quarta-feira, 30 de março de 2011

TELEFONIA X RADIODIFUSÃO: A GUERRA ANUNCIADA

.
Venício Lima – Carta Maior - Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Será que teremos aqui uma versão explícita da briga entre teles e radiodifusores como está ocorrendo no México? O que está acontecendo ao norte do Equador pode perfeitamente vir a acontecer também ao sul, vale dizer, aqui mesmo entre nós.

Salvo por uma matéria traduzida da The Economist, publicada na Carta Capital nº 639, a grande mídia brasileira optou por não noticiar a briga de gigantes deflagrada no México, nos últimos dias.

E por que interessaria ao público brasileiro o que ocorre no México? Quando nada, um dos gigantes envolvidos é sócio (alguns dizem, majoritário) da maior operadora de televisão paga do Brasil: a NET, ligada às Organizações Globo. Ademais, o que está acontecendo ao norte do Equador pode perfeitamente vir a acontecer também ao sul, vale dizer, aqui mesmo entre nós.

Monopólio vs. Monopólio

As operações de telefonia e televisão no México são praticamente monopolizadas por dois grandes grupos.

Cerca de 80% das linhas de telefonia fixa estão conectadas à Telmex – a mesma empresa que é sócia da NET – e 70% do mercado de telefonia móvel (celular) são controlados pela Telcel, outra empresa do mesmo grupo – ambas de Carlos Slim, o homem mais rico do planeta.

Por outro lado, o grupo Televisa, do empresário Emilio Azcárraga, controla cerca de 70% da audiência da televisão aberta. O que sobra, em boa parte, está sob controle da TV Azteca, comandada por Ricardo Salinas, outro magnata mexicano.

Os grupos conviviam em relativa harmonia, cada um com seu respectivo "mercado". Agora, diante da convergência tecnológica, resolveram se enfrentar abertamente.

Um grupo de 25 empresas de telecomunicações, incluídas a Cablevisión (propriedade do Grupo Televisa) e Iusacell (do Grupo Salinas, da TV Azteca), entrou com uma ação na Comissão Federal de Competição (Cofeco, equivalente ao nosso Conselho Administrativo de Defesa Econômica – Cade, do Ministério da Justiça) contra o alto custo das tarifas de interconexão cobradas pela Telcel. Ao mesmo tempo, a Telmex apresentou quatro denúncias contra a Televisa, a Televisión Azteca, a Cablesivion, a Megacable, a Cablemas, a Television Internacional e a Yoo por "práticas de monopólio e correlatos".

As ações legais vieram acompanhadas de anúncios de página inteira nos jornais parceiros da Televisa denunciando o "monopólio caro e ruim" da indústria de telecomunicações, enquanto Carlos Slim retirava os anúncios de suas empresas – cerca de 70 milhões de dólares anuais – dos canais da Televisa. Em represália e solidariedade à Televisa, a TV Azteca passou a recusar os anúncios do Grupo Telmex.

Disputa de mercado

O que está em jogo, por óbvio, é o controle do mercado convergente de telefonia e televisão. Como explica didaticamente a matéria da The Economist:

"A tecnologia transformou os negócios de telefonia e televisão em um único mercado: a televisão hoje inclui telefone e internet em seu serviço de TV a cabo, e quer adicionar telefones celulares. Salinas, que também controla uma empresa de celulares, a Iusacell, lançou um pacote semelhante em 2010. Slim deseja usar seus cabos de telefonia para distribuir TV paga (setor em que se tornou o maior ator no resto da América Latina), mas o governo não quer permitir.

"Agora os bilionários pedem o tipo de reforma da concorrência de que suas respectivas indústrias precisavam há muito tempo. Os magnatas da TV querem que Slim reduza o valor cobrado quando, um telefone rival liga para um celular Telcel (a agência reguladora das teles do México lhe disse para reduzir algumas taxas). A atual tarifa de interconexão é 43,5% acima da média da maioria dos países ricos da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Isso torna impossível que outras operadoras ofereçam tarifas competitivas. A Comissão Federal de Concorrência (CFC) do México diz que os consumidores se beneficiariam de 6 bilhões de dólares por ano se as taxas de conexão se equiparassem à média da OCDE. A CFC recomenda deixar Slim concorrer na televisão quando tiver relaxado seu poder no setor de telefonia. Se a Telmex entrasse no mercado de tevê paga, o aumento da concorrência colocaria os preços ao alcance de mais 3,8 milhões de residências, admite a CFC."

E no Brasil?

A situação brasileira é diferente da mexicana, mas a briga entre teles e radiodifusores tradicionais ocorre também aqui. O locus dessa disputa, desde 2007, tem sido o projeto de lei que tramita no Congresso Nacional e "abre o setor de TV por assinatura para as teles, cria a separação de mercado entre produtores de conteúdo e empresas de distribuição e ainda cria cotas de programação nacional nos pacotes de canais pagos", além de revogar a Lei do Cabo de 1995.

Na sua versão atual o projeto – PLC 116 do Senado Federal – é o resultado da articulação inicial de três propostas representando grupos e interesses distintos: o PL 29/2007 representa as empresas de telefonia; o PL 70/2007 representa os radiodifusores; e o PL 323/2007 situa-se em posição intermediária entre os interesses dos dois setores. Aprovado em junho de 2010 na Câmara dos Deputados, até hoje tramita no Senado Federal.

Será que teremos aqui uma versão explícita da briga entre teles e radiodifusores como ocorre no México?

A ver.

**Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.

LULA FALA DA “ESTRATÉGICA RELAÇÃO” ENTRE PORTUGAL E BRASIL

.

Cláudia Bancaleiro, Natália Faria – Público – 30 março 2011

Ex-Presidente recebe doutoramento "honoris causa"

Mais do que os fastidiosos discursos oficiais, foi um estudante brasileiro que, com uma só frase, melhor sintetizou a importância simbólica do doutoramento honoris causa do ex-presidente do Brasil. “É uma lição aos que criticavam o Brasil por ter eleito um presidente que nem curso superior tinha”, atirou Mauro Gold Schimdt, 23 anos e um dos cerca de mil brasileiros a estudar em Coimbra.

A pairar sobre esta cerimónia estava a hipótese de o Brasil comprar títulos da dívida soberana portuguesa, mas, sobre este assunto, no discurso de Lula da Silva, nem uma vírgula. Sobre a importância das relações entre os dois países Lula falou, mas apenas para sublinhar o óbvio. “Julgamos estratégica a relação com Portugal e com os países africanos de língua portuguesa. O que nos une é infinitamente mais importante do que aquilo que nos separa. Somos uma comunidade de destino a ser potencializada com entusiasmo tanto na esfera linguística quando no terreno económico e comercial”, afirmou, dizendo fazer votos para que a sua presença sirva para “estreitar ainda mais” os “laços históricos” e as “parcerias produtivas” entre Portugal e o Brasil.

Dilma Rousseff, que ontem admitiu a hipótese de o Brasil ajudar Portugal a sair da crise, não falou à entrada. Cavaco Silva, sim. Mas apenas para dizer que Lula da Silva é “um grande amigo de Portugal”. Logo, “é uma honra a sua presença”. José Sócrates também não falou. Entreteve-se a deixar-se fotografar ao lado dos estudantes brasileiros que o bombardearam munidos de máquinas digitais, ansiosos de se verem fotografados ao lado do, ainda que demissionário, primeiro-ministro português.

Só em Coimbra são cerca de mil os estudantes brasileiros. Nas contas de Lula da Silva, são 51 as universidades brasileiras que desenvolvem projectos de ensino e de pesquisa em parceria com a Universidade de Coimbra. Uma realidade tornada possível também por causa do esforço que o ex-Presidente diz ter feito e que se traduziu, nos oitos anos da sua presidência, na criação de 14 novas universidades federais e 126 extensões universitárias. Não está mal para o metalúrgico que nunca frequentou uma universidade. Mas nem tudo são rosas. Num sms que um estudante brasileiro enviava a alguém, lia-se “Falei a Dilma para aumentar nossas bolsas, pode ser que dê sorte”.

"Doutoramento é homenagem à revolução feita pelo povo brasileiro"

Lula da Silva considerou que a distinção que hoje recebeu é uma homenagem ao “povo brasileiro que nos últimos anos desenvolveu uma verdadeira revolução economia e social”. O ex-chefe de Estado disse ter recebido “com imensa honra” o doutoramento, que considerou que “mais do que um reconhecimento pessoal”, é "uma homenagem ao povo brasileiro, que nos últimos oito anos realizou, de modo pacífico e democrático, uma verdadeira revolução económica e social”.

Lula da Silva realçou ainda o “enorme salto qualitativo” dado pelo Brasil “no rumo da prosperidade e da justiça”, deixando “para trás um passado de frustrações e cepticismo”. “Após uma prolongada estagnação, o Brasil voltou a crescer de modo vigoroso e continuado, gerando empregos, distribuindo renda e promovendo uma vasta inclusão social”, reforçou Lula, destacando o papel importante que ministros como Dilma Rousseff (foi ministra das Minas e Energia e ministra chefe da Casa Civil) tiveram para o Brasil alcançar este desenvolvimento. Lula da Silva não esqueceu também a colaboração do seu “parceiro de todas as horas”, o “inesquecível” José de Alencar. O antigo vice-presidente morreu esta terça-feira, Lula tinha já prometido que iria homenageá-lo esta manhã ao receber o prémio.

LULA CHORA AO SABER DA MORTE DO AMIGO JOSÉ ALENCAR

.
CORREIO DO BRASIL, com colaboradores - de Coimbra, Portugal - 30 março 2011

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, emocionado, lamentou a morte do ex-vice-presidente José Alencar, que o acompanhou nos oito anos de mandato. Lula estava acompanhado pela presidenta Dilma Rousseff quando recebeu a notícia e não conteve as lágrimas. Eles seguem em Coimbra até a manhã desta quarta-feira, quando o líder brasileiro receberá a mais alta homenagem da Universidade de Coimbra, em Portugal. Lula oferecerá ao amigo o diploma de Doutor Honoris Causa.

