sábado, 26 de fevereiro de 2011

GADDAFI JÁ NÃO CONTROLA A LÍBIA, afirma Berlusconi

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Extra – Reuters - Brasil Online - 26 fevereiro 2011

ROMA (Reuters) - Muammar Gaddafi aparentemente já não comanda a Líbia, disse o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, principal aliado europeu de Gaddafi, no sábado.

"Eu tenho informações atualizadas há alguns minutos e parece que, efetivamente, Gaddafi já não controla a situação na Líbia", afirmou ele Roma.

O primeiro-ministro italiano, que tem relutado em condenar a violência na Líbia, disse que revoltas populares no norte da África podem levar à democracia e à liberdade, mas também podem gerar "centros perigosos do fundamentalismo islâmico a poucos quilômetros da nossa costa" e um grande êxodo de refugiados.

"Por esse motivo, a Europa e o Ocidente não podem permanecer como espectadores desse processo", disse ele. "Os acontecimentos das últimas semanas afetam as nossas relações comerciais, o nosso abastecimento de energia e a nossa própria segurança."
A Itália tem fortes laços comerciais com a Líbia, uma ex-colônia italiana, que fornece cerca de 25 por cento das necessidades de petróleo de Roma e 12 por cento das suas importações de gás.

(Reportagem de Silvia Aloisi)
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A LÍBIA E O IMPERIALISMO

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Workers World

De todas as lutas que agora decorrem no Norte de África e no Médio Oriente, a mais difícil de deslindar é aquela na Líbia.

Qual é o carácter da oposição ao regime Kadafi, a qual consta que agora controla a cidade de Bengazi, no Leste do país?

Será apenas coincidência que a rebelião tenha começado em Bengazi, a qual é a norte dos mais ricos campos petrolíferos da Líbia bem como próxima da maior parte dos seus oleodutos e gasodutos, refinarias e o seu porto de gás natural liquefeito (GNL)? Haverá um plano de partição do país?

Qual é o risco de intervenção militar imperialista, a qual apresenta grave perigo para o povo de toda a região?

A Líbia não é como o Egipto. Seu líder, Moamar Kadafi, não tem sido um fantoche imperialista como Hosni Mubarak. Durante muitos anos, Kadafi esteve aliado a países e movimentos que combatiam o imperialismo. Ao tomar o poder em 1969 através de um golpe militar, ele nacionalizou o petróleo da Líbia e utilizou grande parte do dinheiro para desenvolver a economia líbia. As condições de vida do povo melhoraram radicalmente.

Por isso, os imperialistas estavam determinados a deitar a Líbia abaixo. Os EUA em 1986 realmente lançaram ataques aéreos a Trípoli e Bengazi que mataram 60 pessoas, incluindo a menina filha de Kadafi – o que raramente é mencionado pelos media corporativos. Foram impostas sanções devastadoras tanto pelos EUA como pela ONU a fim de arruinar a economia líbia.

Depois de os EUA invadirem o Iraque em 2003 e arrasarem grande parte de Bagdad com uma campanha de bombardeamento que o Pentágono exultantemente chamou "pavor e choque", Kadafi tentou evitar a ameaça de outra agressão à Líbia fazendo grandes concessões políticas e económicas ao imperialismo. Ele abriu a economia a bancos e corporações estrangeiras; concordou com exigências do FMI quanto ao "ajustamento estrutural", privatizando muitas empresas estatais e cortando subsídios do estado a necessidades como alimentos e combustível.

O povo líbio está a sofrer dos mesmos preços elevados e desemprego que estão na base das rebeliões em outros lados e que decorre da crise económica capitalista mundial.

Não pode haver dúvida de que a luta que varre o mundo árabe pela liberdade política e a justiça económica também tocou um ponto sensível na Líbia. Não há dúvida de que o descontentamento com o regime Kadafi está a motivar uma secção significativa da população.

Contudo, é importante para gente progressista saber que muitas das pessoas que estão a ser promovidas no Ocidente como líderes da oposição são há muito agente do imperialismo. A BBC mostrou em 22 de Fevereiro filmes de multidões em Bengazi deitando abaixo a bandeira verde da república e substituindo-a pela bandeira do antigo rei Idris – que foi um fantoche dos EUA e do imperialismo britânico.

Os media ocidentais baseiam grande parte das suas reportagens sobre supostos factos fornecidos pelos grupo exilado Frente Nacional para a Salvação da Líbia (National Front for the Salvation of Libya), a qual foi treinada e financiada pela CIA estado-unidense. Pesquise no Google o nome da frente mais CIA e encontrará centenas de referências.

O Wall Street Journal de 23 de Fevereiro escreveu em editorial que "Os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubarem o regime Kadafi". Não há qualquer conversa nas salas das administrações ou nos corredores de Washington acerca de intervir para ajudar o povo do Kuwait ou da Arábia Saudita ou do Bahrain a derrubarem seus governantes ditatoriais. Mesmo com todos os falsos elogios às lutas de massas que agora sacodem a região, isso seria impensável. Em relação ao Egipto e à Tunísia, o imperialismo está a mover todas as alavancas que podem para tirar as massas das ruas.

Tão pouco houve qualquer conversa de intervenção dos EUA para ajudar o povo palestino de Gaza quando milhares morreram por serem bloqueados, bombardeados e invadidos por Israel. Exactamente o oposto. Os EUA intervieram para impedir a condenação do estado colonizador sionista.

O interesse do imperialismo na Líbia não é difícil de descobrir. Em 22 de Fevereiro a Bloomberg.com escreveu: se bem que a Líbia seja o terceiro maior produtor de petróleo da África, é o país do continente que tem as maiores reservas provadas — 44,3 mil milhões de barris. É um país com uma população relativamente pequena mas com potencial para produzir enormes lucros para as companhias de petróleo gigantes. É assim que os super ricos a encaram e é o que está por trás da sua apregoada preocupação com os direitos democráticos do povo da Líbia.

Obterem concessões de Kadafi não é suficiente para os barões imperialistas do petróleo. Eles querem um governo sob a sua dominação total, tudo do bom e do melhor. Eles nunca esqueceram que Kadafi derrubou a monarquia e nacionalizou o petróleo. Fidel Castro, em Cuba, na sua coluna "Reflexões" regista o apetite do imperialismo por petróleo e adverte que os EUA estão a lançar as bases para a intervenção militar na Líbia.

Nos EUA, algumas forças tentam mobilizar uma campanha a nível de rua promovendo uma intervenção estado-unidense. Deveríamos opor-nos a isto totalmente e recordar a qualquer pessoa bem intencionada os milhões de mortos e deslocados pela intervenção dos EUA no Iraque.

As pessoas progressistas têm simpatia com o que encaram como um movimento popular na Líbia. Podemos ajudar tal movimento principalmente pelo apoio às suas exigências justas mas rejeitando uma intervenção imperialista, seja qual for a forma que assuma. É o povo da Líbia que deve decidir o seu futuro.

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· Ver também: Faut-il intervenir militairement en Libye ? , de Alain Gresh
O original encontra-se em http://www.workers.org/2011/editorials/libya_0303/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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O PLANO DA OTAN É OCUPAR A LÍBIA

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GRANMA

O petróleo se converteu na riqueza principal, nas mãos das grandes multinacionais ianques; através dessa energia dispuseram de um instrumento que acrescentou consideravelmente seu poder político no mundo. Foi sua arma principal quando quiseram liquidar facilmente a Revolução cubana, mal se promulgaram as primeiras leis justas e soberanas em nossa Pátria: privá-la do petróleo.

Alicerçada nessa fonte de energia teve seu desenvolvimento a civilização atual. A Venezuela foi a nação deste hemisfério que maior preço pagou. Os Estados Unidos se tornaram nos donos das enormes jazidas com a que a natureza dotou esse irmão país.

Ao finalizar a Segunda Guerra Mundial, começou a extrair maiores volumes de petróleo das jazidas do Irã, bem como das da Arábia Saudita, Iraque e os países árabes situados em torno destes países. Estes passaram a ser os fornecedores principais. O consumo mundial foi se elevando até a quantia fabulosa de aproximadamente 80 milhões de barris diários, incluídos os que são extraídos do território dos Estados Unidos, aos que posteriormente se somaram o gás, a energia hidráulica e a nuclear. Até começos do século 20, o carvão tinha sido a fonte fundamental de energia, que tornou possível o desenvolvimento industrial, antes que se produzissem bilhões de carros e de motores consumidores de combustível líquido.

O esbanjamento do petróleo e do gás é associado a uma das maiores tragédias, ainda não resolvido no absoluto, que a humanidade está sofrendo: a mudança climática.

Quando a nossa Revolução triunfou, Argélia, Líbia e Egito ainda não eram produtores de petróleo e boa parte das quantiosas reservas da Arábia Saudita, Irã, Iraque e os Emirados Árabes, ainda estavam por serem descobertas.

Em dezembro de 1951, Líbia se converteu no primeiro país africano a atingir a independência, depois da Segunda Guerra Mundial, tendo sido seu território palco de importantes combates entre as tropas alemãs e as do Reino Unido, que deram fama aos generais Erwin Rommel e Bernard L. Montgomery.

Mais de 95% do território líbio é desértico. A tecnologia permitiu descobrir importantes jazidas de petróleo leve, de excelente qualidade, que hoje atingem 1,8 milhão de barris diários e abundantes depósitos de gás natural. Essa riqueza lhe permitiu atingir uma expectativa de vida que chega quase aos 75 anos, e o mais alto ingresso per capita da África. Seu rigoroso deserto é situado acima de um enorme lago de água fóssil, equivalente a mais de três vezes a superfície de Cuba, questão que lhe permitiu construir uma ampla rede de tubagens condutoras de água doce que se estende pelo país todo.

A Líbia, que tinha um milhão de habitantes ao atingir a independência, hoje conta com algo mais de seis milhões.

A Revolução líbia teve lugar no mês de setembro do ano 1969. Seu líder principal foi Muammar al-Khadafi, militar de origem beduína, quem ainda muito jovem se inspirou nas ideias do líder egípcio Gamal Abdel Nasser. Sem dúvida, muitas de suas decisões estão associadas às mudanças que se produziram na altura em que, tal como no Egito, uma monarquia fraca e corrupta foi derrocada na Líbia.

Os habitantes desse país têm tradições guerreiras milenares. Fala-se que os antigos líbios fizeram parte do exército de Aníbal quando este esteve prestes a liquidar a antiga Roma com a força que cruzou os Alpes.

Pode-se ou não concordar com Khadafi. O mundo foi invadido por todo o tipo de notícias, empregando, especialmente, a mídia. Será preciso esperar o tempo necessário para conhecermos com rigor, o quanto há de verdade ou mentira. Ou uma mistura de fatos de todo tipo que, em meio do caos, se produziram na Líbia. O que para mim se torna evidente é que ao governo dos Estados Unidos não lhe preocupa minimamente a paz na Líbia e não vacilará na hora de dar à OTAN a ordem de invadir esse rico país, talvez em questão de horas ou em breves dias.

