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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O ESTOPIM DA REVOLTA

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MAIR PENA NETO* - DIRETO DA REDAÇÃO

O Brasil acaba de realizar sua sexta eleição direta consecutiva para a presidência da República, após os longos anos da ditadura militar; a questão social entrou definitivamente na pauta dos governantes, mas existe um grupo que parece se esforçar por minar os alicerces da democracia e trata-se justamente de um dos que mais deveria estar comprometido na sua preservação: o dos políticos.

Generalizar é sempre perigoso, mas o mau comportamento da classe política brasileira na manutenção de privilégios tem deixado poucas exceções ou, no máximo, o silêncio cúmplice. Os políticos têm se transformado numa casta, que, ao invés de servirem ao Estado e à população, deles se servem.

A história é cheia de exemplos, à direita e à esquerda, da construção de castas privilegiadas em governos, que provocaram as suas ruínas. No caso do parlamento em um regime democrático, a questão é ainda mais grave, já que se tratam de representantes do povo. Estão lá, porque os colocamos. Seria simplista dizer que o povo precisa votar melhor. Ou uma meia verdade. De fato, elegemos muita gente ruim, mas na maioria das vezes não sabemos que são inescrupulosos assim. A melhoria da educação e o aperfeiçoamento do processo democrático serão os melhores mecanismos de correção destes desvios, mas o curto prazo exige medidas reparadoras.

A classe política precisa estar alinhada à população que representa, e não distante, desfrutando de uma realidade inimaginável para a maioria dos brasileiros. Altos salários, passagens, mordomias e vantagens impensáveis para o trabalhador. Mal passara um mês que os parlamentares elevaram os próprios salários para ofensivos R$ 26 mil, considerando todos os ganhos indiretos que já possuem, surge a aposentadoria dos ex-governadores, que se acumulam com os subsídios que recebem em suas voltas à Câmara e ao Senado, totalizando salários astronômicos, incompatíveis com a realidade brasileira.

Parlamentares não são funcionários públicos. São cidadãos, eleitos pelo povo para determinados cargos. Devem ser remunerados adequadamente durante o período dos mandatos, nos quais devem contribuir para a Previdência, com desconto na fonte, como qualquer trabalhador de carteira assinada. Ao fim do seu mandato, continuam a contribuir em outros locais para onde voltam ou passam a trabalhar. Nada justifica uma situação de privilégios, que cria anomalias como a de José Sarney, que recebe como ex-presidente, ex-governador e senador, sustentando a si e aos seus com o dinheiro público.

O propósito deste artigo está longe do moralismo, que costuma atender aos interesses da direita, aliás majoritária nas benesses, já que esteve a maior parte do tempo à frente do poder. O oportunismo não respeita ideologias e traz decepções, como a de ouvir do ex-governador do Acre, Jorge Viana, do PT, que recebe a aposentadoria porque está prevista em lei. Viana, com sua trajetória combativa e responsável, sabe muito bem que nem tudo que é legal é moral. Aguarda-se uma manifestação sua nos grandes jornais onde encontra espaço.

Mas o que se busca alertar é que este tipo de comportamento fermenta revolta na população. Se o parlamento fosse no Rio, o aumento de salário dos parlamentares dificilmente sairia, pois haveria um cerco popular que obrigaria a revogação no ato. Nunca se sabe onde um cidadão irá se imolar, como aconteceu na Tunísia, ou de onde virá o estopim que acenderá a revolta. Mas é prudente não brincar com fogo diante de situações explosivas, cujas conseqüências são imprevisíveis.

*Jornalista carioca. Trabalhou em O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Agência Reuters. No JB foi editor de política e repórter especial de economia.
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