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sábado, 26 de março de 2011

O CONTO DO IMPERIALISMO HUMANITÁRIO

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Romualdo Pessoa, editor de Gramática do Mundo - Outras Palavras

Estamos assistindo algo que já está se tornando corriqueiro. E por ser repetitivo, fica cada vez mais nítido, até para o mais distraído observador, o verdadeiro interesse que está por trás de um discurso hipócrita de defesa da população civil líbia.

É o que já se chama de “imperialismo humanitário”. São discursos, mal disfarçados, que não escondem a real razão para a deflagração de mais uma guerra. Poderíamos indagar, como se fôssemos ingênuos: por que não no Bahrein, por que não no Iêmen. E agora na Síria, e na Jordânia, haverá intervenção? E, mais ainda, porque tal não aconteceu nas várias vezes em que Israel massacrou a população palestina, tanto nos territórios ocupados, como até mesmo no Líbano?

A nova cruzada das potencias ocidentais não tem nada a ver com a defesa da população civil. Até porque ela se torna um alvo potencial nos ataques nada “cirúrgicos” de centenas de mísseis que explodem criminosamente em áreas urbanas.

Existem outros objetivos por trás dos discursos, nos quais já não há mais credibilidade da opinião pública internacional. Mas desta vez envolve interesses díspares de não mais uma única potência. Além dos EUA, França e Itália disputam o controle estratégico da região, do petróleo, e, claro, a reconstrução de tudo que for destruído nessas ações. E também Alemanha e China (estes se abstiveram na votação do Conselho de Segurança da ONU que autorizou a criação da chamada zona de exclusão aérea, nome pomposo para determinar a agressão às forças líbias), que tem contratos importantes no comércio do petróleo líbio. Pode-se ler uma boa análise dessa divisão de interesses dentro da “força de coalização” no artigo de Antonio Martins, no site Outras Palavras: http://ponto.outraspalavras.net/2011/03/23/libia-invasor-dividido/.

No caso da França, talvez o mais emblemático em toda essa farsa, envolve até mesmo a necessidade de reafirmação de um governo enredado em uma série de complicações internas, revoltas populares e insatisfações com graves crises que atinge aquele país, talvez na Europa o que mais convive com populações deslocadas de seus países como conseqüência de crises econômicas e guerras. Empenhado em melhorar sua baixa popularidade, Sarkozy não vacila em massacrar o povo líbio. Acrescente-se a isso uma espécie de “vingança” pela declaração de um dos filhos de Gaddafi, que afirmou ter o ditador líbio bancado a eleição do premier francês e que teria muito mais coisas a declarar.

A Itália talvez seja o país que tem mais a perder com essa situação de crise e instabilidade nas águas do mediterrâneo. Tanto pela proximidade com aquele país, e que pode sofrer conseqüências do deslocamento de populações da África, até então contida por Gaddafi, como pelo fato de ser o país que mais estabeleceu relações com o governo líbio, até pelo fato de ter sido a potência européia colonizadora na Líbia.

Contudo isso, e pelos mais variados interesses comezinhos, o que estamos assistindo não é uma simples agressão imperialista, mas um verdadeiro assalto, na medida em que se trata de um roubo à mão armada, das riquezas de um dos países mais prósperos do norte da África.

Ora, se poderá dizer, a culpa é do Kadhafi. Os que leram um outro texto que publiquei neste blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com/2011/03/revolta-nos-paises-arabes-um-olhar.html) devem ter percebido que não morro de amores pelo ditador líbio. No entanto, meu olhar geopolítico e as concepções anti-imperiaistas que carrego, não pode me prender às repetições maniqueístas da mídia, expert em demonizar determinado governante para poder justificar as agressões imperialistas.

O povo líbio tem todo o direito de rebelar-se contra seu governante, assim como os povos de qualquer país do mundo. Mas deve ser dado a ele o direito de fazê-lo pelo princípio da autodeterminação, sem que essa e outras crises sirvam de pretexto para invasões estrangeiras, com objetivo claro de se exercer o controle sobre as riquezas existentes naquele território.

A farsa que se esconde por trás dos discursos humanitários não resiste a uma simples retrospectiva de situações semelhantes e às análises dos interesses sobre aquela região desde o final do século XIX. Um interessante artigo de Michel Chossudovski, publicado no Correio da Cidadania (http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5609/9/) traça com precisão todo o histórico de disputas, desde o processo da colonização até os dias atuais.

