terça-feira, 30 de novembro de 2010

Portugal está numa "situação humilhante" - D. Duarte Bragança

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PRM - LUSA

Lisboa, 30 nov (Lusa) - Portugal "encontra-se numa situação humilhante perante a comunidade internacional e perante nós" e uma possível intervenção do FMI "põe em causa a soberania", afirmou D. Duarte de Bragança em entrevista à Agência Lusa.

Para o Chefe da Casa Real, a possibilidade de intervenções de "organizações multinacionais" como o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional é "humilhante" e "põe em causa a nossa soberania de forma humilhante".

"A humilhação "é termos de (ir) pedir a outros para nos safarmos da situação económica difícil em que estamos", acrescentou D. Duarte de Bragança, sublinhando que o recurso a instituições internacionais "não é nada inevitável".

O Chefe da Casa Real adiantou que numa mensagem aos portugueses por ocasião das comemorações da Restauração da Independência, que se assinala a 01 de dezembro, critica "as constantes e confusas declarações políticas" e a "falta de autenticidade" da política portuguesa.

D. Duarte de Bragança defende, em alternativa, "um sistema mais inspirado na caridade, que é uma forma mais abrangente do que a solidariedade", um investimento maior na agricultura e uma reforma "total" dos programas de ensino.

O Chefe da Casa Real condena também "o imenso desperdício na função pública" e "os projetos megalómanos e pouco rentáveis".

Questionado sobre se se referia ao TGV, D. Duarte de Bragança explicou que "a ligação ferroviária numa linha de bitola europeia é muito útil e importante mas a nova ponte sobre o Tejo é supérflua. Pode pôr-se uma estação terminal na outra banda".

Para o herdeiro da Casa de Bragança, "o porto de Sines poderia ser o grande porto para áreas de Espanha. Mais do que os comboios de alta velocidade, o importante é o transporte de mercadorias para o resto da Europa, que creio não estar prevista no projeto de TGV", referiu o Chefe da Casa Real.

D. Duarte de Bragança referiu ainda que a situação de crise profunda do país "reforça a legitimidade monárquica".

*** Este texto foi escrito com base no novo Acordo Ortográfico ***
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Rio: AS VÁRIAS FACES DO CRIME

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RUDOLPHO MOTTA LIMA * – DIRETO DA REDAÇÃO

E eis-nos às voltas com a violência no nosso querido Rio de Janeiro. Amplificados ou não por uma mídia que nem sempre faz questão de distinguir a realidade do sensacionalismo e que, por isso mesmo, às vezes acaba contribuindo para estender o alcance das intenções terroristas dos criminosos, esses acontecimentos estão a merecer um posicionamento mais efetivo das autoridades e da sociedade em geral, em diversas frentes.

A evolução da violência no Rio, culminando na perplexidade que toma conta, hoje, dos cariocas, foi muito bem descrita na coluna da Leila Cordeiro. Neste primeiro momento, parece óbvio que os cidadãos conscientes têm que apoiar as medidas repressivas ao tráfico levadas a efeito pela nossa “polícia do bem” (ainda é preciso saber distingui-la), da mesma forma que foram aplaudidas as instalações das diversas UPPs, com seus esperados desdobramentos no campo social.

Nunca é demais, contudo, enfatizar que não estamos diante de um caso policial, mas de um muito sério problema estrutural de uma sociedade adoentada, cujas origens estão na miséria e na pobreza impostas a vastas camadas do povo, aliadas a uma postura de descomprometimento e abandono com que foram sendo tratados os menos favorecidos, ao longo de muitos anos. A exclusão é a mãe do crime, tendo como cúmplice a perversa convivência do poder público com a desigualdade social.

Antes das medidas desencadeadas pelo Governo Sérgio Cabral – que, mal ou bem, romperam a cadeia de passividade diante do crime organizado no Rio e, por isso, contam com o incondicional apoio da populaçao - , o único momento em que, a rigor, tentou-se uma solução de estrutura para o problema situou-se no tempo de Leonel Brizola, ao contrário do que tentam, até hoje, veicular os seus detratores. Naquele instante, entendendo-se o problema em toda a sua complexidade social e vislumbrando-se a sua extensão futura, apontava-se a Educação como um caminho de busca da solução. Os CIEPs pretendiam ser – e creio que seriam – uma alternativa à senda criminosa, com reflexos imediatos (ao retirar os jovens do convívio direto e infelizmente sedutor com o crime, no dia a dia) e mediatos (ao preparar, pela formação, uma geração capaz de rejeitar a marginalidade pela digna inserção social).

Argumentos elitistas “constitucionais”, porém, dinamitaram o projeto de Darcy Ribeiro, alegando que não se podia gastar tanto dinheiro assim em algumas escolas públicas de tempo integral, já que não se podia fazer o mesmo com todas, ferindo, assim, o princípio “democrático” da igualdade. Mas é claro que ali se iniciava um processo que se poderia disseminar, através de políticas públicas que, aumentando as verbas para a Educação, chegassem à universalidade de procedimentos. De qualquer forma, a argumentação revelava uma preferência pelo nivelamento por baixo, que acabou prevalecendo até hoje...

Esse ponto de vista – fundado na insensibilidade e em uma certa perversidade ideológica – é usual em um segmentos privilegiados da sociedade. Nunca se manifesta claramente , mas, reduzido à sua simplicidade, no caso em questão, poderia ser sintetizado em uma pergunta retórica daqueles cujos filhos estudam nos melhores colégios : “Por que temos que pagar impostos para beneficiar essa gente com colégios caros e de qualidade exagerada?”. Acho que essa pergunta começa a ser respondida, embora à custa da tragédia...

Acredito que é preciso denunciar, também, dentro da complexidade que o assunto envolve, a responsabilidade de componentes da sociedade civil que, por ação ou omissão, alimentam o crime, fortalecem o tráfico. E aí é interessante chamar a atenção para o fato de que a mídia , o Estado, as igrejas omitem-se claramente quando se trata de enfocar com vigor os usuários das drogas, sem os quais estas não existiriam e, por consequência, o tráfico. Parece haver pouca disposição para enfrentar esse lado da questão, preferindo-se, convenientemente, ver nos usuários apenas dependentes e doentes, sem responsabilidade direta pelos seus atos. É há matizes diferentes, quando isso é abordado. O pobre drogado pelo crack aparece em múltiplas reportagens de “denúncia” , mas pouco se fala dos ricos e endinheirados, o pessoal da classe média alta, os ricos e famosos de todo gênero, que só os ingênuos desvinculam dos tóxicos. Mas todos – e os que tiveram um berço dourado mais ainda – são cúmplices do crime e respondem solidariamente pelas incêndios, balas perdidas, assassinatos, roubos e tudo mais que o ambiente do tóxico engendra.

A sociedade está doente, e o Rio de janeiro apenas reflete essa doença, que, penso, passa pela marca egocêntrica dos nossos tempos de afirmação hedônica dos prazeres do corpo, pela busca da satisfação individual a qualquer preço e risco, pela permissividade generalizada de uma família pulverizada que está perdendo o controle sobre os seus jovens (em crescente processo de alienação). Tudo isso, a meu ver, funciona como nutriente para a disseminação do uso da droga. É não se resolverá com forças policiais e armamentos pesados.

Ao lado das conjunturais ações que tentam , literalmente, apagar incêndios, as diversas instituições têm que atuar na esfera que lhes cabe, com contribuições permanentes para o esclarecimento e a conscientização dos males individuais e sociais causados pela droga. É óbvio que o vício não se extinguirá por força dessas ações, mas poderá ser minorado. O que não se pode é esquecer que a própria sociedade “honesta e trabalhadora” tem segmentos que alimentam o tráfico e sustentam o crime.

