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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

ASSIM SE “CONSTRÓI” O SUL

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MARTINHO JÚNIOR

Um dos principais êxitos da eleição de Dilma Rousseff a Presidente do Brasil, é o fortalecimento da possibilidade do pré sal disponível na Amazónia Azul não cair nas mãos das multinacionais que compõem o poder da hegemonia precisamente no momento em que a exploração do petróleo a nível global começa a resvalar para uma irreversível curva declinante. (1)
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O Brasil tem agora a oportunidade duma muito maior afirmação não só no espaço da América do Sul, mas também em África e no Atlântico Sul, constituindo as potencialidades de exploração, refinação e aproveitamento do petróleo uma mola indispensável para a construção de relacionamentos a Sul com um peso específico cada vez mais evidente nas próximas décadas do século XXI.
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Tinha alimentado essa expectativa quando escrevi “BRASIL – UMA COMPONENTE DECISIVA PARA AS INTEGRAÇÕES E ALTERNATIVAS QUE SE ABREM NO SÉCULO XXI”, em primeiro lugar por que uma emergência no Brasil só se poderá efectivar com o que se conseguir realizar com soberania e critério justo de desenvolvimento sustentável respeitando humanidade e ambiente nas duas Amazónias e em segundo lugar, se esse caminho de emergência for conseguido, por que ela se reflectirá de forma construtiva particularmente nas regiões Ocidentais e Austrais do Continente Africano, bem como logicamente em todo o Atlântico Sul. (2)
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A 14 de Outubro de 2010 julgo que fiz não só uma avaliação correcta em relação às opções existentes no espectro político Brasileiro, mas também no seu significado em relação aos interesses externos, particularmente daqueles interesses que, reflectindo-se numa parte da oligarquia Brasileira, sustentam e se sustentam de facto das multinacionais que servem à hegemonia tutora do presente modelo neo liberal de globalização.
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O que foi conseguido agora não acabará com as disputas sobre o petróleo do Brasil, tal como não se acabará, muito pelo contrário, com a tendência do aumento das disputas sobre o petróleo e o gás de qualquer parte do Mundo, África incluída.
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A batalha vai ser longa e talvez cada ano que passa mais intensa, pois os países emergentes estão longe de se imunizarem em relação aos poderes concentrados nos expedientes que visam hegemonia dado o carácter da globalização a que a todo o custo, apesar dos sinais cada vez mais contraditórios, a aristocracia financeira mundial “defende”.
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Num artigo de Natália Viana no Carta Capital, intitulado “Nos bastidores, o lobby pelo pré sal”, são referenciados alguns documentos divulgados pelo Wikileaks sobre o assunto. (3)
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Os interesses Norte Americanos no que diz respeito ao Brasil movimentam-se na sombra (mas agora com a visibilidade propiciada pelo Wikileaks) numa autêntica prática de conspiração e ingerência, dando sinais que o assunto pré sal, perdidas as primeiras batalhas, é um assunto que prosseguirá nos esforços a todos os níveis para que “o mercado” do petróleo Brasileiro “se abra” à cobiça das multinacionais anglo-saxónicas e de suas aliadas: “A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?”.

Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo consulado americano no Rio de Janeiro a Washington em 2 de Dezembro do ano passado.Como ele, outros cinco telegramas a serem publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como a missão americana no Brasil tem acompanhado desde os primeiros rumores até a elaboração das regras para a exploração do pré-sal – e como fazem lobby pelos interesses das petroleiras.

Os documentos revelam a insatisfação das petroleiras com a lei de exploração aprovada pelo Congresso – em especial, com o fato de que a Petrobras será a única operadora – e como elas actuaram fortemente no Senado para mudar a lei.

Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria afirmado Patrícia Padral, directora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo. Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente”.

A publicação dos telegramas diplomáticos Norte Americanos no que diz respeito ao pré sal Brasileiro, permite-nos supor que telegramas de teor análogo têm sido e continuarão a ser emitidos pelos serviços diplomáticos dos Estados Unidos espalhados pelos países da costa Ocidental Africana, em especial a partir da Nigéria e de Angola, com conteúdos distintos, pois o que a hegemonia não está a conseguir no Brasil, já há muito terá sido alcançando em África e agora torna-se necessário defender da “concorrência”.