Aqueles que com pérfidas intenções inventaram a mentira de que Khadafi se dirigia à Venezuela, tal como fizeram na tarde de domingo 20 de fevereiro, receberam hoje uma digna resposta do ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolas Maduro, quando expressou textualmente que "fazia votos porque o povo líbio encontre, no exercício de sua soberania, uma solução pacífica a suas dificuldades, que preserve a integridade do povo e da nação líbia, sem a ingerência do imperialismo..."

Da minha parte, não imagino o líder líbio abandonando o país, eludindo as responsabilidades que lhe imputam, sejam ou não falsas em parte ou na totalidade.

Uma pessoa honesta sempre reagirá contra qualquer injustiça que seja cometida contra qualquer povo do mundo, e o pior disso, neste instante, seria guardar silêncio diante do crime que a OTAN se prepara para cometer contra o povo líbio.

A chefia dessa organização bélica quer fazê-lo com urgência. É preciso denunciar isso!

Fidel Castro Ruz - 21 de fevereiro de 2011
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Iémen: Chefes tribais dão apoio à contestação contra o presidente

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MCL – LUSA

Sana, 26 fev (Lusa) - Importantes chefes tribais e dezenas de milhares dos seus homens armados deram hoje o seu apoio à contestação contra o presidente do Iémen, Ali Abdallah Saleh, durante um comício no norte de Sana.

Segundo fontes tribais, os chefes de duas das mais importantes tribos do país, onde a estrutura de clã é muito importante, os Hached e os Baqil, afastaram-se do presidente, no poder há 32 anos.

Um dos chefes dos Hached, o xeque Hussein bem Abdallah Al-Ahmar, anunciou a sua "demissão do partido do Congresso Popular General para protestar contra a repressão dos manifestantes pacíficos em Sana, Taez e Aden".

A Hached, considerada a mais importante tribo iemenita, é formada por nove filiais, entre as quais a Sanhane, à qual pertence o chefe de Estado.

O anúncio de Al-Ahmar foi saudado por inúmeros membros tribais, entre os quais os chefes dos Baqil, a segunda tribo mais importante do Iémen e a mais numerosa, indicaram as mesmas fontes.
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“COMO MUDAR O MUNDO”

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Resenha de Hobsbawm, Eric; Como mudar o mundo: Marx e o marxismo 1840-2011 (How to change the world: Marx and Marxism 1840-2011), 2011: Little Brown, 470 pp.

Outras Palavras - Terry Eagleton, do London Review of Books - Tradução: Coletivo VilaVudu

Em 1976, muita gente no ocidente pensava que o marxismo era ideia a favor da qual se podia facilmente argumentar. Em 1986, a maioria das mesmas pessoas já não pensavam como antes. O que aconteceu nesse entretempo? Estarão todos aqueles marxistas enterrados sob uma pilha de filhos engatinhantes? Todo o marxismo terá sido desmascarado, com seus vícios expostos por novas pesquisas revolucionárias fortes? Terá alguém tropeçado em manuscrito perdido, no qual Marx confessou que era tudo mentira, piadinha?

Estamos falando, atenção, sobre 1986, poucos anos antes do colapso do bloco soviético. Como Eric Hobsbawm lembra nessa coleção de ensaios, não foi o colapso do bloco soviético que levou tantos crentes tão fiéis a mandar para a lixeira os cartazes de Guevara. O marxismo já estava em pandarecos desde alguns anos antes de o muro de Berlim vir abaixo. Uma das razões da debacle foi que o tradicional agente das revoluções marxistas, a classe trabalhadora, havia sido varrida do mundo por mudanças do sistema capitalista – ou, pelo menos, já não era maioria significativa. É verdade que o proletariado industrial encolheu muito, mas Marx jamais disse que a classe trabalhadora fosse composta só de proletários da indústria.

Em Das Kapital, os trabalhadores do comércio aparecem no mesmo nível que os trabalhadores da indústria. Marx também sabia muito bem que o maior, e muito maior, grupo de trabalhadores assalariados de seu tempo não eram os trabalhadores da indústria, mas os empregados domésticos, a maioria dos quais eram mulheres. Marx e seus discípulos jamais supuseram que alguma classe trabalhadora pudesse avançar sozinha, sem construir alianças com outros grupos oprimidos. E, embora o proletariado industrial devesse ter papel de liderança, nada permite supor que Marx supusesse que tivesse de ser maioria, para desempenhar seu papel.

Mas, sim, algo aconteceu, sim, entre 1976 e 1986. Acossada por uma crise de lucros, a produção de massa à moda antiga deu lugar a produção em menor escala, mais versátil, descentralizada e pós-industrial, a uma cultura ‘pós-industrial’ de consumo, de tecnologia da informação e da indústria de serviços. A terceirização e a globalização viraram a nova ordem do dia. Mas isso não implicou mudança essencial no sistema; só levou a geração de 1968 a trocar Gramsci e Marcuse por Said e Spivak. Ao contrário, o sistema estava então mais poderoso que nunca, com a riqueza ainda mais concentrada em poucas mãos e as desigualdades de classe crescendo rápidas. Foi isso, ironicamente, que fez disparar as esquerdas em busca da saída mais próxima.

As ideias radicais degradadas, oferecidas como mudança radical, pareciam cada vez mais implausíveis. A única figura pública que denunciou o capitalismo nos últimos 25 anos, diz Hobsbawm, foi o Papa João Paulo II. Duas ou três décadas depois, os covardes e fracos de coração assistiram à glória de um sistema tão exultante e impregnável, que só precisava cuidar de manter abertas as caixas de autoatendimento dos bancos em todas as ruas e esquinas.

Eric Hobsbawm, que nasceu no ano da Revolução Bolchevique, permanece amplamente comprometido com o campo marxista – fato que se deve destacar, porque é fácil ler seu livro sem se aperceber desse compromisso. Isso, pela consistência do saber do autor, não porque salte de galho em galho. O autor conviveu com tantas das turbulências históricas sobre as quais discorre, que é fácil fantasiar que a própria história falaria nessas páginas – efeito da sabedoria enxuta, que tudo vê, desapaixonada. Difícil pensar em outro crítico do marxismo, assim tão competente para refletir sobre as próprias crenças com tanta honestidade e equilíbrio.

Hobsbawm, é claro, não tem a onisciência do Espírito Absoluto hegeliano, apesar do saber cosmopolita e enciclopédico. Como muitos historiadores, não é muito afiado no campo das ideias e erra ao sugerir que os discípulos de Louis Althusser trataram O Capital de Marx como se fosse, basicamente, trabalho de epistemologia. Nem o Espírito de Hegel trataria o feminismo, sequer o feminismo marxista, com tão gélida indiferença, ou dedicaria só rápidas notas laterais a uma das mais férteis correntes do marxismo moderno – o trotskismo. Hobsbawm também pensa que Gramsci seja o mais original pensador que o ocidente produziu desde 1917. Talvez queira dizer o mais original pensador marxista, mas nem isso está absolutamente claro. Walter Benjamin, com certeza, seria candidato mais bem qualificado para esse trono.

Mas fato é que até os mais eruditos estudiosos de marxismo têm muito a aprender nesses ensaios. É parte, por exemplo, do fundo de comércio do materialismo histórico que Marx esgrimiu com decisão contra os vários socialistas utópicos que o cercavam. (Um deles acreditava que, no mundo ideal, o mar viraria limonada. Marx, sem dúvida, preferiria Riesling.) Hobsbawm, ao contrário, insiste em que Marx teria dívida substancial com esses pensadores, que iam “dos penetrantemente visionários, até os psiquicamente perturbados”. Fala claramente do caráter fragmentário dos escritos políticos de Marx, e insiste, acertadamente, em que a palavra “ditadura”, na expressão “ditadura do proletariado”, que Marx usou para descrever a Comuna de Paris, tem significado absolutamente diferente do que hoje se conhece. A revolução deveria ser vista não simplesmente como repentina transferência do poder, mas como prelúdio de longo, complexo, imprevisível período de transição. Dos últimos anos da década dos 1850 em diante, Marx já não considerava nem iminente nem provável qualquer repentina tomada do poder. Por mais que tenha elogiado entusiasticamente a Comuna de Paris, Marx pouco esperava dela. Nem a ideia de revolução seria simploriamente oposta à ideia de reforma, da qual Marx foi defensor persistente.

Como Hobsbawm poderia ter acrescentado, houve revoluções praticamente sem derramamento de sangue, e alguns espetacularmente sanguinolentos processos de reforma social.

No absorvente ensaio sobre A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra de Engels, o livro é apresentado como o primeiro estudo de todos os tempos sobre como lidar com toda a classe trabalhadora, não só com específicos setores das indústrias. Na opinião de Hobsbawm, a análise que ali se fez do impacto social do capitalismo ainda não foi superada, em vários aspectos. O livro não pinta seu objeto com cores suaves: a ideia de que todos os trabalhadores fossem famintos ou vivessem em miséria absoluta, ou que jamais ultrapassariam a linha da sobrevivência, não tem qualquer fundamento. Tampouco tem fundamento a burguesia que lá se vê, apresentada como bando de vilões de coração de pedra. Como tantas vezes acontece, cada um só vê o que já conhece: Engels, ele próprio, era filho de uma rico industrial alemão proprietário de uma fábrica de tecidos em Salford, e usava seus mal-havidos lucros para ajudar a alimentar, vestir e dar teto à família Marx — essa, sim, sempre à beira da miséria. Engels gostava de caçar raposas; herói de dois mundos, do proletariado e dos colonizadores irlandeses, sabia unir teoria e prática e amou apaixonadamente sua amante irlandesa da classe operária.

Marx antevia como inevitável a vitória do socialismo? Sim, como se lê no Manifesto Comunista, que Hobsbawm não concorda que seja documento determinista. Isso, em parte, porque Hobsbawm não discute o tipo de inevitabilidade que estaria em questão. Marx escreve às vezes como se as tendências históricas fossem forças da natureza e operassem como as leis naturais; mas, ainda assim, nada explica por que, depois do capitalismo, viria o socialismo, como resultado lógico.

Se o socialismo é historicamente predeterminado, por que tanto empenho na luta política? A explicação está em que Marx esperava que o capitalismo se tornasse cada vez mais explorador; e que a classe trabalhadora cresceria muito, em poder, em números e em experiência acumulada. Nesse quadro, os homens e mulheres trabalhadores, satisfatoriamente racionais, rapidamente encontrariam todos os motivos necessários para levantar-se contra seus opressores. Mais ou menos como, para os cristãos, o livre arbítrio que rege as ações humanas é parte de um plano preordenado por Deus, assim também, para Marx, o acirramento das contradições do capitalismo forçaria os homens e mulheres a, livremente, decidirem dar cabo dele. A ação humana consciente traria a revolução. O paradoxo está em que a ação livre consciente é, em certo sentido, predeterminada como em escrituras.

A verdade é que não se pode falar sobre o que homens e mulheres livres seriam obrigados a fazer em dadas circunstâncias, porque, se são obrigados a fazer, seja o que for, não são livres. É possível que o capitalismo esteja nas últimas, à beira da ruína, mas nada assegura que, depois dele, venha algum socialismo. Pode vir algum fascismo, ou a barbárie.

