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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O MÉXICO EM GUERRA

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Ignacio Ramonet

A 20 de Novembro passado, celebrou-se o centenário da Revolução Mexicana. A primeira grande revolução social do século XX. Uma gesta conduzida por dois lendários heróis populares, Emiliano Zapata e Pancho Villa, que conquistaram para operários e camponeses: direitos sociais, reforma agrária, educação pública, laica e gratuita, e a segurança social.

A cem anos de distância, paradoxalmente, a situação do México, «é analógica, em muitos aspectos, à que prevalecia em fins de 1910: concentração da riqueza a níveis insultantes e amplitude dos atrasos sociais; distorções da vontade popular; ataques aos direitos laborais e sindicais; negação de garantias básicas pela autoridade; claudicação da soberania perante os capitais internacionais e um exercício oligárquico, patrimonialista, tecnocrático e insensível do poder político» [1].

A este cenário deprimente soma-se uma guerra. Ou, melhor dito, três guerras: a dos cartéis do narcotráfico entre si pelo controlo de territórios; a dos grupos Zetas (organizações criminosas constituídas por ex-militares e ex-polícias) que praticam o sequestro e o roubo contra a população civil; e a dos militares e forças especiais contra os próprios cidadãos.

Desde 1 de Dezembro de 2006, quando, pressionado por Washington, o recém-eleito Presidente Felipe Calderón lançou a sua “ofensiva contra o narcotráfico”, a onda de violência deixou no país cerca de 30.000 mortos…

O México assemelha-se cada vez mais a um “Estado falido” preso num cepo mortal. Pelas suas comarcas campeiam à sua vontade todo o tipo de capangas armados: forças especiais do Exército e comandos de elite da polícia; bandos de paramilitares e parapolicías; quadrilhas de sicários “legais” e “licenciados”: agentes estado-unidenses da CIA e da DEA; e, enfim, os Zetas que se assanham em particular contra os migrantes centro e sul-americanos em rota para os Estados Unidos. Eles são sem dúvida os autores do execrável assassinato de 72 migrantes descoberto no passado dia 24 de Agosto no Estado de Tamaulipas.

Anualmente, uns 500.000 latino-americanos atravessam o México rumo ao Norte. Na sua travessia, são vítimas de toda a espécie de abusos: detenções arbitrárias, espoliações, furtos, despojos, violações… Oito em cada dez mulheres migrantes sofrem abuso sexual; muitas são escravizadas como criadas dos bandos criminosos, ou forçadas a prostituir-se. Centenas de crianças são submetidas a trabalhos forçados. Milhares de migrantes são objecto de raptos. Os Zetas reclamam às famílias (no país de origem ou nos Estados Unidos) o pagamento de resgates. «Para o crime organizado é mais fácil sequestrar, durante uns dias, 50 desconhecidos que paguem entre 300 e 1500 dólares de resgate cada um, que raptar um grande empresário» [2]. Se o sequestrado não tem ninguém que compre a sua liberdade, é assassinado. A cada célula Zeta possui o seu próprio “carnicero” encarregado de decapitar e esquartejar as vítimas e de queimar os cadáveres num barril metálico [3]. Na última década, uns sessenta mil indocumentados, cujas famílias não puderam pagar, foram “desaparecidos”…

O Presidente Felipe Calderón anuncia regularmente êxitos no combate contra o narcotráfico, assim como a detenção de importantes capos. E felicita-se por ter recorrido ao Exército. Uma opinião que muitos cidadãos não partilham. Porque os militares, desprovidos de experiência neste tipo de intervenção, multiplicaram os “danos colaterais” e executaram por engano centenas de civis…

Por engano? Abel Barrera Hernández, que acaba de ganhar o Prémio de Direitos Humanos Robert F. Kennedy, concedido no Estados Unidos, não o crê. Considera que a guerra contra o narco é utilizada para criminalizar o protesto social: «As vítimas desta guerra – afirma – são a gente mais vulnerável: os indígenas, as mulheres, os jovens. Usa-se o Exército para intimidar, desmobilizar, provocar terror, fazer calar o protesto social, desarticulá-lo e criminalizar os que lutam» [4].

Pela sua parte, em Washington, a Administração de Obama estima que o banho de sangue que se vive no México constitui um perigo para a segurança dos EUA. A chefe da sua diplomacia, Hillary Clinton, declarou: «A ameaça do narcotráfico está a transformar-se e, em alguns casos, associa-se com a insurgência». Acrescentou que o México actual «se parece à Colômbia dos anos 1980».

Na verdade, os EUA têm enormes responsabilidades nesta guerra. São o maior opositor à legalização das drogas. São o abastecedor (90%) [5] de armas de todos os combatentes. Tanto dos carteis e dos Zetas, como do Exército e da polícia… São, além disso, a principal narcopotência, produtor massivo de marijuana e primeiro fabricante de drogas químicas (anfetaminas, ecstasy, etc.).

São, sobretudo, o primeiro mercado de consumo do mundo com mais de sete milhões de viciados na cocaína… E as máfias que operam no seu território são as que maior rendimento obtêm do tráfico de estupefacientes: 90% do lucro total, ou seja, cerca de 45.000 milhões de euros por ano… Quando todos os carteis da América Latina repartem apenas os 10% restantes…

Em vez de dar aos seus vizinhos (maus) conselhos, que sumiram o México numa guerra infernal, Washington deveria varrer a sua própria casa.

[1] La Jornada, México, 20 de Novembro de 2010.
[
2] Ler o excepcional livro-testemunho de Óscar Martínez, Los migrantes que no cuentan. En el camino con los centroamericanos indocumentados en México, Icaria, Barcelona, 2010.
[
3] Proceso, Mexico, 29 de Agosto de 2010.
[
4] La Jornada, op. cit.
[
5] El Norte, Monterrey, 9 de Setembro de 2010.

Fonte: Le Monde diplomatique en español

In http://infoalternativa.org/spip.php?article2053
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