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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Mário Soares – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

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MÁRIO SOARES – DIÁRIO DE NOTÍCIAS – 25 janeiro 2011

1. As eleições presidenciais decorreram sem chama e perante um certo desinteresse dos portugueses. A enorme abstenção de 52,4% aí está para o demonstrar. Os resultados foram os esperados, embora com algumas surpresas. Os debates não trouxeram ideias novas quanto aos problemas que mais interessam os portugueses: como viver a crise global que nos afecta - que está a provocar o desespero em milhares de famílias - e, principalmente, como sair dela.

Como se sabe, estive, voluntariamente, silencioso durante todo o processo eleitoral. Quando o PS resolveu apoiar o candidato que já tinha sido escolhido pelo Bloco de Esquerda, disse - e escrevi - que considerava isso um erro de Sócrates, grave, sobretudo, para o futuro do PS, visto que ia dividi-lo, como aconteceu. Não o disse por ressentimento, como alguns comentadores afirmaram. Mas tão-só em defesa do partido de que fui um dos fundadores. Por essa mesma razão, fiquei calado e não apoiei nenhum candidato.

Estimo pessoalmente Fernando Nobre, que conheço há muitos anos, e aprecio-o pelo seu carácter e pela obra que realizou. Mas não fui eu que o empurrei para candidato. O seu a seu dono. Como ele próprio disse - e quem o conhece sabe que não podia ser de outro modo -, "decidiu pela sua própria cabeça". Limitou-se a consultar alguns amigos, depois de estar determinado, e eu fui um deles, entre vários. Com muita honra.

Numa entrevista em que me interrogaram sobre se, desta vez, iria votar Cavaco Silva, afirmei, discretamente, para desfazer equívocos, que "nunca votaria em Cavaco Silva". E agora acrescento: por razões político-ideológicas e não pessoais.

Terminado o acto eleitoral, devo felicitar o candidato, como fiz, aliás, há cinco anos, como candidato derrotado. Trata-se de um ritual democrático, que deve ser respeitado, porque em democracia, os políticos, dos diversos partidos e os independentes, não se consideram inimigos, mas tão-só adversários ocasionais.

Estranho e lamento que o candidato Cavaco Silva não o tenha feito, no passado domingo, em relação aos seus adversários. Como aliás lamento os dois discursos que proferiu no momento da vitória. Em lugar de ser generoso e magnânimo para com os vencidos, foi rancoroso. O que, além de lhe ficar mal, quanto a mim, representa um erro político grave que divide Portugal precisamente quando mais o devia unir.

A verdade é que as últimas eleições mostram que o nosso país está mais dividido do que nunca. E, além disso, desorientado. Por isso, o Presidente ora reeleito deveria ter feito um discurso positivo, voltado para o futuro, e não um discurso que divide mais os portugueses, com a agravante de que, feitas bem as contas ao volume da abstenção, a metade que votou nele está longe de ser maioritária...

Nesse aspecto, o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, marcou um contraste com o candidato Presidente, tendo proferido um discurso politicamente responsável, muito equilibrado e inteligente.

A história faz-se com pessoas

2. Há tempos chamei aos nossos economistas, que todos os dias nos arrasam nas televisões, com o seu pessimismo irremediável, "vencidos da vida". Alguns não gostaram. Sem razão. Os "vencidos da vida" foram um grupo snob de finais do século XIX de enorme prestígio intelectual, social e até político. Eram, contudo, muito pessimistas, porque anteviam a agonia da monarquia e eram quase todos aristocratas, com a excepção única, julgo, de Guerra Junqueiro.

Os de hoje são diferentes. O seu pessimismo baseia-se principalmente em números, que são realmente assustadores, devo reconhecer.

No entanto, julgo que talvez se enganem, apesar de as contas que fazem e dos números com que nos massacram, através das televisões, estarem certos e serem - em si mesmos - muito negativos. Contudo, como se sabe, a História não se escreve apenas com números, mas, principalmente, com as inovações e os imprevistos com que os homens mudam a realidade, criando fases diferentes da nossa vida colectiva.

Quem diria - por exemplo - que após a Revolução dos Cravos, da terrível herança do fascismo, das dificuldades económicas e financeiras que encontrámos, da inevitável perda das colónias, nas piores circunstâncias, do regresso de quase um milhão de "retornados" - que regressaram à Pátria, sem casa, sem trabalho, sem dinheiro e com grande desespero na alma -, apesar disso tudo, Portugal ressurgisse com tanta facilidade, quebrasse o isolamento internacional, reganhasse o prestígio que lhe é devido e, depois da adesão à Comunidade Europeia, como um direito incontestável, entrasse no Primeiro Mundo, o mundo do desenvolvimento, do bem-estar e da justiça social?!

É certo que, passados 25 anos, Portugal, como a Europa da Zona Euro, enfrentam uma crise global (importada), talvez a pior e a mais complexa crise do capitalismo, agora ainda na sua fase neoliberal e especulativa. Vistos os números do nosso endividamento público e privado, a dimensão do deficit, os hábitos de despesismo insuportável do Estado, das parcerias público-privadas e dos portugueses em geral, é verdade que o nosso futuro colectivo se apresenta muito negro, de novo.

Simplesmente, a realidade não é estática: é dinâmica, como se sabe. Depende das pessoas e não dos números. São as pessoas que mudam a realidade, por vezes de modo totalmente imprevisível e rápido. E no caso em questão - Portugal -, a crise global que nos bateu à porta depende mais da Europa do euro do que da nossa própria vontade e esforço.