Hobsbawm nos lembra uma frase curta mas muito significativa do Manifesto Comunista pela qual, universalmente, todos os especialistas sempre passam apressados: o capitalismo, escreve Marx sinistramente, pode terminar “na ruína comum das classes concorrentes”. Não se deve descartar a possibilidade de que o único socialismo que talvez venhamos a conhecer seja o que nos for imposto por circunstâncias materiais, depois de uma catástrofe nuclear ou ecológica.

Como outros crentes do progresso infinito no século 19, Marx não considera a possibilidade de o engenho humano avançar tanto no campo da tecnologia, que acabe por se autodetonar. Aí está uma das várias vias pelas quais se pode demonstrar que o socialismo não é historicamente inevitável, como, de fato, nada é. Marx não viveu o suficiente para ver como a democracia social consegue subornar qualquer paixão revolucionária.

Poucos trabalhos mereceram tantos elogios das classes médias, com tanto embaraçoso fervor, quanto O Manifesto Comunista. Do ponto de vista de Marx, as classes médias foram, de longe, a força mais revolucionária na história humana, e sem seu empenho na luta pelos próprios objetivos e a riqueza espiritual que acumularam, o socialismo fracassaria. Esse, desnecessário dizer, foi dos mais agudos e certeiros prognósticos de Marx.

O socialismo no século 20 tornou-se mais necessário precisamente onde era menos possível: em regiões atrasadas do mundo, socialmente devastadas, politicamente obscurantistas, economicamente estagnadas, onde nenhum pensador marxista apareceu antes que Stalin sequer sonhasse em ali deitar raízes. Ou, pelo menos, tentar deitar raízes com o socorro massivo de nações azeitadas. Nessas condições terríveis, o projeto socialista está destinado a converter-se em monstruosa paródia dele mesmo.

Assim também, a ideia de que o marxismo leva inevitavelmente a essas monstruosidades, como Hobsbawm observa, “é tão racional e justificável quanto a tese de que o cristianismo levará necessariamente ao absolutismo papal; ou que todo o darwinismo levará à glorificação do livre mercado”. (Hobsbawm não considera a possibilidade de o darwinismo levar ao absolutismo papal – que bem se aplica, como descrição racional, a Richard Dawkins.)

Hobsbawm, contudo, lembra também que Marx foi, de fato, generoso demais com a burguesia, vício do qual não é muito frequentemente acusado. No momento em que surgiu o Manifesto Comunista, os sucessos econômicos eram muito mais modestos do que Marx imaginava. Numa curiosa arquitetura de tempos, o Manifesto descreveu, não o mundo que o capitalismo havia criado em 1848, mas o mundo que haveria depois de transformado, como era seu destino, pelo capitalismo. O que Marx tinha a dizer não era exatamente verdade, mas viria a ser verdade, digamos, à altura do ano 2000, resultado da transformação operada pelo capitalismo.

Até os comentários sobre a abolição da família foram proféticos: mais da metade das crianças nos países ocidentais avançados nascem hoje, ou são criadas, por mães solteiras; e metade de todas as moradias nas grandes cidades são ocupadas por um só morador.

O ensaio de Hobsbawm sobre o Manifesto comenta “a eloquência obscura, lacônica” e nota que, como retórica política “tem força quase bíblica”. “O novo leitor”, escreve ele, “dificilmente deixará de ser fascinado pela convicção apaixonada, pela brevidade concentrada, pela força intelectual e estilística desse extraordinário panfleto.” O Manifesto inaugurou um novo gênero, um tipo de declaração política do qual se serviram artistas como os Futuristas e os Surrealistas, cuja redação e vocabulário audaciosos e as hipérboles de escândalo fizeram, dos próprios manifestos, obras de arte.

O gênero literário “manifesto” é uma mistura de teoria e retórica, de fato e ficção, programático e performativo, que ainda não foi tomado seriamente como objeto de estudo.

Marx, ele próprio, também foi artista. Pouco se fala sobre o quanto era extraordinariamente estudado e culto e o quanto investiu, de aplicado trabalho, no estilo literário de seus escritos. Ansiava por livrar-se do “lixo econômico” de Das Kapital, para poder dedicar-se integralmente ao seu grande livro sobre Balzac.

O marxismo trata de lazer, não de trabalho. É projeto que deve ser apoiado por todos que detestam ter de trabalhar. O marxismo afirma que as mais preciosas atividades são feitas “porque sim e deixe-me em paz”[1], e que a arte é, nesse sentido, o paradigma da autêntica atividade humana. O marxismo diz também que os recursos materiais que tornariam possível a sociedade onde seria possível essa vida humana já existem em princípio, mas são geridos de tal modo que a maioria é obrigada a trabalhar tão duro quanto trabalhavam nossos ancestrais no Neolítico. Fizemos, pois, extraordinários progressos e, ao mesmo tempo, progresso nenhum.

Nos anos 1840, argumenta Hobsbawm, não era de modo algum improvável concluir que a sociedade estivesse às portas da revolução. Improvável, isso sim, seria a ideia de que, em meia dúzia de décadas a política da Europa capitalista estaria transformada pela ascensão de partidos e movimentos das classes trabalhadoras. Pois foi o que aconteceu.

E foi nesse momento que a discussão sobre Marx, pelo menos na Grã-Bretanha, passou, de admiração cheia de cautelas, a, praticamente, histeria.

Em 1885, Balfour – e ninguém menos revolucionário que Balfour – comentou os escritos de Marx, elogiando a força intelectual e o brilho do raciocínio econômico. Muitos comentaristas liberais e conservadores levaram realmente muito a sério aquelas ideias econômicas. Quando as mesmas ideias assumiram a forma de força política, porém, começaram a aparecer os primeiros trabalhos ferozmente antimarxistas. A apoteose foi a espantosíssima revelação, por Hugh Trevor-Roper, de que Marx não trazia qualquer contribuição original à história das ideias.

A maioria desses críticos, aposto, teriam rejeitado a ideia marxista de que o pensamento humano é muitas vezes modelado, curvado, pela pressão de interesses políticos, fenômeno que atende quase sempre pelo nome de “ideologia”.

Só recentemente o marxismo voltou à agenda planetária, ali metido, ironicamente, por um capitalismo agonizante. “Capitalismo em Convulsão” – em manchete do Financial Times em Londres, em 2008. Quando os capitalistas começam a falar sobre o capitalismo, aposte: o sistema está em estado crítico. Nos EUA, nenhum jornal (e nenhum capitalista), até agora, se atreveu tanto.

Há muito mais a admirar em How to Change the World. Numa passagem sugestiva sobre William Morris, o livro mostra que era lógico que brotasse em Londres uma crítica baseada nas artes e nos artesanatos, do capitalismo; em Londres, onde o capitalismo industrial avançado impunha ameaça mortal a todas as artes e artesanatos. Um capítulo sobre os anos 1930 traz fascinante relato das relações entre o marxismo e a ciência – e foi o único período, Hobsbawm anota, em que os cientistas naturais deixaram-se atrair em números significativos, pelo marxismo. Aparecia no horizonte a ameaça de um fascismo irracionalista; e os traços “iluministas” do credo marxista – a fé na razão, na ciência, no progresso humano e no planejamento social – atraíram homens como Joseph Needham e J.D. Bernal. Durante o renascimento histórico seguinte do marxismo, nos anos 1960 e 1970, essa versão do materialismo histórico seria deslocada pelos parâmetros mais culturais e filosóficos do chamado Marxismo Ocidental. De fato, a ciência, a razão, o progresso e o planejamento já eram então mais inimigos que aliados, em guerra contra novos cultos libertários, do desejo e da espontaneidade. Hobsbawm mostra, no máximo, uma simpatia ilustrada pelo pessoal de 1968, o que não surpreende, em membro eterno do Partido Comunista. A idealização, naqueles anos, da Revolução Cultural na China, ele sugere, com bastante razão, teria tanto a ver com a China quanto o culto do “bon sauvage”, no século 18, teria a ver com o Tahiti.

“Se algum pensador deixou marca que ainda se vê no século 20”, diz Hobsbawm, “foi Marx”. Setenta anos depois da morte de Marx, para o bem ou para o mal, um terço da humanidade vivia sob regimes políticos inspirados por seu pensamento. Bem mais de 20% continuam a viver. O socialismo foi descrito como o maior movimento de reforma da história da humanidade. Poucos intelectuais mudaram o mundo, de modo tão objetivo e prático. É coisa que se diz, mais, de estadistas, cientistas e generais, não de filósofos ou teóricos da política. Freud pode ter mudado a vida de muita gente, mas não se sabe que tenha mudado governos.

“Os únicos pensadores individualmente identificáveis que alcançaram status comparável” – escreve Hobsbawm – “são os fundadores das grandes religiões do passado; e, com a única possível exceção de Maomé, nenhum deles triunfou nem tão rapidamente, nem em escala comparável”. Mas poucos, como Hobsbawm destaca, previram que seriam tão célebres também pela miséria extrema ou pelo exílio de judeu atormentado por furúnculos, homem que observou um dia, falando de si próprio, que ninguém jamais escrevera tanto sobre dinheiro, nem vivera com menos dinheiro, que ele.

Vários dos ensaios reunidos nesse livro já foram publicado, mas dois terços deles eram inéditos em inglês. Os que não leiam italiano podem, agora, ler vários importantes ensaios de Hobsbawm editados primeiro naquela língua, entre os quais três importantes revisões da história do marxismo, de 1880 a 1983. Bastariam esses ensaios, para tornar valiosíssimo o novo volume, mas há mais, sobre o socialismo pré-Marx, Marx sobre as formações pré-capitalistas, Gramsci, Marx e o trabalhismo, que ampliam consideravelmente o âmbito da nova seleção.

How to Change the World é o trabalho de um homem que chegou a idade em que a maioria de nós dar-se-á por feliz se conseguir sair sozinho do fundo da poltrona, sem precisar de duas enfermeiras e um guindaste, mestre também da pesquisa histórica. Não será, com absoluta certeza, o último trabalho desse espírito indomável.

Notas:
[1] Orig. “the most precious activities are those done simply for the hell of it”. Tradução impossível, sem perder o que o autor escreveu. Mais uma tradução tentativa precária. Há outras. (NTs)

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LEVANTES POPULARES SE ESPALHAM POR TODO O ORIENTE MÉDIO...

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... apesar das repressões brutais
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Mike Head – wsws - 23 de fevereiro de 2011

Manifestações de massa e batalhas campais com a presença da polícia e de militares continuaram acontecendo por todo o Oriente Médio e no norte da África ontem, apesar dos massacres brutais de manifestantes pelos apoiadores dos regimes autocráticos do Oeste. Bem como em Bahrein, Líbia e Iêmen — onde houve combates ferozes, protestos de rua e muitas mortes — protestos antigoverno e greves se espalharam para outros estados aliados dos EUA na Arábia Saudita, Kuwait e Jordânia.

As rebeliões na Tunísia e no Egito provocaram protestos em toda a região, desde a Argélia até o Iraque. Isso causou consternação no governo Obama e entre as grandes potências europeias, que confiaram por muito tempo nas ditaduras regionais para reprimir suas respectivas populações e manter a ordem sobre uma parte do mundo estrategicamente crucial devido a sua riqueza em petróleo.

