
LÁZARO MABUNDA – O PAÍS ONLINE
De repente, ainda em sonho, recordei-me de um dos títulos do jornal Público que dizia “Fred recebido com pompa e circunstância na Cadeia Central”, aludindo-se à prisão do apresentador da TV Record. “Estou frito, também serei recebido assim pelos reclusos, incluindo Fred”, exclamei frustrado.
O título não é meu. É da ficção de Bahassan Adamudji.
Não sei se é um escritor, mas sei que é autor do livro com o título desta crónica. Nesse livro – li-o em 2001 – Bahassan conta que no Mussquite era assim. Coisa de defunto era venerada e respeitada.
Apesar dos camaradas revolucionários afirmarem que os mortos não voltavam, ninguém se atrevia a mexer em nada que tivesse pertencido a um morto, sem que as coisas fossem “fembadas” (cerimónia tradicional, visando esclarecer como o morto quer que as coisas sejam para que não se revolte), primeiro. É verdade que a vida dos mussquitenses mudara muito com a chegada de camaradas, mas nada poderia mudar o respeito e o medo que havia pelos mortos.
Eu não quero discutir o medo de tocar em coisas de mortos por receios de revolta que eles podem desencadear. Para mim, o morto é sempre um morto. A sua reacção não passa de uma ficção, uma ilusão dos sonhos.
O milando de um sonho. É isso mesmo. Sonho é um misto de alegria, pesadelo e frustração, que pretende. Há sonhos que, por serem maravilhosos, esperançosos e aéreos, quando interrompemos, forçamos o sono para ver se os recuperamos. Há também sonhos que, quando os interrompemos, acordamos mentalmente abatidos, desanimados e frustrados, porque o que sonhamos não passou apenas de um sonho. Mas também há sonhos que, quando os interrompemos, ainda que seja madrugada, fazemos esforços para que não voltemos a sonecar, sob risco de voltarmos a cair no mesmo sonho.
Era terça-feira, por volta das 6h40 da manhã. O sol começava a lançar os seus raios para a janela do meu quarto. Porque dormi às duas horas e poucos minutos, não era altura de acordar. Diariamente, sou obrigado a despertar a essa hora, devido a algazarra que a miudinha provoca, quando se prepara para a creche. É um barulho propositado, porque, quando finjo que não estou despertado, vem gritar nos meus ouvidos. Infelizmente, ela não está a imaginar os problemas que me cria em alguns dias.
Naquela terça-feira, pouco depois de ela ter ido à creche, como sempre, tentei recuperar o sono perdido. Um sono que, a partir daquelas horas, se confunde com o movimento de transeunte e o barulho provocado pela vizinhança, mas tão profundo que às vezes me criar pressentimento de ressaca ao despertar.
Passaram poucos minutos e num zás, apanhei o sono. O dia prometia surpresas. De repente, mergulho num sonho. E que sonho?
Recebo uma chamada de um amigo empresário que pretendia que desenvolvêssemos alguns negócios juntos. Do negócio, rápido, que nem cheguei a entender o seu objecto, ganhei avultadas somas de dinheiro. Nem tive interesse em quantificá-las. Era muito e estava satisfeito. O que me lembro é que na mesma altura gritei, parafraseando as palavras de um traficante do bairro de Maxaquene, sempre que fecha um bom negócio pela venda de drogas. “Bye bye ku txona, bye bye, usiwana” (adeus viver ser dinheiro, adeus pobreza). Mas um barulho estranho, semelhante ao que os ratos provocam quando correm no meio de caixas, desperta-me.
O que é? Perguntei-me, sem obter a resposta.
No quarto não há ratos, nem há sinal da sua existência. Estranhei. Olhei para o relógio, já eram 7h43 minutos. Lembrei-me que tinha sonhado a receber muito dinheiro e, consequentemente, já me tinha despedido de uma vida desenrascada e da pobreza. Olhei para os meus lados, não havia sequer uma nota de 20 meticais. Na cabeceira apenas duas moedas, uma de 10 e outra de 5 meticais. Fiquei frustrado.