– Vou receber o prêmio e dedicar ao meu amigo. Nós éramos mais que companheiros, éramos dois irmãos. Eu sempre disputei eleição e tinha 35%, 39% . Quando encontrei o José Alencar, ganhei. Era o que faltava para completar – disse Lula, aos prantos.

Dilma também lamentou a perda de um dos homens públicos mais respeitados na história política do país e se desculpou por ter falado pouco antes aos jornalistas sobre sua confiança na expectativa de melhora do quadro de saúde de Alencar, quando, na realidade, ele acabara de morrer e ela ainda não sabia. Por meio de um comunicado oficial, Dilma decretou luto oficial de sete dias e informou que o corpo de Alencar será velado no Palácio do Planalto, com honras de chefe de Estado.

A presidenta foi seguida por uma nota, assinada pelo presidente em exercício, Michel Temer, que transcrevemos aqui, na íntegra:

“Brasília, 29 de março de 2011

“O ex-vice-presidente José Alencar Gomes da Silva foi exemplo de luta, perseverança e superação para todos os brasileiros. Mesmo nos momentos de maior sofrimento pessoal, transmitia otimismo permanente e fé inquebrantável. A quem o procurava para oferecer conforto pela dura provação pela qual passava, retribuía com alegria, bom humor e desassombro.

“Homem público de valor inestimável, José Alencar teve carreira de sucesso como empreendedor no setor de tecidos e confecções, tornando-se um dos maiores líderes empresariais do país. Tornou-se, ademais disso, conhecido nacionalmente por integrar um governo profundamente comprometido com a justiça social.

“A perda de José Alencar é imensa devido à grande estatura que ele alcançou durante sua vida, seja como empresário, seja como político. Sempre de forma irreparável e exemplar. Lamento profundamente a morte desse mineiro que não conhecia fronteiras e acreditou sempre no Brasil. Transmito em meu nome, em nome da presidente Dilma Rousseff nossa solidariedade à família e aos amigos nesta hora triste.

“Michel Temer “Presidente da República, em Exercício”

OS SUPER-RICOS DO MUNDO



Os multimilionários prosperam
e as desigualdades aprofundam-se quando as economias "recuperam"

James Petras

As operações de salvamento de bancos, especuladores e industriais cumpriram o seu verdadeiro objectivo: os milionários passaram a multimilionários e estes ficaram ainda mais ricos. Segundo o relatório anual da revista de negócios Forbes, há 1210 indivíduos – e em muitos casos clãs familiares – com um valor líquido de mil milhões de dólares (ou mais). O seu valor líquido total é de 4,5 milhões de milhões de dólares, maior do que o valor total de 4 mil milhões de pessoas em todo o mundo. A actual concentração de riqueza ultrapassa qualquer período anterior da história; desde o Rei Midas, os Marajás, e os Barões Ladrões [1] até aos magnates de Silicon Valley [2] e Wall Street na actual década.

Uma análise da origem da riqueza dos super-ricos, a sua distribuição na economia mundial e os métodos de acumulação esclarece diversas diferenças importantes com profundas consequências políticas. Vamos identificar essas características especiais dos super-ricos, a começar pelos Estados Unidos e faremos depois uma análise ao resto do mundo.

Os super-ricos nos Estados Unidos: os maiores parasitas vivos

Os EUA têm a maior parte dos multimilionários do mundo (413), mais de um terço do total, a maior proporção entre os grandes países do mundo. Um olhar mais de perto também revela que, entre os 200 multimilionários do topo (os que têm 5,2 mil milhões de dólares ou mais), 57 são dos EUA (29%). Mais de um terço fez fortuna através da actividade especulativa, da predação da economia produtiva e da exploração do mercado imobiliário e de acções. Esta é a percentagem mais alta de qualquer dos principais países na Europa ou na Ásia (com a excepção da Inglaterra). A enorme concentração de riqueza nas mãos desta pequena classe dirigente parasita é uma das razões por que os EUA têm as piores desigualdades de qualquer economia avançada e se situa entre as piores em todo o mundo. Os especuladores não empregam trabalhadores, servem-se de expedientes fiscais e de operações de salvamento e depois pressionam cortes no orçamento social, dado que não precisam de uma força de trabalho saudável e instruída (excepto no que se refere a uma pequena elite). Em 1976, 1% da população mundial detinha 20% da riqueza; em 2007 dominava 35% da riqueza total. Oitenta por cento dos americanos possuem apenas 15% da riqueza. As recentes crises económicas, que inicialmente reduziram a riqueza total do país, fizeram-no de modo desigual – atingindo de modo mais grave a maioria dos operários e empregados. A operação de salvamento Bush-Obama levou à recuperação económica, não da "economia em geral", mas restringiu-se a reforçar ainda mais a riqueza dos multimilionários – o que explica porque é que a taxa de desemprego e subemprego ficou praticamente na mesma, porque é que a dívida fiscal e o défice comercial aumentam e o estado baixa os impostos às grandes empresas e reduz os orçamentos municipais, estatais e federais. O sector "dinâmico" formado por capitalistas parasitas emprega menos trabalhadores, não exporta produtos, paga impostos mais baixos e impõem maiores cortes nas despesas sociais para os trabalhadores produtivos. No caso dos multimilionários dos EUA, a sua riqueza é fortemente acrescida através da pilhagem do erário público e da economia produtiva e através da especulação no sector das tecnologias de informação que alberga um quinto dos multimilionários do topo.

BRIC - Os novos multimilionários: A explorar o trabalho da natureza

Os principais países capitalistas emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC), elogiados pelos meios de comunicação pelo seu rápido crescimento na última década, estão a produzir multimilionários a um ritmo mais rápido do que qualquer bloco de países do mundo. Segundo os últimos dados no Forbes (Março de 2011), o número de multimilionários no BRIC aumentou mais de 56% de 193 em 2010 para 301 em 2011, ultrapassando os da Europa.

O forte crescimento do BRIC levou à concentração e centralização de capital, em todos os casos promovidos pelas políticas de estado que proporcionam empréstimos a juros baixos, subsídios, incentivos fiscais, exploração ilimitada de recursos naturais e mão-de-obra, expropriação dos pequenos proprietários e privatização de empresas públicas.

O crescimento dinâmico de multimilionários no BRIC levou às desigualdades mais flagrantes em todo o mundo. Nos países do BRIC, a China lidera o caminho com o maior número de multimilionários (115) e as piores desigualdades em toda a Ásia, em profundo contraste com o seu passado comunista quando era o país mais igualitário do mundo. Um exame da origem da riqueza dos super ricos na China revela que provém da exploração da força de trabalho no sector da manufactura, da especulação no imobiliário e da construção e comércio. EM 2011, A China ultrapassou os EUA enquanto maior fabricante do mundo, em consequência da super-exploração da mão-de-obra na China e do crescimento de capital financeiro parasitário nos EUA.

Em contraste com os EUA, a classe trabalhadora da China está a fazer incursões significativas nas receitas da sua elite de manufacturas e de imobiliário. Em consequência da luta da classe trabalhadora, os salários têm vindo a aumentar entre 10% a 20% nos últimos 5 anos; os protestos dos agricultores e das famílias urbanas contra as expropriações feitas pelos especuladores imobiliários e sancionadas pelo estado ultrapassaram os 100 mil por ano.

A riqueza dos multimilionários russos, por outro lado, resultou do violento roubo dos recursos públicos (petróleo, gás, alumínio, ferro, aço, etc.), explorados pelo anterior regime. A grande maioria dos multimilionários russos depende da exportação de bens, da pilhagem e da devastação do ambiente natural sob um regime corrupto e sem regulamentação. O contraste entre as condições de vida e de trabalho entre os multimilionários virados para o ocidente e a classe trabalhadora russa é sobretudo o resultado do escoamento da riqueza para contas ultramarinas, investimentos offshore e luxos pessoais extraordinários, incluindo propriedades de muitos milhões de dólares. Em contraste com a elite industrial da China, os multimilionários da Rússia parecem-se com os 'senhorios' parasitas que se encontram entre os especuladores de Wall Street e os xeiques do Golfo Pérsico.

Os multimilionários da Índia são uma mistura de ricos antigos e novos ricos que amontoam a sua riqueza através da exploração dos trabalhadores industriais de salários baixos, das populações de bairros pobres expropriados e dos povos tribais, assim como da posse diversificada de imobiliário, tecnologia informática e software. Os multimilionários da Índia acumularam a sua riqueza através das suas ligações familiares com os escalões mais altos, muito corruptos, da classe política, assegurando monopólios através de contratos com o estado. O forte crescimento da Índia na última década (7% em média) e a explosão de multimilionários de 55 para 2011, estão ambos ligados às políticas neo-liberais de desregulamentação, privatização e globalização, que concentraram a riqueza no topo, corroeram os produtores em pequena escala e espoliaram dezenas de milhões.

