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sexta-feira, 15 de abril de 2011

COLÔMBIA: O TERROR DOS "NEO" - PARA MILITARES




Reportagem revela que são os bacrim – grupos reconstituídos de milícias, que mataram quase duas pessoas por dia em 2010 e agora desafiam sociedade e novo governo. Por Simone Bruno, no Opera Mundi

Eles surgiram no final dos anos 1960, com a justificativa do combate às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Em 1997, os paramilitares se agruparam em torno das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), cujo objetivo permanecia sendo a extinção da guerrilha. No entanto, sem controle do governo, cometeram verdadeiros massacres e forçaram o deslocamento de dezenas de milhares de camponeses, de olho no controle do tráfico de drogas e a pedido de grandes latifundiários e políticos.

Em 2005, durante o mandato de Álvaro Uribe, depuseram as armas após a criação da Lei de Justiça e Paz, uma espécie de anistia aos agressores. Finalmente, em 2008, foram extraditados aos Estados Unidos por narcotráfico e se viram livres das condenações.

Cinco anos depois, o paramilitarismo está de volta à Colômbia ou, como analistas e políticos afirmam, só mudou de nome. Os novos grupos, chamados de Bacrim (bandos criminosos emergentes), surgiram na ocasião do processo de paz com as AUC, substituindo as antigas lideranças. A diferença? Eles agora também atuam nas grandes cidades.

“O triste é que todos os problemas e debates ocorreram por conta do assassinato de dois estudantes da Universidade dos Andes, e não pelos quase 600 colombianos que morreram em Córdoba em 2010″, lamenta María Jimena Duzán, da revista colombiana Semana. Segundo a colunista, o país só começou a perceber a existência dos neoparamilitares depois que, em 10 de janeiro, morreram no departamento de Córdoba dois estudantes da universidade mais cara e prestigiada de Bogotá.

A partir de 2005, durante as audiências de Justiça e Paz, como são chamados os processos públicos previstos pela lei de reinserção dos paramilitares, entre 2006 e 2010 foram documentados quase 180 mil homicídios e 40 mil desaparecimentos de responsabilidade dos paramilitares, o que coloca o conflito colombiano entre os mais sangrentos da América Latina.

Há cinco anos, em 1º de março de 2006, surgiram as primeiras críticas sérias ao processo de paz promovido pelo governo Uribe. Naquele dia, a missão na Colômbia da OEA (Organização dos Estados Americanos) publicou um relatório afirmando: “À exceção de algumas regiões, o programa de reinserção está em crise e põe em perigo a viabilidade do processo de paz no longo prazo.”

A missão, que desde 2004 acompanhava o processo de paz, se dizia preocupada porque “comandos médios assumem o controle de ações delitivas tradicionalmente realizadas pelo bloco ou frente ali assentados [extorsão, cobrança de dinheiro, limpeza social, alianças com administradores locais] e se organizam em pequenos grupos, dotados de armas curtas, e permanecem nas zonas urbanas comunicando-se por meio de celulares”.

Ou seja, a OEA, no início de 2006, avisou o governo colombiano que paramilitares se reagrupavam e controlavam os negócios ilegais de sempre, mas ao mesmo tempo surgiam novos grupos que recrutavam os desmobilizados.

De acordo com Juanita León, diretora do portal informativo La Silla Vacía, durante o processo de paz, os chefes paramilitares se entregaram, mas deixaram escondida boa parte das armas e mantiveram o controle dos negócios ilícitos. Além disso, passaram a liderança a seus coronéis, que rapidamente os substituíram na cadeia de comando quando muitos foram extraditados aos EUA.

A polícia colombiana acredita que, entre 2008 e 2009, o número de homicídios aumentou em quatro das sete maiores cidades do país. Em Cartagena, o aumento foi de 27%, e em Medellín, de até 60%, tanto que o necrotério da cidade já não comporta todos os mortos diários. As pesquisas dizem que a percepção da segurança nas cidades colombianas se deteriorou dramaticamente. A razão principal é que os Bacrim, diferentemente dos velhos paramilitares, operam principalmente nas cidades. O assassinato dos dois estudantes fez com que essa realidade chegasse à primeira página dos jornais.

O candidato à presidência em 2010, Rafael Pardo, chefe do Partido Liberal, explicou ao Opera Mundique os bandos criminosos são resultado do processo de paz com os paramilitares no governo Uribe. “A única coisa que conseguiram foi jogar terra para ocultar o problema. O paramilitarismo não acabou, apenas mudou de nome”.

O ex-presidente Andres Pastrana (1998-2002) comentou durante uma entrevista que Uribe havia deixado “uma herança maldita”. Pastrana apoiou o governo de Juan Manuel Santos e seu ministro da Defesa, Rodrigo Rivera, definido por membros do Partido Conservador e do U como “ministro da insegurança democrática”. O ex-presidente ainda acrescentou que Santos tem apenas seis meses e, por isso, não pode ser responsabilizado pelos problemas de segurança.

Ricardo Galán, ex-assessor de Uribe, respondeu a Pastrana: “O ministro da Defesa estrela do governo Uribe foi precisamente o atual presidente Santos. Dizer que os Bacrim são uma herança do governo anterior equivale a responsabilizar Santos pelo problema, porque, por ação ou omissão, ele permitiu a criação e o crescimento desses grupos.”

