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quinta-feira, 10 de março de 2011

PORQUE PARTE DA ESQUERDA SE ILUDE COM GADDAFI

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Ricardo Mousse, no ViomundoOutras Palavras

A recepção na blogosfera de um artigo do respeitado militante comunista português Miguel Urbano Rodrigues, sintoma da dubiedade com que a Revolução na Líbia tem sido acompanhada por setores da esquerda, põe em cena a questão que dá título a esse post. Para iniciar essa discussão seguem algumas provocações:

1. Grande parte da velha esquerda prefere um Estado forte à democracia. Sua avaliação, presa apenas à dicotomia imperialista/ anti-imperialista, não demonstra a menor preocupação com o regime político. Para ela, pouco importa a forma pela qual o Estado é comandado – se por um patriarca, um ditador, um colegiado, um comando militar etc.

2. Esse eco da antiquada e deturpada tese que considera as regras da democracia burguesa como uma fraude resiste mesmo em situações, como a atual, em que a legitimidade do governante é desmentida por manifestações populares, greves gerais, insurgência proletária, em suma, pelo arsenal histórico da ação revolucionária.

3. A velha esquerda interpreta o presente com os olhos congelados no passado. Deixou de acompanhar as mudanças no mundo – para ela em geral desagradáveis. Assim, muitas vezes, analisa a conjuntura a partir de dados e situações de 30, 40 anos atrás.

4. O coronel Muammar Gaddafi forneceu apoio material, logístico e guarida para a extrema-esquerda na década de 1970. OLP, IRA, Brigadas Vermelhas, ETA, Farc etc. foram acolhidos por ele.

5. Mas, desde o 11de Setembro, Gaddafi mudou de lado, motivado pelo fato de que a bandeira do enfrentamento militar com os EUA foi parar nas mãos daqueles que considerava como o seu principal inimigo: o fundamentalismo islâmico. Seu giro foi completo. Os Estados Unidos e a União Européia receberam-no triunfalmente em recente reunião do G-20. Foi admitido no restrito círculo dos aliados preferenciais por conta do controle integral que exercia sobre o Estado e a população líbia e da bagatela de 300 bilhões de dólares (entre fundo soberano, reservas internacionais e fortuna familiar) que dispõe para investir em empresas do Hemisfério norte.

6. A velha esquerda sente ainda saudades da ultrapassada tática de confrontação militar com as forças pró-imperialistas. Trata-se de um procedimento que só se mostrou eficaz na Guerra Fria, quando o apoio da URSS possibilitou a movimentos insurgentes organizar verdadeiros exércitos alternativos, como foi o caso na China e em Cuba.

7. Exceto nesse período, a destituição do comando do Estado seguiu sempre o modelo ensaiado na Revolução Russa de 1905: manifestações de massas e greve geral.

8. A velha esquerda superestima os serviços secretos. Enquanto a mídia e o congresso norte-americanos questionam a CIA por sua incapacidade de fornecer informações sobre os acontecimentos no mundo árabe, ela sugere que a mobilização popular na Líbia foi desencadeada por essa agência norte-americana. O comando da CIA agradece.

9. A velha esquerda desconhece inteiramente a situação histórica e social do mundo árabe, para a qual nunca voltou os seus olhos. Sustenta que a revolução predomina no leste da Líbia por que aí se localizam empresas multinacionais. Mas se esquece de que é aí que se concentra a maioria da classe operária. Tampouco parece perceber que Trípoli, a última cidadela de Gaddafi, consiste no núcleo habitacional do funcionalismo público (em geral, composto por apaniguados do ditador) e de todos aqueles que sobrevivem parasitando o Estado líbio.



**Ricardo Mousse é professor de sociologia na USP
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1 comentário:

Anónimo disse...

A ESQUERDA PROPÕE PARA A LÍBIA DIÁLOGO E PAZ.

1 ) Acho que é no mínimo ousado "classificar" entre "nova" e "velha" esquerda: esquerda ou há ou não há.

2 ) É estranho, muito estranho, uma revolta ter ido buscar aos baús da história uma bandeira monárquica, dum rei enfeudado aos interesses que não eram da Líbia.

3 ) Se a revolta fosse eminentemente operária, ou identificada por completo com o povo líbio, seu sinal seria necessariamente outro, ainda que logicamente regeitando a bandeira verde de Kadafi; assim sendo há um sinal evidente - SALVAR O(S) REI(S), para procurar salvar os interesses históricos do imperialismo sobre o petróleo...

4 ) O diálogo e a paz é o caminho que o pensamento e a acção de esquerda está a tentar privilegiar, um caminho que agora também está a ser "aproveitado" pelas potências ocidentais à sua maneira musculada, mas mais previdente após o Iraque e o Afeganistão.

5 ) O sociólogo deveria estudar por outro lado mais o modus operandi dos sistemas de George Soros, indexados à CIA e particularmente estimulados não só no rescaldo da desagregação do "bloco socialista" e da URSS, mas também noutras partes do mundo; será que esses sistemas são classificados por ele como "de esquerda"?

6 ) Os ditadores, para os interesses das potências, foram fáceis "modess" na hora do aperto: usados que foram até limites impossíveis, foram deitados fora com toda a ligeireza.

7 ) Quando essa ligeireza acontece é por que, por dentro das revoltas essas potências possuem vínculos que lhes permitem recuperar influência, interesses, conveniências, manipulação e poder, que as limitam, impedindo que a revolução chegue e se aprofunde.

8 ) Os povos do Terceiro Mundo começam a identificar melhor o que lhes diz respeito apesar dos esforços do imperialismo em lançar a confusão e a divisão; esses povos sabem quais são os seus interesses, aqueles que integram a sua própria vida e, se Kadafi se portou mal, será tarde ou cedo responsabilizado, desautorizado, desmascarado.

9 ) É precisamente pela via do diálogo nacional que deve haver na Líba que esse processo de sublimação poderá alguma vez ser alcançado, não com a radicalização duma guerra em relação à qual a "paz" ocidental escolheu seu campo.

Martinho Júnior.

Luanda.