A solução paliativa imediata do problema do Rio pode vir com as ações policiais, Acredito que virá. Mas uma solução definitiva está longe de vir. Só virá com políticas de saúde de peso e com a disseminação da Educação , não apenas a que se aprende nas escolas – de que se beneficiarão os mais pobres – mas também aquela que se extrai da vida – e essa está sendo necessária para todas as camadas da sociedade.

* Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.
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Brasil – GUERRA NO RIO DE JANEIRO CONTRA A CRIMINALIDADE

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Fabiano Atanásio da Silva, o FB, entre dois criminosos conhecidos como Beirola (à esquerda) e Biscoito: traficante teria perocrrido 1 km dentro do esgoto com comparsas Foto: Reprodução

Policiais encontram galeria pluvial
onde FB e Mica teriam fugido do Alemão

ISABEL BOECHAT – O DIA – 30 novembro 2010

Rio - Policiais civis da 9ª DP (Catete) encontraram uma galeria pluvial onde os traficantes Fabiano Atanázio da Silva, o FB, e Paulo Roberto de Souza Paz, o Mica, e outros 50 criminosos teriam fugido do cerco das forças de segurança durante a ocupação Complexo do Alemão.

FB e Mica acessaram a galeria ainda na Favela da Grota, no Conjunto de Favelas do Alemão, atrás de uma creche próxima à rua Itararé. Após percorrer 1km dentro das manilhas de esgoto, o bando saiu na altura da Rua Arapá, acesso ao Morro do Adeus, única favela do complexo não ocupada por forças de segurança.

Para garantir a fuga de FB e Mica, traficantes iniciaram um intenso confronto com o objetivo de desviar a atenção dos policiais. De acordo com moradores, o bando teria conseguido escapar por volta de 22h30 da noite de sábado.

Prioridade é retomada de territórios, não prisão de chefes do tráfico

As operações da Polícia Civil continuam, mas segundo Turnowski o foco é reconquuistar territórios dos complexos da Penha e do Alemão e não a prisão de líderes do tráfico de drogas em comunidades destes conjuntos.

"Nosso foco é na retomada do Alemão e do Complexo da Penha e não a prisão de líderes de facções ou do comércio de drogas. Os líderes não vão para a rua para roubar, mas sim o segundo e o terceiro escalões de bandidos. Os chefes vão ser presos, não tenha dúvida, mas o que importa são os territórios", afirmou Allan Turnowski, chefe de Polícia Civil.

Ataques começaram no domingo ao meio-dia

A onda de ataques violentos no Rio e Grande Rio começou no domingo 21 de novembro, por volta do meio-dia, na Linha Vermelha, quando seis bandidos armados com cinco fuzis e uma granada fecharam a pista sentido Centro, altura de Vigário Geral. Os criminosos, em dois carros, levaram pertences de passageiros e queimaram dois veículos, após expulsarem os ocupantes. Para o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, as ações criminosas são uma reação contra a política de ocupação de territórios do tráfico, por meio das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e a transferências de bandidos para presídios federais em outros estados.

Na manhã da segunda-feira, cinco bandidos armados atacaram motoristas no Trevo das Margaridas, próximo à Avenida Brasil, em Irajá, também na Zona Norte. Os criminosos roubaram e incendiaram três veículos. No mesmo dia, criminosos armados com fuzis atiraram em uma cabine da PM na rua Monsenhor Félix, em frente ao Cemitério de Irajá. A PM acredita que o incidente tenha sido provocado pelos mesmos bandidos que haviam incendiado os três carros na mesma manhã. À noite, traficantes incendiaram dois carros na Rodovia Presidente Dutra, na altura da Pavuna. Foi o quinto ataque a motoristas em menos de 48 horas. Na Zona Norte, outra cabine da Polícia Militar foi metralhada.

No dia seguinte, as polícias Militar e Civil se uniram para reforçar o patrulhamento pelas ruas do Rio. O efetivo foi redobrado para controlar os ataques dos bandidos. A operação, que se chamou 'Fecha Quartel', suspendeu todas as folgas dos policiais militares do Rio de Janeiro. Mais de 20 favelas foram invadidas e armas e drogas foram apreendidas. Bandidos foram presos e alguns criminosos mortos em confronto com agentes.

Na quarta-feira 24 de novembro, novos ataques: ônibus, van e carros foram incendiados na Zona Norte do Rio, Baixada Fluminense e Niterói. Sérgio Cabral, governador do Rio, desafiou os bandidos: 'Não há paz falsa. Não negociamos'. Em uma reunião de cúpula da Segurança Pública do Estado, ficou decidido que a Marinha daria apoio logístico às operações de resposta aos ataques de bandidos.

Em mais um dia de veículos incendiados espalhados pela cidade, mais de 450 homens - entre polícias Militar e Civil e fuzileiros da Marinha, com o apoio de blindados de guerra da força naval, tomaram a Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Emissoras de tv mostraram, ao vivo, centenas de bandidos armados fugindo para comunidades vizinhas. Cenas históricas que mostraram a atual situação do Rio de Janeiro. Na sexta-feira 26 de novembro, o Exército e a Polícia Federal entraram na batalha. No sábado, uma chance para traficantes locais. A Polícia Militar tentou a rendição dos cerca de 600 bandidos que estariam no Complexo do Alemão. Exatamente às 7h59 deste domingo, o comando da PM ordenou a invasão e poucos mais de 1 hora depois, o Estado comunicava que o conjunto de favelas estava tomado.
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África: 15 conflitos numa década milhões de mortos e desalojados

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NOTÍCIAS LUSÓFONAS – 29 novembro 2010

No âmbito da Lusofonia destacam-se a instabilidade na Guiné-Bissau e a situação na colónia angolana de Cabinda

Mais de 15 situações de guerra ou instabilidade abalaram o continente africano a sul do Sahara na última década, provocando milhões de mortes e desalojados e prejuízos incalculáveis. Na altura em que começa mais uma Cimeira União Europeia – África, na Líbia, a Somália é um dos casos mais preocupantes, depois do recrudescer de ataques dos islamitas do movimento A-Shabaab.

A Somália vive em conflito desde 1991, na sequência da queda do Governo de Siad Barre, que envolve milícias e várias facções militares, em disputa pelo poder. A presença de forças militares internacionais (União Africana) e o esforço de mediação da comunidade internacional não tiveram até agora resultados.

Madagáscar vive em tensão permanente, desde que em Março do ano passado Andry Rajoelina tomou o poder pela força, derrubando o Presidente Marc Ravalomanana. Há duas semanas registou-se uma tentativa de golpe de Estado e até agora falharam todas as tentativas diplomáticas para levar a normalidade institucional ao país.

O Sudão está também envolvido numa crise que envolve o Governo e o Movimento Popular de Libertação do Sul, que quer a autonomia da região sul. Os olhos estão postos num referendo a ser realizado em 2011, mas entretanto milhares de pessoas já foram desalojadas da região de Abyei, rica em petróleo, desde o processo de paz de 2005.

Na mesma região, o Darfur é outra zona frágil. Milícias e o Governo central do Sudão e o Chade (acusado pelo Sudão de dar apoio às milícias) envolveram-se numa disputa de terra arável. Os acordos de cessar-fogo e de paz não foram eficazes.

Omar Al-Bashir, Presidente sudanês, é alvo de mandatos de detenção do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e genocídio no Darfur.

Do Uganda chegaram os confrontos entre o Governo e o Exército de Libertação do Senhor, apoiado pelo Sudão, numa espécie de vingança pelo apoio ugandês à libertação do sul do Sudão. E da Etiópia e Eritreia chegou mais um conflito de fronteiras, mil quilómetros disputados e uma guerra sangrenta desde 1998, terminada dois anos depois (acordos de Argel), mas desde então zona de tensão.