A classe multimilionária do Brasil aumentou rapidamente, em particular sob a direcção do Partido dos Trabalhadores, para 29, acima do número de um só dígito uma década antes. Hoje, mais de dois terços dos multimilionários da América Latina são brasileiros. A peça central da riqueza dos super ricos do Brasil é o sector finanças-banca que beneficiou fortemente das políticas monetária, fiscal e neo-liberal do regime de Lula da Silva. Os banqueiros multimilionários têm sido os principais beneficiários da economia de exportação agro-mineral que floresceu na última década, à custa do sector de manufacturas. Apesar das afirmações dos líderes do Partido dos Trabalhadores, as desigualdades de classe entre a massa dos trabalhadores de salário mínimo (380 dólares por mês em Março de 2011) e os super-ricos continuam a ser as piores da América Latina. Uma análise da origem da riqueza entre os multimilionários brasileiros revela que 60% aumentaram a sua riqueza no sector finanças, imobiliário e seguros (FIRE) e só um deles (3%) no sector de capital ou manufactura intermédia. A explosão do Brasil em crescimento económico e em multimilionários encaixa no perfil de uma 'economia colonial': com grande peso no consumo excessivo, na exportação de bens e presidido por um sector financeiro dominante que promove políticas neoliberais. No decurso da última década, apesar do teatro político populista e dos programas de pobreza paternalistas patrocinados pelo Partido dos Trabalhadores "centro-esquerda", o principal resultado sócio-económico foi o crescimento duma classe de multimilionários "super-ricos" concentrados na banca com poderosas ligações aos sectores do agro-mineral. A classe financeira-agro-mineral, de forte crescimento via mercado livre, degradou o sector de manufactura, principalmente os têxteis e os sapatos, assim como os produtores de bens de capital e intermédios.

Os países BRIC estão a produzir mais, e a crescer mais depressa do que as potências imperialistas estabelecidas na Europa e nos EUA, mas também estão a produzir desigualdades e concentrações monstruosas de riqueza. As consequências sócio-económicas já se manifestaram no aumento do conflito de classes, principalmente na China e na Índia, onde a exploração intensiva e a expropriação provocaram a acção das massas. A elite política chinesa parece estar mais consciente da ameaça política colocada pela concentração crescente da riqueza e encontra-se em vias de promover aumentos substanciais de salários e um maior consumo local que parece estar a reduzir as margens de lucro nalguns sectores da elite de manufacturas. Talvez que a 'memória histórica' da 'revolução cultural' e a herança maoista desempenhe o seu papel no alerta da elite política para os perigos políticos resultantes dos "excessos capitalistas" associados aos altos níveis de exploração e ao rápido crescimento duma classe de clãs politicamente relacionados, baseados em multimilionários.

Médio Oriente

Na última década, o país mais dinâmico no Médio Oriente foi a Turquia. Dirigido por um regime democrático liberal de inspiração islâmica, a Turquia tem liderado a região no crescimento do PIB e na produção de multimilionários. O desempenho económico turco tem sido apresentado pelo Banco Mundial e pelo FMI como um modelo para os regimes pós ditatoriais no mundo árabe – de 'alto crescimento', uma economia diversificada baseada na crescente concentração de riqueza. A Turquia tem mais 35% de multimilionários (37) do que os estados do Golfo e do Norte de África em conjunto (24). O 'segredo' do crescimento turco é as altas taxas de investimento em diversas indústrias e a exploração intensiva da força de trabalho. Muitos multimilionários turcos (14) obtêm a sua riqueza através de 'conglomerados', investimentos em diversos sectores de manufactura, finança e construção. Para além dos multimilionários de 'conglomerados', há 'multimilionários especialistas' que acumularam a sua riqueza a partir da banca, da construção e do processamento de alimentos. Uma das razões de a Turquia ter censurado e desafiado o poder de Israel no Médio Oriente é porque os seus capitalistas estão ansiosos por projectar investimentos e penetrar nos mercados do mundo árabe. Com excepção do sistema político americano, fortemente sionizado, as elites governantes e o público na Europa e na Ásia encararam favoravelmente a oposição da Turquia aos massacres israelenses em Gaza e à violação da lei internacional em águas marítimas. Se um moderno regime islâmico liberal pode crescer rapidamente através da rápida expansão duma classe diversificada de super-ricos, o mesmo acontece com Israel, um moderno estado judaico-neoliberal baseado no rápido crescimento duma classe de multimilionários altamente diferenciada.

Israel, com 16 multimilionários é um país em que as desigualdades de classe crescem mais rapidamente na região – com o mais alto número de multimilionários per capita do mundo… Os "sectores de crescimento" de Israel, software, indústrias militares, finança, seguros e diamantes e investimentos ultramarinos em metais e minas, são liderados por multimilionários e multi-multimilionários que beneficiaram das dádivas financeiras induzidas pelos sionistas, provenientes da pilhagem de recursos feita pelos EUA nos países da ex-URSS e da transferência de fundos pelas oligarquias russas-israelenses e também de empreendimentos conjuntos com multimilionários judaico-americanos em empresas de software, principalmente no sector de "segurança".

A alta percentagem de multimilionários em Israel, numa época de profundos cortes nas despesas sociais, desmente a sua afirmação de ser uma 'social-democracia' no meio dos 'xeicados'. A propósito, Israel tem o dobro de multimilionários (16) da Arábia Saudita (8) e mais super-ricos do que todos os países do Golfo juntos (13). O facto de Israel ter mais multimilionários per capita do que qualquer outro país não impediu os seus apoiantes sionistas nos EUA de pressionarem por uma ajuda adicional de 20 mil milhões de dólares na década passada. Contrariamente ao passado, a actual concentração de riqueza de Israel tem menos a ver com o facto de ser o maior recebedor de ajuda estrangeira… as doações a Israel são uma questão política: o poder sionista sobre a bolsa do Congresso. Dada a riqueza total dos multimilionários de Israel, um imposto de cinco por cento seria mais que compensador de qualquer corte da ajuda externa dos EUA. Mas isso não vai acontecer apenas porque o poder sionista na América impõe que os contribuintes americanos subsidiem os plutocratas de Israel, pagando-lhes o seu armamento ofensivo.

Conclusão

As "crises económicas" de 2008-2009 infligiram apenas perdas temporárias a alguns multimilionários (EUA-UE) e a outros não (asiáticos). Graças às operações de salvamento de milhões de milhões de dólares/euros/ienes, a classe multimilionária recuperou e alargou-se, apesar de os salários nos EUA e na Europa terem estagnado e os 'padrões de vida' terem sido atingidos por cortes maciços na saúde, na educação, no emprego e nos serviços públicos.

O que é chocante quanto à recuperação, crescimento e expansão dos multimilionários mundiais é como a sua acumulação de riqueza depende e está baseada na pilhagem de recursos do estado; como a maior parte das suas fortunas se basearam nas políticas neoliberais que levaram à apropriação a preços de saldos de empresas públicas privatizadas; como a desregulamentação estatal permite a pilhagem do ambiente para a extracção de recursos com a mais alta taxa de retorno; como o estado promoveu a expansão da actividade especulativa no imobiliário, na finança e nos fundos de pensões, enquanto encorajava o crescimento de monopólios, oligopólios e conglomerados que captaram "super lucros" – taxas acima do "nível histórico". Os multimilionários no BRIC e nos antigos centros imperialistas (Europa, EUA e Japão) foram os principais beneficiários das reduções fiscais e da eliminação de programas sociais e de direitos laborais.

O que é perfeitamente claro é que é o estado, e não o mercado, quem desempenha um papel essencial em facilitar a maior concentração e centralização de riqueza na história mundial, quer facilitando a pilhagem do erário publico e do ambiente, quer aumentando a exploração da força de trabalho, directa e indirectamente.

As variantes nos caminhos para o estatuto de 'multimilionário' são chocantes: nos EUA e no Reino Unido, predomina o sector parasita-especulativo sobre o produtivo; entre o BRIC – com excepção da Rússia – predominam diversos sectores que incorporam multimilionários da manufactura, do software, da finança e do sector agro-mineral. Na China, o abissal fosso económico entre os multimilionários e a classe trabalhadora, entre os especuladores imobiliários e as famílias expropriadas levou ao aumento do conflito de classes e a desafios, forçando a aumentos significativos de salários (mais de 20% nos últimos três anos) e à exigência de maiores gastos públicos na educação, saúde e habitação. Nada de comparável está a acontecer nos EUA, na UE ou noutros países do BRIC.

As origens da riqueza dos multimilionários são, quando muito, devidas apenas em parte a 'inovações empresariais'. A sua riqueza pode ter começado, numa fase inicial, a partir da produção de bens ou serviços úteis; mas, à medida que as economias capitalistas 'amadurecem' e se viram para a finança, para os mercados ultramarinos e para a procura de lucros mais altos, impondo políticas neoliberais, o perfil económico da classe multimilionários muda para o modelo parasita dos centros imperialistas instituídos.

Os multimilionários nos BRIC, a Turquia e Israel contrastam fortemente com os multimilionários do petróleo do Médio Oriente que são rentistas que vivem das 'rendas' da exploração do petróleo, do gás e dos investimentos ultramarinos, em especial do sector FIRE. Entre os países BRIC, só a oligarquia multimilionária russa se parece com os rentistas do Golfo. O resto, em especial os multimilionários chineses, indianos, brasileiros e turcos, tiraram partido das políticas industriais promovidas pelo estado para concentrar a riqueza sob a retórica de 'paladinos nacionais', que promovem os seus próprios 'interesses' em nome duma 'economia emergente de sucesso'. Mas mantêm-se as questões básicas de classe: "crescimento para quem? e a quem é que beneficia?" Até agora, o registo histórico mostra que o crescimento de multimilionários tem-se baseado numa economia altamente polarizada em que o estado serve a nova classe de multimilionários, sejam especuladores parasitas como nos EUA, rentistas saqueadores do estado e do ambiente, como na Rússia e nos estados do Golfo, ou exploradores da força de trabalho como nos países BRIC.

Post Scriptum

A revolta árabe pode ser vista em parte como uma tentativa de derrubar os 'clãs capitalistas de rentistas. A intervenção ocidental nas revoltas e o apoio das elites militares e políticas da "oposição" é um esforço para substituir uma classe governante capitalista 'neoliberal'. Essa "nova classe" será baseada na exploração da mão-de-obra e na expropriação dos actuais possuidores dos recursos clã-família-amigos. As principais empresas serão transferidas para multinacionais e capitalistas locais. Muito mais promissoras são as lutas internas dos trabalhadores na China e, em menor grau, no Brasil e no campesinato rural maoista e movimentos tribais na Índia, que se opõem à exploração e à expropriação de rentistas e capitalistas.

