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segunda-feira, 14 de março de 2011

OS PRIMÓRDIOS DA GUERRA COLONIAL EM ANGOLA

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Soldado Manuel Ré recorda 15 de março, 50 anos após rebelião no norte de Angola

Cristina Fernandes Ferreira, da Agência Lusa

Lisboa, 14 mar (Lusa) - Na véspera de 15 de março de 1961, Manuel Ré passou a noite a arrumar munições, enquanto relatos de uma rebelião contra colonos no norte de Angola levavam ao quartel de Luanda dezenas de pessoas à procura de ajuda.

Condutor de auto-metralhadora, Manuel Ré passou três anos em Luanda sem ver uma única bala, mas na véspera de 15 de março de 1961 recebeu vários caixotes de munições, situação que causou estranheza ao soldado de Ílhavo, então com 22 anos, que hoje não tem dúvidas que a chegada repentina das munições indiciava que a PIDE sabia o que estava para acontecer.

No norte, a rebelião dirigida pela União das Populações de Angola (UPA) contra os colonos portugueses tinha causado centenas de vítimas e provocado o pânico entre a população branca e na manhã de 15 de março de 1961, recorda, dezenas de pessoas concentravam-se à porta do quartel para pedir à tropa que lhes resgatasse as famílias.

Em entrevista à Lusa, Manuel Ré lembra que integrava o primeiro pelotão dos "Dragões de Angola", que seguiu rumo ao norte para resgatar os colonos portugueses, um percurso que decorreu sem sobressaltos até ao Onzo, onde, recorda, começaram "a ver pessoas decapitadas, esquartejadas".

"Para uma pessoa que nunca tinha dado um tiro, foi um choque muito grande", diz, acrescentando que a viagem prosseguiu até Nambuangongo, onde as tropas portuguesas surpreenderam os rebeldes em pleno saque.

Apesar disso, diz que foi possível evitar o confronto, mas a missão haveria ainda de sofrer diversas emboscadas e acidentes que resultariam em vários mortos e feridos na coluna.

Numa delas, viu o colega que o acompanhava dentro da auto-metralhadora ser trespassado por balas "para caçar elefantes".

"O pobre do Seis soergueu-se um pouco, levou um tiro no peito, nem 'ai' disse", lembra, adiantando que nesta emboscada mais dois companheiros ficaram feridos.

Armados apenas com pistolas Mauser, ainda tentaram usar a auto-metralhadora, que acabaria por dar um único tiro porque o diâmetro das munições era maior que o da metralhadora e a cápsula ficou encravada.

"Chegámos quase à luta corpo a corpo. Eu disparei 30 tiros", afirma, sublinhando que apesar de ter participado em 20 ataques não sofreu sequer "um arranhão".

A auto-metralhadora havia ainda de se despistar e Manuel Ré, que foi o último a sair, depois de tirar todo o equipamento, lamenta não ter conseguido retirar de lá de dentro o corpo do soldado Seis.

Manuel Ré recorda-se de uma tropa "mal preparada" e sobretudo "mal armada", que quando regressou da missão ao norte, trazendo consigo cerca de 100 colonos, estava "exausta".

"Não aguentávamos mais, éramos muito poucos", diz, sublinhando que era "absolutamente necessário" o envio de reforços.

Foi desmobilizado em janeiro de 1963, mas ficou por Luanda, onde tinha construído casa. Em 1975, "as coisas ficaram demasiado perigosas", por isso mandou a mulher e os dois filhos para Portugal.

Ele ficou até 1998, passando por vários trabalhos, mas, para evitar problemas, queimou tudo o que o ligava ao exército português, inclusive um louvor coletivo recebido por serviços prestados.

Mais de três décadas depois do início da guerra, motivos de saúde obrigaram-no a regressar definitivamente a Portugal.

Diz que tem "muitas saudades do povo angolano", mas procura esquecer o tempo que passou na guerra e que ainda hoje lhe "tira muitas vezes o sono".
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