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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Carlinhos Zassala: Mais de 90 por cento dos angolanos são doentes

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O PAÍS (angola)

ENTREVISTA

Carlinhos Zassala, professor universitário, é o bastonário da Ordem dos Psicólogos de Angola, fundada a 7 do corrente mês. Alguns dias depois da proclamação, recebeu-nos em sua casa para falarmos das principais inquietações psíquicas que atormentam os angolanos, que ele considera possuírem um baixo índice de auto-estima.

O professor diz sempre que a sociedade angolana está doente. Mantém a mesma afirmação?

Sim, mantenho a mesma afirmação porque muitos pensam que quando se fala de saúde trata-se da ausência de sintomas de doença. Mas a Organização Mundial da Saúde definiu o conceito de saúde como o bem-estar físico, mental e social.

Vamos falar do bem-estar físico: há muitos que pensam que quando a pessoa não tem sintomas, está de boa saúde. Os ingleses têm três conceitos que diferenciam estes estados. Disease, significa que a pessoa está doente, mas não tem sintomas e pensa que está de saúde, ilness é quando a pessoa está a sentir sintomas e está consciente de que está doente.Depois sickness, a pessoa pensa que está doente, mas na realidade não está.

E como podemos enquadrar isso na realidade angolana?

Na realidade angolana, nós não temos aquele espírito de prevenir. Nos países onde o sistema de saúde funciona de forma normal, quase no início do ano as pessoas recorrem para tratar da saúde física aos centros médicos ou hospitais para poderem fazer um check-up, para ver como está o nível de colesterol, de açúcar e como está a bater o coração. Porque são doenças que às vezes temos mas não estamos a sentir. É assim que muitas vezes somos surpreendidos que a pessoa que esteve connosco no dia anterior morreu repentinamente, é porque ela tinha uma doença não manifestada. No campo da saúde mental, as pessoas também fazem um check-up no sentido de saber se o indivíduo não tem, por exemplo, um nível de depressão profunda, porque quando assim acontece esta pessoa pode facilmente cometer suicídio ou auto-suicídio, que significa matar ou matar-se. É bom sempre saber qual é o nosso nível de ansiedade e de frustração. Não se pode falar da saúde se não tivermos estas três vertentes, saúde física, mental e social.É por isso que, mesmo como dizia o grande psicanalista Freud, nenhum ser humano é a 100 por cento saudável, todos nós estamos sempre doentes.Mesmo quando a pessoa não se sente bem também é um estado patológico.

Quando a pessoa sente que tem um nariz grande e procura um cirurgião plástico para mudar, também não goza de boa saúde. Quando se irrita com facilidade, que é um estímulo menor, porque temos ouvido muitos casos de filhos que são queimados por causa de cinco kwanzas, mulher que é morta por mil kwanzas, esses são comportamentos patológicos. Por isso, volto a afirmar que mais de 90 por cento da população angolana é doente.

Quais são principais patologias mentais que a sociedade angolana enfrenta?

Neste momento, de acordo com algumas pesquisas existentes, a maior patologia que o angolano sofre é o stress, devido ao nível de vida que levamos, principalmente nas grandes cidades. Ora, o stress é uma doença muito perigosa porque quando atinge o ser humano, primeiramente esse ser humano já não valoriza o outro e já não tem um bom desempenho na vida profissional. E o stress diminui o nível de defesa do nosso corpo contra as doenças. É assim que muitas vezes ficamos doentes por causa do stress, porque destrói os anticorpos que temos.

A segunda doença é a frustração devido a muitos impedimentos que o angolano encontra quando pretende satisfazer as suas necessidades, principalmente as necessidades básicas, que são a alimentação, o sono (para dormir bem tem que ter uma casa), a saúde e a segurança. A maioria dos angolanos praticamente não consegue encontrar a satisfação das suas necessidades básicas.