Pelo quinto dia consecutivo, houve confrontos sangrentos na monarquia da pequena ilha de Bahrein, onde fica a base da Quinta Frota da Marinha dos EUA. Pelo menos três pessoas morreram quando o Exército abriu fogo contra os manifestantes. Cerca de 25 mil pessoas, uma multidão enorme para um país com menos de um milhão de adultos, compareceram a uma marcha fúnebre pelos manifestantes mortos no dia anterior.

Foi o primeiro protesto no centro da capital, Manama, desde que a polícia invadiu a Praça Pérola antes do amanhecer nesta quinta-feira, matando quatro pessoas e ferindo cerca de 200.

Um médico do hospital Salmaniya disse à Al Jazeera que o hospital estava cheio de pessoas feridas gravemente: "Precisamos de ajuda! Nossa equipe está totalmente sobrecarregada. Eles estão atirando na cabeça das pessoas. Não nas pernas. As pessoas estão tendo seus cérebros apagados!".

Um manifestante disse à agência de notícias: "Eles tinham metralhadoras, não fuzis ou armas de mão, e eles atiraram em pessoas que fugiam". Outro manifestante, Hussein Ali, disse: "Eles começaram a atirar da ponte, sem qualquer aviso, depois eles começaram a atirar de seus carros (...) Foi terrível, um pesadelo. Crianças pequenas e mulheres foram caindo."

A Monarquia do Bahrein, atuando, sem dúvida, em estreita colaboração com Washington, está tentando se estabilizar. O príncipe Salman bin Hamad al-Khalifa, pediu por um "diálogo nacional" assim que a ordem foi restabelecida. Qualquer "diálogo" seria destinado a salvar o regime — mesmo que de uma forma ligeiramente modificada, com a ajuda de grupos de oposição oficialmente tolerados, como o exército egípcio tentou fazer desde a queda de Hosni Mubarak uma semana atrás.

Bahrein, situado no Golfo Pérsico entre a Arábia Saudita e o Irã, é também a casa do Comando Central das Forças Navais dos EUA. É de vital importância para Washington, visto que 40% do petróleo mundial passa pelo Golfo. Os EUA têm sido um fervoroso apoiador da rica família real e da elite que controla o Estado.

O presidente Barack Obama e a secretária de Estado Hillary Clinton fizeram ontem declarações de "profunda preocupação" com a violência no Bahrein, bem como na Líbia e no Iêmen. "Os Estados Unidos condenam o uso da violência por parte dos governos contra os manifestantes pacíficos nesses países e onde mais possa ocorrer", disse Obama.

Apenas em dezembro passado, no entanto, Clinton visitou o Bahrein, elogiando-o como um "parceiro modelo" na região. "Vejo o copo meio cheio", disse ela quando questionada sobre as detenções de opositores políticos proeminentes e relatos de tortura. Ela disse que ficou "impressionada com o empenho que o governo tem para colocar Bahrein no caminho democrático".

A responsabilidade dos EUA e seus aliados pela repressão no Bahrein foi reforçada por relatos de que as forças de segurança usaram armas fornecidas pelo Reino Unido contra os manifestantes. Um relatório do departamento de negócios do governo britânico, citado pelo jornal The Independent, disse que Londres deu autorização para os fabricantes de armas britânicas venderem "granadas de mão CS, cargas de demolição, potes de fumo e thunderflashes" para o Bahrein.

Outra "preocupação" de Washington são as implicações para a monarquia vizinha da Arábia Saudita, o terceiro maior receptor de ajuda militar dos EUA nas últimas três décadas depois dos governos de Israel e do Egito. Um ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita, Chas Freeman, disse à Al Jazeera que "os sauditas não vão tolerar agitação excessiva" no Bahrein por causa da sua proximidade com os seus principais campos de petróleo no leste da Arábia Saudita.

Da mesma forma, as empresas globais de petróleo estão acompanhando de perto o possível colapso das monarquias locais. A Platts, uma indústria local, relatou: "A Arábia Saudita, o óleo de Golias, que tem em suas mãos a única capacidade de produção extra significativa para atender eventuais perturbações da oferta potencial mundial, foi cercada pelos motins sangrentos no país vizinho Bahrein e crescentes protestos antigoverno ao sul de sua fronteira no Iêmen".

Líbia

Intensos combates devastaram a Líbia pelo quinto dia, quando os manifestantes exigiram a retirada do regime de 41 anos do coronel Muammar Khadafi, que também se tornou um aliado próximo do Ocidente e dos gigantes do petróleo nos últimos anos. O acesso da imprensa à Líbia é rigidamente controlado, mas os relatórios de várias fontes descreveram cenas insurrecionais após o "dia de fúria" na quinta-feira, no qual pelo menos 25 manifestantes foram mortos.

As forças de segurança foram implantadas na cidade oriental de Al-Baida, disse uma fonte próxima às autoridades á agência AFP, após uma reportagem da Reuters de que os manifestantes antiregime haviam tomado o controle da cidade com a ajuda da polícia local.

Os vídeos do YouTube mostraram manifestantes que marchavam pelas ruas de Benghazi, a segunda maior cidade do país, cantando slogans contra o governo. Manifestantes incendiaram a sede de uma emissora de rádio local, em Benghazi, depois que os guardas do edifício retiraram-se, disseram testemunhas e uma fonte de segurança à agência AFP. Moradores também informaram que a polícia havia sido substituída por tropas militares. Mohamed el-Berqawy, um engenheiro em Benghazi, disse à Al Jazeera que um "massacre" estava ocorrendo na cidade.

De acordo com um compilado feito pela AFP a partir de diferentes fontes locais, pelo menos 41 pessoas perderam a vida desde que as primeiras manifestações eclodiram na terça-feira. As autoridades da Líbia afirmaram que o oeste do país ficou em silêncio. Mas as manifestações foram relatadas em outras cidades, incluindo a capital, Trípoli.

Iémen

O Iêmen, outro aliado dos EUA, também recorreu à força letal contra os protestos ontem, elevando para 10 o número de mortos desde que os tumultos eclodiram no domingo. Manifestantes anti-regime na volátil cidade de Taez foram atingidos por um ataque de granadas na sexta-feira, deixando dois mortos. Violentos confrontos em várias áreas do sul da cidade de Aden mataram quatro pessoas e feriram pelo menos 27. Também houve confrontos na capital, Sanaa, em que quatro manifestantes contrários ao regime foram feridos, segundo testemunhas e jornalistas, que também foram espancados.

O ataque com granadas ocorreu depois que centenas de manifestantes tomaram o centro de Taez após as orações semanais muçulmanas, pedindo a destituição do presidente Ali Abdullah Saleh. Uma autoridade local disse à AFP que a granada foi atirada contra os manifestantes a partir de um carro com placa do governo em alta velocidade.

Em Sanaa, vários jornalistas foram severamente espancados por adeptos da decisão do Congresso Geral Popular (GPC), que atacaram a manifestação usando bastões e machados, segundo um correspondente da AFP. Milhares de manifestantes, principalmente estudantes, se reuniram após as orações semanais muçulmanas. "A população quer derrubar o regime", gritavam.

Arábia Saudita, Kuwait, Jordânia

Significativamente, a agitação espalhou-se tanto para a Arábia Saudita e Kuwait, e reapareceu em outro estado-chave apoiado pelos EUA, na Jordânia. Na Arábia Saudita, trabalhadores estrangeiros da construção civil entraram em greve no Distrito Financeiro Rei Abdullah e na Universidade Rei Saud, na capital Riad. O Arab News informou que os trabalhadores pararam de trabalhar, também porque os seus salários ou pagamento de horas extras não foram pagos.

No Kuwait, pelo menos mil árabes apátridas manifestaram em Jahra, no noroeste da Cidade do Kuwait, exigindo a cidadania. Dezenas de pessoas foram presas pela polícia. Ambulâncias levaram um número indeterminado de manifestantes feridos e forças de segurança para longe dos confrontos. As forças de segurança dispersaram a manifestação, utilizando bombas de fumaça e canhões de água. O governo insiste que cerca de 100 mil árabes apátridas no Kuwait não têm direito à nacionalidade.

Na Jordânia, bandidos empunhando bastões voltaram-se contra manifestantes antigoverno na capital Amã. Os manifestantes alegaram que foram atacados assim que começaram a se dispersar depois de uma passeata pedindo um governo eleito e o fim da corrupção oficial. Os manifestantes pedem por reforma econômica e política desde meados de janeiro. O rei Abdullah II demitiu todo o seu gabinete no mês passado, em um esforço para evitar os protestos, mas muitos ficaram perplexos com a nomeação de Marouf Bakhit, um dos capangas do rei, como o novo primeiro-ministro. Bakhit, um major-general aposentado do Exército, serviu como primeiro-ministro da Jordânia, a partir de 2005 até que ele foi forçado a renunciar em 2007 depois de eleições fraudulentas.

A situação na Jordânia é um exemplo da crise social intratável que conduz os protestos. O país tem uma elevada taxa de desemprego entre a população de 6 milhões, a maioria deles com menos de 25 anos, e está sofrendo com a subida dos preços mundiais dos alimentos e combustíveis. Nenhum dos regimes da região, todos eles presidindo sob desigualdades cada vez mais gritantes — assim como fazem os governos ao redor do mundo — de forma alguma buscam atender às necessidades econômicas e sociais de suas populações.

[Traduzido por movimentonn.org]
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

SALVAR A HUMANIDADE JÁ!

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MARTINHO JÚNIOR

De há praticamente 20 anos a esta parte o comandante-filósofo Fidel tem vindo a chamar a atenção para o aumento dos riscos causados pelo homem afectando a Mãe Terra, desde o início da Revolução Industrial, mas particularmente desde a IIª Guerra Mundial, quando pela primeira vez foram usados artefactos nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki.

Foi em Junho de 1992, quando da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, efectuada na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, que Fidel fez o seu primeiro pronunciamento de alerta e de então para cá, enquanto cada vez mais tem vindo a fundamentar o seu argumento, tem crescido a insustentabilidade das acções humanas sobre a natureza, com consequências que começam a pôr em risco a sobrevivência da espécie.

Esses riscos aumentam por outro lado, dado o carácter militarista e agressivo do capitalismo em fase de império, tal como são exemplo as políticas tuteladas pelos Estados Unidos, que possuem bases militares em todos os recantos do mundo, que implementam alianças e emparceiramentos utilizando sistematicamente estratégias de tensão e têm vindo a optar pelo recurso ao unilateralismo e hegemonia em relação ao impulso do domínio musculado sobre o petróleo e outros recursos naturais, o que pode conduzir, entre outras coisas e de novo, ao emprego de armamento nuclear desta feita no Médio Oriente (Irão), com repercussões inimagináveis.

O tema foi levantado de novo em Havana, num encontro que Fidel teve com mais duma centena de convidados, intelectuais de diversas partes do Mundo que haviam acorrido à XXª edição da Feira Internacional do Livro da capital cubana, entre eles a Ministra da Cultura de Angola.

