectivo é assegurar a concretização de medidas que se antevêem impopulares, como as reformas da saúde - apostando na gestão privada dos hospitais públicos - e educação, a extinção de alguns serviços públicos, a contenção nas transferências para as autarquias, o equilíbrio das contas externas e o assegurar de "disciplina" nas empresas públicas.

Neste particular, o ex-primeiro-ministro considerou ser necessário acompanhar "quase à semana o endividamento de determinadas empresas públicas, nomeadamente no sector dos transportes e do audiovisual.

Quanto à evasão e fraude fiscais, apontou como única solução viável "um claro levantamento do sigilo bancário" sustentando que, mesmo face ao risco de fuga de capitais, "em situação de crise" esta medida se impõe.

Imperativo é, também, "restituir a credibilidade à política orçamental" portuguesa, cuja "imagem de facilitismo e laxismo influenciou negativamente a actuação das empresas e agentes económicos e acabou também por estimular o adiamento de certas reformas estruturais".

"A nossa política orçamental continua a ser a grande fonte de ineficiência económica" em Portugal e é a "primeira razão do mau comportamento da produtividade", considerou, defendendo a realização de orçamentos plurianuais.

Nota complementar: Tudo isto foi dito por Cavaco Silva em Março. Março de... 2002. Na Faculdade de Economia do Porto.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

O que diz aquele outro perito que também nunca se engana...

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… e que raramente tem dúvidas

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

O primeiro-ministro português, demissionário ou não, sempre que fala garante com uma impoluta convicção que o Governo usará todos os recursos ao seu alcance para auxiliar empresas, trabalhadores, famílias e todos quantos precisarem de ajuda.

É com certeza por isso que todos os portugueses dormem mais descansados sempre que ouvem José Sócrates. De barriga vazia (enquanto não aprenderam a viver sem comer) mas descansados.

Se José Sócrates o diz é porque assim vai ser. Não sei se tal se conseguirá através de menos despedimentos, se por meio de mais um cobertor para os sem-abrigo ou, quiçá, pela oferta de uns tantos títulos da dívida pública, mesmo que considerados lixo.

Recordam-se da mensagem de Natal de 2008? Sim, essa mesmo em que José Sócrates teve uma conversa em família, ao estilo de Marcelo (Caetano)?

O primeiro-ministro sublinhou que o ano de 2009 (ao tempo que isso foi!) ia ser "difícil e exigente para todos" (isto é como quem diz... sempre para os mesmos), razão pela qual o dever do seu Governo era "não ficar à espera que os problemas se resolvam por si próprios".

"Pela minha parte, e pela parte do Governo, quero garantir-vos que não temos outra orientação que não seja defender o interesse nacional neste momento particularmente difícil. E defender o interesse nacional é usar todos os recursos ao nosso alcance, com rigor, sentido de responsabilidade e iniciativa, para ajudar as famílias, os trabalhadores e as empresas a superarem as dificuldades, e para incentivar o investimento económico que gera riqueza e emprego", disse então (Natal de 2008) José Sócrates.

Digam lá que o homem não fala bem? É claro que não sabe o que diz e nem diz o que sabe. Se assim não fosse diria, desde logo, que o Governo iria responsabilizar os empresários que, devido à suposta generalização da crise, contratam directores para descobrirem a melhor forma de porem as suas empresas também em crise.

Além da garantia de acção perante a crise, usando para tal todos os meios possíveis ao alcance do Estado, José Sócrates pretendeu também deixar uma mensagem de "esperança" em relação ao futuro e de "confiança" face aos próximos desafios resultantes da "grave crise económica e financeira" mundial.

Foi no Natal de 2008. Uma mão cheia de nada. Muitos portugueses estavam nessa altura como estão hoje e estarão nos próximos anos. Isto é, estão como o tolo no meio da ponte. Não sabem para que lado devem ir. E é nessa altura que descobrem que afinal nem ponte existe.

Sócrates frisou (Natal de 2008) que "os portugueses podem contar com a determinação do Governo" no presente "momento difícil da Europa e do mundo".

Podem contar para quê? Para andarem no TGV? Para voarem para o novo aeroporto da capital? Ou para terem forma de pagar a casa e ao merceeiro?

"Determinação no apoio à economia. Determinação, também, na defesa e na promoção do emprego. Mas, determinação, sobretudo, na protecção das famílias, especialmente às famílias de menores rendimentos, protegendo-as das dificuldades que sentem e ajudando-as nas suas despesas principais", acrescentou Sócrates.

Recordam-se? Foi no Natal de 2008.

E depois das palavras, Sócrates volta a olhar para o lado e a assobiar, dizendo que são as regras de uma economia de mercado.

"Foi por isso que criámos as condições para que baixassem os juros com a habitação, generalizámos o complemento solidário para idosos, protegemos as poupanças, aumentámos o salário mínimo e actualizámos os salários da função pública acima da inflação", disse, ainda (Natal de 2008) Sócrates em referência a medidas tomadas pelo Governo.

Disse e é verdade. Mas o cerne da questão não está na justeza de apoiar quem mais precisa. Está no facto de permitir que poucos tenham milhões à custa de milhões que pouco ou nada têm. De milhões que cada vez têm menos.

"O país precisa de atitude, de empenhamento e de determinação", salientou José Sócrates.

