domingo, 6 de março de 2011

SALVAR O(S) REI(S)

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MARTINHO JÚNIOR

No momento em que o petróleo dos países árabes (Médio Oriente e Norte de África), segundo o que numerosos analistas vão sustentando, inicia a curva descendente após o “pico de Hubert”, interligando-se ao encadeado da crise global provocada pelo neo liberalismo, a todo o transe a hegemonia procura salvar o(s) rei(s)!

Em primeiro lugar o rei e a monarquia da Arábia Saudita, depois os reis e as monarquias da Jordânia e de Marrocos, por fim os senhores e as monarquias “periféricas” dos Emiratos Árabes Unidos, de Bahrein, de Mascate e Oman… (1)

… Por fim e ali onde houve monarquias mal paradas que passaram à história, começam por “ressuscitar a bandeira”, conforme à expressão histórica colonial da Líbia…

É evidente que sobre aqueles que nada têm a ver com monarquias, emiratos, sultanatos e outros “derivados”, os riscos são maiores: enquanto nos regimes feudais e manifestamente anti democráticos (ainda que tisnados com os benefícios das sociedades de consumo modernas) as elites estão consolidadas de geração em geração com as “sucessões naturais” mobilizando as tribos à boa maneira de Lawrence da Arábia (o Cecil John Rhodes do petróleo), nas “repúblicas bananeiras” da região a cosmética de democracia “não chegou para as encomendas”…

Assim é que na Tunísia, no Egipto, na Argélia, no Iémen e no Irão, sem deixar de descurar as características diferenciadas das respectivas sociedades, bem como as características dos poderes respectivos, as vocações para a revolta se instalaram num multiplicado “efeito dominó” e ainda sem quaisquer prejuízos para as conveniências da hegemonia (que integram as multinacionais do petróleo anglo-saxónicas).

Na Líbia uma revolta redundante da cisão do poder vai assumindo contornos tribais e divisionistas, pondo em causa a soberania nacional, com indícios de regresso ao estágio colonial do Rei Idris…

No que toca à monarquia saudita já por diversas vezes fui chamando a atenção para a evidência dum Tratado jamais declarado, o “Tratado Quincy”.

Ainda há um ano publiquei o “Zip Zip 22 – Iraque, Iraque, 75 anos depois” (voltei a publicá-lo recentemente com notas adicionais) em que entre outras coisas reflectia sobre o papel do encontro entre o Presidente Franlin D. Rossevelt e o rei Ibn Saud, a 14 de Fevereiro de 1945, a bordo do cruzador pesado USS Quincy atracado na cidade egípcia do Suez, na construção das linhas geo estratégicas mestras que ocorreram imediatamente antes da gestação de Israel, linhas estratégicas essas gizadas a partir das engenharias humanas e elitistas de poder sobre as explorações de petróleo da península Arábica tendo como fulcro o Reino da Arábia Saudita. (2)

É fundamental para os procedimentos da hegemonia garantir a vitalidade política e social da “casa Saud” e isso levando em consideração as pressões humanas que se vão arquitectando. (3)

Efectivamente, em 75 anos, quatro ou cinco gerações volvidas, há profundas transformações humanas em todos os países onde há matérias-primas (petróleo e minerais) e a Arábia Saudita não foge à regra, ainda que as monarquias conservadoras e devotadamente anti-democráticas, monarquias que arrastam uma clientela “sem limites”, estejam aparentemente consolidadas e aferidas aos interesses da aristocracia financeira mundial ao ponto das finanças do reino terem sido em parte entregues a apêndices discretamente conectados a Israel.

Na Arábia Saudita as políticas de portas abertas aos investimentos externos, privilegiando os de origem norte americana no sector do petróleo e do gás, não esperaram pelo advento neo liberal: essas políticas são parte integrante das orientações seguidas à risca pela “casa Saud” e podem-se constatar na própria história da ARAMCO, como nos dispositivos de algumas multinacionais norte americanas, entre as quais destaco o “Carlyle Group”, onde até as famílias Bush e Bin Laden têm capitais associados. (4)

É evidente que o tandem James Baker – George Soros também tem interesses próprios na Arábia Saudita, mas a “Open Society” nas Arábias abstém-se na proliferação das “revoluções coloridas”: não há “revolução colorida” na Arábia Saudita, por que as manipulações dialécticas do “modelo” não podem pôr em causa a “casa Saud”, muito pelo contrário, obedientemente há que alinhar com a cultura monárquica e feudal, “sem limites”. (5)

A monarquia da Jordânia é outro dos “tabus”: o facto da Jordânia ter encaixado dentro dos limites do reino hachemita uma parte substancial de palestinos, obriga a que o “modelo” não seja tocado, ou submetido a desestabilização, em benefício dos interesses do artifício que constitui Israel e particularmente dos interesses dos seus falcões. (6)

Sinais de alarme tocaram mesmo assim em Aman, pois as divisões e insatisfações tribais acabam por ir afectando um equilíbrio “executivo” precário que condiciona rei e monarquia, mas não põe em causa os seus alicerces.

