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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O FIM DA ESPERANÇA?

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RUI MARTINS* - DIRETO DA REDAÇÃO

Há certas coisas que valem a pena ler e ouvir, como, por exemplo, um político escrever um livro filosófico sobre a política e, nas suas entrevistas, demonstrar um saber e uma visão crítica profunda da história humana da participação política.

É o caso, por exemplo, de Vincent Peillon, deputado francês na União Européia, um professor doutor em filosofia, que chegou a membro da direção do Partido Socialista, com a publicação de um livro sobre a política como uma introdução ao século XXI.

Para ele, os grande momentos decisivos na nossa história não foram assumidos por políticos ou por partidos no poder mas desencadeados por pessoas não envolvidas em partidos. Muitas vezes são simples e anônimos cidadãos como o vendedor ambulante que, num momento de desespero se imolou pelo fogo, desencadeando um movimento popular e provocou a queda do ditador Ben Ali na Tunísia.

Foram também cidadãos anônimos não políticos que resistiram ao nazismo na França e foi um jornalista e escritor, Bernard Lazare, o primeiro defensor polemista do capitão Alfred Dreyfus e detonador do célebre Caso Dreyfus.

O mesmo se pode dizer de Socrates - apesar de recusar entrar na política, suas considerações sobre a sociedade e a participação dos cidadãos foram das mais importantes para a estruturação política da sociedade. En passant, lembra terem sido sindicalistas e não políticos os autores das mudanças na Polônia e, nessa mesma linha de idéias, podemos também dizer terem sido sindicalistas brasileiros do ABC os detonadores de uma nova era política no Brasil. Houve uma evolução política, pois os sindicalistas fundaram o PT mas a célula detonadora era constituída de operários metalúrgicos.

E para Vincent Peillon vivemos hoje um momento crítico da crise da esperança, porque os homens, depois de tantas esperanças frustradas, têm medo de nutrir novas esperanças e chegam mesmo a ter medo do futuro. Durante vinte séculos, o homem ocidental viveu sob a esperança religiosa, voltado para o fim de uma época que seria sua salvação. A seguir, surgiu outro tipo de esperança, oferecida pela religião secular, anunciando o fim da história ou da pré-história, um mundo novo com o fim da luta de classes.

Mas o século XX trouxe muitas decepções, pois muitos dos anunciadores do mundo novo, do homem novo (os nazistas também falavam no surgimento de um homem novo) acabaram mortos no holocausto, nas guerras e nos expurgos.

E hoje, neste começo do século XXI, a descrença impera misturada com um medo do futuro, porque o futuro é o desconhecido, é a manipulação genética, o desequilíbrio ecológico do planeta com catástrofes provocadas pelos homens. E os homens se agarram no presente com medo do futuro.

Vincent Peillon toca também num tabu evitado pela grande maioria – a criatividade da geração futura está sendo comprometida pelo imobilismo causado pela influência da televisão sobre as crianças. A denúncia ainda circula timidamente entre educadores independentes, mas qualquer reforma escolar está comprometida, diz ele, quando se sabe que a maioria dos escolares passam quatro horas por dia diante da televisão. O que leva à discussão dos espaços públicos estruturados segundo os interesses privados ou à privatização atual dos espaços públicos.

* Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.
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