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segunda-feira, 28 de março de 2011

A VIABILIDADE “MODERNA” DO NEO COLONIALISMO

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MARTINHO JÚNIOR

Em “Castas das Arábias” reflecti sobre o carácter da aristocracia financeira mundial, das oligarquias corporativas afins, das “pétreas” monarquias da Arábia Saudita e da formação das elites no Terceiro Mundo, perseguindo a imagem e a semelhança da composição humana do poder de que se nutre a globalização por todos os aderentes, por mais insignificantes que eles pareçam, ou aparentemente longínquos que eles existam.

Os “usa, deita fora” em que se tornaram Ben Ali e Osni Mubarak formaram enquanto no poder eminentemente elitista que criaram, sob a orientação dos serviços de inteligência dos Estados Unidos, da Grã Bretanha, de Israel e da França, autênticas “Castas das Arábias” com uma incomensurável capacidade conservadora e financeira afim.

Na Líbia, Kadafi também “funcionou” assim durante os últimos 20 anos, só que, com a sua trajectória primeira e com as características meio feudais da sociedade líbia e do seu regime (em que as tribos foram propositadamente “conservadas” num gigantesco “banho maria” humano), acabou por se tornar num “usa, deita fora” organicamente mais “duro de roer” e portanto mais insuportável, mais insubmisso.

Não é sobre as “Castas das Arábias” que eu contudo hoje vou escrever, é sobre a manipulação contraditória ao abrigo dos “Jogos Africanos de George Soros”, isto é, sobre aqueles que foram, são e serão manipulados e arregimentados para, ao “rebentarem” com os regimes dos “ditadores”, pela via da revolta controlada, propiciarem ao nível do poder a injecção do paradigma institucionalizado da “democracia representativa”, mantendo inalterável a lógica capitalista, mas garantindo a dança das “moscas” ao serviço, como autênticos “sargentos às ordens” cíclicos do sistema articulado entre aristocracia financeira mundial, as oligarquias corporativas, as monarquias Arábicas e as elites do Terceiro Mundo, criando a ilusão-cosmética da democracia, os espelhos da democracia e, em alguns casos, ainda que fugazmente, até da revolução.

Quais são os sectores sociais arregimentados para estabelecer a manipulação contraditória às “Castas das Arábias”?

Mesmo que haja a inclusão na rebelião de organizações sociais com mérito na defesa dos trabalhadores, dos pobres, dos mais desfavorecidos, mais vulneráveis, mais fragilizados, mais marginalizados, os vínculos do tandem James Baker – George Soros, ciosos de reduzir ao máximo os custos da “filantropia”, trabalham lançando entre as organizações em revolta o impacto da “Open Society” alimentando sobretudo intelectuais jovens captados pela via das lutas em benefício dos “direitos humanos” e dos “direitos das minorias”, de forma a que eles obtenham o máximo de aderência na juventude nacional e / ou em nacionalidades “emergentes” (a exemplo do que aconteceu no relacionamento Sérvia – Kosovo).

Com essa mobilização da juventude, a “Open Society” tem garantido o emprego duma parte do capital Quantum “especulativo” na “filantropia”, por que a sua acção vai desembocar naqueles que encontrando-se vulneráveis, frágeis e marginalizados, em vida precária, no sub emprego, ou no desemprego, têm a força e a energia de até, se preciso for, auto-imolarem-se para atear a chama da revolta, com toda a explosiva carga atómica de acção psicológica ao dispor.

Nas “revoluções coloridas” são os jovens que, por causa do conseguido “fim da história”, se tornam fáceis de enquadrar, de manipular e de organizar a baixo custo, que se movem deliberadamente contra o poder, as “Castas das Arábias” locais, conservadoras, corruptas e especuladoras, garantindo com sua “pureza” e inexperiência mas extrema voluntariedade, os termos essenciais da manipulação explosiva pela carga atómica que contém: eles são capazes da revolta mas por si, sem liderança efectiva de outra origem que não seja a “Open Society”, são incapazes de uma verdadeira revolução com profundas implicações económicas, financeiras, mediáticas e sobretudo sócio políticas e institucionais.

Por isso se torna possível à manipulação contraditória da revolta controlar a força e a energia da juventude, moldando-a à implantação da “democracia representativa”, sem melhores alternativas ou horizontes.

Esse expediente “ferve” essencialmente nos estados republicanos, na Tunísia, no Egipto, no Iémen, na Líbia, na Argélia, por que nas monarquias, as “castas naturais” dos reis, dos sultões, dos emires e dos sheiks, implantados nas mais suculentas regiões do petróleo, colocando acima da grande manipulação contraditória, escapam aos riscos maiores (é viável e é possível ao império “Salvar os Reis”).

Vista nestes termos a utilização abusiva da juventude moldada a reflexos psicológicos desencadeados em cadeia até ao êxtase das emoções, é uma autêntica arma psicológica e social de efeitos devastadores, uma autêntica “bomba atómica” contra os alicerces humanos e sociais das “Castas das Arábias” que pululam no Terceiro Mundo, mesmo aquelas que têm passado histórico honroso, ou se procurem consolidar erigindo-se sobre uma pretensa base de betão.

O recurso implica em muitos casos um verdadeiro “conflito de gerações”, com as gerações mais antigas a alinharem com o poder das elites conservadoras e financeiras, em contradição com a juventude mobilizada.

No conflito de gerações em sociedades deliberadamente estáticas durante pelo menos duas décadas, é explorado ao extremo a caducidade conservadora e física dos velhos face às prementes necessidades dos jovens ávidos por consumo e poder.