Foi com certeza por isso que o primeiro-ministro substituiu o primado da competência pelo da subserviência, o profissionalismo pela bajulação. Foi por isso que o Governo valorizou quem não erra, esquecendo-se de verificar que os que não erram são os que nada fazem. Foi por isso que entre um competente e um néscio com uma boa cunha, ou cartão do partido, escolheu o néscio.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Quando forem gente, pelo menos 70% dos angolanos vão querer ser...

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Kopelipa e o ditador Eduardo dos Santos (FB)

... “Kopelipas”!

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

A World Wide Capital (WWC), empresa do general angolano Hélder Vieira Dias “Kopelipa” reforçou, embora de forma ligeira, a sua posição como quarto maior accionista do Banco BIG, detendo agora 8,37 por cento da instituição.

Nada de novo, portanto. Seja em relação aos generais do MPLA, ou aos que se venderam ao MPLA, seja quanto aos angolanos, 70 por cento dos quais continuam na miséria.

“Kopelipa”, recorde-se, foi um dos primeiros generais do regime angolano a chegar, juntamente com o ex-general da UNITA e actual Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas Angolanas, Geraldo Sachipengo Nunda, ao local onde Jonas Savimbi foi morto em combate.

No dia 29 de Abril de 2010 era apresentado, em Luanda, com pompa e circunstância um plano de emergência para pagamento das dívidas do governo angolano às empresas nacionais e estrangeiras.

A apresentação foi feita por Carlos Feijó, ministro de Estado e Chefe da Casa Civil da Presidência, ladeado por outros dois ministros de Estado, Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, Chefe da Casa Militar, e Manuel Numes Júnior, Coordenador da Área Económica.

De acordo com a Global Witness, os registos da Sociedade de Hidrocarbonetos de Angola (SHA), publicados no Diário da República, nomeiam Manuel Domingos Vicente, nome do presidente da Sonangol, como um dos accionistas da SHA em Agosto de 2008, bem como Manuel Vieira Hélder Dias Júnior "Kopelipa", chefe da Casa Militar do Presidente José Eduardo dos Santos.

O general “Kopelipa”, como bom investidor e cidadão preocupado com o futuro dos angolanos, até pagou um milhão de euros por duas quintas no Douro português para produzir e exportar vinho.

O Independente foi, no início de 2008, um jornal estrategicamente renascido das cinzas em Angola, ligado a Fernando Manuel, outrora membro da DISA (a polícia do Estado), depois SINFO e ex-vice-ministro da Segurança do Estado, e que apareceu como um instrumento de desacreditação da imprensa privada que se atreva a não tocar pelo mesmo diapasão que o do regime.

A prová-lo ficou a notícia da sua primeira edição, depois de ressurgido, sobre o director do jornal angolano, este sim independente, Folha 8. A notícia tinha como título “William Tonet envolvido em burlas, corrupção e mais… Folha 8 lança-se ao cabritismo a troco de silenciar intrigas e difamação.”

A notícia com a qual se abria o referido jornal, mais do que informar era um ataque pernicioso e pessoal ao director e proprietário de um dos jornais de referência da imprensa independente angolana. Talvez o que mais se insurge contra o regime antidemocrático e absolutista do presidente José Eduardo dos Santos.

William Tonet era então acusado de, no desrespeito da deontologia profissional, se fazer passar por mero advogado no julgamento do General Miala, considerando-o “um bajulador de consciências a troco de alguns dólares que visavam tão-somente a absolvição dos réus e comprometer a justiça em Angola”.

Todavia, a absolvição de um réu cuja inocência é manifesta deveria orgulhar a magistratura de Angola e não a comprometer. Num Estado de Direito, mais vale uma justiça que tarda do que uma que não aparece.

De seguida, o mesmo jornal referia que o director do jornal Folha 8 terá burlado o então comandante-geral da Polícia Nacional, Alfredo Ekuikui, tendo recebido deste importantes somas de dinheiro para executar obras no centro de órfãos no Nzonge (localidade do Guenge/Kikuxe), sem que cumprisse “a troco de silenciar intrigas e difamação que envolviam o próprio comandante-geral na época.

O mesmo comandante teria oferecido, ainda, “uma viatura de Toyota Land-Cruiser VX GXR, que se destinava a um dos seus comandantes provinciais, cujo nome a nossa fonte não revelou”.

O mesmo jornal continuava dizendo que na mesma altura, William Tonet “conseguiu manipular o comandante, ludibriando tudo e todos, e foi-lhe entregue, de igual modo, um valor avaliado em 4.000.000.00 de dólares, que se destinava à construção da pousada da Polícia Nacional na localidade do Mussulo, município da Samba”.

No entanto, não apresentou nenhuma prova, nem documental nem de qualquer outra natureza, muito menos foi conhecida qualquer queixa apresentada por incumprimento contratual ou burla.

O jornal Independente foi mais longe ao afirmar que “com esse dinheiro, segundo pessoas próximas do visado, o mesmo efectuou uma viagem à República Federativa do Brasil, com vista a prosseguir com o tratamento do VIH/SIDA de que padece há mais de cinco anos e perspectiva a implantação naquele país da América do Sul, a criação de um jornal on-line que tem como principal objectivo denegrir a postura e os esforços do executivo angolano”.

Para cumprir com o macabro desiderato, William Tonet, “conta com uma equipa de jornalistas nacionais e estrangeiros que no presente momento têm redigido os principais artigos detractores à política governamental do País”.