Providências e estatísticas

Diante da emergência com os Bacrim, o governo de Santos decidiu empreender uma mudança de estratégia. Primeiro anunciou uma virada na segurança democrática afirmando que “combater os Bacrim é a nova prioridade da estratégia de segurança nacional e os maiores esforços se concentrarão em fazer frente às ameaças da criminalidade urbana”.

O jornalista e professor Juan Diego Restrepo acredita que as autoridades concederam vantagem aos Bacrim, ao acompanhar o crescimento dos grupos e pouco ou nada fazerem no passado para combater a violência. Hoje, quando seu domínio territorial é amplo, o governo nacional desperta da letargia e decide enfrentá-los na nova guerra nacional.
Cauca e Córdoba (em azul)

De fato, um informe de 2006 da polícia nacional falava em 22 novos grupos armados integrados por quatro mil homens, enquanto a CNRR (Comissão Nacional de Reparação) informou recentemente que existem atualmente sete grupos principais com 6,5 mil homens (mais de sete mil segundo o think tank Nuevo Arco Iris).

De acordo com outras fontes, esses bandos controlariam a produção de quase 148 toneladas de cocaína, a metade do que se produz na Colômbia, e estariam presentes em 27 dos 32 departamentos do país. Os grupos mais importantes chamam-se Rastrojos, Águilas Negras, ERPAC, Paisas, Urabeños, Nueva Generación e Renacer e estão presentes principalmente em Caquetá, Valle, Putumayo, Nariño, Cauca e Córdoba. Alguns analistas dizem que em breve todos esses grupos poderão se unir em três exércitos principais.

Informes de inteligência da polícia afirmam também que, em algumas regiões, os grupos fazem alianças com os guerrilheiros das FARC, enquanto em outras se enfrentam, como em Cauca, onde recentemente a guerrilha matou 19 integrantes dos Rastrojos.

Segundo León Valencia, diretor do Nuevo Arco Iris, o governo exagera ao falar dessas relações. “Sabemos que existem pactos de não-agressão entre eles nas fronteiras entre Meta e Guaviare, em Nariño, no Baixo Cauca antioquenho e na região de Catatumbo”, disse. “Também há acordos para permitir a mobilização da cocaína em alguns corredores estratégicos. São aproximações temporárias e instáveis que logo acabarão em disputas e que, em todo caso, não podem ser qualificadas de alianças para enfrentar o Estado ou para construir projetos políticos ou sociais de longo prazo nas regiões.”

Soluções

Para Álvaro Villarragas, coordenador da área de desmobilização, desarmamento e reintegração da CNRR e também do informe que faz a radiografia desses bandos, o melhor seria começar “a reconhecer que eles são muito mais que grupos delinquentes”. De acordo com o estudo, há cerca de 6,5 mil homens organizados em seis ou sete estruturas principais: “Esses grupos se caracterizam por se transformar, fundir e substituir com grande facilidade.” Desses homens, 17% são ex-paramilitares, e “daí saem os líderes, os chefes, o que recrutam, os que dão continuidade a formas de domínio territorial armado”.

Martha Ruiz, analista da revista Semana, acredita que esses novos grupos “funcionam mais como escritórios ou redes de ajustes de contas do que como exércitos. Seus homens armados cuidam de laboratórios e rotas, mas não têm capacidade de combate”.

Villarragas afirma que não se deveria falar de Bacrim, e sim de neoparamilitares, porque “há vestígios do paramilitarismo, já que eles têm estruturas militares, domínio territorial e, o que é pior, ainda subsistem alguns vínculos com setores estatais, força pública e, em menor proporção, há redes com aliados políticos”. As únicas grandes diferenças são que os novos grupos não são federados e não mantêm um discurso anti-insurgente.

Valencia tem a mesma opinião: “O governo e os analistas que lhe são simpáticos se refugiaram neste falso silogismo: os paramilitares que compareceram a Santa Fe de Ralito tinham como propósito principal combater a guerrilha, enquanto os Bacrim, não. Mas as investigações acadêmicas e judiciais dos últimos anos mostraram que os paramilitares dedicaram 80% de suas energias ao narcotráfico, à usurpação de terras e à captura do poder local. É o que fazem os Bacrim. O discurso e a ação antisubversivos daqueles eram mais um ardil para legitimar suas atrocidades contra a população civil do que um componente importante de sua estratégia.”

Confirmando a análise, Ariel Ávila, coordenador do Observatório sobre o Conflito Armado do Nuevo Arco Iris, disse ao Opera Mundi que, “em nenhuma região do país, a população reconhece algum tipo de descontinuidade. Dizem-nos que eles são os mesmos, mas sem farda. E se a população não percebe a mudança seis anos depois da desmobilização, é porque as coisas não mudaram”.

Ávila acredita na existência de uma economia ilegal que facilita a multiplicação desses grupos: “O narcotráfico, o boom da mineração – por exemplo, os Águilas Negras dedicam-se a defender as minas ilegais – ou o boom do petróleo são formas de financiamento autônomas desses criminosos, mas há também uma relação desses grupos com partes do Estado colombiano. Por isso as pessoas não percebem uma mudança. Se os grupos forem combatidos, mas não os mercados ou poderes que os financiam e apoiam, eles ressurgirão.”

Mas Marta Rodríguez acrescenta outra explicação para a contínua multiplicação dos grupos armados colombianos: “Sem dúvida, quem mais contribui com mão de obra para os bandos é a falta de oportunidades para os jovens. Este é o resultado de se viver no país mais desigual do continente depois do Haiti.”

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