Vem depois a depressão. É esse estado que leva as pessoas a suicidarem-se, é que nos leva a explicar o que acontece nas maternidades, porque as mulheres gestantes sofrem sempre de um estado de depressão nos períodos pré-parto e pós-parto. E o estado de depressão para aqueles que têm muitos problemas e estão no estado de desespero, são problemas de decepção amorosa, doença crónica. Estes problemas devem ser diagnosticados antecipadamente e tratados para evitarmos o pior. Temos também a ansiedade que é uma das patologias frequentes, assim como o stress pós-traumático causado pela longa guerra que o país conheceu. Muitos indivíduos que viveram de forma directa ou indirecta os traumatismos da guerra sofrem ainda as consequências, como a insónia, pesadelo, sono perturbado, dores de cabeça, entre outras patologias como a falta de apetite. Se tivéssemos já serviços de atendimento psicológico para poder atender estes casos, evitaríamos muitos comportamentos não desejados. Imagine só, os americanos nas guerras que levaram a cabo no Vietname e Coreia até neste momento existem soldados com algumas sequelas dos traumatismos de guerra que eles tiveram, é assim que recebem apoio do Governo para poderem se submeter a um tratamento psicológico, afim de poder diminuir o impacto dos traumatismos.

E o que é que acontece em Angola, onde tivemos cerca de três décadas de guerra?

Os problemas que mencionei existem em Angola em grande escala.O problema da guerra causou muitos traumatismos, há pessoas que não gostam que se diga isso, mas o 27 de Maio também causou muitos traumatismos nas pessoas. É assim que, tendo em conta o estado em que se encontram as pessoas no nosso pais, em 1995, estava ainda a concluir o meu doutoramento no Brasil, tive a preocupação de reunir alguns psicólogos, a maioria trabalhava na Sonangol, e no dia 16 de Agosto de 1995 proclamámos a Associação Angolana de Psicologia (Angopsi). Naquela altura, praticamente a ciência psicológica não se fazia sentir, proclamámos essa associação com quatro objectivos principais: primeiramente divulgar a importância das ciências psicológicas em Angola, segundo a abertura de cursos de psicologia para formarmos psicólogos, terceiro a regulamentação do mercado do psicólogos e em quarto lugar a criação das condições materiais para o exercício da profissão de psicólogo. Penso que os dois primeiros objectivos foram já atingidos, porque hoje em dia muitos já entendem a importância das ciências psicológicas, temos nove cursos em diferentes universidades, nomeadamente Agostinho Neto, Jean Piaget, UPRA, Óscar Ribas e Lusíadas. Falta-nos atingir os dois últimos objectivos e tendo em conta o número de jovens que estão a terminar o curso de psicologia, no país surgiu a necessidade de proclamarmos a Ordem dos Psicólogos, no sentido não só de regulamentarmos o exercício da profissão em Angola, mas também acompanharmos a formação do psicólogo nas universidades onde existem estes cursos. O psicólogo não deve apenas ser um teórico, deve combinar a teoria e a prática. A nível de cada universidade que forma psicólogos tem que se prever no último ano um estágio académico de três meses no mínimo para que o formando entre em contacto com a realidade. Mas este estado académico não é suficiente para que o formando possa exercer no mínimo a sua profissão, então a Ordem dos Psicólogos de Angola, que nasceu no dia 7 de Dezembro de 2010, vai também instaurar o estágio profissional, que terá uma duração não inferior a 12 meses.

O que é que a então associação dos psicólogos, predecessora da Ordem, fez ao longo dos cinco anos de paz, para atenuar as sequelas da guerra?