Tensão também no Zimbabué, entre os partidos ZANU-PF, de Robert Mugabe, e o MDC, na República Centro Africana (após golpe de Estado de 2003), ou até no Lesotho, com eleições em 2012 e onde os golpes de Estado ou tentativas são frequentes desde a independência, em 1966.

Nesta década instabilidade também em S. Tomé e Príncipe, na Guiné-Bissau, em Angola (na colónia de Cabinda), na Mauritânia (entre militares e partidos políticos), e na Guiné Conacri, depois da morte de Lansana Conte em 2008.

E não muito distantes no tempo ainda casos como o da RDCongo, envolvendo o Presidente Laurent Kabila, os movimentos MLC e grupos de guerrilha. O acordo de paz foi alcançado em 2002, mas persistem acções de guerrilha no leste do país.

Na Costa do Marfim, o Governo e três movimentos rebeldes envolveram-se em guerra em 2002, na sequência da morte do Presidente Félix Boigny, e no Burundi rivalidades étnico-religiosas (entre hutus e tutsis) envolveram o Governo e uma fação do Partido de Libertação do Povo Hutu. A paz teve vários impasses nesta década, apesar do acordo de Dar-Es-Salaam, de 7 de Setembro de 2006.
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

EUA: A NAÇÃO NOJENTA *

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ONU CUMPLICE E ACOBARDADA *

ONU conta com o respeito pela sua imunidade

JORNAL DE NOTÍCIAS 29 novembro 2010

A ONU conta com o respeito dos países-membros pela sua imunidade, após a publicação de documentos norte-americanos, segundo os quais Washington terá pedido aos seus representantes para espiar os líderes da organização.

"A ONU não está em condições de comentar a autenticidade do documento que terá pedido a recolha de informações sobre os funcionários da ONU e as suas actividades", indicou o porta-voz num comunicado, após a publicação por vários diários de documentos revelados pelo site Wikileaks.

O jornal britânico "The Guardian" escreveu que o departamento de Estado norte-americano pediu, numa directiva aos seus diplomatas, a recolha de informações sobre a "forma de trabalhar e de tomar decisões" do secretário geral da ONU, Ban Ki-moon.

Segundo o diário londrino, Washington reclama igualmente informações muito precisas sobre funcionários das Nações Unidas, como números de cartões bancários, endereços electrónicos, números de telefone e mesmo números de cartões de fidelidade junto de companhias aéreas.

"A ONU é pela sua natureza uma organização transparente que faz questão de colocar a informação sobre as suas actividades ao alcance do público e dos países-membros", afirmou o comunicado.

"Os funcionários da ONU reúnem-se regularmente com os representantes dos países-membros para os informar das suas actividades", acrescentou.

O comunicado sublinhou que a carta da ONU, nos termos da qual a sua sede foi estabelecida em Nova Iorque, e a Convenção das Nações Unidas de 1946 garantem "privilégios e imunidade" à organização.

"A ONU conta com o respeito dos Estados-membros relativamente a esses diferentes acordos", acrescentou o comunicado, sem mencionar os Estados Unidos.

* Títulos anexado ao tema por FB
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Portugal: VIOLÊNCIA SOCIAL PODE VIR DOS DESEMPREGADOS

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MRA ALIANCE – 28 novembro 2010

O presidente do Instituto de Segurança Social rejeita a idéia de alarme social, mas não nega que a situação social que vivemos pode redundar em violência a prazo, “não por parte dos mais pobres, que sempre viveram em situação de carência, mas daqueles que já tiveram uma vida equilibrada e agora se vêem privados daquilo de que já desfrutaram”. Lembra mesmo que “é preciso não esquecer que metade dos cerca de 600 mil desempregados, perto de 300 mil pessoas, não têm já direito a subsídio e isso é preocupante”.

Edmundo Martinho, coordenador nacional do Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social, foi o orador convidado da sessão de encerramento do ciclo de seminários sobre “Pobreza e Exclusão Social”, promovido pelo Montepio.

O presidente do ISS também revelou o cálculo mais recente do número de sem-abrigo existentes em Portugal: 2.200. Na opinião de Edmundo Martinho, torna-se “mais barato resolver os seus problemas do que tratá-los [associados a doenças mentais, estupefacientes e estruturas familiares estilhaçadas]”.

Ao nível dos apoios sociais, o especialista afasta a ideia, enraizada na sociedade, relativa ao elevado grau de fraude no Rendimento Social de Inserção (RSI), limitado a um máximo de 190 euros por pessoa, e aponta o dedo a outro tipo de apoios, como o subsídio de doença, o qual não tem ‘plafond’.

Edmundo Martinho descreve um caso, do seu conhecimento, relativo a “um grupo de sete/oito pessoas que, habilmente, criou várias empresas. Numas eram trabalhadores por conta de outrem e noutras gerentes. Nas primeiras, auferiam salários de 20 a 25 mil euros mensais. A empresa declarava as remunerações mas, efetivamente, não as pagava. Uma dessas pessoas apresentou um pedido de subsídio de maternidade de 60 mil euros mensais. Fomos averiguar e desmascarámos a tentativa de fraude. A senhora era administradora em três empresas e trabalhadora noutras três e ganhava 20 mil euros por mês em cada uma delas. Quem faz isso não são os pobres, mas pessoas com qualificações e apoio jurídico. Alguns até utilizam consultores”, concretiza.

MRA Alliance/DE
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EUA: A NAÇÃO NOJENTA *

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Informação revelada pela Wikileaks entala os EUA

Augusto Correia * - Jornal de Notícias

O site Wikileaks, que já divulgara documentos classificados pelo Governo dos EUA sobre as operações militares no Afeganistão e no Iraque, libertou cerca de 250 mil novos documentos que "constituem a maior fuga de informação secreta de toda a história".

Ignorando os avisos de Washington, mas, precavendo-se contra a reacção da Casa Branca e do Pentágono, que poderiam neutralizar o acesso ao site - que ontem, domingo, esteve incessível -, a Wikileaks libertou a informação a alguns jornais de referência e línguas várias: El País (espanhol), Le Monde (francês), The Guardian e New York Times (língua inglesa) e Der Spiegel (alemã).

A Casa Branca condenou "veementemente" a divulgação "irresponsável e perigosa", alegando que "tais revelações colocam em risco diplomatas, os serviços secretos e as pessoas que apelam aos EUA para que promova a democracia e um Governo transparente".

Segundo o El País, "o alcance destas revelações é de tal calibre que, seguramente, se poderá falar de um antes e um depois, no que diz respeito aos hábitos diplomáticos".

Na lista dos 15 mil documentos a que o El País teve acesso, de um total de 250 mil, há "comentários e relatórios elaborados por funcionários norte-americanos, com uma linguagem muito franca, sobre personalidades de todo o mundo".

Destaca-se, por exemplo, a suspeita norte-americana de que a política russa está nas mãos de Vladimir Putin, "que é considerado um político de perfil autoritário, cujo estilo pessoal machista lhe permite relacionar-se perfeitamente com Silvio Berlusconi".

Do primeiro-ministro italiano, revelam-se pormenores das suas "festas selvagens" e manifesta-se "a desconfiança profunda que desperta em Washington".

A diplomacia norte-americana demonstra também "pouco apreço" pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy, cujos movimentos para criar obstáculos à política externa dos Estados Unidos são "meticulosamente seguidos".

Os documentos "oferecem uma perspectiva inédita das negociações de bastidores tais como as praticam as embaixadas em todo o mundo", observa o New York Times.

O diário britânico The Guardian indica, por exemplo, que o rei Abdallah da Arábia Saudita instou os Estados Unidos a atacarem o Irão para pôr fim ao programa nuclear iraniano.