NT
[1] Barão ladrão – termo pejorativo usado para um poderoso homem de negócios e banqueiro americano do século XIX.
[2] Sillicon Valley – situa-se a Sul da área da baía de S. Francisco, na Califórnia. Esta região alberga muitas das maiores companhias de tecnologia electrónica do mundo.
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23907 .

Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Nota:
 
Este artigo coloca a questão de ser necessário reflectir-se sobre o tandem "executivo" James Baker - George Soros, conforme tenho vindo a chamar a atenção ao debruçar-me sobre os acontecimentos das "revoluções coloridas" que estão a passar das fronteiras da Europa do Leste para o Médio Oriente e África:

Efectivamente as possibilidades do binómio especulação - filantropia, são imensas e intensas em termos de ingerência social a patamares nunca antes experimentados, em especial quando o argumento da filantropia é dirigido para a captação da juventude, ao mesmo tempo que a especulação capta as elites.

A contradição está a tomar conta das sociedades: se as elites não alinham, são penalizadas por que crescem de forma artificiosa os movimentos de massas, se alinham, sujeitam-se ou aderem ao "diktat" das conveniências e enredos estendidos pelas políticas da hegemonia.

Este é um dilema com tendência a tornar-se global, pois até nos Estados Unidos as desigualdades encarregar-se-ão de fazer crescer os movimewntos sociais, que se não estiverem suficientemente amadurecidos, estão no mínimo contaminados pelo tandém James Baker - George Soros.

EX-VICE PRESIDENTE DE LULA DA SILVA MORREU AOS 79 ANOS

.
Isabel Gorjão Santos – Público – 29 março 2011

José Alencar lutava há 15 anos contra um cancro

José Alencar foi vice-presidente do Brasil durante os dois mandatos de Lula da Silva, entre 2003 e 2010. Morreu nesta terça-feira, aos 79 anos, depois de ter sido internado no hospital Sírio-libanês de São Paulo. Lutava há 15 anos contra um cancro que já o tinha obrigado a 17 cirurgias e vários internamentos.

A doença não o impediu de exercer as funções de vice-presidente do Brasil desde 2003, mas já não lhe permitiu estar presente na cerimónia de tomada de posse da actual Presidente Dilma Rousseff, a 1 de Janeiro. Segundo um comunicado do hospital, foi ontem internado mas acabou por morrer com falência múltipla de órgãos. Apesar dos sucessivos tratamentos, a doença já lhe tinha afectado os rins e o estômago.

Em Dezembro de 2010, já após as eleições de Outubro, o ex-vice presidente brasileiro voltou a ser operado após uma hemorragia digestiva e recebeu no hospital a visita de Lula da Silva e Dilma Rousseff, que agora interromperam a sua visita a Portugal para estarem presentes no funeral. Naquela altura, chegou a dizer à actual Presidente que queria recuperar a tempo de estar presente na tomada de posse, mas os médicos aconselharam-no a não comparecer.

Empresário de sucesso à frente da Coteminas, uma das principais empresas da indústria de tecidos do Brasil, Alencar liderou várias associações comerciais até ser eleito para presidir à Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais.

Iniciou a sua carreira política em 1993, quando se filiou no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). No ano seguinte concorreu ao governo de Minas Gerais e ficou em terceiro lugar. Já em 1998 foi eleito para o Senado com três milhões de votos, recorda o “Folha de São Paulo”. Aí presidiu às comissões permanentes de Serviços e Infra-estruturas e de Assuntos Económicos, até ser eleito vice-presidente em 2002.

A partir de 2004, e até 2006, acumulou essas funções com as de ministro da Defesa, tendo acabado por ser reeleito, juntamente com Lula da Silva, e, apesar da doença, cumpriu o mandato até ao fim. Casado, pai de três filhos e avô de cinco netos, chegou a ser considerado um dos candidatos às eleições de Outubro, mas a doença impediu-o de concorrer.

Esta terça-feira, Lula da Silva recebeu em Portugal a notícia da morte de Alencar. “Nós éramos mais do que companheiros, éramos dois irmãos”. O antigo Presidente termina a visita mais cedo, mas estará amanhã em Coimbra para receber o doutoramento honoris causa. “Vou recebê-lo e dedicá-lo ao meu amigo”.


Manifestação 2 de abril – Jovens clamam "liberdade de expressão em Angola"

.
ANGOLA 24 HORAS – 29 março 2011

Ao contrário do 7 de Março, desta vez o protesto tem rostos visíveis e o pedido de realização foi confirmado pelo Governo Provincial de Luanda. Poderá ter lugar no largo da Independência, no próximo Sábado, 2 de Abril, a partir das 13 horas.

O Governo Provincial de Luanda negou comentar o assunto à Ecclesia.

No entanto, sabe-se que os solicitantes pretendem manifestar-se para exigir liberdade de expressão às autoridades angolanas.

Desta vez, o rosto responsável apresenta-se com o nome de Carbono Casimiro.

“Demos entrada do documento ao Governo provincial e não tivemos nenhuma notificação, nem a impedir nem a dar qualquer informação. Quer dizer que eles consentiram, de qualquer modo. Temos uma cópia em que a senhora do Guichet do GPL acusou a recepção” – disse Casimiro.

“Tentamos sair a 7 de Março, mas fomos detidos injustamente, sem explicação nenhuma, sem o mínimo de justificação. Acredito que é por tentarmos nos expressar publicamente. Tão-somente por isso. Então isso gerou o motivo principal desta segunda tentativa de manifestação à liberdade de expressão” – acrescentou.

Carbono Casimiro disse por outro lado que não se pode de forma alguma associar um acto cívico à guerra.

“Se for associar um acto cívico à guerra, então eles institucionalizaram a guerra. Puseram aquilo na constituição e está lá a guerra. Mas não é isso. Aquilo é uma manifestação pacífica, um acto em que o cidadão tem a oportunidade de mostrar a sua opinião, o seu descontentamento ou expressar-se. Não vejo como associar isso à guerra” – afirmou ainda.

Massion Chitombe outro jovem assumido esclareceu que durante o protesto serão feitas alusões à situação política e social do país.

Chitombe pede garantias de tranquilidade e segurança aos órgãos policiais.

“Não vejam a nossa posição como um acto de tentar desestabilizar o país. Não é o que nós queremos. Simplesmente vamos para lá pacificamente e vamos pedir que os órgãos de segurança estejam lá para evitar que haja actos de vandalismo” – reforçou.

Vai em debate nesta quinta feira no Parlamento angolano as discussões sobre a Lei que visa controlar a internet. Na proposta o governo angolano quer que os órgãos de comunicações eletrônicas sejam criminalizados pelos órgãos de segurança do estado.

Para mais informações: CENTRAL ANGOLA - MANIFESTAÇÃO

Apostolado /Angola24horas.com

terça-feira, 29 de março de 2011

Costa do Marfim: forças pró-Ouattara lançam nova ofensiva militar

.
Contestação prolonga-se desde as controversas eleições em Novembro de 2010 (Thierry Gouegnon/Reuters)

Luísa Teixeira da Mota – Público - 29 março 2011

França insiste na intervenção da comunidade internacional

Quatro meses depois do início de uma crise eleitoral que fez da Costa do Marfim palco de uma guerra civil entre forças ligadas a Alassane Ouattara – o Presidente reconhecido pela comunidade internacional – e as forças leais a Laurent Gbagbo – que recusa ceder o poder - os combatentes pró-Ouattara iniciaram uma nova ofensiva militar, abrindo duas novas frentes.

No leste, os combatentes atacaram as cidades de Laodiba, perto de Bondouku, e avançaram para Daloa, no Sul. A Ocidente, os rebeldes afirmam ter tomado a cidade de Duékoué, uma cidade estratégica e porto de entrada da principal zona de produção de cacau, que estava nas mãos dos apoiantes de Gbagbo desde 2003, ano em que terminou a última guerra civil.

Os combates entre as forças fiéis a Gbagbo e os apoiantes de Ouattara duraram várias horas, mas no final da tarde os apoiantes do Presidente reconhecido já declaravam controlar “inteiramente” a cidade.

Os novos confrontos acontecem numa altura em que a violência no país, segundo a ONU, já fez 462 mortos, número que é elevado para quase o dobro pelo campo Ouattara. E enquanto a situação humanitária no país não pára de se degradar, perto de um milhão de pessoas viram-se obrigadas a abandonar as suas casas e mais de 20 mil abrigaram-se, nesta terça-feira, numa igreja em Duékoué, para fugir aos confrontos.

Atenta ao desenrolar dos acontecimentos, a ONU já condenou vários ataques das forças de Gbagbo considerando que podem constituir “crimes contra a humanidade” e, nesta terça-feira, a ONUCI, missão da ONU na Costa do Marfim, acusou as forças leais a Gbagbo de terem, na segunda-feira, “atirado contra civis inocentes”, em Abidjan, “fazendo uma dezena de mortos”.

Também a França se exprimiu sobre a escalada de violência sublinhando que deseja “a adopção rápida” de uma resolução da ONU que proíba a utilização de armas pesadas na Costa do Marfim. O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês sublinhou a importância de a ONUCI exercer o seu mandato com “toda a firmeza necessária”. Bernard Valero, porta-voz do Ministério, declarou que “a comunidade internacional deve agir” e pediu a Gbagbo que se conformasse com a “vontade popular”, abdicando do cargo imediatamente.

A chegada a uma solução para o conflito afigura-se cada vez mais longe com o Presidente Ouattara a recusar o enviado pela União Africana para dirimir o conflito. José Brito, ministro dos Negócios Estrangeiro de Cabo Verde, foi uma escolha rejeitada por Ouattara que declarou que o ministro era uma “escolha inapropriada” devido às relações pessoais que mantinha com Gbagbo.