Quanto a ser portador de tal doença, o panfletário texto do referido jornal juntava-se ao rol de outros tantos no mesmo sentido, porém tinha a particularidade de ser mais ameno em relação a outros boatos que apontavam ser Tonet seropositivo há 20 anos. Agente da CIA, agente do Savimbismo, rebelde da UNITA, filho de Holden Roberto e cérebro da FNLA, instigador do PRS, partido da Lunda–Norte (terra natal do seu pai), agente do imperialismo internacional, etc.

Perante a impossibilidade de desmentirem as informações que o F8 veiculava, logo a calúnia foi (e continua a ser) o último reduto dos algozes do Futungo.

A terminar, o semanário tido como Independente, afirmava também que, de acordo com uma das suas fontes, o jornalista “terá proposto ao general Kopelipa, Chefe da Casa Militar da Presidência da República e director do GRN, por intermédio de um emissário, para a lavagem da sua imagem, valores extremamente exorbitantes na ordem dos 100.000 dólares anuais, facto que esta figura militar rejeitou categoricamente, ponderando inclusive a denúncia pública do facto”.

Facto é que testemunhos quer do general, quer do suposto intermediário ou qualquer processo pelos factos afirmados, deles nunca se ouviu falar nem nunca por ninguém foram vistos.

Além de que, convenhamos, a imagem do general Kopelipa precisava de muito mais do que 8.300.00 dólares/mês para ser limpa. E se isso fosse verdade, por alma de quem o general, que vem sendo denunciado pelo F8, pela forma como desbarata o erário público e extrapola as sua competências, não aproveitaria a oportunidade de denunciar o homem que lhe quer extorquir dinheiro?

Mas esta menção levantava a seguinte questão: estaria o general “Kopelipa” e os seus cães de caça por detrás da carta anónima então enviada a William Tonet?

Se na política não há coincidência, como acreditar que numa semana aparecesse a carta e na outra ressurgisse das cinzas um jornal da Segurança de Estado, todo impresso a cores, para atacar William, Samakuva e Miala e apresentar "Kopelipa" e Kwata Kanawa como os bons da fita?

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.


segunda-feira, 4 de abril de 2011

0 MPLA precisa de mais 30 anos para fazer com que Angola seja...

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… um Estado de Direito!

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

O MPLA, com o seu brilhantismo habitual, diz que os angolanos são capazes de reconstruir o país, de criar condições para erradicar a pobreza e de promover o desenvolvimento e o bem-estar social.

Os angolanos são, sim senhor, capazes de tudo isso. Pena é que o regime não os ajude. Já lá vão nove anos de paz total e, feitas as contas, poucos continuam a ter cada vez mais milhões e, é claro, milhões continuam a ter cada vez menos.

A constatação propagandística do MPLA, partido no poder desde 11 de Novembro de 1975, insere-se naquilo a que se convencionou chamar o Dia da Paz e da Reconciliação Nacional e que hoje se assinala.

Este desafio, segundo o MPLA e de acordo com um texto publicado por um dos órgãos oficiais do regime (o Jornal de Angola), deve constituir a base para continuar a construir o futuro do país.

O MPLA exortou os seus militantes, simpatizantes e amigos e todo os angolanos a transformarem as comemorações do 4 de Abril numa "verdadeira jornada de reflexão e de júbilo".

Que o regime esteja em júbilo (assinala desde logo a rendição da UNITA) ainda vá que não vá. No entanto, aos angolanos resta eventualmente reflectir... de barriga vazia.

Apesar de tudo, o regime espera que as reflexões dos angolanos não sejam muito profundas.

Reflectir sobre o estado actual de Angola é lembrar que apenas um quarto da população tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade; que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Reflectir sobre o estado actual de Angola é lembrar que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Reflectir sobre o estado actual de Angola é lembrar que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolano; que 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda.

Reflectir sobre o estado actual de Angola é lembrar que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

O MPLA pede aos angolanos que fortifiquem os laços de união em prol da busca de consensos para o futuro do país, a consolidação da unidade nacional e o aprofundamento do processo democrático em curso.

Essa do aprofundamento do processo democrático em curso é mesmo brilhante. Aliás, nem sequer haveria necessidade de o aprofundar. Basta ver que, por exemplo, o presidente da República, José Eduardo dos Santos, está no poder há 32 anos sem nunca ter sido eleito...

Por alguma razão, o MPLA (dirigido por José Eduardo dos Santos) aproveita a ocasião para reiterar ao presidente da República (José Eduardo dos Santos) e ao Executivo (liderado por José Eduardo dos Santos) todo o seu apoio na direcção e realização das ingentes tarefas da reconstrução nacional, visando a melhoria das condições de vida do povo.

"A paz tem permitido ao nosso povo o usufruto do direito à segurança, à tranquilidade, à estabilidade e à livre circulação em todo o território nacional e tem facilitado o processo de reconstrução e de criação de infra-estruturas para o desenvolvimento, o que tem sido constatado, de forma entusiasta, por todos os de boa-fé, cientes de que a paz veio para ficar e de que o futuro será infinitamente melhor do que o passado", lê-se na declaração do regime.

Pois é. Tudo isso é visto, sentido, apoiado e reconhecido pelo menos por 70 por cento da população que, recorde-se, continua na miséria.

"O processo de reconciliação nacional, que continua a decorrer de forma sólida, não obstante as inúmeras tentativas de o dificultar, permite que os angolanos acreditem no futuro e tem constituído um factor importante para a consolidação da economia e o seu notado crescimento, viabilizando o processo de reconstrução nacional e a paulatina melhoria das condições de vida do nosso povo", sublinha a declaração do Secretáriado do Bureau Político do MPLA, sobre o Dia da Paz e da Reconciliação Nacional.