Se observarmos a maneira como as revoltas árabes estavam acontecendo veremos que quando isso acontece na Líbia há de imediato um interesse diferenciado por parte das grandes potências. Até a maneira como a oposição naquele país utiliza para se contrapor ao poder de Gaddafi, diferencia-se da forma como estava acontecendo até então. Armados, desde o começo, e dispostos a partir para um conflito aberto, davam a nítida impressão de contar com a ingerência externa, em função da confiança e do rápido comportamento de alguns membros do governo que se aliaram rapidamente aos insurgentes. Acrescente-se a isso a presença de missões estrangeiras de espionagem, justamente na região onde se concentram as reservas de petróleo da Líbia, e onde é mais forte a ação dos rebeldes, a cidade de Bengazhi.

Portanto, é nítido o interesse diferenciado dentro de todo esse quadro de revoltas árabes, quando a situação envolve a Líbia. Tanto pela posição estratégica desse país, como pela riqueza petrolífera ali existente.

Paradoxalmente, enquanto em alguns países as revolta se dirigem também contra tiranias monárquicas, os rebeldes líbios, alguns deles (são de origens diversas, uma vez que uma característica da região é a existência de várias tribos), ostentavam a bandeira da antiga monarquia líbia. É importante ressaltar que há uma grande divisão étnica que dificulta a caracterização tradicional de nacionalidade. A peculiaridade está no fato de Gaddafi, mediante uma capacidade que reside em seu carisma, construída em tempos de guerra fria e contra a antiga monarquia, aliado a idéias socializantes bem excêntricas, ter conseguido unificar por tanto tempo interesses internos tão díspares e características regionais tão diversas. Além de uma política de sufocar a oposição. Isso se intensificou, inclusive, nos últimos anos, como decorrência de uma aproximação com os EUA para perseguir suspeitos de terrorismos e eliminar as sanções econômicas.

A par de todo o interesse que desperta a situação da Líbia, as revoltas árabes continuam a se espalhar e a atingir graus de ebulição elevados, como no caso do Iêmen, Bahrein e agora na Síria. Como podemos vislumbrar o quadro geopolítico que está se desenhando por toda essa área atingida, desde a África subsaariana, seguindo por todo o Oriente Médio até Israel? Tentarei a seguir elaborar uma análise em perspectiva, mesmo correndo o risco de cometer algum equívoco, na medida em que algumas ações que ocorrem no presente podem tomar outro rumo, redefinindo o que possamos escrever a respeito do futuro.

Deserto da Líbia se transforma em pântano para as potências ocidentais

É provável que as potências européias tenham tomado a decisão mais infeliz, em termos geopolíticos, dos últimos tempos. Envolveram-se em um atoleiro de proporções inimagináveis, cujas conseqüências podem variar: pode ocorrer a divisão (embora isso deva ter sido pensado) da Líbia em dois ou três novos Estados-Nações, da maneira como aconteceu na Iugoslávia; a exemplo do que se tornou a Somália, pode também acontecer de, em caso de queda de Gaddafi, mas sem que os rebeldes consigam conquistar todo o território, por muito tempo perdurar um Estado em situação de anarquia, sem um governo central que possa impor ordem por todo o território, com o poder se esfacelando nas mãos de várias tribos com o surgimento dos senhores da guerra, tal qual acontece no Afeganistão; ou até mesmo consolidar dois Estados, um na região tradicionalmente conhecida como Cyrenaica, com a Capital em Benghazi (nesse caso essa parte controlaria as principais reservas de petróleo), e o outro Estado na região Tripolitania, com a capital em Tripoli.

O que certamente ficará mais complicado, e de difícil previsibilidade, é a coalizão esgotar-se nesses ataques aéreos que não sejam suficientes para derrubar Gaddafi. Mantendo-se no poder e avançando para reconquistar territórios a Líbia pode vir a ser submetida a fortes pressões econômicas, com a adoção de sanções por parte do Conselho de Segurança da ONU, como defende a Alemanha. A reação de Gaddafi pode seguir a ameaça feita por ele próprio, de abrir a Líbia para o deslocamento de população da África para a Europa, ou partir para ações terroristas, como ele já fez em outras situações, a Itália seria o país a ser mais afetado caso isso se concretize. A incógnita, neste caso, fica por conta da Al Qaeda, inicialmente responsabilizada por Gaddafi, mas que pode vir a ser uma aliada da Líbia. Algo que, aliás, pode ocorrer também no Iêmen, visto que nesses dois países houve ações no sentido de conter células terroristas daquele grupo, depois dos acordos feitos por esses governos com os EUA.