Em Paris, os advogados de Ouattara lamentaram a existência de “dois pesos e duas medidas na mobilização internacional”, pedindo “o uso da força legítima” na Costa do Marfim, como acontece na Líbia.

NINGUÉM DO REGIME ANGOLANO É CORRUPTO!

.
José Filomeno dos Santos

ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

José Filomeno dos Santos, filho do Presidente angolano, tido como potencial sucessor de Eduardo dos Santos na monarquia democrática angolana, é suspeito de alegados negócios ilícitos.

Até prova em contrário é inocente. Se o assunto se passasse em Angola e envolvesse o filho de um qualquer líder partidário, com exclusão do MPLA, o homem seria culpado até prova em contrário.

José Filomeno dos Santos, para além de ser filho do dono de Angola e ter passado por empresas do pai (caso – queira-se ou não – da Sonangol), é um cidadão viajado e preparado para suceder a quem está no poder há 32 anos, sem nunca ter sido eleito.

Aliás, nas monarquias é mesmo assim.

Na retaguarda dos negócios de José Filomeno dos Santos, segundo a Deutsche Welle - Voz da Alemanha, está Jean-Claude de Morais Bastos, um cidadão suíço originário de Cabinda, através do qual o filho de Eduardo dos Santos fundou o seu próprio banco, o “Quantum”, recrutando para os seus quadros Ernst Welteke, ex-presidente do Banco Central da Alemanha, que hoje assume as funções de Presidente do Conselho de Administração.

De acordo com a mesma fonte, observadores angolanos residentes na Alemanha já lançaram publicamente acusações graves que apontam (como se alguém acreditasse nisso...) para lavagem de dinheiros desviados das finanças públicas angolanas, e que seria feita com a participação e ajuda de personalidades alemãs, como Ernst Welteke.

Ernst Welteke, membro do Partido Social-Democrata alemão foi, em 2004, obrigado a demitir-se do Banco Central Alemão por suspeita de corrupção.

Seja como for, não faz sentido falar de lavagem de dinheiro e de corrupção em Angola. E não faz porque, como todos sabem, são maleitas que não existem no reino de Eduardo dos Santos.

E quando as organizações internacionais (que o regime ainda não conseguiu comprar) dizem que o país é um dos mais corruptos do mundo, estão enganadas.

Tal como estava enganado o líder a UNITA, Isaías Samakuva, quando em Novembro de 2009 afirmou, sem meias palavras, que um dos exemplos da corrupção em Angola eram as transferências de avultadas somas para Portugal "para comprar até empresas falidas para branquear dinheiro roubado ao povo de Angola”.

Que a afirmação de Samakuva não iria causar qualquer mossa em Angola, desde logo porque o governo do MPLA e a corrupção são uma e a mesma coisa, todos calculavam. Assim aconteceu.

Já quanto a Portugal, mesmo sabendo que nesta matéria - como em muitas outras – os angolanos aprendem com os seus amigos portugueses, ainda havia na altura quem pensasse que surgiria uma qualquer reacção, mesmo sabendo que o país está atolado com as faces ocultas conhecidas e, é claro, com outras que são mesmo ocultas.

Mas não. Tal como Luanda, Lisboa menteve-se impávida e serena, cantando e rindo e bem de uma nação que, pelos vistos, ninguém sabe qual é, mas todos dizem ser socialista.

Isaías Samakuva apontou mesmo a a existência de "pressões" sobre o primeiro-ministro português, José Sócrates, para "libertar milhões de dólares de dinheiro público (angolano em contas de bancos portugueses) para determinadas contas privadas de mandatários do regime angolano" de forma a poderem "comprar empresas falidas" e "branquear" capitais.

Grave? Com certeza que sim se, é claro, se falasse de um Estado de Direito. Como o Estado é torto, como muitas das suas faces são ocultas, tudo ficou em águas putrefactas de bacalhau, como é timbre num reino medíocre.

Se calhar, no caso português, o silêncio (para além de ser a alma das negociatas) é também uma forma de não hostilizar os seus principais credores, ou seja, a família Eduardo dos Santos e todo o séquito que cada vez está mais rico à custa, como óbvio, do povo que está cada vez mais pobre.

Creio, aliás, que a ainda grande diferença posicional, em matéria de corrupção, entre Portugal e Angola se deve apenas ao facto de os angolanos, apesar de tudo, darem a chipala ao manifesto.

Ao contrário dos portugueses que apostam tudo em ocultar a face...

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Dilma Rousseff: BRASIL PODERÁ AJUDAR ECONOMIA PORTUGUESA

.
(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

PÚBLICO – LUSA – 29 março 2011

A Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, disse, hoje, em Coimbra, que o Brasil poderá ajudar a economia portuguesa

Questionada pelos jornalistas sobre se o Brasil poderá ajudar Portugal a ultrapassar a actual crise económica, Dilma Rousseff, que chegou pelas 12h30 ao Hotel Quinta das Lágrimas, respondeu: “Poderá. O Brasil poderá ajudar Portugal como Portugal ajudou o Brasil economicamente”.

A Presidente do Brasil chegou esta tarde a Portugal para a primeira visita oficial a um país europeu desde que tomou posse em Janeiro. Na sua deslocação, que termina na próxima quinta-feira, Dilma Rousseff tem na agenda encontros com os chefes de Estado e de Governo portugueses e ainda a participação na cerimónia de doutoramento honoris causa do seu antecessor Lula da Silva, na Universidade de Coimbra.

Um dos primeiros pontos da agenda de Dilma Rousseff está marcado para esta tarde, quando visitar a Universidade de Coimbra (UC) um dia antes de assistir ao doutoramento “honoris causa” de Lula da Silva. A Presidente brasileira irá ter almoçar em Coimbra e depois irá fazer “uma visita privada” àquela universidade, como adiantou à Lusa uma fonte da assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. A visita à UC acontece “a convite do reitor”, João Gabriel Silva. Além do reitor, durante a visita, Dilma Rousseff irá ser acompanhada pela vice-reitora da UC para as Relações Institucionais, Helena Freitas.

Às 10h30 de amanhã, Lula da Silva será então distinguido, na Sala Grande dos Actos, também conhecida por Sala dos Capelos, após formação do tradicional cortejo académico a partir da Biblioteca Joanina. Além de Dilma Rousseff, estarão ainda na cerimónia o Presidente da República, Cavaco Silva, e seu homólogo de Cabo Verde, Pedro Pires.

Na quinta-feira, último dia da visita oficial, a chefe de Estado brasileira é recebida de manhã no Palácio de Belém para uma reunião de trabalho com o homólogo, Cavaco Silva. Depois, Dilma Rousseff irá à Assembleia da República para um encontro com Jaime Gama. Segue-se uma deslocação até ao Palácio de São Bento, para um encontro com o ainda primeiro-ministro, José Sócrates. A agenda da Presidente brasileira termina com um almoço oferecido por Cavaco Silva em honra da sua homóloga.

Relacionados:




Lula pede uma nova governação mundial no discurso no Prémio Norte-Sul

.
LUSA

Lisboa, 29 mar (Lusa) - Reformar a ONU e o sistema financeiro internacional, não tolerar as violações dos direitos humanos, garantir o crescimento económico com distribuição de rendimento são caminhos apontados por Lula da Silva para uma nova governação mundial.

Luiz Inácio Lula da Silva fez estas considerações durante o seu discurso na entrega do Prémio Norte-Sul, que lhe foi atribuído hoje, na Assembleia da República, sendo laureada também Louise Arbour.

"O mundo não pode tolerar a violência contra as pessoas, a violação de seus direitos vitais inscritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pelas Nações Unidas em 1948", referiu Lula da Silva.

Segundo o ex-presidente brasileiro, esta declaração, passados tantos anos, ainda não é respeitada em diversos lugares do mundo e os seus preceitos somente se tornarão realidade "se houver uma ação corajosa e continua dos organismos multilaterais, da sociedade civil" e das suas vítimas.

TVI E A EXCISÃO GENITAL FEMININA

.
Paulo Pinto – Jugular – 29 março 2011

A TVI passou há umas horas, no Jornal da Noite, uma reportagem sobre a excisão genital feminina. Chocante, como todas as peças que abordam este assunto; mas sempre de saudar, ainda que com mazelas, erros e ingenuidades flagrantes.

A abordagem jornalística a este tema anda sempre no fio da navalha, e é compreensível que, em certa medida, assim seja, perante a enormidade, tão susceptível de causar repulsa e choque, que é verificar como esta abominação é praticada de forma ainda tão disseminada e banal em tantas partes do mundo. Informar sem cair numa certa abordagem dramática é difícil. O rigor e a isenção não são fáceis de manter perante uma prática que nos causa horror. Por outro lado, a excisão genital feminina é uma prática que nos é estranha, portanto, é muito fácil cair no simplismo de considerar que se trata de actos de culturas bárbaras, de gentes desumanas, de religiões cruéis. A excisão está associada à comunidade guineense, muçulmana, em Portugal, e este assunto é tanto um argumento para a xenofobia mais primária como um silêncio para xenofilia mais míope. A reportagem vagueou sinuosamente entre tudo isto, esquivando-se mas metendo o pé em terreno minado.

A primeira constatação, logo dos primeiros minutos, foi a de uma desastrada ingenuidade no que poderia ser uma interessante incursão: a jornalista andou pelo Rossio a perguntar se alguém conhecia alguém que a praticasse. Faltou-lhe maturidade, experiência e tacto. Falar de "mutilação genital" em vez de usar a gíria ("fanado" ou outra forma) é meio caminho para gerar desconfianças e recusas. Mas pareceu admirada por ter chegado à Damaia ou ao Cacém e de ter esbarrado com um muro de silêncio. Uma pena, porque poderia ter ido mais longe. Recolheu testemunhos de médicos e sociólogos e pouco mais. Um mar de interrogações ficou por responder: quantos casos se conhecem em Portugal? reais? estimados? há denúncias? há processos? há condenações? o que tem sido feito junto das comunidades que (pelos vistos) a praticam? qual a reação da novas gerações? Nada, apenas informação vaga acerca da "Guiné-Bissau" e de que "é crime". Ficou o corajoso testemunho de uma jovem em frente às câmaras, decerto. Mas mesmo aqui, a tentação foi mais forte: a jornalista fez-lhe uma série de perguntas idiotas ("que diria à mulher que lhe fez isso, se a visse?" "tem uma filha? vai submetê-la ao mesmo?") e privilegiou a faceta dramática de forma perfeitamente desnecessária.