O MPLA, o regime, José Eduardo dos Santos (são tudo sinónimos) não diz mas, importa reconhecê-lo, as “inúmeras tentativas de dificultar” todo o processo fazem com que, no mínimo, o MPLA precise aí de mais uns 30 anos para tornar o país num Estado de Direito.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

domingo, 3 de abril de 2011

“JOBS FOR DE BOYS” ANTES QUE SEJA TARDE!

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

O Governo português, e embora esteja demissionária não deixa de ser socialista na versão José Sócrates, não parou de contratar e promover funcionários após o chumbo do PEC 4 a 23 de Março.

A tese é cada vez mais a de “jobs for de boys” antes que seja tarde! De acordo com as publicações em Diário da República contabilizadas pelo jornal “Diário de Notícias”, o Executivo de José Sócrates assinou 85 nomeações e 71 promoções.

Nada mau. É, aliás, uma forma de contribuir para a diminuição do desemprego. Com este decisivo contributo socialista, já não serão 700 mil os desempregados...

Com as eleições marcadas já para 5 de Junho, algumas nomeações para, por exemplo, gabinetes ministeriais terão de sair num máximo de três meses. Caso disso é a nomeação para adjunto da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.

Em sete dias, este número de nomeações - 85 - traduz-se numa média recorde de 12 por dia.

Como diria José Junqueiro, este será com certeza mais um exemplo de que o primeiro-ministro José Sócrates “é uma oportunidade para o país, mas também um exemplo para a Europa”.

O ministério que mais nomeações fez foi o da Administração Interna, com 19 novos membros. Depois seguiu-se a Presidência do Conselho de Ministro, com 13 nomeações e o Ministério da Defesa, com nove. O jornal escreve que das 85 nomeações, 27 foram substituições.

Bem podem “salivar” os partidos a oposição, mas que Sócrates é o perito dos peritos nesta matéria de protecção aos seus vassalos, lá isso é. O homem sabe o que faz e, é claro, os “boys” agradecem penhoradamente.

Embora não se aplique aos portugueses de segunda, os de primeira (socialistas na versão Sócrates) sabem que precisam de homens públicos que saibam estar à altura das responsabilidades.

Este é apenas o mais recente exemplo. Não admira, por isso, que o primeiro-ministro seja considerado pelos seus acólitos como o motor da esperança para vencer as dificuldades, pois José Sócrates não só tem um discurso da resistência e ganhador como pratica o bem junto dos seus apaniguados.

Cada vez mais os “boys” socialistas enaltecem a similitude entre Deus (no céu) e José Sócrates (na terra).

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

A COSTA DO MARFIM EXISTE MESMO?

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

O Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) afirma que num só dia foram mortas pelo menos 800 pessoas em Duékoué, na zona oeste da Costa do Marfim.

Nada de importante a fazer fé nas preocupações humanitárias da NATO, dos EUA, da Europa que – com a cobertura mediática necessária (como é o caso das televisões portuguesas) – estão mais preocupados com o que se passa na pátria do, citando José Sócrates, “lider carismático” Muammar Kadhafi.

"Não há dúvida que se passou nesta cidade (Duékoué) qualquer coisa de grandes dimensões e o CICR ainda está a recolher informações", afirma a porta-voz da organização em Genebra, Dorothea Krimitsas, adiantando que os delegados da Cruz Vermelha tinham "eles mesmo visto um grande número de corpos".

A chefe da diplomacia do CICR na Costa do Marfim, Dominique Leingme, considera que "este acontecimento é particularmente chocante pela sua dimensão e brutalidade".

"O CICR condena os ataques directos contra os civis e recorda a obrigação das partes envolvidas no conflito de assegurar, em todas as circunstâncias, a protecção sobre o território que controlam", acrescentou Dominique Leingme.

Nos últimos dias aumentaram os confrontos na Costa do Marfim entre partidários do presidente cessante, Laurent Gbagbo, e do seu rival, Alassane Ouattara, reconhecido pela comunidade internacional como tendo ganho as eleições.

Militares leais ao presidente cessante, Laurent Gbagbo, apelaram à mobilização das tropas para a "protecção das instituições da República", durante uma mensagem lida na televisão estatal RTI.

Entretanto, a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, pediu a saída "imediata" do presidente Laurent Gbagbo, referindo ainda que os autores das violações dos direitos humanos no país "serão responsabilizados diante da justiça internacional".

A Costa do Marfim encontra-se em guerra civil desde que Gbagbo não aceitou a derrota frente a Alassane Outtara na segunda volta das eleições presidenciais.

Recorde-se, entretanto e apenas por mera curiosidade, que o Chefe de Estado do Senegal, Abdoulaye Wade, acusa o governo angolano de dar apoio militar e financeiro a Laurent Gbagbo.

Porque é que isto se passa na Costa do Marfim? Apenas porque se esqueceram, neste e em muitos outros casos, de dizer que, para além de haver (uma espécie de) eleições, quando as há, quem perde tem de sair.

Laurent Gbagbo, como exigia a comunidade internacional, lá pôs o povo a votar. Mas como não explicaram tudo, ele esqueceu-se (ao contrário do que fez em Angola o seu grande amigo José Eduardo dos Santos) de pôr os mortos a votar. Vai daí, perdeu. Perdeu mas não quer sair.