No artigo que publiquei aqui, na semana passada, falei-vos da quarta-feira que devia ser previsivelmente negra e não foi. Felizmente. Graças à persistência do primeiro-ministro, Sócrates, e do seu ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, encontrou-se forma de moderar os mercados especulativos e de Portugal não ser associado à Grécia e à Irlanda. Do mesmo passo, impediu-se que o mecanismo de dominó funcionasse, beneficiando não só Portugal como a nossa vizinha Espanha. O que deu um impulso novo à Europa do euro, que começa a estar em ebulição, mesmo a Alemanha, e que pode mudar - assim espero e desejo - a política europeia, para que continue a contar, no mundo multilateral, em que vivemos, com o peso político, económico, financeiro, social e cultural a que tem direito.

Trata-se, por enquanto, de uma mera hipótese, de que aliás depende a sobrevivência, no seu conjunto, da União Europeia, como o mais original projecto político de paz e de desenvolvimento político-económico que a história conhece. Uma hipótese - repare-se - que, a verificar-se, modificaria os dados do nosso problema nacional.

Ganhar tempo, portanto, pode não ser uma pequena coisa. Pode ser algo de decisivo. Haverá outras ofensivas dos mercados especulativos? Não duvido. Mas também julgo que continuaremos a ter condições de as vencer, durante o ano em curso, até à apresentação, em Outubro próximo, do novo Orçamento. Assim, a União Europeia do euro acorde, quanto antes, da sua longa letargia, para que possa sobreviver - e Portugal com ela - como grande potência, neste mundo multilateral de colossos...

Será que estamos a entrar num mundo pós-americano?

3. Não creio. A hiperpotência não manda como anteriormente. É evidente. Há agora as potências emergentes, cada uma com o seu peso específico. Mas a verdade é que a política de Obama não tem, como no tempo de Bush, a vontade de mandar pela força do seu poderoso complexo industrial-militar. Obama, se julgo bem, quer convencer e não comandar, lutando por um mundo de paz, como bom racionalista kantiano, ideólogo da paz universal, que parece ser. Quer trabalhar com as Nações Unidas e não marginalizá-las, como Bush. Quer retirar as tropas do Iraque - e talvez o faça mais cedo do que se pensa - e também do Afeganistão, como no momento próprio anunciará. Quer encontrar uma solução de paz para o conflito Israel-Palestina e salvar Israel de um colapso anunciado, se continuar com a sua política agressiva. Quer ter boas relações com a República Popular da China, sem esquecer as debilidades políticas do grande colosso asiático. Como no recente encontro de Washington, o Presidente Hu Jintao não deixou de sublinhar a um jornalista que lhe falou de direitos humanos, pela primeira vez, de uma forma não agressiva, falando mesmo da concordância da China, em fazer progressos nesse domínio. Quer, enfim, lutar, com inteligência, contra o terrorismo islâmico, separando o respeito pela religião islâmica do fanatismo da violência.

Finalmente, omitindo muitos outros aspectos da política americana, julgo ser cada vez mais oportuno que a União Europeia, apesar de ser hoje governada quase exclusivamente por políticos conservadores retrógrados (e a culpa cabe à subserviência e à incapacidade da família socialista, finalmente em mudança), perceba a necessidade de retomar as relações com a América de Barack Obama, que é a América (estou convencido) dos próximos seis anos, os dois que faltam para o seu primeiro mandato e o segundo de quatro. Só se os americanos fossem, na sua maioria, completamente destituídos de bom senso é que Obama não seria reeleito. Não só por ser o melhor Presidente que os Estados Unidos tiveram desde Franklin Roosevelt como por ser o único que, nos próximos anos, pode salvar a América de entrar em decadência. O que seria trágico para a União Europeia e para o Ocidente, em geral, incluindo aí a Ibero-América, onde se esperam mudanças, que ainda trarão mais importância ao seu papel no mundo.

Atenção ao Magrebe

4. A Revolução do Jasmim foi uma daquelas viragens imprevistas que a história nos revela, que mudam as coisas profundamente. Não só o Estado em que ocorreu mas também porque está a repercutir fortemente na região a que pertence.

Foi uma revolução espontânea, popular, desencadeada não por militares nem por fanáticos islâmicos mas sim por uma juventude cultivada, de estudantes e jovens licenciados, sem trabalho nem horizonte de futuro, salvo a emigração. Veio para a rua protestar e acabou com a ditadura corrupta de 23 anos, de Ben Ali, sua mulher, Leila, e da sua ávida família.

Como a nossa Revolução dos Cravos, está a ter um efeito dominó, influenciando outros países do Magrebe (Argélia, Marrocos, Mauritânia) e também o Oriente islâmico, em países como: a Líbia, o Egipto, o Iémen e a Jordânia. São países que se caracterizam por ser mais ou menos ditaduras, a Ocidente menos islamizados - e mais próximos da Europa Mediterrânica - e a Oriente mais islamizados, mas sempre ditaduras pessoais - e familiares - e quase todas de grande corrupção. O interessante é que as populações dos Estados próximos, quer a Ocidente quer a Oriente da Tunísia, vieram para a rua manifestar-se, contentes pelo que se passou na Tunísia, seguramente com os olhos postos nos seus países...

Não quer isto dizer que se repita o fenómeno tunisino nos países seus vizinhos. Mas a semente foi lançada e, mais tarde ou mais cedo, poderá dar frutos... O terrorismo islâmico poderá tentar aproveitar a maré, mas não creio que seja provável que isso aconteça. Está em manifesto recuo. De resto, a Tunísia foi sempre um Estado laico, desde a sua independência, liderada pelo seu herói Habib Bourguiba, que tive a honra de conhecer. E, por isso, a sua cultura foi sempre laica, embora a religião islâmica tenha obviamente a sua força. Mas na Tunísia parece ser, nunca se sabe, bastante moderada.
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