Esta faceta dramática, voyeurista, esta costela de morbidez-TVI que tão bem conhecemos acabou por ser dominante: viajou para o Quénia para procurar ali mais informação sobre o assunto, sem contexto nem aparato, como se fosse necessário ir ali, a um país bárbaro e distante, procurar o que, afinal, existe nos arredores de Lisboa. O clímax teve tanto de absurdo como de patético: filmar uma grotesca simulação do acto, não sei exactamente com que intenção: mostrar a crueldade, a dor e o horror? Se era isso, mostrar imagens reais de vaginas mutiladas era bem mais chocante. Mas menos dramático, decerto, e na TV tudo é drama.

Por fim, era inevitável a abordagem a uma corda sensível: o Islão, o facto de a excisão ser praticada maioritariamente por comunidades muçulmanas e de estar vulgarmente associado à religião islâmica. Isto podia ter sido arrumado, como ponto prévio, com meia dúzia de verdades incontestadas: a excisão é anterior ao Islão, não consta do Alcorão ou de qualquer ensinamento e é praticada também por comunidades não-muçulmanas. Mas em vez de o afirmar com todas as letras, desfazendo com clareza o mito e passar adiante, a jornalista decidiu ir falar com o xeque Munir, da comunidade islâmica (sunita) de Lisboa, que foi claro na sua reprovação. Mas a jornalista, anteriormente tão entusiasmada na sua adjectivação ("crime" e "criminosa" foram os termos a que se referiu à prática e a quem a exerce), revelou uma reverência tão ridícula como estéril. Começou por mostrar ostensivamente um temor respeitoso pela mesquita e pelo entrevistado, como se o Islão fosse uma religião de antropófagos de uma qualquer tribo dos filmes do Tarzan. Cobriu a cabeça com um lenço (devidamente mostrado pela câmara) e manifestou de viva voz o seu respeito, como se Munir fosse um semi-deus ofendido, no Portugal de 2011, por falar com uma mulher de cabeça descoberta e como se fosse obrigatório entrar numa mesquita deste modo. E, mais grave, limitou-se a perguntas de circunstância (as tais que um trabalho de casa prévio teria resolvido logo ao princípio), ficando-se pela rama. E se, em vez de deixar o entrevistado discorrer livremente ou ficar-se pelo "se o Islão aprova tal prática", que tal inquirir diretamente se tem conhecimento de casos concretos? Se não, como explica o facto de ela, em pleno Rossio, ter chegado rapidamente a quem pratica a excisão, e ele não? Se sim, o que fez e faz para evitar e acabar com eles? Denunciou-os à polícia? Impediu-os? É assunto tratado na comunidade? Promove o esclarecimento, a informação e uma condenação, sem hesitação nem reticência, no seu interior? Nada, nada.

É que este assunto é demasiado grave para nos ficarmos por divagações ideológicas ou culturais ou para nos limitarmos a produzir peças de "denúncia". Esperava dados concretos, um diagnóstico, o que existe, o que está a ser feito, o que vai ser feito, quem o faz, quem o ignora e quem o impede, mais do que a simples denúncia do acto em si. Mas, se calhar, é esperar demais.

HEGEMONIA E IMPÉRIO

.
José Luís Fiori - do Rio de Janeiro – Correio do Brasil

O passeio de fim de semana da família Obama ao Brasil passaria à história como um acontecimento turístico carioca e uma gentileza internacional, se não tivesse coincidido com o desastre nuclear do Japão, e com o início do bombardeio aéreo da Líbia.

Em particular, porque a decisão dos EUA de atacarem o país norte-africano, foi tomada no território brasileiro, um pouco antes do jantar festivo que o Itamaraty ofereceu à deleção norte-americana. Esta decisão, sobretudo, serviu para relembrar aos mais apressados, que os EUA seguem sendo a única potência mundial com “direito” de decidir – onde e quando quiser – e com a capacidade de fazer intervenções militares imediatas, em qualquer conflito, ao redor do mundo. Uma lembrança oportuna, porque se tornou lugar comum, na imprensa e na academia – à direita e à esquerda – falar do declínio do poder norte-americano, enquanto se acumulam as evidências no sentido contrário.

Depois de 1991, e em particular depois do fim da URSS, a Europa deixou de ser o centro de gravidade do sistema internacional, que passou para o outro lado do Atlântico. E ao mesmo tempo, os EUA se transformaram na “cabeça” de um novo tipo de “poder global”. Um império que não é colonial, não tem estrutura formal, e que possui fronteiras flexíveis, que são definidas em cada caso, em última instância, pelo poder naval e financeiro dos EUA E desde o início do século XXI, os EUA estão enfrentando as contradições, os problemas, e as trepidações produzidas por esta transição e esta mudança de status: da condição de uma “potência hegemônica”, restrita ao mundo capitalista, até a década de 1980, para a condição de “potência imperial global”. Hoje, é impossível prever como será administrado este novo tipo de Império, no futuro. Porque ele segue sendo nacional e terá que terá que conviver, ao mesmo tempo, com cerca de outros duzentos Estados que são ou se consideram soberanos. E além disto, porque dentro deste sistema, a expansão do poder americano é a principal responsável pela multiplicação dos seus concorrentes, na luta pelas hegemonias regionais, dentro do sistema mundia.

O que está se assistindo, neste momento, é uma mudança na administração do poder global dos EUA. Este processo está em pleno curso, mas será longo e complicado, envolvendo divisões e lutas dentro e fora da sociedade e do establishment norte-americano. Mesmo assim, o mais provável é que, ao final deste processo, os EUA adotem uma posição cada vez mais distante e “arbitral” com relação aos seus antigos sócios, e em todas as regiões geopolíticas do mundo. Estimulando as divisões internas e os “equilíbrios regionais” de poder, jogando os seus próprios aliados, uns contra os outros, e só intervindo diretamente em última instancia, segundo o modelo clássico do Império Britânico.

Este novo tipo de poder imperial dos EUA não exclui a possibilidade de guerras, ou de fracassos militares localizados, como no Iraque ou Afeganistão, nem a possibilidade de crises financeiras, como a de 2008. Estas crises financeiras não deverão alterar a hierarquia econômica internacional, enquanto o governo e os capitais norte-americanos puderem repassar os seus custos, para as demais potências econômicas do sistema. E as guerras ou fracassos militares localizado seguirão sem importância enquanto não ameaçarem a supremacia naval dos EUA em todos os oceanos e mares do mundo, e enquanto não escalarem na direção de uma “guerra hegemônica” capaz de atingir a supremacia militar norte-americana.

De qualquer forma, é óbvio que este novo poder imperial não é absoluto nem será eterno. Como já foi dito, sua expansão contínua cria e fortalece poderes concorrentes, e desestabiliza e destrói os “equilíbrios” e as instituições, criadas pelos próprios EUA, estimulando a formação de “coalizões de poder” regionais que acabarão desmembrando aos poucos o seu poder imperial, como aconteceu com o Império Romano. Por outro lado, a nova engenharia econômica mundial deslocou o centro da acumulação capitalista e transformou a China numa economia com poder de gravitação quase equivalente ao dos Estados Unidos. Esta nova geo-economia internacional, intensifica a competição capitalista, e já deu início à uma “corrida imperialista”, cada vez intensa na África e na América do Sul, aumentando a possibilidade e o número dos conflitos localizados entre as Grandes Potências. Além disso, o poder imperial norte-americano deverá enfrentar uma perda de legitimidade crônica dentro dos EUA, porque a diversidade e a complexidade nacional, étnica e civilizatória do seu império, é absolutamente incompatível com a defesa e a preservação de qualquer tipo ou sistema de valores universais, ao contrário do que sonha uma boa parte da sociedade norte-americana.

De qualquer maneira, o passeio da família Obama aos trópicos e a retórica simpática e amena do presidente americano serviram para demonstrar como funciona na prática, o “tratamento entre iguais”, quando um deles é um Império.

**José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Lula da Silva diz que o Brasil tem de fazer tudo para ajudar Portugal

.
Maria José Oliveira – Público – 28 março 2011

O ex-presidente do Brasil Lula da Silva advertiu que “não pode” já falar em nome do Brasil, mas ao pronunciar-se sobre a possibilidade de o seu país dar uma mão a Portugal na actual crise financeira afirmou que “tudo o que pudermos fazer para ajudar Portugal, temos de fazer”.

Lula, que esta segunda-feira chegou a Lisboa, sublinhou também que o “FMI não resolve os problemas”, mas que, pelo contrário, apenas os “agrava”.

Lula da Silva participou num jantar em Lisboa ao lado do primeiro-ministro, José Sócrates, e de Mário Soares e a propósito de uma eventual ajuda do Brasil a Portugal tratou de contrariar essa perspectiva, contrapondo-lhe que a crise se resolve com “a confiança dos mercados”.

Lula recebe esta terça-feira o Prémio do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, na Assembleia da República, devendo depois rumar depois também a Coimbra, onde se encontrará com a actual presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que esta terça-feira chega a Portugal. Em Coimbra, o ex-presidente brasileiro vai receber na quarta-feira o doutoramento Honoris Causa da Universidade de Coimbra.