No aspecto que envolve as grandes potencias ocidentais, não somente as que participam da coalizão que bombardeia a Líbia, mas também a Alemanha e a Itália, os diferentes interesses podem levar a conflitos políticos que deverão afetar as relações políticas entre vários países. Haverá uma disputa, na hipótese de Gaddafi ser derrotado e a Líbia tiver que ser reconstruída com um novo governo de unidade nacional (algo muito difícil em função das divergências tribais), para ver qual país liderará a reconstrução daquele país. Isso significa também deter o controle sobre os poços e refinarias de petróleo, além do repartimento entre corporações multinacionais de um país destruído e arrasado. O espólio líbio será disputado da maneira como as aves de rapinas agem logo após estraçalhar as carcaças de suas presas.

Nesse momento os principais interesses a serem contrapostos serão entre a França e os EUA. Principal potência colonialista a controlar os países daquela parte da África, a França busca recompor-se no cenário internacional, inclusive na disputa pelo mercado de armas. Vide a disputa para venda ao Brasil de aviões de guerra. Sua condição crítica, às voltas com problemas internos graves, como já citados, deixa o governo Sarkozy com pouca margem de manobra nas decisões internas para solucionar os problemas. Uma ação de vulto, de disputa e controle sobre uma região do mundo importante é tida como uma alternativa para elevar os baixos índices de popularidade do governo conservador.

Já os EUA, em que pese toda a aparente vacilação de Barak Obama, precisa desesperadamente exercer nesse momento o controle sobre fatos e situações que envolvem diretamente uma série de países sobre os quais eles tinham o domínio. Praticamente todos os países que enfrentam levantes populares (inclusive a Líbia) firmaram acordos e alianças no combate a Al Qaeda ou a todos os grupos suspeitos de terrorismos. Envolvidos em duas frentes de batalha, já com um tempo que extrapola em muito o que foi pensado inicialmente, e sem perspectiva de vitórias concretas, os EUA experimenta uma situação dúbia. Se entrar definitivamente em uma nova guerra o governo Obama será cobrado pela opinião pública e corre o risco de deixar escapar o poder nas próximas eleições; mas se ficar de fora da liderança da coalizão, e ver a França se despontar, pode sofrer um forte revés em sua política externa.

Alie-se a isso o fato de a China estar já há certo tempo consolidando alianças com diversos países africanos e estabelecendo contratos para exploração do petróleo daquela região. Tem sido essa a razão pela qual a China tem bloqueado qualquer sanção àqueles países africanos envolvidos em fortes disputas internas.

Por fim, a maior incógnita diz respeito aos rebeldes que se levantam contra Gaddafi. Embora a resolução da ONU diga que o ataque à força aérea líbia seja para impedir que os aviões daquele país perpetrem um massacre sobre os rebeldes, existem notícias que indicam que as ações que são desenvolvidas contra os simpatizantes de Gaddafi, por parte dos rebeldes, têm sido violentas e indiscriminadas, comparando-se à forma como o ditador líbio reage à revolta.

Como ocorreu no Afeganistão, corre-se o risco de as potências ocidentais cometerem mais um enorme erro estratégico, e perderem por completo o controle sobre grupos diversificados sobre os quais não se teria nenhuma autoridade. Podendo toda essa revolta ser fragmentada com grupos tribais controlando parte do que é hoje território líbio e transformando-se assim em um perfeito palco para as ações de células da Al Qaeda.

Ao fim de tudo, conclui-se que todas as medidas adotadas com a resolução da ONU, tem puramente o objetivo de se exercer o controle geopolítico sobre uma região importante do ponto de vista econômico. Não somente a existência do petróleo, mas de toda uma infraestrutura montada para sua exploração, de tal forma que faz da companhia estatal líbia, A National Oil Corporation (NOC), a 25ª entre as maiores companhias de petróleo do mundo.

Os interesses, portanto, não são humanitários, senão vários outros países da África não estariam submetidos à situação de abandono e de domínio de gangues armadas. Não nos esqueçamos de Ruanda, cujo genocídio foi praticado às vistas dos capacetes azuis da ONU, e as armas usadas, facões, adquiridos da França. Assim como Somália, Congo, Costa do Marfim, etc.

Enfim, parafraseando um “mote” de campanha do ex-presidente Bill Clinton, em 1992 (se referindo à economia), podemos assim, dizer das ações da coalizão que ataca a Líbia, na operação denominada “Alvorada da Odisséia”: “É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO!”
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