No conjunto dos mais de 250 mil telegramas do departamento de Estado dos Estados Unidos que abrangem um período até Fevereiro de 2010 e que incidem, na maioria, sobre os últimos dois anos, há ainda referências à Chanceler alemã, Angela Merkel, considerada "pouco criativa".

O secretário-geral da ONU, Ban ki-Moon, os seus assistentes e equipas, as agências da ONU, suas embaixadas e as organizações não governamentais ficaram, assim, sob a permanente espionagem dos diplomatas norte-americanos.

O correio diplomático divulgado pela Wikileaks reproduz os rumores sobre a suposta corrupção do primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan.

Num despacho datado de Maio de 2009, a embaixadora norte-americana Anne W. Patterson afirma que as autoridades paquistanesas recusaram uma visita de especialistas dos EUA às instalações nucleares no Paquistão.

Os documentos revelam, ainda, a forma curiosa como os diplomatas norte-americanos vêem alguns dos líderes mundiais. Da "pele fina" de Sarkozy aos "aspecto flácido" de Kim Jong-II.

* Com Lusa

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A DESCOBERTA DE PETRÓLEO EM MOÇAMBIQUE

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ANTÓNIO LUVALU DE CARVALHO – JORNAL DE ANGOLA

Após alcançar a estabilidade política, os adventos da paz se fazem sentir a todos os níveis na pátria de Samora Machel. Antiga colónia e província ultramarina de Portugal, Moçambique teve a sua independência a 25 de Junho de 1975. Faz parte da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral), da Commonwealth (Associação de Estados e de Territórios Autónomos com forte ligação ao Reino Unido tendo como elo de ligação a língua inglesa), da Organização da Conferência Islâmica e da ONU (Organização das Noções Unidas).

Após a assinatura do Acordo Geral de Paz em Roma, a 4 de Outubro de 1992, pelo então Presidente da República, Joaquim Chissano, e Afonso Dhlakama, presidente da RENAMO, e por representantes dos mediadores, a Comunidade de Santo Egídio, da Itália, acordo esse que pôs fim a 16 anos de guerra civil, Moçambique passou para uma fase de reconstrução nacional que previa a recuperação de tudo o que foi destruído pela guerra e de recuperação de empresas estratégicas. É neste processo que após várias negociações, a 31 de Outubro de 2006, o Estado português vendeu parte da participação de 82 por cento que detinha no consórcio da barragem de Cahora Bassa, ao Estado moçambicano, por 740 milhões de euros, ficando apenas com 15 por cento do capital. Os restantes 85 por cento passaram a caber ao Estado moçambicano, em troca de 950 milhões de dólares.

O acordo foi assinado entre o Primeiro-Ministro português, José Sócrates, e o Presidente moçambicano, Armando Guebuza, em Maputo. A última tranche do pagamento devido pelo Estado moçambicano só se realizou a 27 de Novembro de 2007, tendo a cerimónia de reversão do empreendimento para Moçambique sido realizada na vila do Songo, a 28 de Novembro de 2007. Este negócio permitiu aos moçambicanos recuperarem um dos seus maiores símbolos de orgulho nacional.

Para complementar os motivos de alegria, em entrevista ao Semanário Sol, a 17 de Agosto deste ano, a ministra dos Recursos Minerais de Moçambique, Esperança Bias, confirmou a notícia avançada pela ANADARKO Petroleum Corporation, uma companhia norte-americana com sede no Texas, que anunciou a descoberta de petróleo na Bacia do Rovuma, norte de Moçambique, não se sabendo ainda se em quantidades comercializáveis. A expectativa é de que os estudos complementares fiquem prontos ainda neste ano.

Segundo a governante, a presença de petróleo associada ao gás, naquela bacia, foi detectada a uma profundidade de 5100 metros. Esta é a primeira vez que se descobre petróleo offshore na África Oriental.

A notícia foi recebida com algumas reservas por alguns sectores da sociedade civil local. Para alguns especialistas, seria surpresa se a reserva não fosse economicamente viável. Há alguns anos já se tem a informação da presença de gás na região. Se os estudos continuaram, é porque a probabilidade de extracção comercial de petróleo é grande. Mas lembra-se que a vizinha África do Sul já passou pela decepção de encontrar petróleo e não conseguir explorá-lo. “Levar esse petróleo do mar para a terra requer investimentos extraordinários. Se o petróleo for pouco, não vale a pena”, explicou o engenheiro local Inácio Bento.

Segundo a agência Lusa, há quatro anos, a ANADARKO e as autoridades moçambicanas rubricaram um acordo para a abertura de seis furos na Bacia do Rovuma. O petróleo associado ao gás foi descoberto no terceiro furo denominado Ironclad, depois de, no segundo furo, designado Windjammer, aberto em Fevereiro último, a multinacional norte-americana ter anunciado a descoberta de gás em offshore, a uma profundidade de 3600 metros e 147 de espessura.

Para além da ANADARKO, existem mais três empresas a fazerem pesquisa e prospecção de hidrocarbonetos na bacia do Rovuma: a ENI da Itália, PETRONAS da Malásia e a STATOIL da Noruega. A ANADARKO Petroleum Corporation actua em Moçambique desde 2006 e já investiu 300 milhões de dólares nas operações de prospecção. No final do mes de Julho, a companhia anunciou outra descoberta de petróleo em África, nas águas profundas da costa do Ghana, na região de Owo, no Oceano Atlântico.

A Anadarko também faz estudos para localizar petróleo nas formações geológicas parecidas em outros pontos da costa, entre o Ghana, a Costa do Marfim, Serra Leoa e a Libéria. Os investimentos na prospecção de petróleo em Moçambique vão ultrapassar 550 milhões de euros até 2011, de acordo com as projecções apontadas nos contratos do Governo com as multinacionais petrolíferas, estima o Instituto Nacional do Petróleo.

As notícias são animadoras para o Governo moçambicano, que terá certamente o país na rota de grandes empresários interessados em investir em outros sectores da vida civil, como acontece com outros países exportadores de petróleo. É de salientar que já com alguma visão no futuro, o Governo moçambicano autorizou, a 2 de Outubro de 2007, a construção da primeira refinaria de petróleo em Moçambique, destinada a produzir 300 mil barris por dia. A construção teve início no ano de 2008.

Para além das mais recentes estimativas de petróleo, Moçambique possui das maiores reservas mundiais de gás natural. O gás natural moçambicano tem como principal destino o mercado sul-africano. Existe um gasoduto de 865 km que liga os campos de Temane e Pande a Secunda, que têm como missão primária fornecer 80 milhões de Giga Joules de gás natural que servirão para substituir o carvão como matéria-prima das indústrias químicas da SASOL em Sasolburg, para além de o suplementar na unidade de combustíveis sintéticos em Secunda.

O gasoduto é detido pela SASOL e pelos governos de Moçambique e África do Sul - serve igualmente mais de 600 consumidores industriais, nomeadamente siderurgias. É caso para se dizer que a CPLP ganha mais uma perspectiva de crescimento a nível dos recursos naturais o que, aliado à estabilidade política e boa governação das elites dos Estados membros, torna os mercados da mesma em palcos cada vez mais atractivos não só para investimento mas também para propostas de adesão.

Descoberta de nova jazida de gás natural em Moçambique

DIÁRIO DIGITAL

"Identificámos recursos substanciais de gás natural na bacia do Rovuma", declarou Bob Daniels, vice-presidente da empresa Anadarko Petroleum Corp.

O poço de exploração Barquentine, situado na bacia do Rovuma, onde foi descoberta nova jazida deste recurso natural, foi perfurado a uma profundidade de 16 880 pés. A Anadarko Petroleum Corp dispõe de uma concessão com 10 500 quilómetros quadrados, e já havia descoberto anteriormente gás natural no poço Windjammer.