Tal como na Líbia, na Costa do Marfim existem muitas armas e muita gente para morrer. A situação tem, pelo menos a fazer fé nos muitos exemplos que chegam da região, uma grande vantagem: o povo morre mas as riquezas continuam lá...

A comissária para a ajuda humanitária e controlo de crises da União Europeia, Kristalina Georgieva, diz que “a crise merece a mesma atenção à de outros países em conflito, por causa do número de pessoas afectadas, que excede as que vivem a mesma situação na Líbia”.

Do ponto de vista mediático, o importante é mostrar ao mundo que a aviação líbia tornou em escombros grande quantidade de prédios. Reconheço que tal não acontece em África.

Não acontece mesmo. Em zonas onde há milhões de pessoas que vivem (quando vivem) em cubatas é difícil, calculo eu, ter imagens de prédios destruídos...

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

sábado, 2 de abril de 2011

EM ANGOLA, QUEM TEM BARRIGA TEM MEDO!

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Se alguma dúvida (ainda) existisse sobre a liberdade em Angola, bastava ver que apenas cerca de 50 pessoas, sobretudo jovens, participam na manifestação de hoje, em Luanda, em defesa da liberdade de expressão.

Os jovens que convocaram a manifestação, crentes de que Angola é um Estado de Direito e uma democracia, são sobretudo os mesmos que tentaram no passado dia 7 de Março pôr a força da razão acima da razão da força.

Ingénuos, como é próprio – e ainda bem – da juventude, acreditaram que seria possível fazer ouvir a sua voz crítica num país que, para além de um presidente não eleito e há 32 anos no poder, é constituído por 70 por cento de pobres.

De qualquer modo, como aconteceu com a manifestação anterior, também a de hoje deixa sementes que um dia destes poderão nascer e, talvez, vir a dar voz a quem a não tem, ao contrário do que agora se passa, já que voz só o regime é que tem.

«Miséria, esquecimento da família, desfalques, roubos no estado angolano, estrangeiros em primeiro lugar, prepotência e arrogância, ditadura de José Eduardo dos Santos no poder, basta!», é uma das mensagens escritas num dos cartazes. Mensagem que, aliás, retrata bem o que se passa no reino de José Eduardo dos Santos.

De prático, e no imediato, pouco trará. Fica, contudo, a certeza de que o regime sabe o que o povo pensa e por isso tem tanto medo.

Outros cartazes dizem: «Viva a liberdade de expressão», «Libertem as mentes, angolanos», «Senhor arquitecto [referência e Eduardo dos Santos], refaz o plano».

Os mais corajosos, o que no caso de Angola é sinónimo de um provável choque com uma bala perdida, gritaram contra aditadura do regime do MPLA, mostrando aos donos do país e também à comunidade internacional, que para Angola não ser uma ditadura só terá de... deixar de ser uma ditadura.

Entretanto, mesmo com a cobertura criminosa da comunidade internacional e até mesmo da própria CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa (à qual, aliás, Angola preside), haverá sempre quem nunca esqueça que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Quem nunca esqueça que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Quem nunca esqueça que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos, que 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros, que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população, que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda.

Quem nunca esqueça que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.


sexta-feira, 1 de abril de 2011

A SALVAÇÃO ESTÁ NO MPLA. AMÉN!

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Às ocidentais praias, lusitanas e socialistas, situadas a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos, restam duas únicas alternativas, como bem sabem os 700 mil desempregados, os 20% de miseráveis e os outros 20% que já estão à porta da miséria.

Portugal ou se afunda totalmente (já é pouco o que está fora de água) e passa o testemunho a uma comissão liquidatária liderada por exemplo por Angola, ou assume que quer ser uma espécie de Burkina Faso da Europa.

Aliás, nada disto é novo. Há mais de 500 anos que os antepassados dos portugueses sabiam que o reino não tinha futuro se aceitasse passivamente estar limitado às actuais fronteiras.

Foi por isso que, num daqueles rasgos de heroicidade de outros tempos resolveram dar luz ao mudo.

Lembram-se que foi um português que disse "De África tem marítimos assentos; É na Ásia mais que todas soberana; Na quarta parte nova os campos ara; E se mais mundo houvera, lá chegara!"?

Regressemos, entretanto, à versão sul-europeia do Burkina Faso. Portugal continua, de facto e cada vez mais de jure, sem ser um país, sem ser um Estado de Direito. É cada vez mais um local muito mal frequentado em que uma reduzida casta de "nobres" donos da verdade escraviza toda a plebe, tratando-a como se fossem escravos. E já faltou mais para o serem.

Em Portugal nada funciona bem para a esmagadora maioria, embora funcione quase na perfeição para os que estão no poder e, é claro, para os que têm esperanças de lá chegar a curto prazo.

Segundo a Transparency International, mais de meio mundo acredita que partidos, parlamentos, polícia e tribunais são as instituições mais atingidas por uma corrupção quotidiana generalizada.

Todavia, no caso do tal reino das ocidentais praias socialistas lusitanas, tudo se resolverá com o tal "apelo à cidadania responsável e participativa" para a qual, penso, é fundamental que os portugueses se inscrevam nas organizações mais incólumes à corrupção e que, nesta altura, são com certeza os partidos nacionais, a começar pelo Socialista de José Sócrates, mas sem esquecer todos os outros.