O Wikileaks pouco publicou sobre esse assunto no que diz respeito a África, assim como às eventuais tensões sobre o petróleo Africano entre os Estados Unidos e a China e isso apesar do contencioso do Sudão como exemplo mais difundido.

Mesmo com as vantagens do que obteve em África, que levaram à decisão da constituição do AFRICOM, à medida que o petróleo for escasseando, outro tipo de jogo de aumento de contradições pode-se adivinhar nos horizontes próximos, numa balança em que num prato está o peso dos relacionamentos do Continente com os BRIC e no outro o peso dos relacionamentos com as componentes anglo-saxónicas e suas aliadas (Europa e Israel). (4)

Ao longo do século XXI e para o Sul, a batalha vai ser longa, com avanços e recuos, sempre com a possibilidade eminente de manipulações de toda a ordem, de tensões e de conflitos.

Por outro lado a manobra financeira está em curso e a China, com os seus imensos recursos, pouco a pouco vai assumindo uma posição sensitiva em relação aos países Europeus em que a crise se acentua: a Grécia, Portugal e sobretudo em relação à Espanha que possui interesses colossais na América Latina e em África.

Em socorro do AFRICOM a NATO procura neste momento alargar a espiral da sua “estratégia de tensões”, esgaravatando todas as possibilidades correntes, entre elas as relações bilaterais e os nexos propiciados pelos enlaces no quadro dos serviços de inteligência, tirando pois partido de sectores identificados com os falcões existentes nas diversificadas culturas europeias. (5)

Essa mensagem de interesse e conveniência dos grandes falcões está a ser passada também em Angola, através de canais distintos e subtilmente, tolhendo o caminho em direcção a alternativas e, como o petróleo representa no caso Angolano mais de 90% das exportações, a fragilidade do Estado para fazer face ao poder da hegemonia é praticamente “total”.

É nessa míngua de capacidade que Angola procura a todo o transe manter políticas de Reconstrução e Reconciliação Nacional, sem conseguir com isso reduzir o fosso das desigualdades, mesmo que haja a tendência para o “crescimento” com o incremento dos relacionamentos com os países do Sul e com os próprios BRIC.

A lógica capitalista que emergiu a partir de 1985, com assento principal nos recursos redundantes da exploração do petróleo é exponencial no que diz respeito aos interesses duma elite nacional que muitas vezes se tornou mercenária ao ponto de prejudicar os interesses nacionais:

Como é possível que, conforme se revela no último estudo estatístico da balança comercial de Angola, o país exporte em primeiro lugar petróleo (quase o único produto de exportação), importando em primeiro lugar combustíveis e lubrificantes derivados de petróleo? (6)

Quem beneficia desse estado de coisas em relação aos quais se evitam respostas a partir das razões causais dessa constatação?

Quem vai efectivamente abrir a refinaria do Lobito? (7)

Ao que tudo indica são os grandes falcões que são decisivos pelo menos na construção da refinaria: a Halliburton (por via da Kellog Brown & Root), o Grupo Carlyle e a Chevron, associados aos “parceiros” angolanos (SONANGOL e alguns interesses das “novas elites” locais).

Os norte americanos terão assim em Benguela uma posição dominante, se tivermos em conta também que eles detêm o melhor posicionamento em relação ao urânio de Monte Belo.

Na perspectiva dos relacionamentos bilaterais, incluindo o emprego persuasivo do AFRICOM, isso é inestimável para os Estados Unidos, que segundo é voz corrente, incrementou pressões sobre Angola no que diz respeito a grupos como o Grupo AROSFRAM, AFRIBELG e GOLFRATE Holding… (8)

Integrando esses interesses e para lá das vantagens que detém no espectro financeiro angolano conjuntamente com os Fundos Carlyle, os interesses de George Soros manipulam as “novas elites”, enquanto em direcção aos substratos sociais de base e grupos de intelectuais da sociedade angolana a “Open Society”, para lá dos tentáculos construídos por via de algumas organizações sociais com rótulo de “independentes” e de espaços informativos de toda a ordem com cobertura internacional (incluindo na Internet), lançaram precisamente em Benguela o Bloco Democrático onde pontifica uma das suas figuras mais gradas – Justino Pinto de Andrade. (9)

Ao invés de incrementar os relacionamentos Sul – Sul e com os emergentes, o estado angolano dá indícios de continuar a preferir a armadilha das manipulações “yankees”.

