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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Um ano após o terramoto o Haiti continua à espera da reconstrução

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ISABEL GORJÃO SANTOS – PÚBLICO - 11 janeiro 2011

Pelo menos 800 mil pessoas continuam a viver em tendas

Há um ano o Haiti era um país muito pobre, hoje é um país devastado e à espera da reconstrução. Os escombros continuam nas ruas, mais de 800 mil pessoas vivem nos acampamentos onde todos os dias há dezenas de violações.

A 12 de Janeiro a terra tremeu no Haiti e o terramoto deixou mais de 230 mil mortos. Esta quarta-feira o aniversário da catástrofe será assinalado por entre escombros e acampamentos de tendas, um surto de cólera que já matou cerca de 3600 pessoas e uma crise política que mantém em aberto quem será o sucessor do Presidente René Préval. Reconstruir continua a ser um verbo difícil de conjugar, aposta-se o dedo ao Governo e às organizações internacionais.

O balanço não podia ser mais “desencorajador”, como o definiu o diário espanhol “El Mundo”. “Nem a comunidade internacional nem o Governo haitiano têm estado à altura”. Mackenzy Jean-François, um estudante universitário de 25 anos que se encontra em Port au Prince, não podia estar mais de acordo. “Quando se viaja pelo país por entre as tendas e se olha para a situação que as pessoas estão a enfrentar após a catástrofe, é difícil encontrar muitos sinais de como o dinheiro tem sido gasto.”

A organização não governamental Oxfam, uma das muitas presentes no Haiti, denunciou nos últimos dias a “desastrosa combinação entre a indecisão do Governo no Haiti” e “a falta de coordenação dos países doadores, mais preocupados em avançar com os seus programas parciais de acção humanitária do que em promover um plano global e articulado”, sublinhou o “El Mundo”. Ariane Arpa, porta-voz da Oxfam, adiantou mesmo que o Congresso haitiano “nem sequer aprovou a lei que deve marcar as novas regras de construção no país”.

Quando a terra tremeu, durante 10 a 20 segundos, causou mais de 230 mil mortos, 300 mil feridos e 1,5 milhões de desalojados. Foi mobilizada uma força da ONU de 12 mil soldados e prometida, em Março, uma ajuda de 5300 milhões de dólares por países doadores, ainda que apenas metade dessa ajuda tenha sido disponibilizada. “Já passou um ano, gostaríamos de ver a segunda metade chegar”, disse à Reuters Pamela Cox, vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e as Caraíbas.

Cerca de 87 por cento dos sobreviventes estão ainda a viver em tendas nos campos para desalojados – pelo menos 800 mil pessoas, segundo a Organização Internacional para as Migrações. As tendas foram montadas em qualquer espaço aberto e são agora uma presença constante em Port au Prince. Estão junto ao aeroporto, ao largo do Palácio Presidencial, em quase todas as ruas da cidade onde muitas vezes ainda se encontram pilhas de escombros. E as críticas ao atraso e descoordenação da ajuda chegam de toda a parte, do líder histórico cubano Fidel Castro, que já disse que o Haiti foi “abandonado ao seu destino pelos países ricos”, ao actor norte-americano Sean Penn, que deixou por instantes o grande ecrã para se instalar em Port au Prince e se tornar num trabalhador humanitário.

Frustração e protestos em Port au Prince

Frustração parece ser uma das palavras mais usadas para definir a situação no Haiti, mesmo por quem mantém algum optimismo. “Muitas pessoas vêem o copo meio vazio, eu vejo-o meio cheio”, disse à Reuters Pamela Cox. “Penso que a frustração que as pessoas sentem está relacionada com o facto de quererem uma solução rápida... e a reconstrução não é um processo rápido”, sublinhou a vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e as Caraíbas.

Também Cerleene Dei, que lidera as operações da agência dos EUA para o desenvolvimento internacional (USAID) no terreno, considera que a resposta inicial relacionada com o apoio norte-americano correu “muito, muito bem” e sublinhou a necessidade de distinguir essa resposta inicial dos projectos de reconstrução, que considera muito mais complexos. As Nações Unidas sublinharam, por outro lado, que 1,5 milhões de pessoas foram alojadas em abrigos de emergência e cerca de 4 milhões receberam apoio humanitário, sobretudo comida.

O terramoto deixou cerca de 20 milhões de metros cúbicos de destroços e, desses, só cerca de 5 por cento já foram removidos, segundo a Oxfam. Aos escombros juntaram-se em Dezembro os protestos de milhares de pessoas. Houve manifestações contra a ONU, acusada de ser responsável pelo surto de cólera que já matou cerca de 3600 pessoas. E após as eleições de 28 de Novembro houve também manifestações e acusações de fraude, tendo sido contestada a passagem à segunda volta de Jude Celestin, apoiado pelo Presidente cessante René Préval, juntamente com a antiga primeira-dama Mirlande Manigat, depois de ter sido derrotado o popular músico Michel Martelly. Agora, enquanto se aguarda o relatório da Organização dos Estados Americanos sobre os resultados contestados, os responsáveis da comissão eleitoral já anunciaram que não será realizada uma segunda volta antes de Fevereiro e o país mantém-se num impasse político.Mesmo antes do terramoto já se registavam em Port au Prince cerca de 50 casos de violações todos os dias, e agora o alojamento precário e a falta de iluminação tornaram a situação ainda pior. Na semana passada a Amnistia Internacional publicou um relatório em que denunciam que milhares de mulheres têm medo de dormir à noite por não se sentirem protegidas. Grande parte destas mulheres não chega a denunciar as agressões a que são sujeitas. Foi o que fez Suzie, violada em frente a uma amiga e aos seus dois filhos na Praça Dessalines, que contou aos membros da Amnistia Internacional: “Quando os violadores se foram embora, não fiz nada. Não tive qualquer reacção. As vítimas de violação devem ir ao hospital mas eu não fui porque não tinha dinheiro. Nem sei onde haverá uma clínica que ofereça tratamento médico às vítimas de violência sexual.”
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