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domingo, 12 de dezembro de 2010

A PRESENÇA CHINESA NA AMÉRICA DO SUL

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LEONARDO SILVEIRA DE SOUZA - MUNDORAMA

Durante os últimos 30 anos, a China impressionou o Mundo com seu crescimento econômico contínuo acompanhado por uma demanda vigorosa por investimentos, fluxo maciço de capitais e rápidas expansões das exportações.Muitas empresas chinesas engajaram na internacionalização de suas atividades por meio de investimentos significativos no exterior e com o forte apoio político e financeiro do governo para as empresas chinesas através da estratégia “go global”, possibilitando o país a se tornar um agente ativo em Investimento Externo Direto (IED), enquanto ao mesmo tempo continua sendo o principal destino de IED (ACIOLY, 2010).

O impacto do desenvolvimento industrial da China tem sido pujante em termos do aumento da demanda por produtos primários, que por sua vez, o leva a liderar o consumo mundial de muitos minerais e produtos agrícolas. O país é responsável por um terço do consumo mundial de estanho, carvão, minério de ferro, aço e algodão e quase um quarto da demanda mundial de óleo de soja, borracha, alumínio e cobre (JENKINS; PETERS, 2009).

O país ainda é incipiente do ponto de vista do Investimento Externo Direto (IED), com menos de 2% dos IEDs mundiais entre 2005 e 2007, porém o IED chinês está crescendo rapidamente e muitas empresas chinesas têm se tornado importantes players globais, particularmente nas indústrias extrativistas, além disso, há um aumento dos IEDs da China nos setores de manufaturados como os de eletrônicos, autopeças e automóveis. Os fluxos de investimentos da China no exterior estão aumentando através de aquisições de empresas no exterior, utilizando entre outras formas, do fundo soberano do país (IMF, 2010).

O interesse da China em investimentos no exterior está focado em setores que são considerados estratégicos. O volume dos IEDs chineses nos últimos anos foi concentrado em mineração, manufaturas, infra-estrutura e operações financeiras. Nesse contexto da expansão dos IEDs chineses, o interesse na América do Sul tem aumentado nos últimos anos, embora a participação dos IEDs da China no continente ainda seja considerado baixo (JENKINS; PETERS, 2009).

Esse crescimento econômico tem ocorrido paralelamente ao estabelecimento das relações diplomáticas entre América do Sul e China. Muitos países da América do Sul reconheceram a República Popular da China (RPC) entre 1970 e 1980, apenas o Paraguai ainda mantém relações diplomáticas com Taiwan .

Nos últimos anos têm sido intensificado algumas mudanças na política externa entre América do Sul e China, com as visitas do presidente Hu Jintao a região em 2004, 2005, 2008 e 2010, enquanto líderes sul-americanos têm realizados visitas freqüentes a Pequim. A China tem também aumentando seu envolvimento multilateral na região tornando-se um membro pleno do Banco de Desenvolvimento Inter-americano (BID) em 2008 (CEPAL, 2010).

INVESTIMENTO EXTERNO DIRETO DA CHINA NO EXTERIOR

Em 2000, a China iniciou oficialmente a estratégia “go global” para promover seus IEDs, o que significou uma mudança de posicionamento do governo, anteriormente uma posição de restrição a saída de capitais, para um encorajamento das empresas chinesas de investirem no exterior. Coerente com sua política “go global”, o governo tem sido racional com o sistema de administração dos IEDs, bem como o relaxamento do controle sobre os fluxo de capital para o exterior. Entretanto, o sistema de administração dos IEDs da China continua bastante restritivo e complexo, necessitando de aprovações prévias de diferentes órgãos governamentais para autorizar o IED (ACIOLY, 2010).

Junto com o relaxamento gradual do controle do governo, os projetos de IEDs chineses têm sido direcionados mais pelas motivações comerciais do que pela agenda política do governo. A extensão da intervenção do governo é variável, dependendo do setor a ser direcionado pelo projeto de IED, haja vista que os projetos de investimentos no setor de recursos naturais, receberam uma participação maior do suporte direto e indireto do governo (OECD, 2009).