É um tema caro a muitos intelectuais da todos os recantos da Terra e que vai assumindo cada vez mais actualidade à escala global, à medida que as anomalias ambientais e climáticas se vão sucedendo de forma surpreendente, a um ritmo assustador, traumático e sem precedentes e as explicações mínimas têm de ser dadas a todos os humanos e particularmente às vítimas directas, a fim de encontrar as melhores acções de resposta e procurar as melhores medidas de prevenção.

“A Terra é um ser vivo” afirma com convicção o ecólogo e engenheiro agrónomo brasileiro José Lutzemberger e “os seres humanos são células, algumas cancerosas, de seu tecido nervoso”. (1)
"A ecosfera não é um simples sistema homeostático, automático, químico-mecânico. O planeta Terra é um ser vivo, um ente com identidade própria, o único de sua espécie que conhecemos. Se outras gaias existem no Universo, nessa ou em outras galáxias, serão todas coerentes. Um ser vivo tão destacado merece nome próprio - justifica Lutzemberger, enquanto explica que esta visão é diametralmente oposta a até agora adoptada pela ciência, que coloca os seres humanos como observadores externos da natureza.

Segundo ele, hoje é comum na visão científica a imagem da Terra como uma nave espacial. É uma figura na qual a Terra é apenas o palco da vida e, para nós, humanos, não passa de recursos aproveitáveis.

Mas a nave espacial engana. Uma nave tem passageiros. Em Gaia não há passageiros. Tudo é e todos somos Gaia”.

Para Leonardo Boff, um dos teólogos da libertação, em entrevista a Alberto Mora do Adital, Terra e humanidade são indissociáveis: (2)

“La idea de fondo es que la Tierra no necesita de nosotros, nosotros necesitamos de la Tierra.

La Tierra puede seguir adelante tranquilamente sin nosotros; pero el problema es las relaciones que tenemos con la Tierra, que es una relación de explotación, de agresión, de total falta de cuidado. Entonces lo primero que hay que hacer, y sin el cual las demás medidas no tendrán eficacia, es cambiar nuestra mirada con respecto a la Tierra.

Entender la Madre Tierra como un baúl de recursos que uno puede explotar, sin entender la Tierra como fue definido oficialmente, proclamado en la ONU el 22 de abril de 2009: que la Tierra no solamente es Tierra que uno puede comprar, vender, manipular; que la Tierra es Madre, y una Madre no se compra, no se vende, no se manipula, sino que se cuida, se ama, se protege.

La primera visión, que corresponde a las tradiciones más antiguas de nuestros pueblos... de la Tonantzín, de la Pachamama, de la Magna Mater, que corresponde a lo más avanzado de la Ciencia, de la Vida y de la Tierra hoy, que entiende la Tierra como Gaia... Gaia es el nombre griego para decir la Tierra Viva, que articula los elementos físicos, químicos, biológicos, de tal manera que se hace siempre propicia a la Vida. Ese equilibrio que la Tierra tiene, fue afectado terriblemente por 300 años de explotación.

En esa ruta ya no podemos caminar, porque vamos al encuentro del abismo, por lo tanto, la Declaración parte de esa visión nueva: la Tierra es parte del Universo en evolución. Tierra y Humanidad componen una única entidad, que es la visión que los astronautas tienen cuando miran la Tierra desde afuera. La Tierra y la Humanidad son una sola cosa, y que el Ser Humano en la Tierra tiene esa misión de cuidar de la Tierra, de ser el guardián de su integridad, de su vitalidad, que ahora está amenazada”.

O argumento de Fidel procura ser realista, objectivo e aponta cada vez mais responsabilidade para o homem em relação à vida no planeta, por que foi ele o ente capaz de estudar a “casa comum” onde ele próprio foi gerado e de que faz parte integrante e integrada nos seus sistemas de vida.

Com esse argumento-síntese Fidel assume a filosofia da paz, da concórdia e do respeito para com a humanidade e para com o planeta, com sensibilidade, lucidez e amor, demarcando-se da plataforma em que se têm situado os estadistas contemporâneos e homens que exercem o poder corrente sobre os estados que tão medievalmente se implicam na gerência das nações e dos recursos disponíveis. (3)

“No hablo de salvar a la humanidad en términos de siglos o de milenios… A la humanidad hay que empezar a salvarla ya.

(…)

Nuestra especie no ha aprendido a sobrevivir.

(…)

Hay un problema que si no se resuelve, sobra todo lo demás -afirmó-. No hay ni siquiera Historia. Pienso que estamos ante una crisis de ese carácter. Si tuviera razón sería muy inconveniente -se acotó a sí mismo-, pero soy optimista, porque de lo contrario no hablaría de estos temas… No los hablaría si creyera que la vida no pudiera preservarse

(…)

Yo pienso -insistió ahora- que la especie humana está en peligro real de extinción y pienso que podemos y debemos hacer un esfuerzo para que eso no ocurra. Ese es el tema principal sobre el cual quería conversar con ustedes”.

O comandante-filósofo alimenta em termos de conhecimento uma posição de vanguarda que foi alimentada ao longo de toda a sua passagem pela vida, desde a sua juventude até hoje, uma posição amadurecida, que pelas suas implicações profundas se demarca da política e dos políticos contemporâneos atingindo níveis de conhecimento, de abrangência e de rigor nunca antes alcançados.

Por isso ele associa este tema ao emprego da arma nuclear, conforme teve oportunidade de se referir durante a última visita de sobreviventes japoneses ao bombardeamento com bombas atómicas lançadas no final da IIª Guerra Mundial sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki.

“Por qué el mundo no puede actuar como una familia?

(…)

No tenemos otro planeta a donde mudarnos. Venus, que lleva el nombre de la diosa del amor, tiene un calor enorme. La estrella más cercana a la Tierra está a 4 años luz -un año luz es la distancia que un rayo de luz recorre en un año, a la velocidad de 300 000 kilómetros por hora-. No podemos mudarnos. Nuestra vida está aquí, en este planeta, lo único que verdaderamente tenemos

(…)

Creo que deberíamos comportarnos como una familia, y compartir lo que tenemos: unos petróleo, otros alimentos, los de más allá médicos…

(…)

Por qué no podemos considerar al mundo como la sede de una sola familia humana?”

Enquanto indivíduos todos os seres animais e vegetais estão de passagem pela vida, mas o ciclo de vida de cada ser humano desde o berço que é contaminado por preconceitos, pelo egoísmo próprio das sociedades capitalistas que se “esmeram” na concorrência que conduz ao lucro como uma entidade suprema e insuperável que se impõe de geração em geração, por uma mentalidade que não cultiva sequer o conhecimento dos riscos que hoje nos situam no caminho do abismo.

Quantas entidades públicas responsáveis assumem de forma esclarecida e pedagógica a sobrevivência da espécie e o respeito para com a Mãe Terra? Porquê?

Martinho Júnior - 19 de Fevereiro de 2011

Notas:
- (1) – A Terra é um ser vivo –
http://www.anjodeluz.com.br/gaiaeviva.htm
- (2) – La Tierra no necesita de nosotros, nosotros necesitamos de la Tierra – http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=ES&cod=45728
- (3) – El Mundo deberia ser una família –
http://www.cubadebate.cu/noticias/2011/02/15/fidel-con-intelectuales-a-la-humanidad-hay-que-salvarla-ya/comment-page-1/#comment-173527
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EUA escancaram financiamento para oposição Venezuelana em 2012

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Eva Golinger

Nessa segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011, o presidente Barack Obama apresentou ante o Congresso estadunidense um orçamento de 3,7 trilhões de dólares para 2012. No orçamento trilionário de Obama, encontra-se um financiamento especial para os grupos anti-chavistas na Venezuela.

A excessiva soma de dinheiro representa o orçamento anual mais alto de toda a história estadunidense. No montante total, encontram-se mais de 670 bilhões de dólares para o pentágono e para as operações militares, cerca de 75 bilhões de dólares para os serviços de inteligência e 55,7 bilhões de dólares para o Departamento de Estado e para a Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID).

Pela primeira vez nesses anos, o orçamento do Departamento de Estado destaca um financiamento direto de 5 milhões para os grupos anti-chavistas na Venezuela. Especificamente, o documento detalha, "esses fundos ajudarão a fortalecer e apoiar a sociedade civil venezuelana para proteger o espaço democrático. O financiamento aumentará o acesso à informação objetiva; facilitará o debate pacifico sobre assuntos chave; ministrará apoio às instituições e aos processos democráticos; promoverá a participação cidadã e reforçará a liderança democrática".

Apesar de que, talvez, soe "bonita" a linguagem empregada para justificar os milhões de dólares para grupos opositores da Venezuela, esse dinheiro tem funcionado como fonte principal para alimentar a subversão e a desestabilização contra o governo de Hugo Chávez. Somente de 2008 a 2011, o Departamento de Estado canalizou mais de 40 milhões de dólares à oposição venezuelana, principalmente investindo esse dinheiro nas campanhas eleitorais contra o presidente Chávez e na maquinaria midiática para influir sobre a opinião pública venezuelana.

O financiamento solicitado para 2012 para os grupos anti-chavistas na Venezuela provém de uma divisão do Departamento de Estado chamada "Fundo de Apoio Econômico". No entanto, não é essa a única fonte de financiamento para os setores opositores na Venezuela. Receberão também entre 1 e 2 milhões de dólares da NED (Fundo Nacional para a Democracia) e vários milhões de dólares de outras agências estadunidenses e internacionais.

Financiamento proibido

Chama a atenção que nesse ano se divulga publicamente o financiamento para a oposição venezuelana porque na Venezuela agora existe a Lei de Defesa da Soberania Política e da Autodeterminação Nacional que proíbe o financiamento externo para fins políticos no país. Então, teremos que perguntar-nos de que maneira o Departamento de Estado pensa canalizar esses fundos multimilionários a grupos venezuelanos, já que sua entrega seria uma violação da lei.

Em anos anteriores, não se detalhava o financiamento direto a grupos políticos na Venezuela no orçamento anual do Departamento de Estado porque, desde 2002, a USAID tem sido o canal principal para esses fundos. No entanto, o escritório não autorizado da USAID em Caracas decidiu trasladar abruptamente suas operações na Venezuela para os Estados Unidos no dia 31 de dezembro de 2010 e, desde então, o próprio Departamento de Estado assumiu a responsabilidade do financiamento à oposição na Venezuela.

Em 2012, há eleições presidenciais e regionais na Venezuela, razão pela qual poder-se-ia especular que esses 5 milhões de dólares fazem parte de um financiamento que estão preparando para as campanhas da oposição.

No orçamento do Departamento de Estado para 2012, também se destacam 20 milhões de dólares no financiamento para grupos e organizadores que trabalham contra a Revolução Cubana.

Segundo o porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, o financiamento dado através do Fundo de Apoio Econômico (ESF, por suas siglas em inglês) é para países de "alta importância estratégica" para Washington. Normalmente os fundos não são autorizados pelos governos desses países, mas são entregues diretamente a grupos e organizações políticos que promovem os interesses dos Estados Unidos.

In Diário Liberdade
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WASHINTON FACE À CÓLERA DO POVO TUNISINO

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Thierry Meyssan*

As grandes potências não gostam das perturbações políticas que escapam ao seu controle e contrariam seus planos. Os acontecimentos que desde há um mês fazem vibrar a Tunísia não escapam a esta regra, muito pelo contrário.