Ao mínimo não era pesadelo. Ainda dava para retomá-lo. Interessante.
No banco, a minha conta estava vazia. Pior é que no dia anterior havia feito algumas compras via cartão e esquecera-me de fazer as contas do meu saldo. Pensava que tivesse ainda 500 meticais de saldo. Puro engano. Havia errado no saldo anterior, porque apenas havia restado 590 e tal meticais.
Na verdade, após as transacções, no banco apenas tinha ficado 88 meticais, só dava para um crédito de 80 meticais. Em casa, esperavam-me despesas diárias. O salário ainda demoraria alguns dias.
Vivia um dilema: sonhar rico, acordar sem dinheiro para o pão no bolso. Dei muro na cama, meio frustrado pela pesada realidade que já não estava preparado para viver nela.
Deitei-me novamente e rapidamente voltei a apanhar o sono. Veio outro sonho. Vejo uma raposa dentro do quintal, onde havia uma criação de gado caprino. Tinha de ser abatida sob pena de devorar algumas crias no curral. Encabecei a caça à raposa, já nos arredores do quintal. Quando atirei o primeiro pau e atingi-a, um coro de pessoas com quem caça o animal alertou-me que já não era raposa, era uma pessoa. Eu apenas via uma raposa. Ignorei o alerta e continuei a espancar, até à morte, o aludido animal.
Respirei fundo. Era uma batalha vencida. Regresso ao quintal, deparo-me com a pastora de uma igreja. Ela manda-me farpas, gritando: “você matou nossa crente, agora vai-se lidar com a justiça”. Comecei a acreditar que, afinal não era uma raposa que abatera, era um ser humano. Não entendi como uma raposa se transformou num ser humano. Veio o pesadelo.
A pastora não parava de mandar farpas, já com apoio de uma outra senhora gorda, alta e desajeitada, não feia nem bonita, mas no limite entre feura e beleza, desafiando-me a matá-las como forma de apagar os vestígios e assim evitar enfrentar a justiça. Fiquei mentalmente bloqueado, sem saber o que fazer. As senhoras não paravam de enviar os seus recados. Fiquei frustrado e desamparado ao imaginar penas superiores a 16 anos nas nossas apinhadas e nojentas cadeias.
“Estou lixado. Vou ficar mais de 16 anos na cadeia. E que cadeias? O que fazer?”, questionei-me, sem me esquecer de imaginar as condições das nossas cadeias.
Curiosamente, as senhoras até já haviam determinado a minha pena. “Vai ficar entre 16 e 30 anos. Mate-nos se quiser se salvar disto”, insistiam. Pensei.
Mas matá-las era, caso me descobrissem, semelhante a apagar o fogo com gasolina. Tinha de ignorá-las.
De repente, ainda em sonho, recordei-me de um dos títulos do jornal Público que dizia “Fred recebido com pompa e circunstância na Cadeia Central”, aludindo-se à prisão do apresentador da TV Record. “Estou frito, também serei recebido assim pelos reclusos, incluindo Fred”, exclamei frustrado.
Quando imaginava na possível saída, que passava pela fuga, eis que desperto e constatou que afinal tudo não passava de um sonho. Que alívio! Não mais quis voltar a dormir, até por que já era hora de me levantar para mais uma jornada laboral.
Se no primeiro sonho havia ficado frustrado por ter sonhado rico e acordar pobre, neste segundo, o despertar foi celebrado, porque afinal não tinha morto ninguém e não enfrentaria nenhuma justiça.
Entre um sonho real e um sonho falso, juro que prefiro um sonho falso. Imaginem se o segundo sonho tivesse sido real? Prefiro acordar pobre a matar alguém.
Na manhã do dia seguinte, voltei a ter um outro sonho. Fui convidado por um morto para morrer...
Se está morto, como aparece aqui e o que pretende? Questionei.
A resposta foi forte e violenta. Venho buscar-te. Quero voltar consigo para onde vivo. Não volto sem você.
O relógio marcava 05h50. Era quinta-feira de uma semana de sonhos cinzentos. Despertei por acaso, sem que alguém ou alguma coisa me tivessem despertado. Porque foi um despertar normal, sem sonhos prazerosos nem violentos, facilmente recuperei o sono.