Relacionados em “Público”:




O DÉFICE PROTEGE OS AUDAZES

.
ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Os portugueses, bem como a senhora Angela Dorothea Merkel, podem ficar dscansados. O presidente da República garantiu à agência Bloomberg que recebeu a garantia de PS, PSD e CDS-PP do seu "compromisso inequívoco" com a estratégia de consolidação orçamental e com as metas de redução do défice já anunciadas pelo Governo.

Aníbal Cavaco Silva assegura (e quando alguém que nunca se engana e raramente tem dúvidas assegura...) que os três maiores partidos portugueses assumem o compromisso de apoio às metas já estabelecidas "por forma a garantir a trajectória de sustentabilidade da dívida pública".

Ora, sendo assim, os 700 mil desempregados, os 20% de pobres e os outros 20% que lambem os pratos vazios já podem ficar descansados. Vão continuar desempregados, pobres e lamber pratos vazios mas o défice será honrado. Alguns até poderão colocar nos vãos das escadas onde dormem, ou até mesmo na lápide do cemitério, a frase: “O défice protege os audazes”.

E, convenhamos, ser audaz com o dinheiro dos outros, à custa da miséria dos outros, até não é uma questão difícil. Não será, por isso, complicado – basta haver portugueses – levar o défice para os 4,6% do Produto Interno Bruto em 2011, 3% em 2012 e 2% em 2013.

E se quiserem mais é só pedirem...

Até agora todas as forças partidárias defenderam a realização de eleições antecipadas, dizendo que é a única forma de resolver a crise política. E, pelos vistos, também será a única via para cumprir o défice, mesmo que a roleta (portuguesa, com certeza) volte a dar mais do mesmo.

O que conta em Portugal é a vontade de quem manda e a submissão de quem é mandado. E se já há gerações que nascem sem coluna vertebral, o melhor é deixar o tempo passar e tudo ficará na santa paz do défice e na santa ceia da classe dominante, onde têm lugar reservado Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas.

Não adianta por isso dizer que a actual crise financeira, moral, política etc. é culpa dos políticos, essa casta superior que rege a vida dos plebeus.

Não adianta afirmar que o Estado socialista, social-democrata ou democrata-cristão, asfixia o povo com impostos, enquanto os gestores das empresas públicas auferem principescas remunerações.

Os portugueses devem apenas limitar-se a perguntar o que é que podem fazer pelo Estado (queriam que fosse o Estado a perguntar o que pode fazer por eles?).

E quando ele diz: baixem as calcinhas, cumpram com um sorriso e peguem na vaselina...

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

O POVO ANGOLANO PRECISA DE QUEM O OIÇA

.
Ventos magrebinos já sopram no seio dos camaradas?


Mesmo quando os ventos magrebinos já sopram dentro deste regime, que nuca conseguiu perceber, que sem os outros não conseguem viver. Continua a faltar o segredo de saber escutar mais do que falar, por parte de algum comerciante tipo (Higino Carneiro e outros) que se esfarrapam agora, para falar, em socialismo e democracia.

Acabando por se apresentarem como governantes pouco atentos e desinteressados em cativar os outros, por ninguém lhes dar a importância, que eles desejam. Mais quem defendem, e o que representam para os angolanos tais comerciantes mergulhados no charco da corrupção nacional, que têm ajudado a consolidar?

Até isto, a independência nos trouxe, como se não bastassem os tantos bufo e lambe botas que se multiplicam em vários nomes. Falta ao regime actual, o habito de dar a atenção e compreensão aos outros, para receber o mesmo de volta. Em vez de estar ai com essa macaquice toda, deveriam aprender a escutar os outros, com paciência, calma e serenidade.

Escutar os outros é um acto gêneroso, e esses comerciantes do clube de amigos (JES / MPLA) não tem o direito de transformar, em tortura psicológica, seja em que situação e circunstâncias forem. Cada vez que abrem a boca vomitando mentiras e demagogias, acabam por nos tortura ainda mais, com o vazio desses discursos. Todo povo sente necessidade de alguém que o oiça , e gosta de ter a oportunidade de falar de si , das suas motivações e dos seus problemas.

Nenhum povo do mundo se sentaria orgulhoso e vaidoso, em ter o tipo de governantes que temos sempre dispostos em alinhar com as piores ditaduras do planeta, como se ainda estivéssemos no tempo da (cabra cega) ou do João Bordão.

Mais quando é que irão compreender gatunos duma figa.

Que a única forma de um povo expressar os seus problemas, descontentamentos e motivações, é através de manifestações, e não nas maratonas organizadas criminosamente?

Interessar-se pelo povo, seus problemas e suas preocupações por mais contrárias que elas sejam, acaba sempre por conquistar amizades e aumenta o poder de influência positiva sobre o povo. Disto eles não sabem ou finge, porque lhes parece mais fácil, perder tempo pensando como é que vão degolar a sua próxima vitima que poderá ser você, eu, ou outro compatriota qualquer?

Por pensarmos diferente, estarmos fartos das mentiras, e por acharmos que eles não merecem o valor que muitos lhes dão. Dói, e torna-se revoltante, ouvir pessoas que sempre viveram preocupados em demasia, com as suas vidas privadas e negócios, falar-nos em coisas tão sérias, apenas para enganar quem ainda não abriu os olhos. Saberão eles, o que significa socialismo e democracia, se alguns deles além de saber roubar ao povo, nada mais aprenderam?

Quando deveriam se procurar, em cultivar uma cultura de boas relações até mesmo com pessoas e partidos, que para eles, são piores que o (Diabo com uma catana nas mãos), apenas por pensarem diferentes. O que significaria o avançar no caminha mais seguro, para o sucesso do povo angolano, e até mesmo deles próprios.

Porque eles, só conseguirão construir o (Céu) prometido ou o (inferno) se contar com os outros.

Compete ao JES / MPLA, oferecer a disponibilidade para escutar os nossos jovens, crianças, velhos, mulheres, mutilados e a maioria dos descontentes com este sistema de gestão nojenta.

E não ter sempre essa pressa habitual, de despachar os jovens, jornalistas e seus opositores para a cadeia, como quem despacha uma encomenda para S. Tome e Príncipe, ou um recado.

Parece-me que falta ao presidente da republica, a capacidade de ouvir seus opositores até ao fim, sem interromper.

Principalmente quando esses lhe parecem pouco simpáticos, e levantam temas que pouco lhes agrada. Como; corrupção, direitos humanos, liberdade de expressão, etc.

JES / MPLA como governo, deve ser capaz de manter sempre o autodomínio, mesmo perante palavras injustas ou ofensivas, e não procurar logo a catana ou o canhão, para responder.

Claro que a paciência tem limite, e qual é o limite afinal?

Será quando um povo, desarmado pretende reivindicar apenas e justamente, os seus direitos?

Será quando os outros querem pensar, e agir de forma diferente?

Ou será, quando a oposição não para de apontar os podres deste regime?

VENTOS DO NORTE JÁ SOPRAM NO SEIO DOS CAMARADAS?

Depois de alguns ensaios, vários cenários apontam que tudo poderá começar de dentro para fora, já que o contrário é quase impossível?

E costuma-se dizer, que em qualquer crise , a primeira vitima , é sempre a (verdade), porque ela é manobrada, escondida e quase poucos ficam, a saber. Há sim crise, entre os camaradas embora todos parecerem bem adocicados e ideologicamente domesticados

JES / MPLA, manobra a verdade , quando quer e pode , mesmo apesar de usar de forma atabalhoada, algumas armas poderosas que ainda tem. Armas essas, que são os seus especialistas da mentira, propaganda e demagogia selvagem, destacados na imprensa institucionalizada.

Os identificados pelo seu trabalho sujo de propaganda, informações distorcidas e invertidas, que lançam dúvidas e falseiem a verdade, criando um clima psicológico para justificar suas acções. Aliás, esse recurso tem sido muito utilizado pelo regime, sempre que ventos estranhos sopram no seio dos camaradas.

Aldrabar a opinião pública para seus objectivos, causando a confusão mental, é meio caminho andado para a vitoria, na ideia deles. E não é por acaso, que o regime, tem gasto fortunas em pessoas especializadas estrangeiras ou não, nos seus serviços de inteligência.

Buscando a informação, divulgando a contra-informação e manipulando dados com a mesma eficiência com que manejam as armas. Há sim crise, dentro deste MPLA e tudo poderá explodir á qualquer altura

Nunca houve tanta turbulência, exaltações de ânimos, segredos e divergências no seio do MPLA, como nos dias de hoje. Onde grupinhos se vão formando, e funcionando de forma articulada e cada vez mais clandestinamente como nunca. Procurando não dar nas vistas, fazendo lembrar os velhos tempos da (Pide DGS), em que tudo tinha que ser feito com cabeça fria e o maior dos sigilos.

Onde algumas palavras até tinham que ser trocadas, e as letras transformadas em números, para não se espantar á caça, ou oferecer os planos ao inimigo. Angola não merece o presidente que tem, e continuamos a acreditar que qualquer dia, Angola deixará de ser aquilo que é hoje, sem Eduardo dos Santos no poder. Eduardo dos Santos, além de ser lento e incompetente, acabou por se tornar num caso inédito, ao bater todos os recordes, como corrupto.

Que tem incentivado ás futuras gerações, á seguirem as suas práticas indecorosas de corrupção, demagogia e lavagem do dinheiro. A prova disto é o trato que seus filhos, e filhos de outros governantes dão, aos dinheiros públicos, assim como os tantos adeptos que a corrupção já conquistou.

Nunca na história deste país tivemos tanta gente, que roubasse quando queria e podia, sem que lhes acontecesse nada, como nos dias de hoje. Existe sim, uma crise política cercando e carcomendo o crânio, de algumas figuras políticas deste MPLA, hoje transformado numa corja de corruptos sem projectos credíveis.

As coisas se agonizaram praticamente desde que Eduardo dos santos, se posicionou claramente á favor das maiores ditaduras ainda existentes no continente e no mundo, num claro sinal de não ser á favor de mudanças. Nunca na história da humanidade um presidente se definiu tão claramente assim, e se aliou porcamente ao lado de regimes, contestados por quase todo mundo.

