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segunda-feira, 7 de março de 2011

NA VENEZUELA TAMBÉM SE LUTOU CONTRA O FASCISMO PORTUGUÊS

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DIÁRIO LIBERDADE

Diário Liberdade - [Bruno Carvalho] Há poucas semanas, comemorou-se o 50º aniversário do assalto ao paquete Santa Maria. Por trás do sequestro estiveram vários portugueses que colaboraram com o Directório Revolucionário Ibérico de Libertação.

Parte do comando que atacou o navio, treinou-se num sistema montanhoso perto de Caracas, sob as ordens de Sérgio Moreira. Estes e outros exilados saíram de Portugal mas continuaram a combater o fascismo do outro lado do Atlântico.

A maioria dos que se dedicaram à actividade política no campo da oposição chegaram à Venezuela na década de 50. Entre eles, estava António Marques Brandão, que deixou Espinho para atravessar o Atlântico rumo a Caracas. Tinha, então, 19 anos e os bolsos vazios. Agora com 73 anos, descreve que "foi uma emigração por motivos económicos" mas que já antes tivera problemas por colar propaganda eleitoral da Oposição.

Em 1958, Marques Brandão ajudou a formar, com outros companheiros, a Junta Patriótica Portuguesa (JPP), "um pouco a copiar a Junta Patriótica Venezuelana (JPV)". No início desse ano, a ditadura de Pérez Jimenez caiu e os portugueses aproveitaram para dar voz à luta contra a ditadura.

Anos depois, em 1964, pela sua participação na direcção da JPP, como responsável pelas finanças, o então funcionário bancário seria impedido de viajar para Portugal. "O meu irmão enviou-me uma carta que explicava que a nossa mãe tinha um tumor e que não tinha mais do que algumas semanas de vida e fui ao Consulado", recordou.

Acabou por ser insultado pelo próprio cônsul que o classificou de "português indesejável".

Outros portugueses, como Rúben Moreira, pagaram tais actividades com a prisão. Aos 67 anos, tão agitado como quando era jovem, explica que "a Revolução Cubana foi um extraordinário aliciante para revolucionários de todo o mundo". Por isso, no ano em que Fidel Castro entrou triunfante em Havana, juntou-se a Sérgio Moreira e decidiram, com humor, atacar a recepção ao então ministro português dos Negócios Estrangeiros Paulo Cunha com garrafinhas de mau cheiro. Apesar do carácter inofensivo dos engenhos, a missão foi um êxito. "Aquilo foi de morrer de riso. Estragámos-lhe o discurso e teve de abandonar a sala", descreve, entre gargalhadas.

Depois da acção com garrafinhas de mau cheiro, Rúben Moreira decidiu, duas semanas depois, realizar um ataque mais sério: "Arranjei uma garrafa de Coca-Cola, enchi-a de gasolina e pus-lhe um trapo. Depois lancei-a contra a parede do Consulado." As capas dos jornais dos dias seguintes amanheceram com a notícia da acção. Da prisão juvenil onde foi encarcerado, Rúben, com apenas 17 anos, afirmou aos jornalistas que "desafiava a ditadura de Salazar". Seria libertado duas semanas depois por influência de dirigentes do partido venezuelano Acção Democrática: "Se não, teria sido expulso do país."

Na livraria Divulgação, em Caracas, encontra-se Sérgio Moreira, outro dos membros da antiga JPP. O ideólogo do ataque com garrafinhas de mau cheiro, hoje com 78 anos, recorda a acção mais mediática que realizaram os portugueses, a partir da Venezuela, contra a ditadura salazarista. Em 1961, um comando constituído por mais de duas dezenas de antifascistas portugueses e espanhóis sequestrou o transatlântico português Santa Maria que transportava meio milhar de pessoas. Da acção resultou a morte de um tripulante e o ferimento de outro.

A execução da Operação Dulcineia, planeada e executada pelo Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), recebeu as atenções dos principais jornais de todo o mundo. Recolheu a simpatia de vários países e obteve, inclusivamente, a protecção militar norte-americana em relação à ameaça das marinhas portuguesa e espanhola, até atracar no porto brasileiro de Recife.

Na preparação da acção, Sérgio teve um papel importante. "As armas que foram utilizadas no assalto deveram-se aos meus contactos com gente da esquerda e com gente que começava a entrar na guerrilha venezuelana", explica. E acrescenta que "uma boa parte dos portugueses que participaram na operação" foram recrutados por si.

De forma natural, Henrique Galvão nomeou-o director do treino que portugueses e espanhóis realizaram durante mês e meio entre a montanha e o mar.

Alugaram uma casa de férias e Sérgio Moreira, então professor de Filosofia, para além de coordenar a logística, dirigiu as caminhadas, os exercícios de tiro e os treinos de orientação. Contudo, pouco tempo depois, saiu da missão, em desacordo com Henrique Galvão, um dos comandantes do DRIL, em relação aos objectivos do sequestro do Santa Maria.

Também nesse ano, quatro mil portugueses emigrados juntaram-se em frente à Embaixada contra as posições tomadas na ONU contra as colónias de Portugal. A Junta Patriótica Portuguesa, em número inferior, organizou uma contramanifestação e abriu uma faixa pedindo liberdade.Prontamente, como contou António Marques Brandão, "vários salazaristas arrancaram o pano e uma senhora ao nosso lado descalçou os sapatos e com os tacões abriu umas quantas cabeças". O antigo responsável pelas finanças do movimento assistiu, depois, à chegada da polícia venezuelana que disparou vários tiros para o ar. E Sérgio Moreira, que acudira à concentração apesar de estar referenciado pelas autoridades, acabou detido.

Mas a vida deste português de Espinho e emigrado para a Venezuela em 1952 por motivos políticos, é tão vasta como a quantidade de livros que enchem as prateleiras da sua livraria. Humberto Delgado contactou-o para o acompanhar como seu secretário e Sérgio Moreira começou a tratar da documentação para deixar a Venezuela. A burocracia acabou por atrasar o processo e o General caiu assassinado pela PIDE.

Envolveu-se, desde cedo, com os meios intelectuais que lutavam por um mundo diferente. Escreveu em revistas, publicou livros de poesia e deu conferências. Participou intensamente na vida do Centro Português de Caracas. Em 1980, decidiu abrir a livraria que mantém há 28 anos. Entre o caos e a desarrumação, Sérgio Moreira consegue fintar a desordem e encontrar o que procura.

A maioria dos clientes "compra livros que correspondem à problemática da economia e da política, na Venezuela e no mundo". Explica que à livraria, "considerada uma das melhores do país", vem gente de toda a Venezuela, universitários, professores e políticos. Ajudou a trazer José Saramago, Sophia de Mello Breyner e tantos outros escritores que divulgou não só entre a comunidade portuguesa mas também entre os venezuelanos.

Foi também aqui que Júlio Fernandes, empresário português, passou a juntar os seus heróis que não só descrevem a história da resistência ao fascismo mas também ajudam a identificar os documentos que o empresário vai descobrindo. Por isso, Júlio Fernandes tenta que não seja esquecido quem lutou pelo fim da ditadura e considera que o Estado português devia "apoiá-los porque muitos deles vivem com dificuldades económicas" e reconhecer "o papel que tiveram numa etapa importante" da história de Portugal.

(com foto - legenda "Sérgio Moreira (primeiro à direita), em Caracas, à frente da sua livraria, ao lado de antigos resistentes antifascistas em Dezembro de 2008")
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