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sábado, 29 de janeiro de 2011

REVOLUÇÃO DE JASMIM

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Clístenes Williams Araújo do Nascimento*, Espaço Livre – Direto da Redação

Lá vou eu, especialista em rochas, solos e plantas, atrever-me a opinar sobre acontecimentos outros. Mas o que fazer quando novamente Morus nos bate à porta com renovação de utopias? Completando o cenário, que nomes entusiasmantes escolhem para nos gerar a esperança: Revolução de Outubro, Primavera de Praga, Revolução de Veludo... O mais recente movimento de intento de mudanças político-sociais chamaram-lhe Revolução de Jasmim. Chega-nos do Grande Magrebe, região que abrange Tunísia, Argélia, Marrocos, Líbia e Mauritânia.

Aprendi agora que Al-Maghrib é palavra árabe que significa “lugar do pôr-do-sol”. O termo foi cunhado porque os sauditas creem os países desta região o centro da fé islâmica. O movimento capitaneado pelos jovens (sempre eles, claro) tunisianos depôs o ex-líder Ben Ali após 23 anos de ditadura. Apregoou-se pela mídia, portanto, uma Revolução do Jasmim, que se espalharia por países árabes muçulmanos que não confiram direitos aos seus oprimidos povos.

Aqui me sinto mais a vontade para lhes dizer que Jasmim é o nome vulgar pelo qual chamamos as mais de 500 espécies do gênero Jasminum, pertencente à família Oleaceae que, por sua vez, pertence à ordem Lamiales. O jasmim, daí o nome escolhido para a dita Revolução, também vem do nome árabe para a flor desta planta (Yasamin). Aliás, jasmim é flor bem típica de cemitérios do Nordeste do Brasil (na infância seu aroma muito me marcava essa localização).

Este pequeno texto me vem apenas para indagar o meu sentido da Utopia. Penso que os utópicos por excelência (tento me incluir entre eles), desde a Comuna de Paris e a Revolução de 1917, nunca se desfizeram completamente da crença marxista de que o progresso humano inevitavelmente nos conduziria a uma sociedade, ainda que não sem classes, pelo menos mais justa e igualitária. Esse sonho alimentou (e vem alimentando) gerações sucessivas.

Evidentemente, como era de se esperar, estamos todos um tanto cansados da frustração resultante dos sucessivos adiamentos desta vitória final, sentida a partir do esfacelamento da própria União Soviética, toda arranhada que estava pelo chamado Socialismo Real. A Revolução em Cuba, que nos primeiros anos da Revolução nos parecia à própria Ilha de Utopia, converteu-se neste sistema anacrônico que resiste aos trancos ante o bloqueio sem sentido da potência do Norte. Em ambos os casos, vê-se a amarga realidade de um socialismo, que se afastou tanto do sonho, que passou a quase superar em repressão os sistemas que se rogava jogar para o escuro da História.

Escuto e leio os jornais e revistas. Até o momento, não há nada, me parece, de Revolução. Fico pensativo quanto aos desdobramentos de mais esse movimento. Penso, sobretudo, como as revoluções podem se espalhar (ou se desmembrar) no nascedouro mais rapidamente neste mundo da informação imediata, midiática, em tempo real, variante inexistente nos movimentos revolucionários francês, soviético, tcheco, cubano...

Vou acompanhar com curiosa atenção as ações e passos seguintes dos atores envolvidos (inclusive da própria imprensa) nesta onda emergente (marola ou tsunami?) desse país árabe iluminado pelo sol da África. Faço isso em memória da Utopia e na busca de seu sentido, esta insistente esperança que às vezes nasce morrendo e, morrendo, nos nasce em nova esperança, sempre renitente, ainda por materializar-se. E lá vem o Egito, descendo a ladeira...

*Contribuição de Clístenes Williams Araújo do Nascimento, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Email: cwanascimento@yahoo.com
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