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sábado, 5 de março de 2011

REBELDES COM CAUSAS MAS SEM LÍDERES

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David D. Kirkpatrick, no New York Times – Outras Palavras - Tradução Antonio Martins

Eles nasceram mais ou menos no tempo em que o presidente Hosni Mubarak chegou ao poder.. Muitos graduaram-se nas melhores universidades de seu país. Todos passaram a vida adulta enfrentando as restrições do Estado policial egípcio – alguns sofrendo seguidos períodos de prisão e tortura, em nome da causa.

Eles são jovens profissionais, principalmente advogados e médicos, que desencadearam e dirigiram a revolta que sacode o Egito, membros da geração Facebook que permaneceram quase sempre anônimos – por decisão própria, dada a ameaça de prisão ou sequestro pela polícia secreta.

Porém, quando o governo egípcio tentou desmobilizar seu movimento, insinuando que estava negociando com alguns dos líderes, eles apareceram em público pela primeira vez, para expor seu papel, até então oculto. Eram apenas 15, incluindo Wael Ghonim, um executivo da Google que foi sequestrado por 12 dias para aparecer em seguida, como porta-voz do movimento.

Eles introduziram sofisticação e profissionalismo em sua luta – explorando o anonimato da internet para iludir a polícia secreta, plantando falsos rumores para enlouquecer espiões da polícia, encenando “testes de campo” nas quebradas do Cairo, antes de desenhar seus planos de batalha. Em seguida, traçaram a estratégia de protestos semanais, para poupar energias – o que explica a surpreendente resilência do levante que iniciaram.

No processo, muitos deles desenvolveram atributos originais, que refletem o caráter singularmente diverso da revolta dos jovens egípcios, capaz de reunir liberais, socialistas e membros da Fraternidade Muçulmana.

“Gosto muito da Fraternidade, e eles simpatizam comigo”, afirma Sally Moore, uma psiquiatra de 32 anos, cristã copta, esquerdista e feminista de origem iraniano-egípcia. “Sabemos que eles têm sempre uma agenda oculta, e não é possível prever como se comportarão, quando tiverem algum poder. Mas são ótimos na organização e estão reivindicando um Estado laico como todo mundo. Têm o direito de constituir um partido, como todo mundo. Acho que não terão mais de 10% da opinião pública”.

Muitos no grupo conheceram-se no tempo da Universidade. Islam Lofti, um advogado que é líder da Juventude da Fraternidade Muçulmana, conta que a facção convidava gente dos minúsculos partidos de esquerda, nas reivindicações de liberdades civis, para que a causa parecesse mais universal. Muitos dos que participavam são agora aliados na revolta – entre eles, Zyad el-Elaimy, um advogado de 30 anos que liderava um grupo comunista.

Elaymi, preso quatro vezes e torturado até sofrer fraturas múltiplas nos membros, devido a sua ação política, agora é assistente de Mohamed El Baradei, o oposicionista que ganhou o Nobel da Paz por seu trabalho com a Agência Internacional de Energia Atômica. Ao mesmo tempo, seu grupo estabeleceu laços com outros jovens organizadores, como a psiquiatra Sally Moore.

As sementes da revolta foram plantadas no momento do levante na Tunísia, quando Walid Rachid, de 27 anos, contato de um grupo online chamado Movimento 6 de Abril, enviou nota para o administrador anônimo de uma página antitortura no Facebook, pedindo “ajuda publicitária” para uma jornada de protesto em 25 de janeiro. Rachid lembra-se de que perguntou-se porque o administrador comunicava-se apenas por meio de Gtalk. Não sabia que se tratava de Ghonim, o executivo do Google – embora já se conhecessem…

Certa vez, o grupo usou um estratagema para fintar a polícia. Os organizadores lançaram um boato, segundo o qual pretendiam reunir-se numa mesquita, num bairro de elite na região central do Cairo. A polícia apareceu em peso. Mas os organizadores encontraram-se num bairro pobre vizinho, lembra o comunista Elaimy.

Começar num bairro pobre foi uma experiência marcante. “Estávamos acostumados a começar pela elite, e a ver sempre as mesmas caras”, diz Lofti, da juventude muçulmana. “Vamos tentar algo novo, pensamos”.