Neste momento, apesar de não ser de grande impacto, mas já existem psicólogos que exercem a profissão e que têm, por exemplo, consultórios. Posso falar do meu caso, que sou psicólogo escolar, podemos falar de Maria de Encarnação Pimenta, psicóloga clínica, Margarida Ventura, do Lubango, que realizou uma pesquisa sobre o stress pós-traumático na região sul, podemos falar também de psicólogos brasileiros, cubanos e portugueses que trabalham nos hospitais, como também alguns angolanos que trabalham no hospital psiquiátrico e em alguns centros. No Cazenga existe um centro que faz o diagnóstico daquelas crianças que têm deficiência para que possam ser integradas nos sistemas de acordo com as suas capacidades intelectuais. Neste momento, existe ainda acções não controladas, esporádicas, de atendimento, mas com o nascimento da Ordem vamos saber o que acontece a nível de Luanda e do interior, porque teremos a Ordem a funcionar a nível das regiões. Vamos saber o que cada pessoa faz, depois, em vez de ser uma profissão liberal a exercer a nível de consultório, também entabularmos encontros com o Governo no sentido de se criar um centro de atendimento psicológico. Neste caso temos de trabalhar em cooperação com o Governo, no sentido de termos o centro de atendimento psicológico em todas as províncias, a fim de fazermos face a todos os problemas que se fazem sentir na sociedade angolana, como tantos casos de suicídios, delinquência juvenil, problemas de feitiçaria e algumas seitas religiosas, que praticam algumas acções até criminosas quando começam a indicar este ou aquele é feiticeiro, incentivando ódios e divisão no seio da população.

Disse que uma das principais patologias de que sofrem os angolanos é o stress. Como enquadrar os habitantes de Luanda, onde está concentrado um grande número da população angolana?

Luanda não é um meio saudável do ponto de vista mental, porque os latinos diziam que quando uma cidade destruída e o campo protegido ou salvaguardado, significa que o país não se destruiu, porque é o campo que abastece a cidade. Mas quando se destrói o campo, o interior, o país está em ruínas, é este o problema que estamos a viver em Angola. As pessoas não estão a ligar. O êxodo rural é um problema muito preocupante, porque hoje não sentimos isso porque temos muito petróleo que o país está a produzir. É assim que vivemos de importações e o petróleo quando terminar, quem vai abastecer as cidades? Será o campo.

Por isso, neste momento devemos investir muito no campo para podermos assegurar a autonomia. A grande riqueza de um país é a capacidade de dar de comer e assegurar a saúde da sua população. Essa concentração das pessoas nos meios urbanos não é uma situação saudável, é uma situação patológica.

Costumo sempre dizer que Angola poderá seguir uma política que a China seguiu, que ela chamou ‘Revolução Verde’. Quando os chineses verificaram este fenómeno de êxodo rural, as populações abandonarem o campo para irem às cidades, criou condições no interior, construindo fábricas, escolas e hospitais, e provocou um movimento contrário que chamou êxodo urbano.As populações começaram a deixar as grandes concentrações urbanas e foram para o interior.

Algumas pessoas com possibilidades abandonam as cidades e refugiam-se no campo, principalmente aos finais de semana e feriados. Elas são saudáveis do ponto de vista mental?

Por acaso é recomendável, porque a pessoa quando passa alguns momentos fora da grande aglomeração pelo menos relaxa e diminui o seu nível de stress e ansiedade. No campo não é só o problema de relaxar porque está fora do grande barulho da cidade, mas também, conforme frisei, a pessoa respira o ar puro, cheio de oxigénio.

Há pessoas que não sabem que a nossa saúde depende também da vegetação, das árvores. Se visitar países que valoriza os problemas ambientais, lá onde há grandes cidades existem as florestas chamadas pulmão da cidade, até a floresta da Ilha de Luanda que poderia servir, quase destruíram as árvores, de tal maneira que a pessoa fora de Luanda respira sem esforços. Há muito oxigénio e o ar não é poluído, ao contrário de Luanda onde você respira e sente o peso, porque o ar é muito poluído. Sair sempre da cidade será o ideal, mas será que todos têm está possibilidade? Nós não temos; todos aqueles espaços que poderiam servir de parque estão a ser destruídos e a construírem grandes edifícios. Esta cidade será insuportável nos próximos anos porque as pessoas não terão aquela oportunidade de se beneficiar do ambiente natural, o que será muito prejudicial para a saúde.