Mas nada disto é relevante. Importa é salientar o orgulho luso de ver Sócrates dizer a Durão Barroso: "Conseguimos, pá!", de ver Cavaco Silva levar cem empresários ao reino de Angola, de ver Pedro Passos Coelho de “joelhos” (segundo o PS) em Espanha...

Ao que parece, 70% dos portugueses (claramente manipulados pelas forças do mal que só sabem fazer campanhas negras) considera os partidos políticos (isto é, aqueles seitas consideradas vitais nas democracias) as instituições mais corruptas.

Mas poderá lá ser! Corrupção nos partidos portugueses? Certamente que Transparency International se esqueceu de ouvir os militantes socialistas, os candidatos a militantes socialistas, os desempregados que querem ser socialistas para arranjar emprego, os empregados à custa do PS etc. Se os tivesse ouvido saberíamos que no partido de José Sócrates a corrupção não entra. E não entra porque já lá está, porque nunca de lá saiu, digo eu.

"Hoje somos confrontados diariamente com dramas pessoais e familiares que dificilmente poderíamos imaginar. São dramas que as estatísticas nem sempre revelam, mas que nos vão alertando para a dimensão social que a actual crise económica e financeira tem vindo a assumir", declarou pelo menos uma vez o chefe de Estado português, como se nada tivesse a ver com o assunto.

Que Cavaco Silva tenha dificuldade em imaginar os múltiplos dramas dos portugueses, ainda vá que não vá. Não pode, contudo, é escudar-se na ignorância de quem vive longe do país real para sacudir a água do capote e para fingir que não sabe que Portugal talvez gostasse de ser mas (ainda) não é um Estado de Direito.

Um Estado de Direito conquista-se quando se não tem medo de dizer a verdade. E esta, quer o presidente queira ou não, não é pertença nem do queixoso, nem do réu, nem do juiz e muito menos daqueles que têm dinheiro para comprar o queixoso, o réu e o juiz.

Os políticos de uma forma geral, sejam o Presidente da República, os membros do Governo, os deputados ou autarcas, teimam em tapar o sol com uma peneira, mesmo quando o fazem a meio da noite.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que tomasse medidas para castigar tanto o ladrão que entra em casa como o que fica à porta. Mas não. Cavaco Silva, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, parece querer castigar as vítimas e não os ladrões.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que visse a quem beneficia a infracção, que argumentos usa para cilindrar a liberdade e sobretudo porque o faz de forma completamente impune.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia muita coisa. E não apenas o óbvio para tudo continuar na mesma, para uns relembrarem o António (de Oliveira Salazar) e outros a necessidade de uma nova revolução.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal), espero que ao menos tenha a ousadia de convidar quem pode, no caso o seu amigo e homólogo José Eduardo dos Santos, para tomar conta de Portugal.

Platão dizia que "o castigo por não participares na política é acabares por ser governado por quem te é inferior." Pior do que isso, é ser governado por quem é inferior e falido.

No caso de ser o MPLA a colonizar Portugal, ao menos tinham a vantagem de não estarem falidos...

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Para o regime angolano, até prova em contrário todos são... culpados!

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ANGOLA 24 HORAS – 31 março 2011

Em Angola "vive-se uma democracia com medo", diz o "rapper" angolano Mona Dya Kidi, um dos organizadores da manifestação que está marcada para amanhã, no Largo da Independência, em Luanda.

Falar, no caso de Angola, de democracia com medo é uma forma de branquear a situação, compreensível no contexto de que os angolanos sabem que o regime mata primeiro e pergunta depois. Aliás, se existe medo é porque não existe democracia.

"Angola é uma democracia exercida com medo. A prova disso é que só tivemos 17 pessoas no dia 7. Num país democrático, que tem milhões de problemas, aparecerem 17 pessoas é óbvio que alguma coisa não está bem", disse Mona Dya Kidi, em entrevista à Agência Lusa.

O regime de Eduardo dos Santos, no poder há 32 anos sem nunca ter sido eleito, sabe bem que a melhor forma de exercer a sua “democracia” é ter 70% da população na miséria, é ter tirado a coluna vertebral à esmagadora maioria dos seus opositores políticos, a começar pela UNITA, é dizer ao povo que tem de escolher entre a liberdade um saco de fuba.

Recorde-se, não que isso faça diferença na apatia da comunidade internacional, que mesmo só aparecendo meia dúzia de pessoas na manifestação do dia 7 de Março, todas foram detidas durante algumas horas.

O regime não brinca em serviço e, por isso, nada como preventivamente mostrar aos manifestantes (bem como aos jornalistas presentes) que quem manda é o MPLA.

José Eduardo dos Santos que tem, que ainda tem, a cobertura internacional (comprada, mas tem), sabe que pôr o povo a pensar com a barriga é a melhor forma de o manter calado e quieto.

Aliás, se assim não for o que lhe restará? Provavelmente, “peixe podre, fuba podre, 50 angolares e porrada se refilares”.

Amanhã, a haver manifestação, deverão os angolanos revindicar coisas simples para não chatear o dono do país. Mas não sei se ele vai na cantiga. Defender a liberdade de expressão não é nada do outro mundo, mas é algo que o regime não quer. Tudo quanto envolva a liberdade (com excepção da liberdade para estar de acordo com o regime) é algo que causa alergias graves a Eduardo dos Santos.

