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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O FAROESTE AO ALCANÇE DE TODOS

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JOSÉ INÁCIO WERNECK* – DIRETO DA REDAÇÃO

Bristol (EUA) – Que país é este? Este é, como gostam de dizer os próprios americanos, “o líder do mundo livre”. The leader of the Free World. É uma linguagem cediça, adotada ao tempo da Guerra Fria, mas incessantemente repetida, talvez pelo prazer da bazófia, talvez como velada advertência a outros possíveis pretendentes.

Em um índice os Estados Unidos sem dúvida lideram por larga margem: o absurdo número de armas de fogo e não estou falando apenas em termos absolutos. Falo também em números proporcionais. Há nos Estados Unidos 90 armas de fogo para cada cem habitantes. Nove para cada dez habitantes. Você pode ter certeza de que, esteja você onde estiver, haverá um cidadão armado (ou uma cidadã armada) nas proximidades: nos supermercados, nos bancos, no cinema, na festinha de aniversário das crianças, no play-ground, no automóvel ao seu lado na rua, na Igreja onde todos supostamente vão pedir a paz do Senhor. A única vítima verdadeiramente inerme, inocente e indefesa na tragédia de Tucson foi a menina de nove anos.

A própria deputada Gabrielle Giffords, agora entre a vida e a morte, alardeava o fato de que era dona de “uma Glock nove milímetros e atiro muito bem”. O juiz morto na chacina, que era católico devoto e todos os dias ia à missa, não apenas frequentava um clube de tiro, mas lá também matriculara sua esposa. Um dos neuro-cirurgiões que operaram a deputada é também sócio desta agremiação, o Pima Pistol Club.

Há, concomitantemente, desde a eleição de Barack Obama, um partido de lunáticos chamado Tea Party, liderado por uma roceira ínscia, de nome Sarah Palin, que distribuiu antes das últimas eleições folhetins em que distritos com candidatos democratas a favor da Reforma da Saúde (como Gabrielle Giffords) eram identificados com uma mira telescópica.

Os Tea Partiers proclamam ser “originalistas”. Isto é, querem que a Constituição seja cumprida em seus termos originais. Se fôssemos adotar sua doutrina voltaríamos, de saída, ao tempo da escravidão e negaríamos às mulheres direitos iguais aos dos homens.

O tal Tea Party baseia-se num incidente, nos tempos coloniais, em que moradores em Boston atiraram ao mar um carregamento de chá, pois achavam que não estavam obrigados a pagar impostos requeridos pela Coroa Britânica, alegando que “não tinham representação” em Londres.

No taxation without representation, era seu grito de guerra. Os pacóvios do Tea Party aparentemente não percebem que hoje eles tem representação. São congressistas como Gabrielle Giffords que os representam em Washington e passam leis cobrando impostos ou reformando os planos de assistência médica.

A eleição de um negro – acusado de 1) ter falsificado sua certidão de nascimento e 2) ser ao mesmo tempo comunista, fascista e nazista – foi o estopim para que a mídia controlada pela extrema direita, especialmente a que está nas mão do magnata Rupert Murdoch, da Rede Fox, passasse a desfechar uma virulenta campanha contra o presidente legitimamente eleito do país. (O que, lembrem-se, não foi o caso de George W. Bush, o Presidente de Araque que atacou o Ditador do Iraque.)

Eu escrevi acima que os integrantes do Tea Party são lunáticos. Acrescento: são lunáticos grosseiros, violentos, ameaçadores. São liderados na televisão pelos medievais Glenn Beck e Bill O`Reilly, da rede Fox, enquanto na rádio, em cadeia nacional, de costa a costa, um troglodita chamado Rush Limbaugh, destila diariamente, ao longo de três horas, uma campanha de ódio e incitamento contra Barack Obama. Não é de admirar que um desequilibrado como Jared Loughner tenha resolvido colocar em ação o que tais figuras deixam subentendido em palavras.

Paro por aquí porque o telefone está chamando. Deve ser o Bat Masterson.

*É jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou "Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos", estudo sociológico, e "Sabor de Mar", novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut.
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