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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Crise social do Egipto: Prosperidade financeira para investidores...

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… e especuladores da Wall Street

Uma agenda oculta por trás da decisão de Mubarak de não renunciar?

Michel Chossudovsky

A decisão de Mubarak de não renunciar foi tomada em estreita colaboração com Washington. A administração estado-unidense, incluindo a sua inteligência, identificou cuidadosamente os cenários possíveis. Se Washington houvesse instruído Mubarak a demitir-se, ele teria obedecido de imediato.

A sua decisão de não renunciar serve inequivocamente os interesses dos EUA. Ela cria uma situação de caos social e inércia política, a qual por sua vez gera um vácuo decisório ao nível do governo.

A crise social continuada também resultou numa saída maciça de capital dinheiro. Mais concretamente, o que isto significa é que as reservas oficiais de divisas estrangeiras estão a ser confiscadas pelas principais instituições financeiras.

A pilhagem da riqueza monetária do país é uma parte integral da agenda macroeconómica. O governo recém-formado por instruções de Washington não tomou passos concretos para restringir o fluxo maciço de saída de dinheiro. Uma crise social prolongada significa que grandes quantias de dinheiro serão apropriadas.

Segundo fontes oficiais, o Banco Central do Egipto tinha (antes do movimento de protesto) 36 mil milhões de dólares em reservas de divisas estrangeiras bem como US$21 mil milhões adicionais em depósitos juntos a instituições bancárias internacionais as quais diz-se constituírem as chamadas "reservas não oficiais". (Reuters, 30/Janeiro/2011).

A dívida externa do Egipto, que aumentou em mais de 50 por cento nos últimos cinco anos, é da ordem dos 34,1 mil milhões (2009). Isto significa que estas reservas do Banco Central são de facto baseadas em dinheiro emprestado.

No princípio de 2010 houve um grande influxo de depósitos a curto prazo (hot money) em instrumentos de dívida do governo egípcio.

Divisas estrangeiras fluem para dentro do país e são trocadas por libras egípcias (E£), as quais são então utilizadas por investidores institucionais e especuladores para comprarem títulos do governo e títulos do tesouro de alto rendimento (denominados e libras egípcias) com taxas de juro a curto prazo da ordem dos 10 por cento.

A taxa de juro a longo prazo dos títulos do governo disparou para 7,2 por cento no início do movimento de protesto. (Egypt Banks to Open Amid Concern Deposit-Run May Weaken Pound, Lift Yields - Bloomberg, January 2, 2011)

No início da crise, os investidores internacionais possuíam cerca de US$25 mil milhões de títulos egípcio, quase um quinto do total do mercado de títulos do Tesouro e cerca de 40 por cento do mercado interno de títulos. Os investidores estrangeiros também representavam cerca de 17 por cento do movimento do mercado de acções e possuíam cerca de US$5-US$6 mil milhões de acções egípcias. (Ibid)

Sob o seu acordo com o FMI, não é permitido ao Egipto implementar controles de divisas estrangeiras. Estes depósitos de dinheiro a curto prazo estão agora a deixar o país pois antecipam uma desvalorização da libra egípcia. Nos dias que antecederam o discurso de Mubarak, a fuga de capital estava a verificar-se a várias centenas de milhões de dólares por dia.

Numa ironia amarga, por um lado o Egipto deposita US$21 mil milhões junto a bancos comerciais como "reservas não oficiais", enquanto estes bancos comerciais adquirem US$25 milhões de dívida em libras egípcias, com um rendimento da ordem dos 10 por cento. O que isto sugere é que o Egipto está a financiar o seu próprio endividamento.

O movimento de protesto arrancou num feriado bancário. Enquanto o encerramento do mercado de acções e do sistema bancário interno pôs uma tampa temporária sobre a saída de capital, grandes quantias de capitais em fuga instrumentados pelas principais instituições financeiras já haviam ocorrido nos dias que se seguiram ao movimento de protesto.

O sistema bancário do Egipto reabriu a 5 de Fevereiro, o que levou a um processo renovado de fuga de capital resultando no esgotamento das reservas do banco central e num aumento correspondente da dívida externa do Egipto.

Uma desvalorização de pelo menos 20 por cento está a ser considerada. Segundo a divisão de divisas de mercados emergentes, "a libra poderia 'facilmente' cair outra vez em 50 por cento ou mais para E£9 por US dólar". FT.com / Currencies - Banks weigh risk of capital flight, February 1, 2010)

Uma desvalorização de mais de dez por cento arruinaria o estrago social. Os preços internos dos alimentos estão dolarizados. Se houver uma desvalorização da libra egípcia, isto inevitavelmente dispararia um aumento renovado dos preços de bens alimentares essenciais, levando a um novo processo de empobrecimento.

Um cenário de desvalorização da divisa, dívida externa ascendente junto com um pacote renovado pacote do FMI patrocinando medidas de austeridade levaria inevitavelmente a um agravamento da crise social e a uma nova onda de protestos.

O recém-nomeado ministro das Finanças, Samir Radwan, está comprometido firmemente com o Consenso de Washington, o qual tem servido para empobrecer o povo egípcio. Numa declaração contraditória em 3 de Fevereiro, Radwan confirmou que "o governo não reduzirá subsídios mesmo que os preços globais de alimentos e commodities ascendam. A despesa pública será utilizada como uma ferramenta para "alcançar justiça social", disse ele numa conferência no Cairo. (Bloomberg, 5/Fevereiro/2011)

Radwan está a obedecer às linhas mestras do FMI-Banco Mundial: não serão aplicadas restrições à fuga de capital. O Banco Central assegurará a conversão de depósitos a curto prazo em divisas fortes por parte das principais instituições financeiras. Os cofres do banco central serão saqueados.

Com a fuga de capitais, a dívida interna é transformada em dívida externa, colocando o país sob o domínio de credores estrangeiros:

Radwan disse que o Egipto honrará as suas obrigações de dívida e instou os investidores estrangeiros a terem confiança no país. "Todos os títulos de obrigações, tudo será honrado ao seu tempo", disse Radwan numa entrevista telefónica de 4 de Fevereiro a partir do Cairo. "Nós não estamos a incumprir qualquer das nossas obrigações". (Bloomberg, 5/Fevereiro/2011)

Numa ironia amarga, a decisão de Mubarak de permanecer como chefe de Estado com a aprovação de Washington serviu os interesses de investidores institucionais, comerciantes de divisas e especuladores.

06/Fevereiro/2011

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23099

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