segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Veto à resolução contra assentamentos ilegais filiou Obama ao Likud

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Gideon Levy – Haaretz – Carta Maior

Se houvesse um governo responsável em Israel, teria parado com a construção de assentamentos há muito tempo. Se os EUA tivessem agido como uma superpotência, teriam votado pela resolução que despertasse Israel do seu sono perigoso. Israel, que é condenado pelo mundo inteiro mas continua alegremente desse jeito, é um país que está perdendo sua conexão com a realidade. É também um país que vai se encontrar, afinal, jogado à própria sorte. É por isso que a decisão dos EUA prejudica os interesses de Israel. O artigo é de Gideon Levy.

Na semana passada o Likud ganhou um novo membro – e não apenas no partido da situação, mas na sua ala mais à direita. Situado em algum lugar entre Tzipi Hotovely e Danny Danon, o presidente Barack Obama foi para a direita de Dan Meridor e Michael Eitan e enfraqueceu a posição deles.

O primeiro veto dos Estados Unidos do mandato de Obama, um veto que em vão ele prometeu não usar como seus predecessores o fizeram, foi um veto contra a chance e a oportunidade de mudança, um veto contra a esperança. Esse não é um veto amigável para Israel; ele apoia os assentamentos ilegais e a direita israelense; e somente eles.

As desculpas do embaixador estadunidense na ONU não ajudarão; tampouco as palavras de agradecimento do gabinete do primeiro ministro. Esse é um passo nada menos que hostil a Israel. Os EUA, do qual Israel depende mais do que nunca, diz sim aos assentamentos ilegais. Esse é o único significado de sua decisão, e ao fazê-lo, apoia o empreendimento mais danoso a Israel.

Mais ainda, faz isso num momento em que ventos de mudança estão soprando no Oriente Médio. Uma promessa de mudança foi ouvida na América, mas o país continuou com suas respostas automáticas e seu apoio cego à construção de assentamentos israelenses. Não serão os EUA que terão condições de mudar sua posição relativa aos povos da região. E Israel, um pária internacional, mais uma vez viu-se apoiado unicamente pelos EUA.

Isso deveria estar perturbando todo israelense. É isso que nós somos? Isolados e condenados? E tudo pela continuação desse empreendimento sem sentido? Isso realmente vale à pena? Dar as costas para a ONU e ter o mundo inteiro contra nós?

Não podemos nos confinar nessa redoma de aço para sempre. Devemos abrir os nossos olhos e entender que se nenhum país, fora a enfraquecida América, apoia esse capricho nosso, então algo fundamental está errado aqui.

Israel, que é condenado pelo mundo inteiro mas continua alegremente desse jeito, é um país que está perdendo sua conexão com a realidade. É também um país que vai se encontrar, afinal, jogado à própria sorte. É por isso que a decisão dos EUA prejudica os interesses de Israel. Ela continua a cegar e a assombrar Israel com o pensamento de que ele pode seguir em frente, assim, para sempre.

Um Estados Unidos amigavelmente preocupado com o destino de Israel deveria ter dito não a esse veto. Uma América que entende que os assentamentos são um obstáculo deveria fazer coro na sua condenação. Uma superpotência que quer fazer a paz num momento em que os povos árabes se levantam contra seus regimes e contra os EUA e Israel, deveria ter entendido que deve mudar as velhas e más regras do jogo do apoio líquido e certo ao seu aliado viciado em assentamentos.

Uma América amigável deveria ter se mobilizado para salvar Israel dessa dependência. Só ela pode fazer isso, e deveria ter começado, tardiamente, no Conselho de Segurança na sexta-feira (18/02).

Mas as promessas de mudança e de verdadeira preocupação com Israel são uma coisa, enquanto o comportamento diplomático é outra: mais um veto automático é como se nada tivesse mudado. Obama ou George W. Bush, não há diferença. Quando a embaixadora Susan Rice disse que o esboço da resolução poderia fazer retroceder as posições de ambos os lados e encorajar um recuo nas negociações, ela se enganou. Ela sabe que o que evita negociações e torna as posições mais difíceis é a construção continuada nos assentamentos.

E quando o Ministro do Exterior de Israel diz que é “peculiar que o Conselho de Segurança escolhesse um só simples aspecto para considerar” das negociações israelo-palestinas, “enquanto ignora uma visão mais ampla dos acontecimentos em nossa região”, ele também enganou. O porta-voz do ministro acredita mesmo que há alguém sério que poderia concordar com Israel criando fatos consumados, sem permissão nem obstáculos?

E chamar a isso de “um simples aspecto”? Talvez seja apenas um, mas é certamente o mais destrutivo. E por isso é aquele que o mundo deveria condenar – corretamente.

Mais ainda, esse veto não foi dado em dias comuns. Estes são dias de ebulição na região. Se houvesse um governo responsável em Israel, teria parado com a construção de assentamentos há muito tempo – não apenas para desviar o fogo de Israel, mas para promover um acordo que nunca foi tão vital para si.

Se os EUA tivessem agido como uma superpotência, teria votado pela resolução, na sexta-feira, que despertasse Israel do seu sono perigoso. Em vez disso, temos um veto hostil de Washington, berros de alegria de Jerusalém e uma festa que terminará muito mal para ambos.

Tradução: Katarina Peixoto
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