Na concessão onde foi descoberto o gás natural participam diversas empresas como a Mitsui E&P Mozambique Limited, a BPRL Ventures Mozambique B.V., a Videocon Mozambique Rovuma 1 Limited e a Cove Energy Mozambique Rovuma Offshore, Ltd., dispondo a entidade estatal Empresa Nacional de Hidrocarbonetos 15 por cento desta área de concessão.
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EUA: A NAÇÃO NOJENTA *

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Carta de Washington a Julian Assange

Administração Obama pede à WikiLeaks
que não revele comunicações que a comprometam

PÚBLICO

A Administração Obama avisou a organização WikiLeaks que a divulgação de comunicações confidenciais do Departamento de Estado colocará em risco “vidas sem conta”.

Numa medida muito pouco habitual, que reflecte as graves preocupações das autoridades norte-americanas, o Departamento de Estado distribuiu ontem à noite uma carta do seu principal advogado para o fundador da WikiLeaks, Julian Assange, a dizer que o conteúdo desta fuga de informação ameaça as operações globais de contra-terrorismo e coloca em risco as relações dos Estados Unidos com os seus aliados.

A carta do conselheiro jurídico Harold Koh para Assange e o seu advogado diz que a divulgação destes documentos será ilegal, pelo que se pede que a mesma não seja concretizada.A missiva ontem à noite divulgada afirma de igual modo que o Governo de Washington não cooperará de qualquer forma com a Wikileaks nas tentativas de triagem dos documentos que possam colocar em risco as fontes e os métodos de se obter informações secretas.

A carta de Koh foi distribuída numa altura em que diplomatas norte-americanos destacados em todo o mundo se esforçaram por avisar governos estrangeiros sobre o que poderia estar nos documentos secretos que se julga que contenham opiniões muito melindrosas sobre dirigentes mundiais, as suas políticas e as tentativas de Washington para captar a sua simpatia.

Nessa carta, o advogado do Departamento de Estado afirma que a publicação de uns 250.000 telegramas diplomáticos secretos pela Wikileaks, aguardada para as próximas horas, “colocará em risco as vidas de um número incontável de inocentes”, bem como operações militares em curso e a cooperação entre países.

Koh afirmou que a WikiLeaks deveria devolver todos os documentos à Administração norte-americana e destruir quaisquer cópias que porventura ainda possa ter em seu poder ou nas suas bases de dados devidamente computadorizadas.

Nos últimos dias, tem-se admitido que as relações dos Estados Unidos com a Rússia, a França, Israel e a Turquia, entre outras, possam ser afectadas pela publicação desta nova leva de documentos secretos.
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* Título anexado ao tema por FB
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EUA pediu para espiar ONU, território onde atividade é proibida - Wikileaks

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IM – LUSA

Lisboa, 28 nov (Lusa) - O secretário-geral das Nações Unidas foi uma das personalidades que o departamento de Estado dos Estados Unidos pediu para serem espiadas, apesar de esta organização ser um território neutral onde a espionagem está proibida, revelou hoje o sítio Wikileaks.

Além de Ban Ki-moon, os Estados Unidos também pediram informações sensíveis sobre vários embaixadores de países aliados, inclusive de países membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos não queria apenas dados pessoais, mas também dados do cartão de crédito, horários de trabalho e até informação biométrica, como impressões digitais.

O site WikiLeaks, responsável pela divulgação de outros documentos secretos sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão, divulgou hoje 250 mil telegramas diplomáticos dos Estados Unidos.

O conhecimento público dos segredos mais íntimos da política exterior dos Estados Unidos está a colocar o país numa situação sensível.

Nos últimos dias, a secretária de Estado Hillary Clintom desenvolveu uma intensa campanha diplomática para avisar vários Governos da informação sensível que ia ser divulgada.

*** Este texto foi escrito nos termos do novo Acordo Ortográfico ***
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domingo, 28 de novembro de 2010

A CIMEIRA DA NATO EM LISBOA HONROU O “ESPÍRITO DE KISSINGER”

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MARTINHO JÚNIOR

A crise avassaladora, no seguimento do que aconteceu nos Estados Unidos, vai varrendo os componentes da União Europeia, incluindo os mais poderosos: a Alemanha, a Grã Bretanha e a França.

Os sintomas de decadência provocados por um capitalismo levado ao extremo do neo liberalismo e da guerra atingem os estados e as sociedades dos países do norte duma forma sem precedentes. (1)

Para alguns dos integrantes da NATO, está a tornar-se incomportável a continuação das despesas militares ao nível a que chegaram com as guerras do Iraque e do Afeganistão – Paquistão e isto apesar das tendências da hegemonia em relação ao domínio das mais ricas regiões produtoras de petróleo do Globo.

A emergência imparável da China e a seu crescente presença na Ásia Central e no Paquistão, suplantando a influência anglo saxónica em relação aos interesses energéticos, implica em mais condicionalismo para a NATO na Euro – Ásia, mas com o contrabalanço da presença Norte Americana, que está a promover em cadeia “parcerias” para uma nova organização militar na região, voltada para fazer face à “emergência civil” da China. (2)

Essa tendência não leva em conta que a China está a seguir uma via aberta, senão integrada nos processos neo liberais em curso, (que a China é também um actor desta globalização), processos esses que se reflectem nas escolhas de seus parceiros, em muitos casos identificados com as sociais democracias (como nos relacionamentos entre o PCC e o PASOK, ou o PS, respectivamente na Grécia e em Portugal), ou com as novas elites africanas que se acolhem às premissas duma parceria dum outro tipo, de qualquer modo alternativa.

Concomitantemente a busca de alternativas em relação ao fornecimento de petróleo por parte dos estados ocidentais eminentemente capitalistas já começou há vários anos e, logo que detectei o interesse pelo Golfo da Guiné, produzi alguns artigos, uma parte deles reproduzidos no Actual primeiro, na Página Um depois. (3)

O Golfo da Guiné, mesmo com a crise do delta do Níger na Nigéria, vai assumindo um espaço cada vez maior no fornecimento de petróleo aos Estados Unidos e países Europeus e o tipo de riscos potenciais ou existentes nessa imensa região em nada se assemelham aos que proliferam como cogumelos por todo o Médio Oriente, do Mediterrâneo à Índia.

De acordo com o IASPS, inspirador no que diz respeito ao Golfo da Guiné, os Estados Unidos em 2015 irão buscar 25% do petróleo comprado no exterior ao Golfo da Guiné e isso tem significado alterações profundas nos relacionamentos dos Estados Unidos com África, o que levou inclusive à formação do Comando África do Pentágono na última fase da Administração Republicana de George Bush.

A China terá mais dificuldades no acesso ao petróleo e ao gás do Atlântico Sul, mesmo que a sua posição actual seja tão importante em África (Angola é o primeiro “parceiro” comercial), como na América Latina (assinou recentemente acordos importantes com a Venezuela e aumenta o comércio com o Brasil).

Uma NATO tocada nos seus orçamentos e levada à contenção de gastos, está cada vez mais próxima das geo estratégias norte americanas na direcção de África, da América Latina e do Atlântico Sul: ao mesmo tempo que se propõem as saídas do Iraque e do Afeganistão, quando os Estados Unidos promovem novas “parcerias” e “alianças” na Euro Ásia, torna-se cada vez mais provável projectar a interligação no Atlântico Sul, nomeadamente nos paralelos Golfos da Guiné e do México.

