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terça-feira, 29 de março de 2011

TVI E A EXCISÃO GENITAL FEMININA

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Paulo Pinto – Jugular – 29 março 2011

A TVI passou há umas horas, no Jornal da Noite, uma reportagem sobre a excisão genital feminina. Chocante, como todas as peças que abordam este assunto; mas sempre de saudar, ainda que com mazelas, erros e ingenuidades flagrantes.

A abordagem jornalística a este tema anda sempre no fio da navalha, e é compreensível que, em certa medida, assim seja, perante a enormidade, tão susceptível de causar repulsa e choque, que é verificar como esta abominação é praticada de forma ainda tão disseminada e banal em tantas partes do mundo. Informar sem cair numa certa abordagem dramática é difícil. O rigor e a isenção não são fáceis de manter perante uma prática que nos causa horror. Por outro lado, a excisão genital feminina é uma prática que nos é estranha, portanto, é muito fácil cair no simplismo de considerar que se trata de actos de culturas bárbaras, de gentes desumanas, de religiões cruéis. A excisão está associada à comunidade guineense, muçulmana, em Portugal, e este assunto é tanto um argumento para a xenofobia mais primária como um silêncio para xenofilia mais míope. A reportagem vagueou sinuosamente entre tudo isto, esquivando-se mas metendo o pé em terreno minado.

A primeira constatação, logo dos primeiros minutos, foi a de uma desastrada ingenuidade no que poderia ser uma interessante incursão: a jornalista andou pelo Rossio a perguntar se alguém conhecia alguém que a praticasse. Faltou-lhe maturidade, experiência e tacto. Falar de "mutilação genital" em vez de usar a gíria ("fanado" ou outra forma) é meio caminho para gerar desconfianças e recusas. Mas pareceu admirada por ter chegado à Damaia ou ao Cacém e de ter esbarrado com um muro de silêncio. Uma pena, porque poderia ter ido mais longe. Recolheu testemunhos de médicos e sociólogos e pouco mais. Um mar de interrogações ficou por responder: quantos casos se conhecem em Portugal? reais? estimados? há denúncias? há processos? há condenações? o que tem sido feito junto das comunidades que (pelos vistos) a praticam? qual a reação da novas gerações? Nada, apenas informação vaga acerca da "Guiné-Bissau" e de que "é crime". Ficou o corajoso testemunho de uma jovem em frente às câmaras, decerto. Mas mesmo aqui, a tentação foi mais forte: a jornalista fez-lhe uma série de perguntas idiotas ("que diria à mulher que lhe fez isso, se a visse?" "tem uma filha? vai submetê-la ao mesmo?") e privilegiou a faceta dramática de forma perfeitamente desnecessária.

Esta faceta dramática, voyeurista, esta costela de morbidez-TVI que tão bem conhecemos acabou por ser dominante: viajou para o Quénia para procurar ali mais informação sobre o assunto, sem contexto nem aparato, como se fosse necessário ir ali, a um país bárbaro e distante, procurar o que, afinal, existe nos arredores de Lisboa. O clímax teve tanto de absurdo como de patético: filmar uma grotesca simulação do acto, não sei exactamente com que intenção: mostrar a crueldade, a dor e o horror? Se era isso, mostrar imagens reais de vaginas mutiladas era bem mais chocante. Mas menos dramático, decerto, e na TV tudo é drama.

Por fim, era inevitável a abordagem a uma corda sensível: o Islão, o facto de a excisão ser praticada maioritariamente por comunidades muçulmanas e de estar vulgarmente associado à religião islâmica. Isto podia ter sido arrumado, como ponto prévio, com meia dúzia de verdades incontestadas: a excisão é anterior ao Islão, não consta do Alcorão ou de qualquer ensinamento e é praticada também por comunidades não-muçulmanas. Mas em vez de o afirmar com todas as letras, desfazendo com clareza o mito e passar adiante, a jornalista decidiu ir falar com o xeque Munir, da comunidade islâmica (sunita) de Lisboa, que foi claro na sua reprovação. Mas a jornalista, anteriormente tão entusiasmada na sua adjectivação ("crime" e "criminosa" foram os termos a que se referiu à prática e a quem a exerce), revelou uma reverência tão ridícula como estéril. Começou por mostrar ostensivamente um temor respeitoso pela mesquita e pelo entrevistado, como se o Islão fosse uma religião de antropófagos de uma qualquer tribo dos filmes do Tarzan. Cobriu a cabeça com um lenço (devidamente mostrado pela câmara) e manifestou de viva voz o seu respeito, como se Munir fosse um semi-deus ofendido, no Portugal de 2011, por falar com uma mulher de cabeça descoberta e como se fosse obrigatório entrar numa mesquita deste modo. E, mais grave, limitou-se a perguntas de circunstância (as tais que um trabalho de casa prévio teria resolvido logo ao princípio), ficando-se pela rama. E se, em vez de deixar o entrevistado discorrer livremente ou ficar-se pelo "se o Islão aprova tal prática", que tal inquirir diretamente se tem conhecimento de casos concretos? Se não, como explica o facto de ela, em pleno Rossio, ter chegado rapidamente a quem pratica a excisão, e ele não? Se sim, o que fez e faz para evitar e acabar com eles? Denunciou-os à polícia? Impediu-os? É assunto tratado na comunidade? Promove o esclarecimento, a informação e uma condenação, sem hesitação nem reticência, no seu interior? Nada, nada.

É que este assunto é demasiado grave para nos ficarmos por divagações ideológicas ou culturais ou para nos limitarmos a produzir peças de "denúncia". Esperava dados concretos, um diagnóstico, o que existe, o que está a ser feito, o que vai ser feito, quem o faz, quem o ignora e quem o impede, mais do que a simples denúncia do acto em si. Mas, se calhar, é esperar demais.

1 comentário:

Anónimo disse...

No islam maomé fez a mutilação genital feminina, masculina e ainda pior a Deus, que no islam nunca mais pode ter filhos ou família.