Pouco tempo depois, em pleno passeio, aparece-me um familiar falecido há mais de 10 anos. Admiro e pergunto-lhe: você não está morto?
Ele repara-me de cima para baixo e não o habitual – de baixo para cima. Continuou sem me responder. Eu fiquei gelado. Ficámos num frente-a-frente.
No entanto, não podia abandonar o local sem que fosse desvendado o mistério. Tinha de arrancar resposta, fosse qual fosse o meio que usasse para o efeito, nem que para isso fosse necessário aplicar-lhe uma chapada para, pelo menos, ouvir a sua reacção.
Dois minutos passam. Não desisto da minha pergunta: você não está morto? Eu até estive no seu enterro. A sua esposa já tirou, inclusive, o luto.
Ele continuava a olhar-me insistentemente, mas sem esboçar sequer uma reacção. Comecei a sentir tremedeira. Com razão. Já imaginaram um frente-a-frente com um morto? Que sensação?
Depois de cinco minutos, eu já aborrecido e preparado para iniciar com a violência, eis que me responde: Por que me pergunta isso se sabe que morri. Morri, de facto.
Fiquei embasbacado, firme e sem forças para reagir. Mantive-me firme por alguns segundos, antes de ganhar coragem. Tinha de continuar com as minhas questões. Estava mais curioso.
Se está morto, como aparece aqui e o que pretende? Questionei.
A resposta foi forte e violenta. Venho buscar-te. Quero voltar consigo para onde vivo. Não volto sem você.
Transpirei por uns segundinhos. Nunca tinha ouvido que alguém tinha sido convidado por um morto. Rejeitei o convite. Ele começa a convencer-me da importância da morte.
- Sabe, vocês têm medo de morrer por que não sabem o que os espera lá. Eu não podia decidir vir-lhe convidar a morrer para sofrer. Mantive-me irredutível. Mas ele não parava de me tentar convencer a morrer.
- Nós lá vivemos sem trabalhar, comemos o que queremos de borla. Vivemos eternamente. Se morrer assim como jovem, também viverá eternamente como está. Se morrer velho, também viverá eternamente com velho, mas com a particularidade de ter força inesgotável.
Porque também, como todos, almejo uma vida sem sofrimentos, fiquei no limite entre o “sim” e o “não”. Não sabia até que ponto o que me dizia reflectia a verdade. A ideia comovia-me. Quem não quer viver sem stress? Não sou excepção.
Questionei-o se quem morresse deixando sua família, esposa e filhos, recuperava-os quando eles também morressem ou não? A resposta foi de que lá não havia esposa de ninguém. Vivia-se como animais irracionais. Todos são esposos de todas e vice-versa. Disse-me ainda que quem tiver poder, pode proteger a sua esposa e partilhar as de outros. Essa ideia não me caiu bem, ainda que me tivesse sensibilizado.
- Decida-se. Estou para regressar, aconselhou-me. E ainda foi mais longe: você não sonhou a receber muito dinheiro esta semana e acordarsem nada? Não sonhou a abater uma raposa que se transformou em ser humano?
Respondi que era verdade. “Sonhei sim”.
- Sou eu que o fiz sonhar. Sabe qual era o objectivo, continuou a questionar, ao que lhe respondi que não sabia.
“Eu queria que descobrisse o caminho da vida. Os dois sonhos tinham um ensinamento: aqui na terra cada dia é outro dia. Há dias felizes e infelizes, dias bons e dias maus. Foi o que você sonhou. Nós lá – não disse se era no inferno ou no paraíso – não temos dois momentos de vida, temos apenas um, que é a felicidade”, persuadiu-me.
Antes de se despedir de mim e de me convencer, senti a necessidade de me levantar para ir contar a família, para ver se partíamos juntos para o tal sítio. Quando levantei o pé despertei. Afinal era um sonho. Não era nenhuma realidade. Arrependi-me de ter tentado levantar o pé, porque ainda queria ouvir mais desse morto. Espero que venha mais um dia, porque o projecto que ele me contou é interessante.