Mona Dya Kidi diz que vão “gritar, cantar a nossa dor, reclamar os nossos prantos. Vamos levar cartazes, 'vuvuzelas' e clamar por uma Angola mais democrática, uma Angola mais livre".

Recorde-se, a propósito da anterior manifestação, que Bento Bento, primeiro secretário provincial de Luanda do MPLA, foi claro quando disse: "Quem tentar manifestar-se será neutralizado, porque Angola tem leis e instituições e o bom cidadão cumpre as leis, respeita o país e é patriota."

Apesar da não-manifestação de 7 de Março, mesmo dando como controlada a de amanhã, a verdade é que estas acções fazem tremer o regime. A tal ponto que perante o anúncio da primeira manifestação, o Governo angolano apressou-se a pagar salários em atraso nas Forças Armadas e na Polícia, a fazer promoções em série e a, inclusive, a mandar carradas de alimentos para a casa de milhares de militares.

Basta também ver que, perante essa manifestação, o regime pôs nas rua e por todo o lado – mesmo em locais onde os angolanos nem sabiam que iria haver manifestação – os militares e a polícia a avisar que qualquel apoio popular aos insurrectos significava o regresso da guerra.

No entanto, por muita força que tenha a máquina repressora do regime angolano (e tem-na), por muito apoio que tenha de alguns órgãos de comunicação estrangeiros, como a RTP, nunca conseguirá fazer esquecer que 70% dos engolanos vivem na miséria.

Nunca fará esquecer que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Nunca fará esquecer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Nunca fará esquecer que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos, que 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros, que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população, que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda.

Nunca fará esquecer que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Por tudo isto, a luta continua e a vitória é certa! Pode demorar, mas vai chegar.

Orlando Castro

A força da razão acima da razão da força

www.altohama.blogspot.com

quinta-feira, 31 de março de 2011

É PRECISO TER UM GALO DO CARAÇAS...

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Em Novembro de 2006, a propósito das intenções do Governo português querer extinguir a Caixa dos Jornalistas, meditei no facto de os assessores de imprensa do Governo socialista de José Sócrates ganharem entre 2400 e 4500 euros... por mês.

E de tanto meditar, aceitei a sugestão de um amigo e fui filiar-me no PS.

Entre os que tinham ordenados-base mais altos estavam os responsáveis da comunicação dos ministros das Finanças, dos Negócios Estrangeiros, da Administração Interna e da Justiça, que recebiam mais do que os do primeiro-ministro.

Era, pensei, a altura exacta para me filiar no PS.

De acordo com o jornal Público (18.06.2006), o elevado valor dos ordenados justificava-se com o facto dos salários não serem obrigatoriamente tabelados, podendo ser negociados entre as partes desde que se abdique das despesas de representação.

Assim, e de acordo com o despacho de nomeação de responsável pela pasta das Finanças, Teixeira dos Santos, a assessora Fernanda Pargana tinha na altura um ordenado-base 4500 euros.

Numa altura em que tudo é «simplex», sobretudo se for mais «PSimplex», o Governo mostrava que, afinal, a tradição continuava a ser o que era e que, como ontem, os "jobs" são para os "boys", os génios são menos importantes do que os néscios desde que estes tenham cartão do partido.

Néscio ou não, o importante era mesmo ser filiado no PS.

O Governo simulou que queria alterar o (mau) estado das coisas mas, mais uma vez, era mais a parra do que a uva. Mais o acessório do que o essencial. Bastava ver que 70% do total de rendimentos brutos declarados em sede de IRS pertenciam a trabalhadores dependentes.

Tudo como dantes. Ou seja, era mesmo a altura para fazer a filiação no PS.

José Sócrates sabia, e continua a saber, como ninguém que a comunicação social é vital para vender gato por lebre, e para além de recrutar jornalistas para assessorar os seus ministros colocou os jornalistas do partido nos locais certos.

Mais uma razão para enviar, em correio registado, a filiação para o Largo do Rato.

Sócrates sabia bem que os jornalistas também sabem que mais vale ser um propagandista de barriga cheia do que um ilustre Jornalista com ela vazia. E como é duro ter a barriga vazia...

Este Governo (tal como os outros) está-se nas tintas para os portugueses em geral e para os Jornalistas em particular. Mas isso nem sequer é relevante, pensei.

E não é relevante porque, regra geral, os Jornalistas sabem contar até 12 sem terem de se descalçar. Assim sendo, fazem contas e chegam à conclusão de que o melhor é estar de acordo, é dizer sempre que sim, é ter o cartão do partido que está no poder.

É que, se não for nos jornais haverá sempre um lugar como assessor que, mais volta menos volta, abre as portas para se ser director de um jornal.

Por alguma razão Inês Pedrosa dizia que "temos cada vez mais jornalistas que saltam das redacções para se tornarem criados de luxo do poder vigente".

A palavra criado não me agradava. Mas entre criado a ganhar bem e jornalista de prato vazio... a escolha pareceu-me simples. Além disso, depois dessa rodagem há sempre a possibilidade de ver criados saltarem do poder para serem directores de jornais.

Apesar de tudo isto, a verdade é que nunca saí da cepa torta. O tempo passou e nada. Nem para criado do poder me chamaram.

Foi então que decidi saber o que se passava com a minha filiação.

Não é que, ao fim de muita procura, descobriram que os serviços tinham metido a minha ficha de inscrição no mesmo sítio onde José Sócrates meteu a maioria dos portugueses: no caixote do lixo.

Digam lá que não é preciso ter um galo do caraças...