Aliás, em termos de longevidade, a esperança de vida dos angolanos é apenas de 43 anos para os homens e 46 para as mulheres, significa que não vivemos bastante devido às más condições de vida.

Quanto às pessoas que não têm a possibilidade de sair de Luanda, o que é que a psicologia recomenda para que elas possam aliviar o stress?

A psicologia recomenda que deveríamos encontrar formas de purificar o ambiente, significa que como existe o Ministério do Ambiente, a Ordem dos Psicólogos vão contactá-los para vermos em que medida poderemos ambientalizar e tornar as cidades como locais saudáveis para se viver. Caso contrário, e é o que temos observado, se você passar uma certa manhã ou tarde defronte à porta de um cemitério, vai ver que as pessoas morrem em quantidade porque não gozam de condições favoráveis que poderão assegurar a vida saudável do indivíduo.

Muitos acreditam que beber uma cerveja alivia o stress. É verdade?

Muitas vezes foquei este aspecto, mas gostaria de dizer que o álcool é uma droga lícita que é permitIda, mas é igual às outras drogas como a liamba, haxixe, cocaína e marijuana. Cria dependência e depois destrói a resistência do nosso corpo e também estraga o nosso relacionamento com os outros.

Então o álcool consumido moderadamente e por pessoas que já têm maturidade psicológica, biológica e social, às vezes é recomendável. Não faz mal à saúde. Mas quando é consumido de forma exagerada como está a acontecer no nosso país, que até menores de idade o consomem, existem estudos em psicologia que demonstram que o consumo de bebidas alcoólicas por parte dos adolescentes e crianças atrofiam o desenvolvimento cognitivo. Significa que diminui o nosso nível de inteligência; hoje em dia se você perguntar a um professor sério, temos um problema preocupante no país, os nossos alunos praticamente têm dificuldade para poderem assimilar matérias e estudar.Pode também ser fruto não só do álcool como também dos traumatismos de guerra a que muitos foram submetidos.

Então, o álcool é uma droga lícita mas é prejudicial à saúde, provoca muitas doenças no organismo. Penso eu que chegou o momento e os nossos deputados deviam pensar em criar uma lei que deve regulamentar a venda e o consumo das bebidas alcoólicas, proibir os menores de idade a não consumir bebidas alcoólicas e determinar momentos em que não poderão mais estar a deambular nas ruas. O que nós verificamos nas cidades africanas, quando se visita por exemplo Kinshasa e Abidjan, Dakar, Joanesburgo, Pretoria, Lusaka, entre outras cidades, menores de idade depois das 22 horas não circulam, devem ficar junto dos pais, em casa.

É frequente chegarmos aos estabelecimentos comerciais e encontramos avisos de proibição de venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. Mas conseguimos ver muitos desses jovens a consumirem estas bebidas, o que não estará a funcionar na mente dos angolanos?

É lamentável afirmar isso que nós aplicamos uma pedagogia em Angola que faça o que não digo e não faça o que faço. Isso é uma pedagogia negativa, porque as palavras comovem mas os actos arrastam. Nós deveríamos dar exemplos, não basta dizer que os menores não podem comprar bebidas, mas na realidade nós estamos a vender.

Estamos numa sociedade onde há muita perversão. O grande problema é que todos aqueles que são legisladores dizem que Angola tem muitas leis em termos teóricos, mas a prática é a grande questão. Nós os mais velhos temos de dar exemplos, como conhecedores da realidade profunda, temos que discutir sobre o tipo de educação que queremos no nosso país.

Já têm noção do que poderá acontecer com a juventude caso o consumo exagerado de álcool continue?

Temos. Aliás, é isso que nos impulsionou a criação da Ordem para que os psicólogos angolanos não sejam meros observadores, queremos também ser participantes com projectos para o bem e desenvolvimento desta Nação. Estou a Declaração Universal dos Direitos do Homem e também a Carta Africana dos Direitos Humanos dos Povos. Por isso, todos os problemas que podem destruir a raça angolana preocupam os psicólogos.