De repente, ainda em sonho, recordei-me de um dos títulos do jornal Público que dizia “Fred recebido com pompa e circunstância na Cadeia Central”, aludindo-se à prisão do apresentador da TV Record. “Estou frito, também serei recebido assim pelos reclusos, incluindo Fred”, exclamei frustrado.
O título não é meu. É da ficção de Bahassan Adamudji.
Não sei se é um escritor, mas sei que é autor do livro com o título desta crónica. Nesse livro – li-o em 2001 – Bahassan conta que no Mussquite era assim. Coisa de defunto era venerada e respeitada.
Apesar dos camaradas revolucionários afirmarem que os mortos não voltavam, ninguém se atrevia a mexer em nada que tivesse pertencido a um morto, sem que as coisas fossem “fembadas” (cerimónia tradicional, visando esclarecer como o morto quer que as coisas sejam para que não se revolte), primeiro. É verdade que a vida dos mussquitenses mudara muito com a chegada de camaradas, mas nada poderia mudar o respeito e o medo que havia pelos mortos.
Eu não quero discutir o medo de tocar em coisas de mortos por receios de revolta que eles podem desencadear. Para mim, o morto é sempre um morto. A sua reacção não passa de uma ficção, uma ilusão dos sonhos.
O milando de um sonho. É isso mesmo. Sonho é um misto de alegria, pesadelo e frustração, que pretende. Há sonhos que, por serem maravilhosos, esperançosos e aéreos, quando interrompemos, forçamos o sono para ver se os recuperamos. Há também sonhos que, quando os interrompemos, acordamos mentalmente abatidos, desanimados e frustrados, porque o que sonhamos não passou apenas de um sonho. Mas também há sonhos que, quando os interrompemos, ainda que seja madrugada, fazemos esforços para que não voltemos a sonecar, sob risco de voltarmos a cair no mesmo sonho.
Era terça-feira, por volta das 6h40 da manhã. O sol começava a lançar os seus raios para a janela do meu quarto. Porque dormi às duas horas e poucos minutos, não era altura de acordar. Diariamente, sou obrigado a despertar a essa hora, devido a algazarra que a miudinha provoca, quando se prepara para a creche. É um barulho propositado, porque, quando finjo que não estou despertado, vem gritar nos meus ouvidos. Infelizmente, ela não está a imaginar os problemas que me cria em alguns dias.
Naquela terça-feira, pouco depois de ela ter ido à creche, como sempre, tentei recuperar o sono perdido. Um sono que, a partir daquelas horas, se confunde com o movimento de transeunte e o barulho provocado pela vizinhança, mas tão profundo que às vezes me criar pressentimento de ressaca ao despertar.
Passaram poucos minutos e num zás, apanhei o sono. O dia prometia surpresas. De repente, mergulho num sonho. E que sonho?
Recebo uma chamada de um amigo empresário que pretendia que desenvolvêssemos alguns negócios juntos. Do negócio, rápido, que nem cheguei a entender o seu objecto, ganhei avultadas somas de dinheiro. Nem tive interesse em quantificá-las. Era muito e estava satisfeito. O que me lembro é que na mesma altura gritei, parafraseando as palavras de um traficante do bairro de Maxaquene, sempre que fecha um bom negócio pela venda de drogas. “Bye bye ku txona, bye bye, usiwana” (adeus viver ser dinheiro, adeus pobreza). Mas um barulho estranho, semelhante ao que os ratos provocam quando correm no meio de caixas, desperta-me.
O que é? Perguntei-me, sem obter a resposta.
No quarto não há ratos, nem há sinal da sua existência. Estranhei. Olhei para o relógio, já eram 7h43 minutos. Lembrei-me que tinha sonhado a receber muito dinheiro e, consequentemente, já me tinha despedido de uma vida desenrascada e da pobreza. Olhei para os meus lados, não havia sequer uma nota de 20 meticais. Na cabeceira apenas duas moedas, uma de 10 e outra de 5 meticais. Fiquei frustrado.
Ao mínimo não era pesadelo. Ainda dava para retomá-lo. Interessante.