Martinho Júnior - 16 de Janeiro de 2011
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Notas:
- (1) – Pico petrolífero, o pano de fundo da crise egípcia – http://resistir.info/peak_oil/egipto_29jan11.html ; Teoria del pico de Hubbert – Wikipedia – http://es.wikipedia.org/wiki/Teor%C3%ADa_del_pico_de_Hubbert ; O pico de Hubbert: como será a vida do outro lado? – Blogue de Esquerda – http://bde.weblog.com.pt/arquivo/123846.html - (2) – BRASIL – UMA COMPONENTE DECISIVA PARA AS INTEGRAÇÕES E ALTERNATIVAS QUE SE ABREM NO SÉCULO XXI – Martinho Júnior – Página Um Blogspot – http://pagina--um.blogspot.com/2010/10/brasil-uma-componente-decisiva-para-as.html ; O que o Governo Serra faria com o pré-sal? – Saul Leblon – Carta Maior – http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17036&boletim_id=774&componente_id=12852 - (3) – Nos bastidores, o lobby pelo pré sal – Natália Viana – Carta Capital – http://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/2010/12/13/nos-bastidores-o-lobby-pelo-pre-sal/ - (4) – EEUU crea AFRICOM par militarizar Africa – La Comunidad – El País – http://lacomunidad.elpais.com/loquesubebaja/2008/6/11/eeuu-crea-africom-militarizar-africa-a-el-petroleo ; El Pentágono desembarca en Africa – El País – http://www.elpais.com/articulo/internacional/Pentagono/desembarca/Africa/elpepuint/20080611elpepiint_1/Tes ; No militarizaremos el continente – El País – http://www.elpais.com/articulo/internacional/militarizaremos/continente/elpepuint/20080611elpepiint_3/Tes - (5) – A estratégia de tensão – O terrorismo não reiv9indicado da OTAN – Sílvia Cattori – PCB – http://www.pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=2273:a-estrategia-de-tensao-o-terrorismo-nao-reinvidicado-da-otan&catid=43:imperialismo ; África e a expansão das “revoluções coloridas” – Martinho Júnior – Página Um Blogspot – http://pagina--um.blogspot.com/2011/02/africa-e-expansao-das-revolucoes.html ; “Jogos africanos” de George Soros – Martinho Júnior – Página Um Blogspot – http://pagina--um.blogspot.com/2011/01/blog-post_26.html - (6) – Angola: valor das exportações cai – ANGONOTÍCIAS – http://www.angonoticias.com/full_headlines_.php?id=30124 ; O que muda com a liberalização – O País online – http://www.opais.net/pt/opais/?det=9785&id=1852&utm_medium=referral&utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_content=Especial - (7) – Projecto SONAREF – http://www.mstelcom.co.ao/wps/portal/!ut/p/c0/04_SB8K8xLLM9MSSzPy8xBz9CP0os3hDl5AQUzN_QwN3R39XA09HQ0NLNxcTIwMDA_3ggpJ4pyD9gmxHRQBw2gmW/ ; SONANGOL e KBF assinam acordo para a criação da refinaria – BESA – http://www.besa.ao/ContentNews.aspx?id=610 ; SONANGOL e KBR assinam acordo para criação da refinaria do Lobito – ANGONOTÍCIAS – http://www.angonoticias.com/full_headlines_.php?id=21566 ; KBR – Wikipedia – http://en.wikipedia.org/wiki/KBR_(company) - (8) – Sócio da AROSFRAM acusado de financiar terrorismo – O País – http://www.opais.net/pt/opais/?det=3759 ; AROSFRAM, AFRIBELG e GOLFRATE não serão indiciadas pelos Estados Unidos – O País – http://www.opais.net/pt/opais/?det=3855 ; BAI bloqueia contas – http://www.opais.net/pt/opais/?id=1929&det=18498 - (9) – Discurso de Benguela – http://www.angolaresistente.net/2010/12/30/discurso-de-benguela-conselho-nacional-do-bloco-democratico-justino-pinto-de-andrade-28122010/
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