Essa tendência implica novas estratégias da NATO tanto em direcção ao AFRICOM, como na relação com o SOUTHCOMMAND, até por que começa a existir cada vez mais uma “coexistência” de conceitos de cariz geo estratégico, de “parcerias” e de manipulações em jeito de “vasos comunicantes” entre as três entidades e pelo menos alguns estados dos dois continentes da margem sul do Atlântico. (4)

Com efeito, na parte que diz respeito à costa Ocidental Africana, a exploração do conhecimento de Portugal sobre o continente africano, redundante aliás da guerra colonial que travou (feita sempre com sufoco orçamental), assim como os seus relacionamentos multilaterais no âmbito da CPLP e bilateral de Portugal com a Rússia, jogou um papel de inspiração para o novo conceito estratégico emergente da Cimeira de Lisboa e da inovação da parceria NATO – Rússia.

Essa tendência manifesta em determinados sectores do poder na Rússia, tendência essa que indicia ter no Presidente Medvdev particular empenho, provoca um conjunto muito alargado de potenciais perspectivas à escala global e também na direcção do Atlântico Sul, tendo em conta também as implicações que poderão acarretar para os BRIC.

Essa articulação foi criada contando também com a componente de Angola, que tem uma posição preponderante no Golfo da Guiné, uma Angola que tem um Governo de cariz “social democrata”, afeiçoado ao timbre das “novas elites” que se têm constituído a partir de 1985, muito próximo do Governo Português (entenda-se do “centro” PS e PSD) e com quem Portugal mantém “parcerias estratégicas”, inclusive a nível militar.

Em função disso o AFRICOM (que foi “inaugurado” a 1 de Outubro de 2008), estabeleceu visitas regulares a Lisboa e a Luanda, muito assíduas ao longo de 2008, tendo na sua fase inicial desempenhado papeis importantes a Sub Secretária da Defesa para os Assuntos Africanos, Theresa Whelan e a Embaixadora Mary Carlin Yates, agregada ao AFRICOM. (6)

Este ano juntou-se às “estrategas” o Director do Centro de Estudos Estratégicos para África, William Bellamy, que em Março esteve em Angola, a convite do Centro de Estudos Estratégicos de Angola e em Junho passou também por Lisboa, acompanhado pelo Sub Secretário de Estado para África, Johnnie Carson.

Em Lisboa William Bellamy participou numa Conferência em que entre outros esteve sintomaticamente presente o Embaixador António Monteiro. (7)

António Monteiro foi um dos diplomatas que mais tempo de permanência fez em Kinshasa, durante o regime ditatorial de Mobutu e durante a guerra colonial portuguesa em Angola; António Monteiro é manifestamente enfeudado aos interesses norte americanos, tal como Durão Barroso (que também passou por Kinshasa) e, entre seus “pares”, conheceu Frank Charles Carlucci (que iniciou sua carreira em África, também esteve em Kinshasa, foi Embaixador em Portugal, desempenhou um importante papel na CIA e, no âmbito dos interesses do Grupo Carlyle, tem vindo a Angola “discretamente”, mas de forma bem referenciada).

O relacionamento de António Monteiro com a “linha Carlucci” é para a NATO, com os olhos nos Golfos da Guiné e do México, uma prova do “jogo” em sintonia com o SOUTHCOMMAND e o AFRICOM, um ponto de referência para a “experiência portuguesa” e uma “mais valia” para a NATO nas pretensões que se estão a desenhar em direcção ao Atlântico Sul, pelo volume de informação acumulado.

Conhecedor historicamente como poucos do “dossier” Angolano (ele foi o diplomata português mais em evidência nos processos negociais de Bicesse, de Gbadolite e de Lusaka), António Monteiro é com Durão Barroso um dos bons intérpretes portugueses do “espírito de Kissinger”, seguindo a cartilha de Frank Charles Carlucci, de que José Sócrates, no seguimento de Mário Soares, é um dos que se segue…

O estado português, amarrado à NATO, uma NATO que o mantém preso como eu sempre disse “pela via dos Açores”, arrisca-se a fragilizar as excelentes relações bilaterais que dentro ou fora do quadro da CPLP mantém com o Brasil e Angola, ávidos de garantirem emergência e as alternativas de acordo com seus interesses próprios e das regiões onde estão inseridos, em especial em matéria energética (“Amazónia Azul” e o petróleo “offshore” do noroeste angolano). (8)

A frota capitaneada pelo porta aviões “USS Independence” poderia há 35 anos, obedecer não só à possibilidade de “explorar o êxito”, caso os interesses norte americanos fossem assegurados em Luanda por via dos seus “fantoches” de ocasião; as derrotas cruciais de Cabinda, Quifangondo e Ebo inviabilizaram a chegada dessa frota a Angola; mas será que essa frota de que deu notícia Oleg Ignatiev estaria só predisposta à acção em Angola, em reforço da “independência” com Holden e Savimbi? (9)

Provavelmente essa “frota meio fantasma de Kissinger”, própria de quem tanto soube utilizar “o cacete e a cenoura”, estava também sujeita à “luz verde” que Henry Kissinger fizesse em relação a Portugal, tendo como outra possibilidade operativa a tomada dos Açores!

Não foi pois de estranhar que a Administração de George Bush, com a cumplicidade de Durão Barroso (e dos outros “pares” europeus ao nível dum Tony Blair e dum Aznar), dessem o pontapé de saída para a conquista do Iraque na “Cimeira das Lajes nos Açores”. (10)

O “espírito de Kissinger”, no que diz respeito ao “tempo de vida útil”, o tempo que a hegemonia imperial anglo-saxónica ainda tem disponível, pelo andar da carruagem vai prevalecer para além de seu tempo de vida física: os “centristas” das “sociais democracias” de serviço em todos os continentes encarregar-se-ão disso!

Martinho Júnior - 25 de Novembro de 2010

Notas:
- (1) – Tristes augúrios económicos –
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=117152 ; Otro terremoto en la zona Euro – http://www.rebelion.org/noticia.php?id=117125
- (2) – A estratégia global dos EUA: derrotar potenciais desafiadores na Euro Ásia – Rick Rozoff –
http://www.esquerda.net/dossier/estrat%C3%A9gia-global-dos-eua-derrotar-potenciais-desafiadores-na-eur%C3%A1sia ; After Seul – Wayne Madsen – http://www.strategic-culture.org/news/2010/11/15/the-seoul-aftermath.html ; Global Warfare: After NATO Summit, US to intensify military drive into Ásia – Rick Rozoff – Global Research – http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=21977
- (3) – The Institute for Advanced Strategic & Political Studies – Africa Oil Policy Initiative Group –
http://www.iasps.org/strategic/ ; http://www.iasps.org/strategic/housepressconf.html
- (4) – Las tribulaciones de los tuareg –
http://english.aljazeera.net/indepth/briefings/2010/11/201011112161535322.html ; http://www.rebelion.org/noticia.php?id=117148 ; GASTO MILITAR MANTÉM EQUILIBRIO DO TERROR FINANCEIRO NOS EUA – http://pagina--um.blogspot.com/2010/11/gasto-militar-mantem-equilibrio-do.html ; wAR WITHOUT BORDERS – Rick Rozoff – Global Research – http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=22036
- (5) – Medvedev, Putin grapple for power in Moscow –
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5367528,00.html ; Medvedev, Putin on separate roads to nowhere – http://www.atimes.com/atimes/Central_Asia/LJ08Ag01.html ; Medvedev-Putin Relationship May Guide Future Russian Policy – http://www.voanews.com/english/news/a-13-2008-03-11-voa58-66744387.html ; La deriva prooccidental de Rusia en el enfrentamiento Medvedev-Putin – http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article1010
- (6) – Theresa Whelan – http://www.jhuapl.edu/POW//rethinking06/speakers/whelan.htm ; AFRICOM concerned at West Africa drug trade – http://www.defenceweb.co.za/index.php?option=com_content&task=view&id=1241&Itemid=281
- (7) – África –
http://www.odiario.info/index.php?autman=Luís Amaro*&submit=Buscar ; Combate ao narcotráfico é prioridade – http://jornaldeangola.sapo.ao/20/0/combate_ao_narcotrafico_e_prioridade ; USAFRICOM Press Conference in Portugal – http://africacenter.org/wp-content/uploads/2010/06/0625africom-genwardinportugal.pdf ; África - A nova aventura do Imperialismo – http://www.galizacig.com/avantar/opinion/19-11-2010/africa-a-nova-aventura-do-imperialismo ; Ministério da Defesa Nacional Português e Centro de Estudos Estratégicos de África Promovem Seminário de Líderes de Alto Nível – http://portuguese.portugal.usembassy.gov/pa-port/pa-press/notas-de-imprensa/pr_061110-port.html ; António Monteiro - http://www.asdp.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=16:entrevista-ao-embaixador-antonio-monteiro&catid=7:entrevistas&Itemid=6
- (8) – Documento histórico revela - EUA tinham planos para invadir os Açores –
http://pagina--um.blogspot.com/2010/11/documento-historico-revela-eua-tinham.html ; Henry Kissinger: Shadow Government Secretary of State – http://www.globalresearch.ca/articles/SHE303A.html ; US had plans to 'take over' Azores in 1975: archives – http://ca.news.yahoo.com/s/afp/101119/usa/us_portugal_history_military_azores
- (9) – 1975 – A guerra pela independência –
http://pagina--um.blogspot.com/2010/11/1975-guerra-pela-independencia.html
- (10) – Açores – a cimeira dos caixões –
http://antidireitaportuguesa.blogspot.com/2004/03/aores-cimeira-dos-caixes.html ; Início da guerra do Iraque foi ditado há cinco anos na cimeira das Lajes – http://www.publico.pt/Mundo/inicio-da-guerra-no-iraque-foi-ditado-ha-cinco-anos-na-cimeira-das-lajes_1322785 ; Berlim - A cimeira da NATO nos Açores – http://www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/internacional/2003/2/12/,5a678b3b-266f-43e8-8e31-3a3956ae0313.html
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EUA - Novos documentos da Wikileaks são sobre “todos os grandes assuntos”

