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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Portugal: ELEIÇÕES IRRELEVANTES

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ANTÓNIO BARATA, opinião – DIÁRIO LIBERDADE

A poucos dias das eleições presidenciais, o dado mais relevante e significativo é o total alheamento do cidadão comum. O que não espanta ninguém, dada a mediocridade dos candidatos: não se consegue vislumbrar um rasgo, uma ideia, para além de uma retórica mole e generalista sobre coisa nenhuma.

Em vez de alternativas e ideias políticas de combate à crise, ao desemprego e ao cres cimento da miséria, temos as tricas demagógicas sobre o favorecimento, o tráfico de influências e as relações pouco claras de Cavaco com o BPI e a SLN, mais velhas re ceitas da moral e da caridadezinha, api mentadas de longe em longe com uns re moques estafados sobre os malefícios dos "mer cados sem regras" e o neoliberalismo. Depois, convencidos que o povo é igno rante, debitam a cassete da moda, que é a de demarcar-se da governação de Sócrates e dizer que o Orçamento de Estado é pés simo, muito mau mesmo, que só vai agravar as condições de vida dos trabalhadores e pro vocar retracção eco nómica e aumentar o défice; ou seja, que os seus efeitos não vão ser outros que os de agravar a crise que se pro põe combater. Mas, debitado este dis curso com que pre­tendem cativar o elei to rado de esquerda, segue-se outro, aquele com que procuram cair nas boas graças do patronato, dos "mer cados", dos donos da União Europeia, da direita e da outra par te do centrão que tende mais para a di reita – pior que ter um Orçamento de Estado mau ou péssimo é não ter nenhum, dizem. Por isso, demonstrando bom senso e "sentido de Estado", também o aceitam. O único candidato que não alinha por este dia pasão é o do PCP, mas o seu discurso, de tão mole, tão previsível e bafiento, não con segue cativar nem mobilizar ninguém, nem sequer a sua base partidária.

Enveredam (sem qualquer surpre sa) por este tipo de registo oportunista, que é o de simultaneamente serem a favor e contra as medidas supostamente anticrise ditadas pela União Europeia, os "merca dos" e o FMI – postas em marcha pela co missão executiva em que se transformou o governo português. E, estando contra as suas más consequências, não fazem mais que interpretar "os sinais do tempo", tal com de resto fazem os partidos do chamado arco do poder – PS, PSD, CDS. Por isso, tanto Cavaco (até agora a sua grande pro posta para combater a miséria foi a de ape lar aos restaurantes para que dêem as sobras aos pobres) e Manuel Alegre, como os can didatos fantasma Fernando Nobre e De fensor Moura, dizem-se simultaneamente a favor de uma coisa e do seu contrário – são pelo Estado social, mas também acham que o Serviço Nacional de Saúde, a Se gurança Social e o ensino acessível a todos são insustentáveis; nada têm contra os cor tes "justificados", nem contra a privatiza ção de serviços, a redução e/ou eliminação "justificada" das reformas, pensões e outros apoios sociais; não admitem que se toque na Lei do Trabalho, se liberalizem os despe­dimentos e se acabe com o despedimento com justa causa, mas são pela flexibilização das leis laborais e dos despedimentos; são contra os cortes nos salários e nas reformas, mas acham que seria aventureiro e irres ponsável os partidos terem chumbado o Orçamento de Estado que consagrou essas e outras medidas antipopulares. Cavaco, esse então, tornou-se um verdadeiro mestre da trafulhice – promulga as leis e depois vem para a comunicação social anunciar que está contra o que promulgou.

Sendo este o quadro, em que não há um único candidato de ruptura com este re gime de "chicos-espertos, em que a es querda anti-reformista está ausente e nada está em jogo, o que faz sentido é não votar.

Tudo seria diferen te se nestas eleições apa recesse um candi dato presidencial afir mando, por exemplo, que tomaria como pri meira medida, caso fosse eleito, a disso lução da Assembleia da República e se com prometesse a não em possar um gover no que não mandasse para o lixo este Orça mento de Estado e, em sua sub-stituição, apresen tasse um programa de governo que passasse pelo julgamento dos responsáveis pela crise em que o país mergulhou; o com bate à economia paralela e ao uso dos postos do Estado como trampolim para os altos car gos nas empresas públicas e privadas; a defesa e reposição dos direitos e salários, pen­sões e outros apoios sociais aos traba lhadores; a criação de um tecto máximo pa ra o valor das reformas e a proibição de acu mulação de várias reformas; a imposição de um sistema fiscal progressivo, de forma a fazer os ricos contribuir mais que os po bres; a criação de mecanismos que garan tam uma mais equilibrada distribuição da ri queza e a redução do escandaloso fosso que separa os mais ricos dos mais pobres; a defesa da saída de Portugal da NATO e o re gresso dos contingentes portugueses ao seu serviço e da ONU.

Como não há um candidato com um pro grama popular, não há nada a disputar. Ganhe quem ganhar, a burguesia já venceu. Por isso, o melhor resultado para os traba lhadores e os deserdados deste país será uma grande abstenção. Uma abstenção que cause incómodo e amesquinhe a vitória do vencedor.
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