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sexta-feira, 11 de março de 2011

DIÁLOGO E PAZ EM CABINDA COM PROGRESSOS EVIDENTES (?)

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ANGOLA 24 HORAS – 11 março 2011

A propósito da recente nota do Governo Angolano

O Povo de Cabinda, habituado a comunicados enviesados sobre Cabinda do Governo, foi-lhe difícil compreender e digerir a «Nota» difundida pela imprensa estatal sobre a situação da (sua) Província de Cabinda, dia 09MAR11! Recorda-nos aquelas do Império romano que, aliás, tinham a sua autonomia e homens sérios para as dirigir. Diz o provérbio latino que quem se cala (parece) que consente, por isso, nós, Sociedade Civil de Cabinda, achamos pertinente dizer da nossa justiça, diante de tantos quiproquós contidos na Nota, passíveis de induzir muitos dos nossos conterrâneos a sonhar em esperanças que não geram futuro (E. Bloch).

1. As pegadas da Mãe-História

Ouvindo a Nota, dá-nos a impressão que o nacionalismo cabindês, com as suas lídimas aspirações à autodeterminação, surge nos fins dos anos noventa. Este irrompe, puro e simplesmente, para subverter a ordem estabelecida pelo governo legítimo de Angola. Daí serem todos terroristas e subversivos, justificando ipso facto prisões, raptos e assassinatos. Queríamos, porém, trazer à memória o seguinte: A FLEC/FAC foi fundada em 3-5 de Agosto de 1963, fruto de um longo processo político nos anos quarenta. Testemunhas, ainda vivas, atestam as idas, separadamente, de cabindas e angolanos à ONU.

2. Verbos sem Verbo

Termos, como Paz, Reconciliação e Desenvolvimento, parecem ter, quando se fala de Cabinda, uma outra conotação e, simplesmente, esvaziados da força quer humana quer histórica que transportam consigo! A PAZ para os Cabindas é ter as povoações cercadas de militares, impedidos de livremente irem às lavras e à caça; conviverem, sem direito à indignação, com a discriminação e permanentemente sob a mira de uma polícia com carta- branca para tudo, de um Sinfo implacável e de uma Polícia de Investigação Criminal que primeiro prende e, posteriormente, investiga. PAZ para Cabinda é, até, impor-lhe um deus, uma igreja e um pastor à força da baioneta. RECONCILIAÇÃO para o Cabinda é desaparecer como Povo e ajoelhar-se diante um poder sempre predisposto a humilhar e a descaracterizá-lo! DESENVOLVIMENTO para Cabinda é ter a mão estendida aos dois Congos para o frango, o feijão, o cimento e para a dor de dente!

3. Dialogar ou monologar!

A Nota tem, contudo, duas revelações surpreendentes. Primeira, que em Cabinda vive-se uma guerra, desmentindo os Sanjares e os Bento Bembes. Segunda, o elemento propiciador de todos os fracassos foi sempre confundir o diálogo (dià (através)+ lógos (palavra, discurso) isto é, um movimento da palavra com o monólogo (mónos (um) +lógos (palavra, discurso) isto é, um único a falar, alijando completamente o OUTRO. Tem sido sempre esta permanente sobranceria do Governo angolano, quando dialoga, monologando com o Povo de Cabinda, ao impor à FLEC as suas soluções dilutas, integraciofobíacas e bembíacas, amordaçando a Sociedade Civil, ao reduzir o seu espaço e calar a sua voz. Numa palavra; o cabinda não tem direito à cidadania!

4. O inegociável

As gerações sucedem-se, mas mantém-se indelével o sentimento profundo de um Povo, que uma acção-política tendente simplesmente a cercear tudo o que cheira a cabinda: História (datas e momentos marcantes) e Cultura (nomes, língua e espaço vital) não logrou aniquilar. A política da palmatória não desenvolveu, até agora, no cabinda a Síndrome de Estocolmo, pelo contrário, enrijeceu a sua determinação em salvaguardar a sua especificidade. Nenhuma solução será encontrada para Cabinda: a) Se o Governo e o Mpla, porque nem todo o Povo angolano pensa assim, continuarem a sofrer da psicose da ponte sobre-o rio Zaire. Esta unir-se-á com a RDC e não com Cabinda. b) Se o cabinda não for poder em Cabinda.

5. In memoriam rerum

A previsível independência do Sul-do Sudão, a queda de muitos Mubaraks e as grandes mudanças constitucionais levadas a cabo pelo próprio rei de Marrocos, Muhamed VI, deviam levar as elites do poder angolano a reflectirem seriamente sobre o futuro do território de Cabinda. É um contra-senso que alguém que tenha lutado contra o colonialismo teima, agora, que um outro povo não viva a sua liberdade plena ( mestre do seu destino colectivamente consentido e das suas riquezas) e que todos os dias lhe recordam que não é livre. A FLEC e todos os seus líderes estiveram sempre abertos ao diálogo e a Sociedade Civil um facilitador, todavia, do lado do Governo meramente um fazer-de-contas com um monólogo insistente e ensurdecedor.

Chiôa, 11 de Março de 2011.

Pela Sociedade Civil de Cabinda

Dr. José Marcos Mavungo
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