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quinta-feira, 24 de março de 2011

DA CERTEZA IDIOTA À AMBIGUIDADE MATREIRA

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JOSÉ INÁCIO WERNECK* – DIRETO DA REDAÇÃO

Bristol (EUA) - Por ocasião da invasão do Iraque, a França, presidida por Jacques Chirac, foi o mais importante país ocidental a resistir e levantar objeções. Os anos passam e agora, sob a presidência de Nicolas Sarkozy, o mundo assistiu espantado a uma total mudança de rumos: segundo o noticiário jornalístico, foram os franceses que convenceram a Secretária de Estado Hillary Clinton a adotar uma política beligerante e, no processo, arrastar o até então recalcitrante Barack Obama.

Ou foi ao contrário?

Os historiadores terão tempo para analisar o que realmente se passou e as razões para tal. À primeira vista, parece que Sarkozy, perseguido domesticamente por pesquisas de opinião desfavoráveis, quis mostrar uma "ação enérgica", explorando sentimentos anti-muçulmanos em seu país e em quase todo o continente europeu.

Não que Muammar el-Gaddafi mereça defesa. Mas é muito difícil engolir que Sarkozy tenha acreditado que os representantes da oposição líbia, que haviam se encontrado poucos dias antes com ele em Paris, realmente constituíssem o que ele passou a chamar de “legitimo governo do país”.

A verdade é que a Líbia, como muitos outros países africanos que tiveram suas fronteiras definidas pelos colonizadores europeus, é muito menos uma nação do que um grupo de tribos, que se guerreiam ou se aliam, ao sabor das conveniências. Era assim quando Gaddafi depôs o rei Ídris em 1969 e pouco mudou de lá para cá, apesar dos bilhões e bilhões de dólares injetados na economia pelas imensas reservas de petróleo.

É impossível negar que o Brasil adotou a atitude mais prudente, ao se abster de apoiar as ações militares contra Gaddafi no Conselho de Segurança da ONU - até porque o que foi aprovado pelo CS é menos do que França, Reino Unido e Estados Unidos passaram a executar.

Onde tudo isto chegará é algo difícil de prever no momento. Quando a rebelião contra Gaddafi começou, os antigos membros do governo que se aliaram aos combatentes - como o general Abdul Fattah Younes - eram membros das tribos da região oriental, onde se encontra Benghazi.

As nações ocidentais, como eu disse há duas ou três semanas, estão singrando em águas tão turvas quanto aquelas do Iraque ao tempo de Saddam Hussein. Só chegarão mesmo a conhecer bem os atuais líderes rebeldes se eles assumirem o poder, no eventual caso de morte, derrubada, prisão ou renúncia de Gaddafi.

Ao contrário de Bush com seu estilo cow-boy e declarações do tipo “quem não está comigo está com meus inimigos”, Barack Obama esperou que franceses e ingleses atirassem a primeira pedra, ou incentivou-os a tanto. Foi ambíguo com a Líbia, como vem sendo ambíguo com Bahrain e a Arábia Saudita, que não são democracias mas são aliadas dos Estados Unidos.

A diferença é que Bush tinha a convicção dos fanáticos que veem tudo em preto e branco, enquanto Barack Obama distingue sutilezas cromáticas. Os resultados porém podem ser perigosamente iguais.

* É jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou "Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos", estudo sociológico, e "Sabor de Mar", novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut.
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