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Fundador da Wikileaks, Julian Assange de Bjorn Hurtig (L), reúne-se com a imprensa após um mandado de captura internacional que foi emitido contra o Sr. Assange. Foto: Reuters

DESTAK – LUSA

Os milhões de documentos norte-americanos que a Wikileaks está prestes a divulgar dizem respeito a “todos os grandes assuntos”, afirmou hoje o fundador da organização, Julian Assange, numa videoconferência com jornalistas na Jordânia.

“Os documentos que nos preparamos para publicar dizem respeito a todos os grandes assuntos em todos os países do mundo”, respondeu Assange a uma pergunta sobre se os novos documentos diziam respeito ao Iraque ou ao Afeganistão.

Assange disse aos jornalistas que optou por falar com eles por videoconferência porque “a Jordânia não é o país mais seguro quando se tem a CIA atrás” e não indicou onde se encontra.

A Wikileaks, que se especializou na divulgação de documentos confidenciais, deverá divulgar nas próximas horas cerca de três milhões de documentos de todo o tipo provenientes de embaixadas dos Estados Unidos em todo o mundo.

O ‘site’ de Assange publicou no mês passado cerca de 400 mil documentos norte-americanos, muitos sobre a guerra no Iraque, depois de em julho ter divulgado quase 80 mil documentos norte-americanos sobre a guerra no Afeganistão.

A divulgação destes documentos está a preocupar seriamente a administração norte-americana, que sábado advertiu a Wikileaks que a divulgação dos documentos vai colocar muitas vidas em risco, ameaçar operações antiterroristas e prejudicar as relações dos EUA com os seus aliados.
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PRESIDENCIAIS - Francisco Lopes acusa Cavaco, PS e PSD...

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Foto: António Cotrim/LUSA

... de estarem a preparar terreno para o FMI
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DESTAK – LUSA

O candidato do PCP às eleições presidenciais, Francisco Lopes, acusou hoje Cavaco Silva, o PS e o PSD de estarem a preparar o terreno para a intervenção do FMI e a medidas mais drásticas para os portugueses.

“Eles querem ainda tomar medidas mais drásticas mas dizer que a culpa não é deles, não é do PS, nem do PSD, nem do atual presidente da República e, então, preparam o terreno para vir o FMI [Fundo Monetário Internacional]”, disse num almoço com apoiantes, em Bragança.

Para o candidato comunista, “é esclarecedor que o presidente do PSD (Pedro Passos Coelho) tenha vindo dizer uma coisa espantosa: é que não se importa de governador com o FMI”.

“Agora, o que é verdadeiramente espantoso é que alguém que quer ter responsabilidades políticas no país, venha dizer aos portugueses que abdica da soberania e da independência nacional”, declarou.

Francisco Lopes atribuiu a mesma estratégia ao PS e ao actual Presidente da República e também candidato às presidenciais, Cavaco Silva.

“Até aqui, queriam o orçamento aprovado para meter no Orçamento do Estado (OE) todas as malfeitorias. Passado o OE estão a preparar-se para a etapa seguinte e querem tomar medias ainda mais drásticas mas dizer que a culpa não é deles”, disse.

O candidato comunista considerou que as atuais políticas estão”a conduzir o país para um desastre nacional” e disse que “é preciso ir ao regime fascista para encontrar um pacote de retrocesso social que o OE e as medidas que lhe estão associadas representam”.

Francisco Lopes falou ainda do desinvestimento no interior do país, nomeadamente em zonas como Bragança, criticando “a estratégia do cortar e fechar (serviços públicos), que criam mais dificuldades para fixar as populações, particularmente as gerações mais jovens”.

“Hoje temos uma geração com uma qualificação académica como nunca houve no nosso país, mas é exatamente essa geração que está a ser empurrada para o desemprego e para a precariedade”, afirmou.

A partir de uma região onde o PCP tem pouca expressão eleitoral, o candidato comunista apelou aos portugueses para que “votem, não em função do passado histórico ou das sondagens”.

“Não há nenhuma decisão antecipada, será tomada no dia 23 de janeiro”, sublinhou, dirigindo-se ainda àqueles que protestaram participando na greve geral de 24 de novembro que têm uma nova oportunidade votando nesta candidatura” nas presidenciais”.
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A EUROPA EM MARCHA À RÉ

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ANTÓNIO MARTINS – OUTRAS PALAVRAS

Quebra da Irlanda confirma: “resposta” europeia à crise é a pior possível. Mas retrocesso continua, porque faltam alternativas e há um ganhador oculto: a poderosa máquina de exportação da Alemanha

Depois de semanas de relutância, o governo irlandês jogou a toalha domingo e pediu socorro à União Europeia (UE) e ao FMI. Receberá, nos próximos meses, um empréstimo que poderá chegar a 100 bilhões de euros. Como de praxe nestas operações, nenhum centavo irrigará a economia, muito menos a sociedade: tudo será destinado para remunerar os credores do país.

Aos irlandeses, caberá uma nova rodada de sacrifícios. Nos últimos meses, eles já haviam sido levados a aceitar um corte brutal nos direitos sociais (inclui reduções de salários e desmantelamento da assistência médica gratuita aos idosos, como mostra nossa matéria a respeito) e o resgate, pelo Estado, de três grandes bancos quebrados. Novas medidas serão anunciadas em 5 de dezembro. Mantidas em sigilo, elas parecem graves a ponto de levarem o primeiro-ministro, Brian Cowen, a prometer, para o início do próximo ano, eleições antecipadas – que provavelmente liquidarão seu mandato, mas não diminuirão o retrocesso social.