É portanto pelo menos surpreendente que os grandes media internacionais, seguidores indefectíveis do sistema de dominação mundial, se entusiasmem subitamente pela "Revolução do jasmim" e multipliquem os inquéritos e reportagens sobre a fortuna dos Ben Ali que até então ignoravam, apesar do seu luxo ostentoso. É que os ocidentais correm após uma situação que escapou das suas mãos e que desejariam recuperar descrevendo-a de acordo com os seus desejos.

Antes de tudo, convém lembrar que o regime de Ben Ali era sustentado pelos Estados Unidos, Israel, França e Itália.

Considerado por Washington como um Estado de importância menor, a Tunísia era utilizada no plano securitário, mais do que no económico. Em 1987, é organizado um golpe de Estado soft para depor o presidente Habib Bourguiba em proveito do seu ministro do Interior, Zine el-Abidine Ben Ali. Este é um agente da CIA formado na Senior Intelligence School de Fort Holabird. Segundo certos elementos recentes, a Itália e a Argélia teriam estado associadas a esta tomada de poder. [1]

Desde a sua chegada ao Palácio da República, ele estabelece uma Comissão militar conjunta com o Pentágono. Ela reúne-se anualmente, em Maio. Ben Ali, que desconfia do exército, mantém-no num papel marginal e sub-equipado, com a excepção do Grupo das Forças Especiais que treina com os militares dos EUA e participa no dispositivo "anti-terrorista" regional. Os portos de Bizerte, Sfax, Sousse e Túnis são abertos aos navios da NATO e, em 2004, a Tunísia insere-se no "Diálogo mediterrânico" da Aliança.

Washington, não esperando nada de especial deste país no plano económico, deixa portanto os Ben Ali porem a Tunísia ao seu serviço. Toda empresa que se desenvolva é solicitada a ceder 50% do seu capital e dos respectivos dividendos. Contudo, as coisas azedam em 2009 quando a família reinante, passando da gula à cupidez, entende submeter também os empresários estado-unidenses à sua extorsão.

Pelo seu lado, o Departamento de Estado antecipa o inevitável desaparecimento do presidente. O ditador eliminou cuidadosamente os seus rivais e não dispõe de sucessor. Há portanto que imaginar um sucessor se ele vier a morrer. Cerca de sessenta personalidades susceptíveis de desempenhar um papel político ulterior é recrutada. Cada uma delas recebe uma formação de três meses em Fort Bragg, depois um salário mensal [2] . O tempo passa...

Apesar de o presidente Ben Ali prosseguir a retórica anti-sionista em vigor no mundo muçulmano, a Tunísia oferece diversas facilidades à colónia judia da Palestina. Os israelenses de ascendência tunisina são autorizados a viajar e a comerciar no país. Ariel Sharon chega mesmo a ser convidado em Tunis.

A revolta

A imolação pelo fogo de um vendedor ambulante, Mohamed el-Bouzazi, em 17 de Desembro de 2010, depois de a sua carroça e os seus produtos terem sido apreendidos pela polícia, dá o sinal para os primeiros tumultos. Os habitantes de Sidi Bouzid reconhecem-se neste drama pessoal e levantam-se. Os afrontamentos estendem-se a várias regiões, depois à capital. A central sindical UGTT e um colectivo de advogados manifestam-se, selando sem terem consciência a aliança entre classes populares e burguesia em torno de uma organização estruturada.

Em 28 de Dezembro o presidente Ben Ali tenta retomar o controle. Ele visita a cabeceira do jovem Mohamed el-Bouazizi e à noite dirige-se à nação. Mas o seu discurso na televisão exprime a sua cegueira. Denuncia os manifestantes como extremistas e agitadores pagos e anuncia uma repressão feroz. Longe de acalmar o jogo, a sua intervenção transforma a revolta popular em insurreição. O povo tunisino já não contesta simplesmente a injustiça social, mas sim o poder político.

Em Washington, constata-se que o "nosso agente Ben Ali" já não domina mais nada. No Conselho de Segurança Nacional, Jeffrey Feltman [3] e Colin Kahl [4] decidem considerar que chegou o momento de abandonar este ditador já gasto e organizar a sua sucessão antes que a insurreição se transforme e autêntica revolução, ou seja, em contestação do sistema.

Decidem mobilizar medias, na Tunísia e no mundo, para circunscrever a insurreição. A atenção dos tunisinos será focalizada sobre as questões sociais, a corrupção dos Ben Ali e a censura da imprensa. Tudo, desde que não se debatam as razões que levaram Washington a instalar o ditador, 23 anos antes, e a protegê-lo enquanto ele açambarcava a economia nacional.

A 30 de Dezembro, a cadeia privada Nessma TV desafia o regime difundindo reportagens sobre os tumultos e organizando um debate sobre a necessária transição democrática. A Nessma TV pertence ao grupo italo-tunisino de Tarak Ben Ammar e Silivo Berlusconi. A mensagem é perfeitamente compreendida pelos indecisos: o regime está rachado.

Simultaneamente, peritos estado-unidenses (e também sérvios e alemães) são enviados à Tunísia para canalizar a insurreição. São eles que, surfando sobre as emoções colectivas, tentam impor slogans nas manifestações. Conforme as técnicas das pretensas "revoluções" coloridas, elaborada pela Albert Einstein Institution de Gene Sharp [5] , eles concentram a atenção sobre o ditador a fim de evitar todo debate sobre o futuro político do país. É a palavra de ordem "Ben Ali fora!" ("Ben Ali dégage!") [6] .

Mascarado com o pseudónimo Anonymous, o ciber-esquadrão da CIA — já utilizado contra o Zimbabwe e o Irão — invade sítios oficiais tunisinos e neles instala uma mensagem de ameaça em inglês

A insurreição

Os tunisinos continuam espontaneamente a desafiar o regime, a descer em massa às ruas e a incendiar comissariados de polícias e lojas pertencentes aos Ben Ali. Com coragem, alguns deles pagam o preço do sangue. Patético, o ditador ultrapassado crispa-se sem compreender.

Dia 13 de Janeiro ele ordena ao exército que atire sobre a multidão, mas o chefe do estado-maior do exército de terra recusa-se. O general Rachid Ammar, que foi contactado pelo comandante do Africom, o general William Ward, anuncia ele mesmo ao presidente que Washington lhe ordena fugir.

Em França, o governo Sarkozy não foi prevenido da decisão estado-unidense e não analisou as diversas mudanças de casaco. A ministra dos Negócios Estrangeiros, Michèle Alliot-Marie, propõe-se salvar o ditador despachando-lhe conselheiros em manutenção da ordem e material para que ele se mantenha no poder por procedimentos mais adequados [7] . É fretado um avião cargueiro na sexta-feira 14. Quando as formalidades de desalfandegamento são acabadas em Paris, já é demasiado tarde: Ben Ali não precisa mais de ajuda, ele já está em fuga.

Seus amigos de ontem, em Washington e Tel-Aviv, em Paris e Roma, recusam-lhe asilo. Ele acaba em Riad. Teria levado consigo 1,5 tonelada de ouro roubado ao Tesouro Público, o que é desmentido pelas autoridades ainda em vigor.

Os conselheiros em comunicação estratégica dos EUA tentam então apitar o fim de partida, enquanto o primeiro-ministro cessante compõe um governo de continuidade. É aqui que as agências de imprensa lançam a denominação "Jasmine Revolution" (em inglês por favor). Os tunisinos, asseguram elas, acabam de realizar a sua "revolução colorida". Um governo de união nacional é constituído. Tudo está bem quando acaba bem.

A expressão "Revolução Jasmim" deixa um gosto amargo nos tunisinos mais velhos: é aquela que a CIA já havia utilizado para comunicar aquando do golpe de Estado de 1987 que coloca Ben Ali no poder.

A imprensa ocidental — doravante melhor controlada pelo Império do que a imprensa tunisina — descobre a fortuna mal adquirida dos Ben Ali que até então ela ignorava. Esquece-se o satisfecit concedido pelo director do FMI, Dominique Strauss-Kahn, aos gestores do país alguns meses após os tumultos da fome [8] . E esquece-se o ultimo relatório de Transparency International, o qual afirmava que a Tunísia era menos corrompida que Estados da União Europeia como a Itália, a Roménia e a Grécia [9] .

Os milicianos do regime, que haviam espalhado o terror entre os civis durante os tumultos obrigando-os a organizarem-se em comités de auto-defesa, desaparecem na noite.

Os tunisinos, considerados despolitizados e manipuláveis após anos de ditadura, revelam-se muito maduros. Eles constatam que o governo de Mohammed Ghannouchi é o "benalismo sem Ben Ali". Apesar de alguns retoques de fachada, os caciques do partido único (RCD) conservam os ministérios principais. Os sindicalistas da UGTT recusam-se a associar-se à manipulação estado-unidense e demitem-se dos postos que lhes foram atribuídos.

Além dos membros inamovíveis do RCB, restam os dispositivos mediáticos e os agentes da CIA. Graças ao produtor Tarak Ben Amar (o patrão da Nessma TV), a realizadora Moufida Tlati torna-se ministra da Cultura. Menos espectacular e mais significativo, Ahmed Néjib Chebbi, um peão da National Endowment for Democracy, torna-se ministro do Desenvolvimento Regional. Ou ainda, o obscuro Slim Amanou, um bloguista moldado pelos métodos do Allbert Einstein Institute, torna-se secretário de Estado da Juventede e do Desporto em nome do fantasmático Partido pirata ligado ao auto-proclamado grupo Anonymous.

A Embaixada dos Estados Unidos, naturalmente, não solicitou ao Partido Comunista que fizesse parte deste chamado "governo de união nacional". Ao contrário, prepara-se o retorno de Londres, onde havia obtido asilo político, do líder histórico do Partido da Renascença (Ennahda), Rached Ghannouchi. Islamita ex-salafista, ele prega a compatibilidade do islão e da democracia e prepara desde há muito uma aproximação como o Partido Democrata Progressista do seu amigo Ahmed Néjib Chebbi, um social-democrata ex-marxista. No caso de um fracasso do "governo de união nacional", este tandem pró-EUA poderia fornecer uma ilusão de mudança.

Mais uma vez, os tunisinos levantam-se, ampliando por si mesmos a palavra de ordem que se lhes havia soprado: "RCD fora!". Nas comunas e nas empresas, caçam os colaboradores do regime caído.

Rumo à Revolução?

Ao contrário do que foi dito pela imprensa ocidental, a insurreição ainda não está terminada e a Revolução ainda não começou. É forçoso constatar que Washington nada encaminhou, excepto jornalistas ocidentais. Hoje, mais ainda do que no fim de Dezembro, a situação está fora de controle.