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Portugueses africanos e portugueses europeus não são, e jamais...

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… poderão ser, a mesma coisa!

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Os portugueses, apesar de viverem muito bem no seu país (só são 700 mil desempregados, 20% de pobres e outros tantos a olhar para os pratos vazios), continuam a aventurar-se por terras angolanas.

Como em tempos dizia o meu amigo Gil Gonçalves, “quando a cabeça não dá para mais nada, a única saída é embarcar para Angola e espoliar mais uns pretos”. Não é só a cabeça que não dá para nada, o próprio país é um deserto e os seus dirigentes uma resistente espécie de parasitas.

Mas, diga-se, a culpa não é só dos portugueses de hoje que, ao contrário dos de ontem, procuram sacar tudo o que podem, começando o exemplo pelos governantes, passando pelos gestores e administradores públicos e restante casta.

A culpa também é dos angolanos que colocaram os de ontem, muitos dos quais deixaram mesmo o cordão umbilical em Angola, ao mesmo nível dos de hoje, ou muitas vezes a um nível bem mais baixo.

Em Angola causa alguma estranheza o facto de, apesar da presença massiva de portugueses, eles nunca serem mencionados nos balanços do Serviço de Migração e Estrangeiros sobre a expulsão de expatriados.

E estranha-se porquê? Porque, mesmo considerando que esses cidadãos são súbditos de sua majestade D. José Sócrates, as vítimas dos serviços de migração são por regra africanos e, de quando em vez, uns chineses.

Em Maio de 2009, o Semanário Angolense dizia que “aos outros imigrantes é exigido o cumprimento da lei, mas aos portugueses não”. E acrescentava: “Muitos até falsificam documentos e dizem-se naturais de Malange – maioritariamente “nasceram” em terras da Palanca Negra –, Huíla, Benguela, mesmo sem nunca lá terem estado”.

E o jornal concluía: “É urgente investigar e descobrir quem promove e protege essa invasão silenciosa de portugueses”.


É verdade que são aos milhares os portugueses africanos que agora nasceram de gestação espontânea, uma espécie de mercenários que nada têm em comum com muitos outros portugueses de outrora, esses sim africanos de alma e coração.

Os novos descobridores vão para a África rica (caso de uma parte de Angola) sacar tudo o que for possível e depois regressam à sua normal e tipificada forma de vida, voltando a ter a porta sempre fechada aos africanos.

Com a conivência consciente de Eduardo dos Santos, que não dos angolanos, Portugal aposta tudo o que tem (lata) e o que não tem (dignidade) nos muitos mercenários que têm as portas blindadas e sempre fechadas, remetendo para as catacumbas todos aqueles portugueses que sempre tiveram a porta aberta.

Como é que se vê a diferença? É simples.

A grande diferença é que os portugueses europeus, os que agora aceleram na tentativa de chegar à cenoura na ponta da vara de Angola, sempre consideraram (quiçá com razão) que até prova em contrário todos os estranhos são culpados.

Já os portugueses africanos, os que deram luz ao mundo, os que choram ao ouvir Teta Lando, Elias Dia Kimuezo, Carlos Lamartine ou os N’Gola Ritmos, entenderam que até prova em contrário todos os estranhos são inocentes.

Em África, os portugueses africanos aprenderam a amar a diferença e com ela se multiplicaram. Aprenderam a ser solidários com o seu semelhante, fosse ele preto, castanho, amarelo ou vermelho. Aprenderam a fazer sua uma vivência que não estava nas suas raízes.

Na Europa, os portugueses aprenderam a desconfiar da diferença e a neutralizá-la sempre que possível. Aprenderam a ser individualistas mesquinhos e a só aceitar a diferença como exemplo raro das coisas do demónio.

Com o re(in)gresso de milhares de portugueses africanos ao Portugal europeu, a situação alterou-se apenas por breves momentos. Tão breves que hoje, 36 anos depois da debandada africana, quase se contam pelos dedos de uma mão os que ainda se assumem como portugueses africanos.

Isto é, muitos dos portugueses europeus que foram para África tornaram-se facilmente africanos. No entanto, ao re(in)gressarem às origens ressuscitaram a velha mesquinhez de um país virado para o umbigo, de um país de portas fechadas. Voltaram a ser apenas europeus.

Nessa mesma leva vieram muitos portugueses africanos nascidos em África. Esses não re(in)gressaram em coisa alguma. Mantiveram-se fiéis às suas raízes mas, é claro, tiveram (e ainda têm) de sobreviver.

Apesar disso, só olham para o umbigo de vez em quando e as suas portas só estão meias fechadas.

Acresce que muitos destes acabaram por constituir vida em Portugal, muitos casando com portugueses europeus. Por força das circunstâncias, passaram a olhar mais vezes para o umbigo e a porta fechou-se quase completamente.

Chega-se assim aos filhos, nados e criados como “bons” tugas europeus. Estes só olham para o umbigo e trancaram a porta. Por muito que o pai, ou a mãe, lhes digam que até prova em contrário todos (brancos, pretos, amarelos, castanhos ou vermelhos) são inocentes, eles já pouco, ou nada, querem saber disso.

Por força das circunstâncias, os portugueses africanos diluíram-se no deserto europeu, foram colonizados e só resistem alguns malucos que, por força dos seus ideais, admitiram que o presente de Portugal poderia estar na Europa, mas sempre e desde sempre tiveram a certeza que o futuro estava em África.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.