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sábado, 2 de abril de 2011

EM ANGOLA, QUEM TEM BARRIGA TEM MEDO!

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Se alguma dúvida (ainda) existisse sobre a liberdade em Angola, bastava ver que apenas cerca de 50 pessoas, sobretudo jovens, participam na manifestação de hoje, em Luanda, em defesa da liberdade de expressão.

Os jovens que convocaram a manifestação, crentes de que Angola é um Estado de Direito e uma democracia, são sobretudo os mesmos que tentaram no passado dia 7 de Março pôr a força da razão acima da razão da força.

Ingénuos, como é próprio – e ainda bem – da juventude, acreditaram que seria possível fazer ouvir a sua voz crítica num país que, para além de um presidente não eleito e há 32 anos no poder, é constituído por 70 por cento de pobres.

De qualquer modo, como aconteceu com a manifestação anterior, também a de hoje deixa sementes que um dia destes poderão nascer e, talvez, vir a dar voz a quem a não tem, ao contrário do que agora se passa, já que voz só o regime é que tem.

«Miséria, esquecimento da família, desfalques, roubos no estado angolano, estrangeiros em primeiro lugar, prepotência e arrogância, ditadura de José Eduardo dos Santos no poder, basta!», é uma das mensagens escritas num dos cartazes. Mensagem que, aliás, retrata bem o que se passa no reino de José Eduardo dos Santos.

De prático, e no imediato, pouco trará. Fica, contudo, a certeza de que o regime sabe o que o povo pensa e por isso tem tanto medo.

Outros cartazes dizem: «Viva a liberdade de expressão», «Libertem as mentes, angolanos», «Senhor arquitecto [referência e Eduardo dos Santos], refaz o plano».

Os mais corajosos, o que no caso de Angola é sinónimo de um provável choque com uma bala perdida, gritaram contra aditadura do regime do MPLA, mostrando aos donos do país e também à comunidade internacional, que para Angola não ser uma ditadura só terá de... deixar de ser uma ditadura.

Entretanto, mesmo com a cobertura criminosa da comunidade internacional e até mesmo da própria CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa (à qual, aliás, Angola preside), haverá sempre quem nunca esqueça que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Quem nunca esqueça que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Quem nunca esqueça que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos, que 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros, que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população, que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda.

Quem nunca esqueça que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

*Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.


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