Jovens usam álcool para fugir a realidade

Os jovens usam e abusam do álcool como fuga à realidade. Porque os efeitos efémeros que o álcool produz, as pessoas tentam recorrer pensando que é a solução que ele tem, que pode ser a depressão, ansiedade, motivação e a decepção amorosa. Eles pensam que o álcool e a solução, mas não é.

Em primeiro lugar, o álcool está na base de muitas doenças físicas, como a esclerose – que provoca o mau funcionamento do fígado e outras do fórum físico e mental. Quando a pessoa consome bebidas alcoólicas o seu comportamento já não é regido pela razão, já se comporta como qualquer animal. O homem é chamado animal racional porque o seu comportamento deve submeter-se à razão e não a razão da força. Quem recorre à razão da força é o animal selvagem, porque ele obedece ao instinto. Mas o homem não deve obedecer ao instinto, mas sim à razão. Quando está sob efeito de álcool o homem não é diferente de qualquer outro animal, faz aquilo que qualquer animal poderá fazer.

Por exemplo, quando o cão quer fazer sexo em plena rua ou em qualquer sítio pode fazê-lo, porque é o seu instinto.O homem estando sob o efeito do álcool, faz muitas coisas. Já ouvimos através da comunicação social casos de pais que violam filhos, filhos que violam mães e padrastos que violam enteadas.

Como é que encara o comportamento dos jovens?

O comportamento dos jovens é fruto da estratégia que nós adultos traçamos para eles. A juventude angolana hoje em dia não está a ser como um factor de mudança e crítico para poder provocar alterações no seio da sociedade. O facto de a juventude tornar-se demasiada e patologicamente conformista está a destruí-la. E com a destruição da juventude é toda uma nação a destruir-se. Quando os jovens priorizam as bebidas alcoólicas e não a leitura, também é por culpa nossa porque num país normal não existem escolas sem bibliotecas, nem faculdades sem bibliotecas. Mas em Angola temos muitas escolas sem bibliotecas, até universidades e faculdades. A leitura enriquece o homem, porque os livros são professores mudos, aumentam a nossa cultura e aquilo que Koklyaev chamou de espaço vital, o nosso conhecimento.

Hoje é muito preocupante não só a ausência de bibliotecas na escola, nas universidades, mas também no seio das comunidades. O que nós chamamos Biblioteca Nacional, que funciona no Ministério da Educação, aquilo poderia ser uma biblioteca de uma comuna. Vai visitar a biblioteca Charles Poumpidou, em Paris! Deveríamos ter aqui uma boa política bibliotecária, com uma biblioteca de três, quatro ou seis andares, termos bibliotecas municipais e comunais.

A auto-estima dos angolanos é alta ou baixa?

A auto-estima dos angolanos não pode ser alta. Se formos acompanhar muitas vezes as declarações dos angolanos nos debates, muitos dizem que no período colonial não era assim.Significa que valorizam mais o período colonial do que a Independência.

Nos outros países não é assim, então a auto-estima do angolano é muito baixa e é prejudicial para qualquer ser humano, que deve ter a esperança de um futuro melhor. E todo angolano deve sentir-se feliz na sua realidade.

Mas quando não se sente feliz… Uma vez li num jornal sobre um velho que se perguntava quando é que esta independência ia acabar? Significa que não se sente melhor com a independência porque no período colonial, que vivi, assim como a revolução. Na era colonial, as população do ultramar não precisavam de ir para o Congo, Zâmbia ou outros países vizinhos para comprar sabão, açúcar e petróleo, mas hoje a maioria das pessoas que vivem nas zonas fronteiriças não consomem produtos provenientes de Luanda. Recorrem a outros países fronteiriços. Os filhos vão estudar nos países fronteiriços.

