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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Wikileaks: da irrelevância do conteúdo no contexto...

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... da alteração de paradigmas
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RUI ROCHA – DELITO DE OPINIÃO

Antecipando as conclusões, a tese que aqui defendo é a de que, independentemente dos conteúdos já divulgados e a dos que o vierem a ser, o caso wikileaks representa, sobretudo, uma mudança de paradigmas. Assange é um jornalista? Qual o grau de segredo que deve ser preservado? Quais os limites à liberdade de expressão? A realidade não é o que parece, quer no que diz às intenções de Assange, quer no que diz respeito ao(s) crime(s) pelos quais foi detido? Está certo. São tudo questões muito estimulantes. O que me parece é que, numa perspectiva de entendimento do futuro, é tão útil discuti-las como debater o movimento de rotação da Terra. O leitor gostaria que o dia tivesse mais quatro ou cinco horas? Também eu. A má notícia é que o movimento da Terra em redor do seu eixo demora 23h e 56 minutos. Vamos então discutir o quê? Apesar de tudo, sobre este ponto, há algo que não quero deixar de sublinhar: não consigo acompanhar a lógica de quem considerou útil o wikileaks enquanto este se limitou a revelar assuntos ligados a Timor-Leste e quejandos e agora, que os assuntos passaram a ser outros, altera a posição.

Dito isto, tentarei sintetizar alguns paradigmas que o caso wikileaks, no contexto de outras alterações profundas, veio questionar:

a) o papel da inteligência e dos serviços secretos: por efeito da guerra-fria, os estados organizaram serviços de informações altamente especializados, activos e extremamente importantes na tomada de decisão política. Pois bem, com o fim da guerra-fria, esses serviços acomodaram-se. O trabalho de terreno foi substituído pela leitura da imprensa diária. O agente secreto típico ficou um bom bocado mais anafado e substituiu os binóculos por óculos bi-focais que lhe permitem ler ao perto. Confirma-se entretanto que as embaixadas mais que representarem interesses diplomáticos, são centros de inteligência e informação. Desta informação anafada e previsível. Por isso é que não ficamos muito surpreendidos com a maioria das revelações: Berlusconi é um gigolô, Sócrates é teimoso, Alegre é jurássico. Bem, confesso que não precisei de me sentar… Os serviços de inteligência vão voltar ao terreno. A batalha será travada no campo das bases de dados e de informação.

b) o papel do jornalismo: na sequência do ponto anterior, poder-se-ia pensar que o jornalismo teria adquirido uma preponderância decisiva, como canal de alimentação privilegiado dos sistemas de inteligência, reforçando-se enquanto poder. Sinceramente, não me parece. O próprio jornalismo também se acomodou. Confundiu-se com o poder político. Os jornalistas almoçam com o Chefe de Gabinete do Ministro A e tomam uma bebida com o adido da Embaixada do país B num bar de hotel ao fim-da-tarde. A informação não é investigada. Flui em circuito fechado, sem novidade, nos corredores de bares e restaurantes. Também isso justifica que ainda não tenhamos sido propriamente surpreendidos pelas informações do wikileaks. É certo que determinados jornais de referência foram escolhidos para divulgar a informação wikileaks. Penso que a palavra “escolhidos” diz tudo sobre a situação. Os jornais, os de referência, gozam ainda de uma certa credibilidade junto dos cidadãos. Essa relação de confiança interessava a Assange: a credibilidade do mensageiro estende-se à mensagem. Todavia, por quanto tempo será possível manter essa aura sem alterações radicais na forma de entender o jornalismo? Estou convencido que o jornalismo só terá futuro se regressar ao passado. À investigação, aos conteúdos, aos correspondentes e aos enviados especiais como ainda ontem defendeu no púlpito do El País Thimothy Garton Ash. O lugar dos jornalistas é nas ruas, nos locais onde as coisas acontecem. Manterem-se nas redacções a consultar os serviços das agências noticiosas ou em almoçaradas e beberetes com todas as faces do poder vai matá-los de doenças coronárias obstrutivas.

c) só o poder controla os cidadãos: à ameaça de um poder controlador exercido sobre os cidadãos, contrapõe-se agora o exercício de um certo controlo dos cidadãos sobre o poder. Aquilo a que poderíamos chamar um Small Brother. Quem tem medo do irmão mais novo? Os governos, as multinacionais, os bancos? Uma coisa é certa: só a rede tem o poder de confrontar os poderes instituídos e de forçar uma maior transparência. Num certo sentido, o clima de inconformismo e desobediência civil parece encontrar na rede um habitat natural. O clima é agora de maior desassossego e assiste-se a um certo reequilíbrio entre os poderes instituídos e o poder da cidadania. Testemunharemos exageros? Certamente. Mas, a balança andava muito descalibrada.

d) o poder é sagrado: o poder tal como o temos conhecido baseia-se na ideia de segredo, de domínio de uma informação que não está acessível a um grupo alargado. A difusão do segredo, da informação, vai fazer evoluir o plano político em um de dois sentidos: no do reforço das barreiras ao acesso à informação (internet para todos?) ou numa alteração da relação com o mundo orientada para uma maior transparência, para a obrigação de fundamentar as decisões no bem comum, para mais ideias e para discursos mais motivadores. Esperemos que a evolução se faça pela segunda via.

e) o tabuleiro do jogo: o modo como consumimos e trocamos informação está a mudar radicalmente. Queira-se ou não, a internet alargou o espaço público de intervenção. O leitor, se calhar, já ouviu falar em blogs. A informação mais actualizada e credível sobre a operação das forças brasileiras no Complexo do Alemão circulou através de tweets emitidos por jornalistas estagiários. Enquanto os da velha guarda bebiam um chope num botequim, à espera que um qualquer brigadeiro lhes desse alguma informação quando fosse matar a sede. A revolta em Teerão foi filmada em telemóveis particulares e difundida para todo mundo pelo youtube. Mas, a questão não se coloca só ao nível da plataforma. Está também no modo de intermediação. Os jornais vão deixar de circular em papel para serem consultados na Web? Não é só isso.

O que as pessoas vão querer é a opinião de alguém em quem confiam, um ângulo que lhes agrade. A visão de um amigo, de um especialista, de um humorista. Vão procurá-la no Facebook ou num blog alojado no Facebook. Ou num sucedâneo. A notícia, a informação, são o pretexto. O objectivo é a construção de conhecimento, de sensações, de solidariedades. E, já agora, para quê travar guerras sangrentas e preparar atentados se for possível atingir o coração de uma civilização ou de um país atacando a sua informação vital. Assange está preso? A batalha continua a travar-se cá fora entre a PayPal e os Hackers. Este contexto é seguramente mais exigente e coloca muito mais pressão sobre o poder. Qualquer que ele seja.

Estou convencido que estas são algumas das principais linhas de evolução ou ruptura protagonizadas pelo wikileaks e por todo um contexto de abundância de informação (750.000 documentos, senhores!). São irreversíveis? Não. É sempre possível cortar o acesso à rede. Aí temos a China a comprová-lo. Da mesma maneira que é possível decretar que o dia tem 16 horas. Contra todas as evidências. Ah, e mais duas coisas:

a) este novo poder será, ainda.. um poder. Nas mãos de quem souber difundir informação e construir conhecimento. Bom ou mau? Dependerá sempre da preparação e do grau de exigência dos cidadãos.
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b) a comparação entre o caso wikileaks e o watergate parece-me de uma riqueza de análise extraordinária. Aqui fica a provocação ao Pedro Correia.
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