Os processos de ingerência por via das “revoluções coloridas”, ou se preferirem, mais ou menos “coloridas”, possuem “ementas” e “variantes” perfeitamente adaptáveis e “pragmaticamente adequadas”, valorizando aspectos sócio-políticos e culturais: a manipulação contraditória na dialéctica adoptada, é garantida por uma ampla “engenharia social” redundante do fosso das desigualdades que foi instalado no quadro da lógica capitalista e só quando os “usa, deita fora” se tornam mais “duros de roer”, surgem as musculadas componentes externas, como no caso da Líbia, ou do Bahrein, para “atacar”, ou para “defender”, o que faz prevalecer até ao infinito a sensação de “dois pesos e duas medidas”.

Esta é a “nova doutrina de choque” que faz uso da “engenharia social”, da manipulação contraditória, como uma carga atómica social maquiavélica a fim de moldar o poder e as elites do Terceiro Mundo, a começar pelas Árabes, desde que não ponham em causa a questão “pétrea” de “Salvar os Reis” e, com isso salvar o petróleo que interessa à hegemonia do império.

Na Líbia, o ataque ao regime só é possível por parte dos rebeldes, por que os aliados são a sua força aérea, a arma que está a ser determinante no volte face quanto à correlação de forças: sem essa força aérea, os “rebeldes de Bengazi” teriam sido derrotados e Bengazi teria sido tomada pelo regime.

O lugar dos rebeldes seria nesse caso o deserto imenso a sul, ou o outro lado da fronteira do país, ou a fuga para qualquer ponto de apoio disponível no Mar Mediterrâneo.

Desenha-se neste momento precisamente o contrário: aproxima-se a “estocada final” ao regime de Kadafi com a eminente arquitectura da ofensiva final sobre Tripoli, marcando uma a uma as cidades, os portos e os terminais do petróleo e do gás que se estendem pelo litoral líbio onde se concentra mais de 90% da população e onde existem as infra estruturas, estruturas, meios e equipamentos essenciais à vida do país..

No quadro da resistência de Kadafi, outro cenário é o da hipótese de “balcanizar” a Líbia, dividindo-a em dois ou mais “feudos étnicos”, o que descaracterizará por completo a “revolução verde” nos seus fundamentos e objectivos maiores, transformando essa revolução num dinossauro, ou num muito dócil animal, nessa altura sem Kadafi, como é lógico.

Este cenário, possível se for suspensa a “força aérea rebelde” quando Tripoli estiver à mercê, lembre-se, pode ser uma sequência dum caso próximo e recente: o do Sudão.

Esta é a sorte que espera a África ao longo desta década e foi para isso que foi criados ainda em tempo de George W. Bush o AFRICOM, o primeiro comando do Pentágono que integrou “componentes civis” adaptados aos conceitos das “sociedades civis” (um termo que a linguagem neo liberal usa rigorosamente em substituição de povo, ou povos): a juventude africana será alvo da maior mobilização contra revolucionária de que a história contemporânea de África alguma vez registou após a descolonização e a luta contra o “apartheid”, incluindo no que diz respeito aos vínculos para o interior das forças armadas nacionais das precárias nações africanas, vínculos esses em fase de proliferação, por vezes estabelecidos laboriosamente da forma mais subtil possível.

A mensagem do AFRICOM e da OTAN está a ser subtilmente instalada por exemplo, nos termos “conseguidos” entre outros, por exercícios como os que a CPLP desenvolve: os “FELINO”.

… As condutas ditas “humanitárias” dos “FELINO”, cada vez se aproximam mais dos padrões estimulados pelo AFRICOM e a OTAN…

Em alguns casos recalcitrantes, as revoltas integrarão projecções que gerarão “novas nacionalidades”, o que está latente em muitas dilaceradas identidades africanas que, é preciso sempre lembrar, estão a ser construídas (?) a partir das geometrias e linhas da Conferência de Berlim, no início da Revolução Industrial.

Em Angola, para além da manipulação contraditória que está a dar os primeiros sinais já com algum detalhe do lado do braço da “especulação financeira”, como do lado da “filantropia” da “Open Society” (que roda à volta do Bloco Democrático, que tem como Presidente o “Open Society” Justino Pinto de Andrade, com ramificações ainda ténues mas cada vez mais expostas para o exterior na direcção dos Fóruns Sociais Mundiais e, em Portugal, para o Bloco de Esquerda), Cabinda e a Lunda-Tchokwe perfilam-se no horizonte das “nacionalidades emergentes” a partir dos “direitos humanos” e dos “direitos das minorias” resultantes da dialéctica que está em curso desde os alvores do século XXI, com todos os sentidos postos ainda no petróleo (para o primeiro caso) e para os diamantes (para o segundo).

É assim que o império garante a viabilidade “moderna” do neo colonialismo!

Isso nada tem a ver com supostas “teorias de conspiração”: as práticas de conspiração do império estão inscritas na textura da “engenharia social” que caracterizam o capitalismo no geral e o neo liebralismo, em particular, com impactos sociais cada vez mais tempestuosos nas fragilizadas sociedades do Terceiro Mundo.

África é, neste caso, ao mesmo tempo “um cadinho de experiências” e um “renovado pátio traseiro” dos Estados Unidos e da Europa, mesmo aquela Europa aparentemente mais relutante e “em regime de abstenção” como a Rússia e a Alemanha.

Dos outros, da Ásia (Índia e China), como da América do Sul (Brasil), a abstinência é sinal evidente de caução financeira ao império, como de impotência perante o seu tão nefasto exercício humano, como de inteligência e músculo militar.

Martinho Júnior - 27 de Março de 2011.

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