O exemplo que posso dar aqui e que até me envergonhou é que a Namíbia que vimos a nascer graças ao nosso esforço, hoje tem um melhor sistema de educação. Os angolanos estão a invadir a Namíbia mandando para lá os seus filhos até para o ensino primário.

Quando estamos doentes observamos os hospitais da Namíbia, República Democrática do Congo e da África do Sul cheios de angolanos.

Já que tocou na educação. O que é que está mal? O sistema de ensino ou a capacidade de os alunos assimilarem?

Não temos infra-estruturas convenientes. Este último tempo temos verificado grandes investimentos a nível dos institutos médios. O sector mais abandonado no país é o ensino superior. Angola está independente há mais de 35 anos, nem sequer temos uma cidade universitária construída.

Primeiro, criou-se várias universidades públicas sem infra-estruturas, segundo há o problema dos formadores e terceiro é o problema de recursos materiais e pedagógicos que poderiam facilitar a transmissão do conhecimento.

Se tivéssemos já psicólogos escolares e serviços de psicologia a funcionarem nas escolas, logo aos seis anos, antes das crianças entrarem para o ensino primário, deveríamos conhecer a capacidade de aprendizagem de cada criança, para sabermos se dá para entrarem no ensino normal/regular ou se vai para o ensino especial. Quando falo de ensino especial refiro-me para aqueles que são atrasados mentais e também para os superdotados. Ora, nós em Angola como não temos estes serviços, basta ter a idade cronológica dos seis anos, entra para o ensino primário e opera-se aquilo que Darwin chamou de selecção natural. Os que não aguentam então abandonam.

Nos últimos tempos, muitos jovens que frequentam colégios e supostamente filhos de indivíduos com alguma posse criaram gangues. O que é que ocorre na mente desses adolescentes?

Problema de educação. É também um problema de carência afectiva. Há pessoas que pensam que dando tudo ao filho, comprar carros e mandando para férias na Europa, mas estando distante sem investir na vida afectiva e educação, pensam que estão a ser bons pais. Jacques Roussou, no seu livro em que fala sobre a filosofia da educação, disse que “pai não é aquele apenas que procria. Pai é aquele que educa”. Hoje constatamos que muito daqueles jovens que têm pais abastados entram no mundo da delinquência porque sofrem de carência afectiva.

Devem formar grupos para tentar compensar esta afectividade que não recebem no seio dos pais, só que lamentavelmente não são grupos para os bem-feitos mas criminosos. É um problema mental.

Tornou-se moda o facto de jovens terem relações sexuais e gravarem estas cenas para disseminarem às outras pessoas. Também é uma doença?

São problemas de mundialização ou da aldeia global. Mas cada país deve ter um sistema de educação adequado.

Existe um instinto no ser humano que nós chamamos de ‘vouyerismo’, de procurar encontrar satisfação vendo o sexo do outro ou aquilo que os outros estão a fazer. Não queria descrever aqui a teoria de Sigmund Freud quanto à personalidade. Graças à socialização, quando encontramos normas sociais bem definidas, valores determinados, então o homem começa a socializarse e o seu comportamento deixa de ser orientado pelo instinto, mas sim pelas normas de convivência social. Quando há um vazio haverá sempre tendência deste comportamento instintivo aparecer, mas ele não é institucionalizado. Então o problema é que neste momento como há uma lacuna em termos de transmissão de valores e normas culturais entre as gerações mais velhas e as novas, essa lacuna é preenchida pelos filmes e pelas novelas. A vida do ser humano obedece também aos princípios da física, segundo a qual onde há vazio o ar vai preencher. Lá onde há lacuna cultural, então outros factores culturais que são alheios vêm encher.

Houve uma onda de violações sexuais no país. Em Luanda falava-se em cerca de 100 casos todos os meses. A Ordem já identificou as causas?

Neste momento existem algumas monografias de licenciatura que fazem estudos sobre o problema da delinquência juvenil, violência doméstica e no género, saúde mental, depressão pré-parto e pós-parto. Existem alguns estudos que não são de grande vulto.

