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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A REALIDADE É DIFERENTE

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JOSÉ INÁCIO WERNECK, Bristol – DIRETO DA REDAÇÃO

Bristol (EUA) - Em nada me surpreendi ao constatar que houve a defesa das armas de fogo por alguns de meus leitores, em resposta à coluna “O Faroeste ao Alcance de Todos”. Os fetichistas das pistolas, metralhadoras, canhões e fuzis não se comoveram nem com a morte de uma menina de nove anos em Tucson e menos ainda com o fato de que o assassino comprara legalmente, em um Wal-Mart, um pente de balas capaz de disparar 31 tiros consecutivos.

Só conseguiram dominar o criminoso quando ele parou para recarregar. Até recentemente tais pentes de bala eram exclusividade das Forças Armadas nos Estados Unidos, mas agora podem ser comprados no armazém da esquina, por causa da influência da N.R.A. - a National Rifle Association.

Vocês sabem qual foi a reação nos dias seguintes? Houve um aumento no número de pessoas que foram para os stands de tiro praticar.... um recarregamento mais rápido. As vendas da pistola Glock aumentaram.

Como eu escrevi, a própria deputada Gabrielle Giffords, alvo principal de Jared Loughner, tinha uma pistola Glock. Aliás tem, pois ainda está viva, se bem que precariamente. Sua crença, como a de todos os proprietários de armas de fogo, era de que, com uma pistola na bolsa, poderia se defender melhor.

As estatísticas mostram que tal crença é tortalmente infundada. Gabrielle Giffords foi alvejada pelas costas, à queima-roupa, sem a menor chance de defesa. Há até uma estatística macabra divulgada pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia: as pessoas que andam armadas são alvejadas 4,5 vezes mais do que as pessoas desarmadas. Provavelmente porque procuram, inutilmente, devolver fogo com fogo, em situações em que o atacante escolheu a oportunidade e a hora em que lhe convinha tomar a iniciativa.

O que vai ser feito nos Estados Unidos, país em que há cem mil pessoas alvejadas todos os anos? Nada, pois o poder da National Rifle Association é muito grande. A mesma National Rifle Association que, há alguns anos, foi ao Brasil e influenciou, com seus lobistas ,um referendo sobre posse de armas. (Agora mesmo, no momento em que escrevo, um aluno e uma aluna, de 15 anos - ela em estado gravíssimo - de uma escola secundária na Califórnia são atingidos por uma bala que disparou por acaso de um revólver carregado por outro aluno.)

Já os antigos diziam que “homo homini lupus”, o homem é o maior inimigo do homem. Acho muito elogiosas as campanhas para “salvar o planeta”, mas o planeta existe há quatro bilhões de anos e, bem ou mal, vai seguir em frente. A humanidade é que vai desaparecer, vítima de suas constantes agressões a si mesma e ao meio ambiente.

Digo isto a propósito de outra falsa noção que, ao longo dos anos, tem permitido no Brasil que construções (de barracos ou mansões) subam pelas encostas. É absurdo que não haja, no Rio, Teresópolis e adjacências, um sistema de alarme que leve as pessoas a fugirem a tempo, mas é também imperdoável que elas tenham primeiramente se colocado na zona de perigo.

Nossa música popular está repleta de canções idealizando a vida nos morros (Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa, Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins, Opinião, de Zé Keti, entre outras).

A realidade, como nos tiroteios americanos, é bem diferente.

*É jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou "Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos", estudo sociológico, e "Sabor de Mar", novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut.
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