No banco, a minha conta estava vazia. Pior é que no dia anterior havia feito algumas compras via cartão e esquecera-me de fazer as contas do meu saldo. Pensava que tivesse ainda 500 meticais de saldo. Puro engano. Havia errado no saldo anterior, porque apenas havia restado 590 e tal meticais.
Na verdade, após as transacções, no banco apenas tinha ficado 88 meticais, só dava para um crédito de 80 meticais. Em casa, esperavam-me despesas diárias. O salário ainda demoraria alguns dias.
Vivia um dilema: sonhar rico, acordar sem dinheiro para o pão no bolso. Dei muro na cama, meio frustrado pela pesada realidade que já não estava preparado para viver nela.
Deitei-me novamente e rapidamente voltei a apanhar o sono. Veio outro sonho. Vejo uma raposa dentro do quintal, onde havia uma criação de gado caprino. Tinha de ser abatida sob pena de devorar algumas crias no curral. Encabecei a caça à raposa, já nos arredores do quintal. Quando atirei o primeiro pau e atingi-a, um coro de pessoas com quem caça o animal alertou-me que já não era raposa, era uma pessoa. Eu apenas via uma raposa. Ignorei o alerta e continuei a espancar, até à morte, o aludido animal.
Respirei fundo. Era uma batalha vencida. Regresso ao quintal, deparo-me com a pastora de uma igreja. Ela manda-me farpas, gritando: “você matou nossa crente, agora vai-se lidar com a justiça”. Comecei a acreditar que, afinal não era uma raposa que abatera, era um ser humano. Não entendi como uma raposa se transformou num ser humano. Veio o pesadelo.
A pastora não parava de mandar farpas, já com apoio de uma outra senhora gorda, alta e desajeitada, não feia nem bonita, mas no limite entre feura e beleza, desafiando-me a matá-las como forma de apagar os vestígios e assim evitar enfrentar a justiça. Fiquei mentalmente bloqueado, sem saber o que fazer. As senhoras não paravam de enviar os seus recados. Fiquei frustrado e desamparado ao imaginar penas superiores a 16 anos nas nossas apinhadas e nojentas cadeias.
“Estou lixado. Vou ficar mais de 16 anos na cadeia. E que cadeias? O que fazer?”, questionei-me, sem me esquecer de imaginar as condições das nossas cadeias.
Curiosamente, as senhoras até já haviam determinado a minha pena. “Vai ficar entre 16 e 30 anos. Mate-nos se quiser se salvar disto”, insistiam. Pensei.
Mas matá-las era, caso me descobrissem, semelhante a apagar o fogo com gasolina. Tinha de ignorá-las.
De repente, ainda em sonho, recordei-me de um dos títulos do jornal Público que dizia “Fred recebido com pompa e circunstância na Cadeia Central”, aludindo-se à prisão do apresentador da TV Record. “Estou frito, também serei recebido assim pelos reclusos, incluindo Fred”, exclamei frustrado.
Quando imaginava na possível saída, que passava pela fuga, eis que desperto e constatou que afinal tudo não passava de um sonho. Que alívio! Não mais quis voltar a dormir, até por que já era hora de me levantar para mais uma jornada laboral.
Se no primeiro sonho havia ficado frustrado por ter sonhado rico e acordar pobre, neste segundo, o despertar foi celebrado, porque afinal não tinha morto ninguém e não enfrentaria nenhuma justiça.
Entre um sonho real e um sonho falso, juro que prefiro um sonho falso. Imaginem se o segundo sonho tivesse sido real? Prefiro acordar pobre a matar alguém.
Na manhã do dia seguinte, voltei a ter um outro sonho. Fui convidado por um morto para morrer...
Se está morto, como aparece aqui e o que pretende? Questionei.
A resposta foi forte e violenta. Venho buscar-te. Quero voltar consigo para onde vivo. Não volto sem você.
O relógio marcava 05h50. Era quinta-feira de uma semana de sonhos cinzentos. Despertei por acaso, sem que alguém ou alguma coisa me tivessem despertado. Porque foi um despertar normal, sem sonhos prazerosos nem violentos, facilmente recuperei o sono.