Enquanto a recente expansão dos IEDs chineses no exterior tem chamado a atenção da comunidade internacional, esta presença ainda é reduzida em relação aos dos países industrializados. Além disso, o volume do estoque de IED efetuado pela China é de cerca de um quarto do estoque de IED efetuados pelos países estrangeiros na China (OECD, 2009).

Não obstante, o crescimento da China como fonte de IED, pode ser considerado como uma etapa do desenvolvimento econômico do país e tudo indica que o país continuará a buscar oportunidades de investimento no exterior. Dessa forma, é provável que os IEDs da China no exterior acelerem.

Os IEDs chineses têm evoluído não apenas em tamanho, como também em termos de distribuição geográfica e setorial ao longo do tempo, em resposta as estratégias do governo; das condições da economia chinesa e das relações econômicas bilaterais (IMF, 2010).

INVESTIMENTO EXTERNO DIRETO DA CHINA NA AMÉRICA DO SUL

O interesse da China na América do Sul é motivado pela tentativa de melhorar o acesso (seja pelo fornecimento ou aquisição de empresas da região) as commodities como minérios (especialmente minério de ferro e cobre), petróleo, celulose, ferro gusa, aço, soja e óleo de soja, com o objetivo de atender a grande demanda chinesa por tais commodities.

Geograficamente, os IEDs chineses na região têm sido direcionados principalmente para a Argentina, Brasil, Venezuela e Peru, respectivamente, que somados responderam com aproximadamente noventa por cento do estoque total de IEDs da China na América do Sul no final de 2008 (Mofcom, 2010). Muitos desses investimentos foram focados em setores que são considerados estratégicos para o governo chinês, como mencionado anteriormente.

Mesmo com uma diminuição dos IEDS da China nesses quatro países em 2008 (com a exceção do Peru), os mesmos receberam entre 2003-2008 422 milhões de dólares de um total de 479 milhões de dólares destinados ao continente no mesmo período (Mofcom, 2010).

EXPORTAÇÕES MUNDIAIS DA CHINA

A participação da China no comércio mundial tem crescido fortemente nas ultimas três décadas com a implementação de sua estratégia de “reforma e abertura”. O rápido crescimento da China tem contribuído para um aumento de sua participação no PIB mundial que era de 2% em 1980 para 12 % em 2008. Em relação ao comércio mundial, em 1980 a China representava apenas um por cento dos fluxos de comercio mundial, enquanto em 2008 passou para mais de oito por cento (IMF , 2010).

Enquanto a participação da China no comércio mundial tem aumentado drasticamente nas ultima décadas, ela é ainda pequena se comparada com os Estados Unidos. Além disso, a China representa somente três por cento das importações mundiais de bens de consumo e quatro por cento do crescimento das importações mundiais (IMF, 2010).

O aumento da participação da China no comercio mundial é expressivo em determinados produtos, como as commodities. A participação da China nas importações mundiais de commodities cresceu de níveis insignificantes nos anos 80 para quatro por cento em 2000, e oito por cento em 2008 (UNComtrade, 2010). Sua participação nas exportações mundiais de produtos manufaturados de média e alta tecnologia aumentou de níveis muito baixos nos anos 80 para quarenta por cento em 2000, e mais de 55% por cento em 2009 (UNComtrade, 2010). Durante esse período, a China passou de um exportador, principalmente de vestuário e produtos derivados de petróleo, para um exportador de produtos eletrônicos e de tecnologia de informação.

AS IMPORTAÇÕES DA AMÉRICA DO SUL DA CHINA

As importações dos países sul-americanos da China têm aumentado significativamente nos últimos anos. A participação chinesa na média das importações totais de cada país da América do Sul aumentou cerca de quatro vezes, passando de 2,3% em 1995 para 9,28% em 2007 (JENKINS; PETERS, 2009). Isto reflete o crescimento internacional da competitividade chinesa no que tange a ampliação do leque de produtos manufaturados exportados, e no acesso aos mercados sul-americanos após o ingresso da China na Organização Mundial do Comércio.