In http://www.voltairenet.org/article168270.html
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O EGIPTO À BEIRA DO SANGUE

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Thierry Meyssan*

De há uma semana a esta parte os meios de comunicação ocidentais fazem-se eco das manifestações e da repressão que agitam as grandes cidades egípcias. Traçam um paralelo com as que levaram ao derrube de Zine el-Abidine Ben Ali na Tunísia e evocam um vendaval de revolta no mundo árabe. Segundo eles, este movimento podia estender-se à Líbia e à Síria. Devia favorecer os democratas laicos e não os islamitas, prosseguem eles, porque a influência dos religiosos foi sobrestimada pela administração Bush e o "regime dos molllah" no Irão é um dissuasor. Assim se concretizariam os votos de Barack Obama na Universidade do Cairo: a democracia reinará no Próximo Oriente.

Esta análise é falsa segundo todas as perspectivas.

Primeiro, as manifestações começaram no Egipto já há alguns meses. Os meios de comunicação ocidentais não lhes prestaram atenção porque pensavam que elas não levariam a nada. Os egípcios não foram contaminados pelos tunisinos, mas foram os tunisinos que abriram os olhos dos ocidentais sobre o que se passa naquela região.

Em segundo lugar, os tunisinos revoltaram-se contra um governo e uma administração corruptos que foram espoliando gradualmente toda a sociedade, privando de qualquer esperança classes sociais cada vez mais numerosas. A revolta egípcia não é dirigida contra esse modo de exploração, mas contra um governo e uma administração que estão tão ocupados em servir os interesses estrangeiros que já não têm energia para satisfazer as necessidades básicas da sua população. No decurso dos últimos anos, o Egipto assistiu a inúmeros motins, quer contra a colaboração com o sionismo, quer provocados pela fome. Estes dois assuntos estão intimamente ligados. Os manifestantes evocam indistintamente os acordos de Camp David, o bloqueio a Gaza, os direitos do Egipto às águas do Nilo, a partilha do Sudão, a crise de habitação, o desemprego, a injustiça e a pobreza.

Além disso, a Tunísia era administrada por um regime policial, enquanto que o Egipto é-o por um regime militar. Digo aqui ’administrado’ – e não ’governado’ – porque em ambos os casos, trata-se de Estados sob uma tutela pós-colonialista, privados de política estrangeira e de defesa independente.

Segue-se que na Tunísia, o exército pôde interpor-se entre o Povo e a polícia do ditador, enquanto que no Egipto, o problema será resolvido pelo fuzil automático entre militares.

Em terceiro lugar, se o que se passa na Tunísia e no Egipto serve de encorajamento para todos os povos oprimidos, estes últimos não são os que os meios de comunicação ocidentais imaginam. Para os jornalistas, os maus são os governos que contestam – ou fingem contestar – a política ocidental. Enquanto que para os povos, os tiranos são os que os exploram e humilham. É por isso que penso que não iremos assistir às mesmas revoltas em Damasco. O governo de Bachar el-Assad é o orgulho dos sírios: alinhou do lado da Resistência e soube preservar os seus interesses nacionais sem nunca ceder às pressões. Acima de tudo, soube proteger o país do destino que Washington lhe reservava: ou o caos à moda iraquiana, ou o despotismo religioso à moda saudita. Claro que é muito contestado em muitos aspectos da sua gestão, mas desenvolve uma burguesia e os procedimentos democráticos que a acompanham. Pelo contrário, estados como a Jordânia e o Iémen são instáveis no que se refere ao mundo árabe, e o contágio também pode atingir a África negra, por exemplo o Senegal.

Em quarto lugar, os meios de comunicação ocidentais descobrem tarde demais que o perigo islamista é um espantalho. No entanto é preciso reconhecer que foi activado pelos Estados Unidos de Clinton e pela França de Miterrand nos anos 90 na Argélia, e depois foi exagerado pela administração Bush na sequência dos atentados de 11 de Setembro, e alimentado pelos governos neo-conservadores europeus de Blair, Merkel e Sarkozy.

Também é preciso reconhecer que não há nada em comum entre o wahhabismo à saudita e a Revolução islâmica de Rouhollah Khomeiny. Qualificá-los a ambos de ’islamitas’ não só é absurdo como é impedir que se compreenda o que se está a passar.

Os Seoud financiaram, de acordo com os Estados Unidos, grupos muçulmanos sectários que defendem o regresso à imagem que têm da sociedade do século VII, no tempo do profeta Maomé. Já não têm mais impacto no mundo árabe do que têm os amish nos Estados Unidos, com as suas carroças puxadas a cavalos.

A Revolução de Khomeiny não pretende instaurar uma sociedade religiosa perfeita, mas derrubar o sistema de dominação mundial. Afirma que a acção política é um meio para o homem se sacrificar e se transcender e, por conseguinte, que é possível encontrar no Islão a energia necessária à mudança.

Os povos do Próximo Oriente não querem substituir as ditaduras policiais ou militares que os esmagam por ditaduras religiosas. Não há perigo islamita. Simultaneamente, o ideal revolucionário islâmico que já produziu o Hezbollah na comunidade xiita libanesa, influencia agora o Hamas na comunidade sunita palestina. Pode de facto desempenhar um papel nos movimentos em curso, e já o desempenha no Egipto.

Em quinto lugar, por muito que desagrade a certos observadores, apesar de assistirmos a um regresso da questão social, este movimento não pode ser reduzido a uma simples luta de classes. É verdade que as classes dominantes receiam as revoluções populares, mas as coisas são mais complicadas. Assim, sem surpresas, o rei Abdallah da Arábia Saudita telefonou ao presidente Obama para lhe pedir que faça parar a desordem no Egipto e proteja os governos existentes na região, prioritariamente o seu. Mas este mesmo rei Abdallah acaba de favorecer uma mudança de regime no Líbano pela via democrática. Abandonou o multimilionário líbano-saudita Saad Hariri e apoiou a coligação de 8-Março, Hezbollah incluído, para o substituir como primeiro-ministro por um outro multimilionário líbano-saudita Najib Mikati. Hariri tinha sido eleito por parlamentares que representavam 45% do eleitorado, enquanto que Mikati acaba de ser eleito por parlamentares representando 70% do eleitorado. Hariri estava enfeudado a Paris e a Washingtom, Mikati anuncia uma política de apoio à Resistência nacional. A questão da luta contra o projecto sionista é actualmente superdeterminante em relação aos interesses de classe. Além disso, mais do que a distribuição da riqueza, os manifestantes põem em causa o sistema capitalista pseudoliberal imposto pelos sionistas.

Em sexto lugar, para voltar ao caso egípcio, os meios de comunicação ocidentais lançaram-se em volta de Mohamed ElBaradei que designaram por líder da oposição. É ridículo. M. ElBaradei é uma personalidade com uma reputação simpática na Europa, porque resistiu algum tempo à administração Bush, sem se lhe opor totalmente. Personifica pois a boa consciência europeia face ao Iraque, que se opunha à guerra e acabou por apoiar a ocupação. No entanto, objectivamente, M. ElBaradei é a água morna que recebeu o Prémio Nobel da Paz para que Hans Blix não o recebesse. É sobretudo uma personalidade sem qualquer eco no seu próprio país. Não existe politicamente a não ser porque a Irmandade Muçulmana o escolheu para seu porta-voz nos meios de comunicação ocidental.

Os Estados Unidos fabricaram adversários mais representativos, como Ayman Nour, que não tarda muito vai ser tirado do chapéu, apesar de as suas posições a favor do pseudo-liberalismo económico o desqualificarem perante a crise social que o país atravessa.

Como quer que seja, na realidade, só existem duas organizações de massas, implantadas na população, que há muito se opõem à política actual: a Irmandade Muçulmana, por um lado, e a Igreja cristã copta, por outro lado, (apesar de S.B. Chenoudda III distinguir a política sionista de Mubarak que ele combate, do rais [1] com que se entende). Este ponto escapou aos meios de comunicação ocidentais porque fizeram crer há pouco tempo ao público que os coptas estavam a ser perseguidos pelos muçulmanos quando estavam a ser perseguidos pela ditadura de Mubarak.

Mubarak e Suleiman. Aqui torna-se útil um parêntesis: Hosni Mubarak acaba de nomear Omar Suleiman para vice-presidente. É um gesto claro que pretende tornar mais difícil a sua eventual eliminação física pelos Estados Unidos. Mubarak chegou a presidente porque tinha sido designado vice-presidente e os Estados Unidos mandaram assassinar o presidente Anuar el-Sadate pelo grupo de Ayman al-Zawahri. Portanto, sempre se recusou até agora a arranjar um vice-presidente com medo de ser assassinado por sua vez. Ao designar o general Suleiman, escolheu um dos seus cúmplices com quem manchou as mãos no sangue de Sadate. A partir de agora, para conquistar o poder, não bastará matar apenas o presidente, será preciso executar também o seu vice-presidente. Ora, Omar Suuleiman é o principal artífice da colaboração com Israel. Washington e Londres vão pois protegê-lo como às meninas dos seus olhos.


Além do mais, Suleiman pode apoiar-se em Tsahal [2] contra a Casa Branca. Já começou por chamar atiradores de elite e material israelwnses que estão prontos para matar os cabecilhas da multidão.

O general-presidente Hosni Mubarak e o seu general-vice-presidente Omar Suleiman apareceram na televisão com os seus generais conselheiros para dar a entender que o exército tem o poder e vai mantê-lo.

Em sétimo lugar, a situação actual revela as contradições da administração americana. Barack Obama estendeu a mão aos muçulmanos e apelou à democracia aquando do seu discurso na universidade do Cairo. No entanto, agora, vai utilizar todo o seu empenho para impedir eleições democráticas no Egipto. Se pode aceitar um governo legítimo na Tunísia, não pode fazê-lo no Egipto. As eleições beneficiariam a Irmandade Muçulmana e os coptas. Escolheriam um governo que abriria a fronteira de Gaza e libertaria o milhão de pessoas que lá estão encerradas. Os palestinos, apoiados pelos seus vizinhos, o Líbano, a Síria e o Egipto, derrubariam o jugo sionista.

É preciso assinalar aqui que, no decurso dos dois últimos anos, estrategas israelenses conceberam um golpe retorcido. Considerando que o Egipto é uma bomba social, que a revolução é inevitável e está iminente, conceberam favorecer um golpe de estado militar em benefício de um oficial ambicioso e incompetente. Este lançaria uma guerra contra Israel e seria vencido. Tel-Aviv poderia assim reencontrar o seu prestígio militar e recuperar o monte Sinai e as suas riquezas naturais. Sabe-se que Washington se opôs decididamente a este cenário demasiado difícil de controlar.

O que é certo é que o Império anglo-saxão se mantém agarrado aos princípios que fixou em 1945: é favorável às democracias que fazem uma ’boa escolha’ (a do servilismo), e opõe-se aos povos que fazem a ’má escolha’ (a da independência).

Por conseguinte, se acharem necessário, Washington e Londres apoiarão sem reservas um banho de sangue no Egipto, desde que o militar que levar a melhor se comprometa a perpetuar o statu quo internacional.

In http://www.voltairenet.org/article168358.html
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

MILITARES ANGOLANOS AO LADO DE KADHAFI

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Oficiais angolanos, supostamente a pedido oficial do presidente da Líbia, Muammar Kadhafi, e, por isso, não enquadráveis na designação de mercenários, estão em Tripoli para tentar manter o regime.