Pouco tempo depois, em pleno passeio, aparece-me um familiar falecido há mais de 10 anos. Admiro e pergunto-lhe: você não está morto?
Ele repara-me de cima para baixo e não o habitual – de baixo para cima. Continuou sem me responder. Eu fiquei gelado. Ficámos num frente-a-frente.
No entanto, não podia abandonar o local sem que fosse desvendado o mistério. Tinha de arrancar resposta, fosse qual fosse o meio que usasse para o efeito, nem que para isso fosse necessário aplicar-lhe uma chapada para, pelo menos, ouvir a sua reacção.
Dois minutos passam. Não desisto da minha pergunta: você não está morto? Eu até estive no seu enterro. A sua esposa já tirou, inclusive, o luto.
Ele continuava a olhar-me insistentemente, mas sem esboçar sequer uma reacção. Comecei a sentir tremedeira. Com razão. Já imaginaram um frente-a-frente com um morto? Que sensação?
Depois de cinco minutos, eu já aborrecido e preparado para iniciar com a violência, eis que me responde: Por que me pergunta isso se sabe que morri. Morri, de facto.
Fiquei embasbacado, firme e sem forças para reagir. Mantive-me firme por alguns segundos, antes de ganhar coragem. Tinha de continuar com as minhas questões. Estava mais curioso.
Se está morto, como aparece aqui e o que pretende? Questionei.
A resposta foi forte e violenta. Venho buscar-te. Quero voltar consigo para onde vivo. Não volto sem você.
Transpirei por uns segundinhos. Nunca tinha ouvido que alguém tinha sido convidado por um morto. Rejeitei o convite. Ele começa a convencer-me da importância da morte.
- Sabe, vocês têm medo de morrer por que não sabem o que os espera lá. Eu não podia decidir vir-lhe convidar a morrer para sofrer. Mantive-me irredutível. Mas ele não parava de me tentar convencer a morrer.
- Nós lá vivemos sem trabalhar, comemos o que queremos de borla. Vivemos eternamente. Se morrer assim como jovem, também viverá eternamente como está. Se morrer velho, também viverá eternamente com velho, mas com a particularidade de ter força inesgotável.
Porque também, como todos, almejo uma vida sem sofrimentos, fiquei no limite entre o “sim” e o “não”. Não sabia até que ponto o que me dizia reflectia a verdade. A ideia comovia-me. Quem não quer viver sem stress? Não sou excepção.
Questionei-o se quem morresse deixando sua família, esposa e filhos, recuperava-os quando eles também morressem ou não? A resposta foi de que lá não havia esposa de ninguém. Vivia-se como animais irracionais. Todos são esposos de todas e vice-versa. Disse-me ainda que quem tiver poder, pode proteger a sua esposa e partilhar as de outros. Essa ideia não me caiu bem, ainda que me tivesse sensibilizado.
- Decida-se. Estou para regressar, aconselhou-me. E ainda foi mais longe: você não sonhou a receber muito dinheiro esta semana e acordarsem nada? Não sonhou a abater uma raposa que se transformou em ser humano?
Respondi que era verdade. “Sonhei sim”.
- Sou eu que o fiz sonhar. Sabe qual era o objectivo, continuou a questionar, ao que lhe respondi que não sabia.
“Eu queria que descobrisse o caminho da vida. Os dois sonhos tinham um ensinamento: aqui na terra cada dia é outro dia. Há dias felizes e infelizes, dias bons e dias maus. Foi o que você sonhou. Nós lá – não disse se era no inferno ou no paraíso – não temos dois momentos de vida, temos apenas um, que é a felicidade”, persuadiu-me.
Antes de se despedir de mim e de me convencer, senti a necessidade de me levantar para ir contar a família, para ver se partíamos juntos para o tal sítio. Quando levantei o pé despertei. Afinal era um sonho. Não era nenhuma realidade. Arrependi-me de ter tentado levantar o pé, porque ainda queria ouvir mais desse morto. Espero que venha mais um dia, porque o projecto que ele me contou é interessante.

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