Dividiram-se em duas equipes. Uma mobilizou frequentadores dos cafés, outra agitou slogans nos os cortiços. Em vez de falar sobre democracia, lembra Lofti, focaram em temas mais imediatos, como o salário mínimo. Eram mais ou menos assim: “Eles comem aves, nós só no feijão”. “Que vergonha, que vergonha, só acho pepino com meus 40 contos”.

Sally destaca: “Nosso agito começou com 50 pessoas. Quando saímos do bairro, éramos milhares”. Quando os manifestantes foram para a rua, encontraram um homem morto a tiros pela polícia. Na manifestação seguinte, ela levou sua maleta médica e montou um centro de primeiros socorros.

Na época em que ocuparam a Praça Tahrir, ela e seus amigos haviam se alistado na União de Médicos Árabes, que tem entre seus integrantes muitos membros da Fraternidade Muçulmana. Montaram uma rede de sete clínicas. Na noite anterior à “Sexta-feira da Raiva”, a manifestação planejada para 28 de fevereiro, o grupo encontrou-se na casa de Elaimy, enquanto Lofti dirigiu o que chamou de “teste de campo”. Das 6 às 8 da noite, ele e um pequeno grupo de amigos percorreram as ruas estreitas de um bairro de trabalhadores, chamando os moradores a protestar. Queriam principalmente medir o interesse de participação e calcular o ritmo da marcha pelas ruas.

“O engraçado é que quando terminamos, as pessoas recusaram-se a ir embora”, ele conta. “Eram 7 mil e queimaram dois carros de polícia”.

Quando ele passou a informação ao grupo que estava na casa de Elaimy, eles conceberam um plano detalhado, segundo o qual os manifestantes iriam encontrar-se em certas mesquitas, e de lá seguir em passeatas pelas artérias que conduzem à Praça Tahir. Escolheram inclusive em que mesquita El Baradei deveria aparecer. Então, informaram a imprensa, e imagens de Nobel da Paz encharcado por jatos d’água lançados de canhões correram o mundo”.

Sinal de um abismo entre gerações no Egito, os jovens ativistas mostram-se frustrados com o pessoal mais velho, nos partidos de oposição. “Eles são parte do sistema, parte do regime”, diz Lofti: “Mubarak conseguiu domesticá-los”.

Ainda assim, ele diz, a presença da Fraternidade Muçulmana na praça foi um ganho estratégicos. Como membros de um grupo secreto e ilegal, “eles são bem organizados”.

A organização mostrou-se crucial alguns dias depois, quando os manifestantes formaram rapidamente uma espécie de linha de montagem, para se defender contra a chuva de pedras e bombas disparadas por um exército de apoiadores de Mubarak. Um grupo usou barras de aço para transformar o asfalto em pedras, outro dispôs as pedras na rua e o terceiro ergueu as barricadas.

“Quando as pessoas são mortas, você se sente às vezes culpados”, diz Lofti. “Mas depois da guerra daquela noite, passamos a sentir, cada vez mais, que nosso país merecia nosso sacrifício”. Alguns dias depois, sete membros do grupo foram sequestrados pela polícia e detidos por três dias, depois de saírem de um encontro na casa de El Baradei.

A concentração dos protestos nas quintas e sextas-feiras foi concebida para conservar energia. Antes de cada manifestação, eles vazavam uma nova informação falsa, para despistar a polícia. Anunciaram, por exemplo, que iriam marchar até os estúdios da TV estatal, quando seu objetivo real era cercar o Parlamento.

Formaram uma coalizão que representa a revolta jovem e inclui Ghonim, o executivo do Google. Quando o governo começou a convidá-los para encontros, organizaram uma votação na Praça Tahrir para decidir a respeito. Decidiu-se, com cerca de 70% dos votos, contra a negociação.

Os membros do grupo são, em sua maioria, liberais ou esquerdistas. Todos, inclusive os que também participam da Fraternidade Muçulmana, dizem que aspiram uma democracia constitucional, onde as instituições civis sejam mais fortes que os indivíduos.

Mas eles sabem que também mantêm divergências, especialmente sobre o papel do Islã na vida pública. Loft aponta, como exemplo, a Turquia pluralista. Sobre o tema do álcool – proibido no Islã – ele pensa que beber é um tema privado, mas que talvez devesse ser proibido em público.

Indagado sobre como veria a hipótese de uma mulher cristã como presidente do Egito, ele hesita alguns segundos. Se for um governo de instituições” – diz, então – “não me importa que o presidente seja um macaco”.
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