Em 2008, 40% do total importado pela América do Sul da China foi de manufaturados com alto valor agregado (alta intensidade de tecnologia). Ao contrário de algumas percepções populares, as importações dos países sul-americanos da China não são predominantemente de produtos de baixa tecnologia, que contabilizaram cerca de 10% do total importado da China em 2008 (UNComtrade, 2010).

As importações de produtos de alta intensidade tecnológica somado aos de média intensidade tecnológica, atingiu mais de 60% do total importado pela América do Sul da China em 2008. Desde 1993 a participação das importações de produtos de alta e média intensidade tecnológica pelos países sul-americanos da China vem aumentando, com a exceção de 2002 e 2007, ao contrário dos manufaturados de baixa intensidade tecnológica e de commodities primárias que permanecem estáveis, além disso, os manufaturados de uso intensivo de trabalho e de recursos naturais estão apresentando uma tendência de queda acentuada desde 2000 (UNComtrade, 2010).

O aumento das importações da China tem nos últimos anos, se tornado um assunto de grande preocupação para os países da América do Sul. Do ponto de vista dos consumidores, o aumento da disponibilidade dos produtos de baixo custo da China tem sido vantajoso, apesar das preocupações com os padrões de qualidade e segurança de alguns produtos. O foco da recente preocupação tem sido o impacto da competição chinesa sobre os produtores locais e se estes estão sendo deslocados pelas importações chinesas de baixo custo (JENKINS; PETERS, 2009).

CONCLUSÃO

Todos os países da América do Sul, mesmo os que não reconhecem a RPC (o único a não reconhecer é o Paraguai) ou tenha limitado comércio com o país, tem sido afetado pelo crescimento econômico da China. Os setores em que estes países mais sofrem os efeitos variam de acordo com a dimensão de cada economia. Para alguns países (Argentina, Brasil, Chile, Peru e Venezuela), a China tem se tornado o primeiro ou segundo maior mercado exportador, além de terem sido beneficiados pelo impacto da demanda chinesa nos preços internacionais das commodities primárias. Outros países (Bolívia e Equador), cujas exportações para a China são relativamente limitadas, tem sido, contudo, beneficiado indiretamente no que venha a ser chamado de “Efeito china” nos preços das commodities. Todos os países da região têm apresentado rápido crescimento nas importações chinesas desde 2002, o que tem beneficiado consumidores, porém isso gera impactos adversos sobre as manufaturas locais. O Brasil como a maior economia e a mais diversificada da região, tem sido afetado em todos os setores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ACIOLY, L (2010). Internacionalização das Empresas Chinesas. SOBEET, ano XII, n°54.
China and Latin America. Economics relations in the twenty century. Studies. German Development Institute. Rhys Jenkins/Enrique Dussel Peters (eds.). Bonn/ Mexico City, 2009.
China’s Economic Growth: International Spillovers. IMF Working Paper. International Monetary Fund. New York, 2010.
China’s Growing Interest in Latin America. Report for Congress. Congressional Research Sevice(CRS). Washington, 2005.
La República Popular de China y América Latina y el Caribe: Hacia una Relación Estratégica. La Comisión Econômica para América Latina (Cepal). Santiago, 2010.
Ministry of Commerce the people’s republic of China. Disponível em:
http://english.mofcom.gov.cn/. Acesso em:15/05/2010
OECD Investment Policy Reviews: China 2008. China’s Outward Direct Investment. Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). Paris, 2009.
United Nations Commodity Trade Statistics Database – UNComtrade. New York, 2010. Disponível em
http://comtrade.un.org/. Acesso em: 01/06/2010.
World Investment Report 2010. United Nations Conference on Trade and Development. New York/Geneva, 2010.
World Trade Report 2010. United Nations Conference on Trade and Development. New York/Geneva, 2010.

**Leonardo Silveira de Souza é Doutorando em Direito Internacional e Pesquisador Assistente III da Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Deint) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplic
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