Eduardo dos Santos perdeu credibilidade até mesmo de políticos do seu partido, que se só levantam a bandeira hoje, para simular fidelidade, aos seus princípios.

Hoje essa prática tornou-se num meio de sobrevivência, para alguns que sabem que o ficar calado no seio dos camaradas, pode também significar, oferecer-se como próxima vitima.

Por isso, com ou sem vontade alguns lá vão vendendo uma falsa imagem, mesmo correndo o risco de serem considerados como farinha do mesmo saco.

Eduardo dos Santos rasgou a bandeira das propagadas que o seu partido andou a fazer nas eleições sujas de 2008, abandonando por completo as suas promessas em construir e criar fundos e mundos.

Eduardo dos Santos , para permitir com que suas filhas continuem roubando , faz exactamente o contrário, inclusive atropela os próprios princípios defendidos pelo seu “bem amado e querido” MPLA. O que adianta esse crescimento econômico de pimpa, se os investimentos públicos continuam aprisionados por um orçamento apertado, esquemático maldosamente, e o país continua a patinar?

Um presidente que prometeu matar a fome do povo, e continua a colocar os seus interesses á cima dos interesses deste mesmo povo. Prometeu combater a corrupção e o que fez, foi refiná-la ao seu jeito batendo todos os Recordes em ser o preto mais corrupto do planeta.

Um presidente que nunca mandou investigar a morte de um seu opositor, acabando por proteger e oferecer cargos aos assassinos. Um presidente que mobiliza todos os esforços para tramar o mais simples discordante , e sempre que quer , impede o avanço de processos judiciais contra pessoas do seu circulo.

Existe também crise administrativa, o governo se mostra incapaz de operar a máquina do regime para resolver os verdadeiros problemas dos angolanos. Angolanos que não conseguem viver só com o seu ordenado, segundo o presidente da republica, motivo se calhar, que o justificou, para institucionalização da corrupção em Angola?

Quem se lembra, do famoso (artigo 15°-) da lei constitucional Zairense no tempo de Mubuto, que tire as suas conclusões sobre essa última passagem.

Fernando Vumby - Fórum Livre Opinião & Justiça

Padre que abençoava voos da morte é denunciado durante missa

.
Stella Calloni - La Jornada – Carta Maior

O padre Alberto Angel Zanchetta, que em 2009 se aposentou como capitão de fragata e capelão da Marinha, é acusado de ter abençoado os voos da morte por meio dos quais presos políticos e desaparecidos eram lançados ao mar durante a última ditadura argentina. No último domingo, Zanchetta foi denunciado publicamente por jovens militantes peronistas e familiares de desaparecidos enquanto rezava missa em uma paróquia de Buenos Aires. Os moradores da região pediram sua remoção imediata da paróquia.

Um padre que abençoava militares argentinos e os voos da morte por meio dos quais a ditadura jogava presos políticos-desaparecidos vivos no mar, foi localizado por jovens militantes em uma paróquia de San Martín, na província de Buenos Aires, e denunciado publicamente enquanto rezava a missa. O padre Alberto Angel Zanchetta, que em 2009 foi aposentado como capitão de fragata e capelão da Marinha, continua exercendo o sacerdócio em paróquias da capital argentina e arredores, apoiado pelo cardeal Jorge Bergoglio.

Entre os anos 1975 e 1976, Zanchetta serviu na Escola de Mecânica da Armada (ESMA), considerada o maior centro clandestino de detenção da ditadura e onde desapareceram cerca de 5 mil pessoas. Depois que o Ministério da Defesa, comandado pela advogada Nilda Garré, determinou a remoção de Zanchetta em 2009, o jornal Página/12 descobriu-o em uma igreja do antigo bairro de San Telmo.

Diante do escândalo, a cúpula da Igreja Católica enviou-o para Itália por um tempo e acreditando que tudo havia caído no esquecimento, decidiu reintegrá-lo à paróquia da localidade de 3 de fevereiro, próxima da de San Martín, onde ele foi novamente localizado por familiares dos desaparecidos e sobreviventes. No dia 6 de março, o padre foi enviado então para a paróquia de San Martín, mas ele foi mais uma vez localizado por familiares de desaparecidos que alertaram os moradores do lugar.

Quase ao terminar a missa, no último domingo, um grupo de militantes da Juventude Peronista Evita e familiares de vítimas seguiram atentamente seu sermão, carregado de intrigas políticas. Um dos jovens levantou-se, interrompeu a missa e disse a todos os assistentes que aquele padre havia estado na ESMA durante a ditadura, enquanto seus companheiros distribuíam um panfleto contendo um alerta aos moradores. “Na igreja de seu bairro um assassino está rezando a missa” – denunciava o panfleto.

No dia seguinte, integrantes da Pastoral Social pediram ao bispo da região que retirasse Zanchetta da paróquia. A comunidade espera agora uma decisão da Cúria, enquanto seguem aparecendo cartazes dizendo que, como aconteceu com os nazistas, os assassinos da ditadura serão buscados não importa onde forem.

No livro El vuelo, de Horacio Verbistky, o ex-capitão da Marinha, Adolfo Scilingo – preso atualmente na Espanha – fez sua primeira revelação sobre sua participação nos vôos da morte. Ele relatou que no regresso do primeiro vôo em que atuou jogando pessoas ao mar se sentiu muito mal e se aproximou de um capelão da Marinha, que o acalmou dizendo que era uma morte cristã porque as vítimas não sofriam.

A organização Hijos (de desaparecidos) solicitou a um juiz federal que denuncie Zanchetta, que juntamente com outro capelão, Luiz Antonio Manceñido, são apontados como confessores dos militares da Marinha, já tendo sido reconhecidos por sobreviventes.

Tradução: Katarina Peixoto


Lula da Silva diz que "o FMI não resolve o problema de Portugal"

.
José Sócrates e Lula da Silva em Lisboa - foto ORLANDO ALMEIDA/GLOBAL IMAGENS

JORNAL DE NOTÍCIAS – 28 março 2011

O Fundo Monetário Internacional "não resolve o problema de Portugal, como não resolveu o problema do Brasil", defende o ex-presidente brasileiro Lula da Silva. "Se quiser, a Europa vai encontrar soluções" para os problemas do país, disse, num jantar com José Sócrates, em Lisboa.

"O FMI não resolve o problema de Portugal, como não resolveu o problema do Brasil, como não resolveu outros problemas. Toda a vez que o FMI tentou cuidar das dívidas dos países, o FMI criou mais problemas para os países do que soluções", afirmou o ex-presidente do Brasil.

À margem de um jantar informal com o primeiro-ministro demissionário, José Sócrates, esta segunda-feira à noite, em Lisboa, Lula da Silva disse ainda que "a Europa é muito grande" e que, "se a Europa quiser, vai encontrar soluções para Portugal, para a Grécia, para Espanha".

Questionado sobre se o Brasil vai ou não comprar dívida portuguesa, o ex-presidente do Brasil remeteu essa questão para a actual presidente brasileira, Dilma Rousseff, que chega esta terça-feira a Lisboa, mas deixou um recado: "Eu acho que tudo o que devêssemos fazer para ajudar Portugal deveríamos fazer. Acho que Portugal merece essa compreensão do Brasil", afirmou.

No entanto, para Lula da Silva "é importante que [o primeiro-ministro, José] Sócrates e Cavaco Silva, presidente da República, conversem com a presidente do Brasil para ver o que é possível fazer".

Em relação à crise política com que Portugal se debate, o ex-presidente brasileiro disse acreditar que "o povo português terá sabedoria suficiente para resolver o problema da crise política".

"O FMI não resolve o problema de Portugal, como não resolveu o problema do Brasil, como não resolveu outros problemas. Toda a vez que o FMI tentou cuidar das dívidas dos países, o FMI criou mais problemas para os países do que soluções", afirmou o ex-presidente do Brasil.

À margem de um jantar informal com o primeiro-ministro demissionário, José Sócrates, esta segunda-feira à noite, em Lisboa, Lula da Silva disse ainda que "a Europa é muito grande" e que, "se a Europa quiser, vai encontrar soluções para Portugal, para a Grécia, para Espanha".

Questionado sobre se o Brasil vai ou não comprar dívida portuguesa, o ex-presidente do Brasil remeteu essa questão para a actual presidente brasileira, Dilma Rousseff, que chega esta terça-feira a Lisboa, mas deixou um recado: "Eu acho que tudo o que devêssemos fazer para ajudar Portugal deveríamos fazer. Acho que Portugal merece essa compreensão do Brasil", afirmou.

No entanto, para Lula da Silva "é importante que [o primeiro-ministro, José] Sócrates e Cavaco Silva, presidente da República, conversem com a presidente do Brasil para ver o que é possível fazer".

Em relação à crise política com que Portugal se debate, o ex-presidente brasileiro disse acreditar que "o povo português terá sabedoria suficiente para resolver o problema da crise política".

"É importante que as pessoas tenham maturidade para compreender as razões da crise económica, detectar correctamente quem é o causador desta crise e sabemos que a atitude mais correta é todo o mundo assumir as responsabilidades para encontrar uma solução para a crise", afirmou Lula da Silva.

Por sua vez, José Sócrates escusou-se a comentar "os assuntos domésticos" de Portugal, afirmando apenas que "os problemas de Portugal resolvem-se com a confiança dos mercados", sublinhando que essa é "a única ajuda de que Portugal precisa" e que é nisso que o país está a trabalhar.

José Sócrates destacou ainda "a excelente relação" de Lula da Silva e do Brasil com Portugal: "O presidente Lula foi um grande amigo do nosso país, que se empenhou desde sempre, desde que iniciou as suas funções [de presidente] em estreitar as relações não apenas políticas, culturais e históricas mas também económicas entre Portugal e o Brasil", afirmou Sócrates.