Significa que conhecemos alguns factores determinantes, principalmente a gasolina para o comportamento negativo no nosso país chama-se bebidas alcoólicas. Não estão a ajudar e está na base de muitos comportamentos negativos. Acho que é um problema de nós, a nível dos mestrados, aprofundarmos e realizarmos pesquisas de grande vulto. Será uma grande contribuição, mas também os que detêm o poder político, os ministros e directores nacionais devem ter a cultura da leitura. Porque quando se elabora um trabalho científico, seja monografia a nível da licenciatura, dissertação a nível de mestrados, tese a nível de doutoramento, há sempre uma parte que se chama recomendações. Essas recomendações são para aqueles que detêm o poder político para que saibam resolver os problemas. Agora não sei se os nossos governantes têm este hábito de leitura. Mas creio que não, porque nunca vi um ministro ou secretário do Estado a consultar as nossas monografias ou dissertação de teses. Um povo que não lê tem uma cultura muito fraca, porque quando se fala do analfabetismo também pode ser cultural. A pessoa que não lê não tem muito conhecimento, toma decisões sem uma grande variedade de alternativas.

Há também uma onda de suicídios no Leste do país. Têm noção do que se está a passar?

Não podemos curar uma doença sem ter o diagnóstico preciso. Sabemos que uma pessoa que comete suicídio deve ter uma depressão profunda, significa que vamos encorajar as pessoas a procurarem psicólogos para consultas, porque para podermos avaliar uma depressão recorre-se, por exemplo, à escala de depressão de Beck. Vai-se aplicar e avaliar o nível de depressão. Se for uma depressão profunda recomenda-se um psiquiatra, porque o psicólogo não recorre a produtos farmacêuticos, não aplica a quimioterapia, utiliza a psicoterapia.

Um estudo feito por uma psicóloga angolana aponta que parte significativa dos angolanos sofre de distúrbios e stress pós-laboral. Concorda?

Concordo. Tenho conhecimento de estudos que foram feitos por alguns dos meus estudantes que apontam muitas áreas, nomeadamente na classe dos médicos e enfermeiros, professores, bombeiros. Essas classes sofrem muito do stress pós-laboral, o que leva as pessoas a considerarem os outros como coisas. Não tem aquele espírito humanitário para com os seus clientes. Deve merecer um tratamento psicológico para eles poderem trabalhar de acordo com as normas. É uma realidade, hoje em Angola sofre-se muito deste stress pós-laboral.

É recorrente ouvirmos queixas de pessoas em relação aos funcionários públicos, porque muitos pensam que estão aí para fazer favores. É algo patológico?

O ser humano é produto da sua própria sociedade. Esse exemplo vem de cima. Política é gerir a coisa pública. Quando o Governo vai gerir uma escola, um hospital, asfaltar uma estrada, está a cumprir com o seu dever, não está a fazer favores. Mas no nosso país pensamos que o Governo está a fazer favores e a população diz que está muito contente e agradecida.

É um dever. Essa mentalidade parte do topo e vai até ao nível dos funcionários. Todo o ser humano numa organização tem direitos e deveres. A entidade patronal pensa que só tem direitos e não deveres. Essa mentalidade deve-se sanear a partir do topo para poder atingir as bases.
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2 comentários:

Anónimo disse...

Achei a entrevista muito interessante. Sou uma psicóloga afro-brasileira e gostaria de manter contato com o Dr. Carlinhos Zassala, porque atuo com Psicologia Comunitária. Meu email é psi.rfederico@gmail.com

Roberta Federico

Anónimo disse...

Lendo a sua entrevista a sua estivi muito satisfeito das suas respostas.
As causas que foram envocados soi as sintomas dos paises pobres.
Nao ha a luta ne as medidas de preven soes é uma populasao abandonada (fragil). Por isto o governo Angolano deve mundar a sua politica lutar contra a pobreza fazer que Angola como un país de emergeucia.
Alain