O rei substituiu o Primeiro Ministro na Jordânia logo que surgiram esses sinais de alarme. (7)

Há um aumento de riscos, mesmo assim a monarquia, para pelo menos alguns analistas (entre eles alguns próximos do Itamaraty do Brasil), sobreviverá sem grandes sobressaltos. (8)

A situação em Marrocos é económica e socialmente complexa, por razões inerentes ao país e pelo facto de Marrocos ter assumido o ónus colonial sobre o Sahara; mesmo assim, Marrocos teve na Argélia uma “almofada amortecedora” do choque que se estabeleceu na tríade Tunísia-Líbia-Egipto. (9)

Protegido pela interposição argelina da vaga de revoltas que se instalou a leste em “efeito dominó”, os protestos em Marrocos, que não beneficiaram duma cisão no poder, existem de forma “relativamente moderada” sem interferência dos tentáculos distendidos pela “Open Society” que não põem logicamente em causa a monarquia que tem exercido essencialmente a repressão sobre o povo saharaui e também sobre seu próprio povo.

O facto da situação em Marrocos poder-se reflectir sobretudo no canto sudoeste da Europa, na península Ibérica, incentiva a OTAN e a Espanha a um conjunto de medidas especiais sob cobertura da luta contra o terrorismo e luta contra a emigração ilegal, tal como a Itália em relação aos acontecimentos na Tunísia e na Líbia.

As monarquias árabes, apesar das revoltas que vão eclodindo no norte de África e no Médio Oriente, estão ainda para durar: as explosões sociais em estados republicanos ou em países periféricos da Arábia Saudita, possibilitam à hegemonia anglo-saxónica, pelo menos por agora, “salvar o(s) rei(s)”, fazendo muitas contas à vida para manter o espectro colonial.

Um dia que as revoltas estalem na Arábia Saudita, todo o mundo será economicamente afectado, menos aqueles que se têm dedicado há dezenas de anos à especulação financeira, entre eles George Soros! (10)

Por isso mesmo não é por acaso que os revoltosos da Líbia se estejam a propiciar rever na bandeira do Rei Idris: por muitos erros que Kadafi tenha cometido, uma revolta conservadora só poderá perfilhar os interesses das multinacionais anglo-saxónicas, aquelas que menos representatividade tiveram com o regime que querem agora apear, ou seja, “salvar o(s) rei(s)” por que com eles “salvam” o que lhes vai na alma – uma ilimitada, obsessiva e opressiva vontade de domínio absoluto nos acessos e nas vias disponíveis para a exploração e transporte do petróleo em todas e por todas as latitudes da Terra. (10)

Os “reis” estão a salvo, com o sacrifício de “torres” como Ben Ali e Mubarak!

Martinho Júnior - 3 de Março de 2011

Notas:
- (1) – Iraque, Iraque, 75 anos depois – Martinho Júnior – Página Um – http://pagina--um.blogspot.com/2011/03/iraque-iraque-75-anos-depois.html
- (2) – Ibn Saud – Wikipedia –
http://en.wikipedia.org/wiki/King_Abdul_Aziz
- (3) – King of Saudi Arabia – Wikipedia -
http://en.wikipedia.org/wiki/Kings_of_Saudi_Arabia
- (4) – Les liens financiers occultes des Bush et des Ben Laden – Thierry Meyssan – Reseau Voltaire –
http://www.voltairenet.org/article7613.html ; Le Carlyle Group, une affaire d’initiées – Réseau Voltaire – http://www.voltairenet.org/article12418.html ; Carlyle Group - Réseau Voltaire – http://www.voltairenet.org/mot120862.html?lang=fr ; Saudi Aramco – Wikipedia – http://en.wikipedia.org/wiki/ARAMCO#History
- (5) – Amizade de risco – Joshua E. Keating –
http://blog.controversia.com.br/2011/03/02/amizade-de-risco/ ; As elites e os estados árabes – Reginaldo Nasser – Carta Maior – http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17496&boletim_id=847&componente_id=13846
- (6) – História da Jordânia – Wikipedia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Jord%C3%A2nia
- (7) – Na Jordânia, a insatisfação toma conta das tribos, pilar da monarquia hachemita –
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=8090 ; Após protestos o Rei da Jordânia nomeia novo 1º Ministro – O Globo – http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/02/apos-protestos-rei-da-jordania-nomeia-novo-primeiro-ministro.html
- (8) – Especialistas em Oriente Médio vêem limites à “primavera árabe” – Itamarati – http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-estado-de-sao-paulo/2011/02/07/especialistas-em-oriente-medio-veem-limites-a
- (9) – La poudriere Maroc – Ignatio Ramonet – http://www.medelu.org/spip.php?article111 ; Queda dos regimes árabes pode influenciar reformas no Marrocos - deputado – http://pagina--um.blogspot.com/2011/02/queda-dos-regimes-arabes-pode.html
- (10) – George Soros, spéculateur et filantrope – Réseau Voltaire – http://www.voltairenet.org/article11936.html#article11936
- (11) – Quand flottent sur les places libyennes les drapeaux du roi Idris – Manlio Dinucci – Réseau Voltaire –
http://www.voltairenet.org/article168674.html
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