Embora também tenham seguido para a Líbia militares de infantaria, o contingente angolano deverá ter apenas uma missão de coordenação e comando das operações que serão levadas a cabo pelos milhares de mercenários oriundos de váris países africanos, mas não só.

Assim, ao lado de mercenários ucranianos, também pilotos angolanos estão a servir o que resta da Força Aérea da Líbia que, nas últimas horas, tem assistido à deserção de muitos dos seus militares.

Entre outros, os Mirage F1 líbios estão a atacar as zonas hostis da rebelião, tendo ao comando sobretudo estrangeiros para quem o povo não passa de mais um alvo, posição que não foi aceite pelos pilotos líbios.

Apesar de os pilotos angolanos serem especialistas em aviões de combate de outro tipo, caso dos MIG-23, MIG-21 e o Sukkoi 27, parece que não têm dificuldade em pilotar outras aeronaves. Além disso, há sempre a possibilidade de fazer deslocar para a Líbia alguns dos aparelhos angolanos

Fontes angolanas admitem que os militares que já estão na Líbia, bem como outros que vão a caminho, estavam baseados desde há semanas em países vizinhos de Angola, numa estratégia preparada em conjunto por Luanda e Tripoli.

As forças leais a Muammar Kadhafi, com predominância para os mercenários, parecem ter assegurado o controle de Tripoli, esperando-se agora uma forte ofensiva, sobretudo sustentada na força aérea, contra alguns dos bastiões do interior que tinham sido conquistados pela oposição.

No leste da Líbia, onde o poder passou para as mãos da oposição, os revoltosos garantem que se não fosse o apoio dos mercenários, “sobretudo africanos”, Tripoli já estaria em seu poder.

Apesar de as forças que se opõe a Kadhafi controlarem toda a zona costeira oriental do país, região onde se concentra a maior parte da riqueza petrolífera, observadores internacionais temem que ao passar a Força Aéra para as mãos dos mercenários, Kadhafi esta a equacionar uma política de terra queimada que passará pelo bombardeamento das estruturas petrolíferas.

Apesar de ter conscientemente um exército fraco, facto que evitaria um golpe militar, Kadhafi depositava confiança na sua Força Aérea, entendendo-a não só como fiel mas também eficaz no contexto do país.

Perante as deserções, algumas com os próprios aviões, Kadhafi accionou o seu plano B que passa pela compra de um forte contingente paramilitar e pelo recrutamento de mercenário, todos pagos a peso de ouro.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.
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MEIO FALOU COM LIDERANÇA DA “NOVA REVOLUÇÃO DO POVO ANGOLANO”

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DIÁRIO LIBERDADE – 24 FEVEREIRO 2011

Correio Nagô - [Claudio Leal] -- O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, está há 32 anos no poder e sofre críticas pelos altos índices de corrupção em seu governo.

As rebeliões populares no Oriente Médio estimularam a articulação de um movimento, em Angola, para derrubar o presidente José Eduardo dos Santos, há 32 anos no poder.

Sucessor de Agostinho Neto, um dos ícones da luta pela Independência, Santos assumiu em 1979 a presidência do País e do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Em 1992, passou por um tumultuado pleito, o qual reacendeu a guerra civil.

Com a nova Constituição, a próxima eleição presidencial está prevista para 2012.

O manifesto "A Nova Revolução do Povo Angolano" se espalha nas redes sociais, repercute em jornais online dos países de língua portuguesa e foi amplificado por uma nota da Agência France-Presse. "Em toda Angola, vamos marchar com cartazes exigindo a saída do Ze Du, seus ministros e companheiros corruptos", anunciam. O ato central está marcado para o Largo da Independência, em Luanda, no dia 7 de março.

A combustão pode vingar, mas existe no povo angolano um sentimento de cansaço, depois de uma longa e devastadora guerra civil, encerrada somente em 2002. Terra Magazine procurou ouvir os líderes do movimento e trocou e-mails com "Agostinho Jonas Roberto dos Santos", que se apresenta como principal organizador dos protestos. Ele usa um pseudônimo que agrega os nomes de personagens da história contemporânea de Angola: Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto e o próprio José Eduardo dos Santos. Preferiu não se identificar e afirma que não há outros manifestantes por trás do nome. "Eles vão matar alguns de nós, mas no fim não vão conseguir matar-nos todos", diz.

- Entendemos que a mídia e algumas pessoas dentre o povo angolano estão preocupados com a minha cara e eu garanto-lhe que darei a cara no momento propício porque ainda estamos na fase de mobilização das massas.

Assinada por Sergio Ngueve dos Santos, uma carta foi dirigida ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com o pedido de "ajuda e observação". Há divisão entre os opositores angolanos. Em entrevista a uma rádio, o jornalista e ativista Rafael Marques, que mantém um site anti-corrupção, criticou o manifesto e disse que teme "um banho de sangue", pois "os angolanos são profundos praticantes e conhecedores da violência". "É preciso estruturar a sociedade no sentido de se preparar para o pós-Eduardo dos Santos", defendeu Marques.

O líder anônimo, que não se assume como Sergio Ngueve dos Santos, garante que o movimento é composto por membros de todos os partidos políticos do País, mas não possui um caráter político-partidário. No centro das exigências, a realização de eleições periódicas e o fim da era "Zé Du".

- Estamos cansados desta ditadura de quase 32 anos e queremos ser liderados por vários líderes em cada 5 ou 10 anos, o que acreditamos será uma verdadeira democracia, visto que o país será dirigido por diferentes pessoas com visões diferentes para o bem do povo angolano.

O MPLA já se pronunciou contra o movimento, o que sugere a expectativa de uma dura repressão aos anunciados protestos em Luanda e no resto de Angola. Criticado por causa de sua longevidade no poder, além dos casos de corrupção no governo, Santos tem o controle das Forças Armadas e conta com uma força simbólica sobre o País. Nesta entrevista, o líder reconhece o desejo de paz do povo angolano. Entretanto, argumenta que os jovens possuem outra mentalidade:

- Um jovem angolano disse, e com razão, que o povo de Angola já não é aquele povo de 20 anos atrás. Atualmente conhecemos a besta que vamos derrubar e não somos intimidados pelas ameaças mesquinhas do corrupto Dino Matross (secretário-geral do MPLA).

Confira a entrevista.

Terra Magazine - Agostinho Jonas Roberto dos Santos é um nome composto de lideranças políticas angolanas: Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto e Eduardo dos Santos. Quantas lideranças estão por trás do atual movimento? Por que a preferência pelo anonimato no manifesto "Nova Revolução Angolana"?

"Agostinho dos Santos" - O pseudônimo Agostinho Jonas Roberto dos Santos pertence a um só indivíduo que é o lider deste movimento. O movimento foi formado por jovens angolanos. A escolha do nome tem caráter simbólico, baseando-se na sequência de vida e morte dos protagonistas, sem querendo desejar a morte de José Eduardo dos Santos. O MRPLA não pertence a nenhum partido político angolano (lê 'about' emwww.revolucaoangolana.webs.com), mas representamos o conjunto do povo angolano pela nossa diversidade provincial, tribal, racial, cultural, e muito mais.

Entendemos que a mídia e algumas pessoas dentre o povo angolano estão preocupados com a minha cara e eu garanto-lhe que darei a cara no momento propício porque ainda estamos na fase de mobilização das massas e seria precoce e perigoso mostrar a cara.

Vocês acham que um movimento pela substituição do presidente José Eduardo dos Santos, que está há 32 anos no poder, tem as mesmas chances de prosperar que os protestos no Egito, na Tunísia e na Líbia?

Acreditamos na mudança, principalmente porque estamos cansados das injustiças e da falta de interesse dos nossos governantes que para além de perpectuarem a exploração ao povo, perderam o sentido de criatividade e inovação. Estamos cansados desta ditadura de quase 32 anos e queremos ser liderados por vários líderes em cada 5 ou 10 anos, o que acreditamos será uma verdadeira democracia, visto que o país será dirigido por diferentes pessoas com visões diferentes para o bem do povo angolano.

Não existe um cansaço do povo angolano com confrontos políticos, depois de uma longa guerra civil? O desejo de paz não deve enfraquecer o movimento?

De princípio também pensamos assim, mas agora temos uma percepção diferente daquilo que é o nosso povo. Um jovem angolano disse, e com razão, que o povo de Angola já não é aquele povo de 20 anos atrás. Atualmente conhecemos a besta que vamos derrubar e não somos intimidados pelas ameaças mesquinhas do corrupto Dino Matross.

O manifesto do movimento tem sido espalhado, principalmente, pela internet. Mas a penetração da internet não é grande em Angola. Como tem sido feita a mobilização para o ato de 7 de março?

A mobilização em Angola está a ser feita em forma de passe-a-palavra (NR: boca a boca) e debates nos bairros, cidades em todo o pais. Estamos satisfeitos com a campanha que fizemos até agora porque não só no país mas os angolanos na diáspora (Alemanha, Brasil, EUA, Canadá, França, a associação da mulher angolana no Reino Unido (Omal), estão todos ao nosso lado. Os jovens no país são a nossa maior força nesta causa.

Também tenho de realçar que a Constituição que o próprio governo elaborou garante-nos o direito de manifestação em lugares públicos SEM NENHUM AVISO, eu cito "reuniões e manifestações em lugares públicos carecem de prévia comunicação à autoridade competente".

Leia mais: CONSTITUIÇÃO DA REPUBLICA DE ANGOLA Artigo 47.º (Liberdade de reunião e de manifestação) 1. É garantida a todos os cidadãos, a liberdade de reunião e de manifestação pacífica e sem armas, sem necessidade de qualquer autorização e nos termos da lei. 2. As reuniões e manifestações em lugares públicos CARECEM de prévia comunicação à autoridade competente, nos termos e para os efeitos estabelecidos por lei.

Como o movimento avalia o governo de José Eduardo dos Santos?

Este governo gaba-se em ser sócio-democrático mas os seus atos, que foram uma experiência dolorosa para o povo angolano, define a verdadeira face do regime ditador de José Eduardo dos Santos. É um governo que não trouxe nada de melhor, repito, nada de melhor ao povo angolano.

Lideranças do MPLA já defenderam medidas duras contra a manifestação. Vocês temem uma repressão violenta do governo?

Uma repressão violenta é esperada pelo povo angolano, mas a nossa voz falará mais alto e os nossos atos irão remover o regime ditador de José Eduardo dos Santos. Eles vão matar alguns de nós, mas no fim não vão conseguir matar-nos todos. Viva o povo lutador de Angola.

Vocês integram algum agrupamento político-partidário?

Não nos integramos a nenhum agrupamento político-partidário, mas o nosso grupo está composto por angolanos de todos os partidos políticos angolanos. Este grupo não é político, mas sim um movimento de todo o povo de Angola que está a lutar na defesa genuína dos interesses do povo angolano. O movimento do povo apela a todos os militantes e partidos políticos de Angola, incluindo o MPLA, a se juntarem a esta revolução para o bem comum de todos os Angolanos.

Também apelamos aos nossos irmãos da Polícia Nacional e as Forças Armadas Angolanas a se juntarem ao povo porque acreditamos que eles também são vitimas deste regime ditador.

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