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quarta-feira, 30 de março de 2011

ZÉ ALENCAR, UM BRASILEIRO

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MAIR PENA NETO – DIRETO DA REDAÇÃO

Existem pessoas que demonstram tanto amor pela vida que chegam a nos constranger quando desanimamos diante de nossas mazelas diárias. O ex-vice-presidente José Alencar, que morreu aos 79 anos após longa batalha contra um câncer demolidor, era um sujeito assim. Apaixonado pela vida e, sobretudo, pelo Brasil.

Zé Alencar era um típico brasileiro. Mais um Zé, como Lula o chamava, e como nos sentíamos à vontade de chamá-lo diante da intimidade a que nos convidava. O vice-presidente era aquela figura que a gente gosta de encontrar em qualquer lugar para trocar uma prosa. E sua prosa tinha conteúdo.

O ex-vice-presidente foi um self made man, que provou a mobilidade social que o Brasil permite. E o fato de ter passado de pobre a milionário não o tornou conservador, como sói acontecer. Zé Alencar se aliou a Lula e o acompanhou durante os oito anos de presidência, enfrentando os preconceitos destilados pelas classes dominantes contra a figura do operário. Acreditou e se engajou em um processo que mudou o país e fez renascer a confiança do povo em sua própria capacidade.

Zé Alencar era parte indissociável desse povo e se manifestava como ele. Era muito fácil entender o que dizia com seu jeito simples e profundo. Se bateu durante todo o tempo em que esteve na vice-presidência contra as altas taxas de juros. Parte da imprensa até tentou ridicularizá-lo, como faz com quem mantém a coerência das idéias. Mas ele não arredou pé. Apontava os prejuízos causados ao setor produtivo, do qual era empresário, e à população, que via o custo dos empréstimos encarecer.

Sua pregação faz total sentido e deve ser levada adiante em sua memória no momento em que os arautos do mercado tentam interferir na condução da política econômica e fomentar a alta dos juros, tão ao gosto dos rentistas.

Alencar também foi um nacionalista assumido, quando os “modernos” tentam eliminar a questão do nacional, assim como fazem com as ideologias. A preocupação de Alencar era o Brasil, sua autonomia e inserção soberana no mundo globalizado. Não temia ser “jurássico” quando se tratava de defender o Brasil dos ataques econômicos dos capitais especulativos.

Zé Alencar foi um exemplo em vida e diante da morte, que jamais temeu. “O que eu temo é a desonra”, afirmou certa feita. O vice de Lula se foi com a certeza de que honrou a todos nós e ao Brasil.

* Jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.

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