A quebra da Irlanda segue-se à da Grécia e, salvo em caso de reviravolta, será acompanhada em breve pela de Portugal e da Espanha. Itália e a própria Inglaterra – um dos grandes centros financeiros do mundo – estão intranquilas. A Europa, que no pós-II Guerra estabeleceu formas inovadoras de criar e distribuir riqueza e instituiu o Estado de Bem-Estar Social, agora trocou de papéis. É a região do mundo de onde vem a resposta mais conservadora, burocrática e retrógradas à crise global.

Ela tem dois pilares. O primeiro é a crença na ideia simplória segundo a qual os Estados devem responder a uma crise financeira grave cortando despesas. Logo após a queda da bolsa de Nova York, em 1929, esta postura foi adotada pela maior parte dos países ricos, após a quebra da bolsa. Projetou a economia mundial numa depressão profunda, que suscitou desemprego em massa, guerras comerciais, ondas de nacionalismo xenofóbico e… o nazi-fascismo.

Nos desdobramentos da crise iniciada em 2008, sobressaem três respostas. Em países como a China e o Brasil, os Estados procuram reanimar a economia por meio de investimentos sociais (aumento dos salários e benefícios), em infra-estrutura ou ambos. Nos Estados Unidos, prevalece uma postura mista. Barack Obama propôs uma reforma avançada no sistema de Saúde (que conseguiu emplacar parcialmente), mas também fala em cortar gastos públicos. Além disso, aposta num crescimento ainda maior da capacidade militar dos EUA (veja artigo de José Luís Fiori a respeito), e manobra com o poder de “criar” riqueza imprimindo a única moeda de circulação global.

No Velho Continente, não há sequer esta ambiguidade. O Banco Central Europeu, que também teria capacidade de irrigar a economia, recusa-se a fazê-lo. Os Estados-membros da UE quase não têm margem para estimular suas próprias economias – porque estão constrangidos pelas normas comuns do bloco, que os impedem de se endividar. E os órgãos que dirigem a União recusam-se a adotar políticas de investimento em direitos sociais ou obras públicas.

O resultado é uma camisa-de-força que deixa aos Estados nacionais, como única saída, o segundo pilar da “resposta” europeia à crise: um ataque generalizado aos direitos sociais e serviços públicos (veja nossa reportagem e, ao final, exame das medidas adotadas em cada país). Os resultados são os previsíveis. Como demonstrado no século passado (e nas crises cambiais latino-americanas, entre as décadas de 1980 e 2000), os “ajustes fiscais” golpeiam a sociedade, mas nunca satisfazem os credores. Cada concessão é vista como uma demonstração de fraqueza e um sinal de que é possível exigir ainda mais. Nesta segunda-feira (22/11), logo após a capitulação da Irlanda, os mercados financeiros passaram a exigir, de Portugal e Espanha, taxas de juros ainda mais elevadas para a rolagem de suas dívidas.

Dois fatores ajudam a entender por que a Europa sucumbe a esta espiral regressiva. O primeiro é uma crise profunda da esquerda institucional — que parece, em suas diversas vertentes, presa ao século passado. A social-democracia esteve no governo de quase todos os países europeus, ao longo das duas últimas décadas. Ao fazê-lo, numa época em que o neoliberalismo era hegemônico, comprometeu-se diversas vezes com políticas de corte de direitos semelhantes às atuais – ainda que mais brandas. Não é capaz, agora, de enxergar, que a crise reembaralhou as cartas, que respostas novas são possíveis, que é permitido ousar. Na Grécia, em Portugal e na Espanha, as medidas brutais que estão violando o Estado do Bem-Estar Social são adotadas por partidos “socialistas”.

Mas a esquerda radical não é muito diferente, na insensibilidade aos novos tempos. Com as possíveis exceções de Portugal e da Alemanha, continua presa apenas à denúncia e à resistência. Sem ambição para formular alternativas, sem pique para dialogar com setores sociais emergentes, que se orientam por lógicas não-convencionais para os europeus: os imigrantes, por exemplo.

O segundo motor que empurra e Europa para trás é concreto e poderoso. Desde 2009, quando reelegeu-se com base num governo claramente à direita, a chanceler alemã Angela Merkel tem sido a defensora destacada das políticas de “ajuste fiscal” e “austeridade”. Não o faz por mera defesa de valores ideológicos. A economia da Alemanha está posicionada de modo muito particular, na conjuntura que se abriu após a crise.

Há um setor exportador muito robusto, que tira proveito inclusive do desenvolvimento acelerado dos países do Sul. Produz bens de capital sofisticados – máquinas necessárias para o avanço da indústria ou o desenvolvimento da infra-estrutura em países distintos como China, Índia, Angola, Brasil. Ou vende bens de luxo (automóveis Mercedes-Benz ou BMW, digamos) para os novos ricos que estão surgindo nos “mercados emergentes”.

Basta uma rápida consulta aos números da macroeconomia mundial para demonstrar o fenômeno. No período de doze meses encerrado em setembro, a Alemanha obteve o maior superávit comercial do planeta: 210 bilhões de dólares, 20% superior ao da tão falada China e em absoluto contraste, por exemplo, com os déficits da França (- US$ 69,6 bilhões), Reino Unido (-142,8 bi) ou Espanha (-72,9 bi). Impulsionada por este movimento, a economia alemã cresceu 9% no terceiro trimestre do ano – enquanto o resto da Europa vive dificuldades crescentes.

Para grandes empresas germânicas – e para os planos de médio prazo de Angela Merkel (ela só terá de submeter-se a eleições em 2003) – interessa consolidar a posição da Alemanha como grande exportador mundial. A redução de direitos sociais e salários contribuem para tanto: refreiam a capacidade de adquirir produtos importados e barateiam a produção. Neste exato momento, as federações empresariais alemãs estão estimulando seu governo a ampliar os incentivos à imigração de trabalhadores semi-qualificados, como forma de combater o aumento do salário-mínimo, reivindicado pelas centrais sindicais…

Em contraste com as hesitações e incertezas da esquerda, Angela Merkel tem um projeto: quer achatar os custos de produção em toda a Europa, comprimindo principalmente os direitos sociais, e garantir competitividade internacional a longo prazo para as grandes empresas do continente – com clara liderança alemã. É uma aposta extremamente arriscada: para que ela triunfe, será preciso passar por cima de seis décadas de lutas e conquistas dos trabalhadores e sociedades europeias. Derrotar tamanha regressão é perfeitamente possível: a chanceler enfrenta dificuldades políticas em seu próprio país. Mas falta, para resistir, algo essencial: um projeto alternativo.
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Mário Sérgio: 'Vencemos. Trouxemos a paz para a comunidade do Alemão'

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Comboios com centenas de policiais participaram da invasão ao conjunto de favelas do Complexo do Alemão Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia

O DIA – 28 novembro 2010

Polícia encontra 'mansão'
de chefe do tráfico Alexander Mendes da Silva, o Polegar

Rio - "Vencemos. Trouxemos a paz para a comunidade do Alemão". Com estas palavras, o comandante geral da Polícia Militar, coronel Mário Sérgio Duarte, comemorou a vitória das forças de segurança sobre traficantes do conjunto de favelas mais perigoso do Rio.

Por volta de 8h, policiais militares, civis e federais com ajuda das Forças Armadas, iniciaram a ocupação do Complexo do Alemão. Muitos tiros foram ouvidos e vinte pessoas acabaram detidas - um deles já tinha mandado de prisão por homicídio. Quatro toneladas de maconha, 16 fuzis, uma metralhadora calibre .30, granadas e munição em grande quantidade foram apreendidos.

Em uma residência do traficante Alexander Mendes da Silva, o Polegar, três fuzis, armas desmontadas, 15 coletes do Exército e grande quantidade de armas. Policiais da 27ª DP (Vila da Penha) conseguiram prender quatro pessoas na Favela da Grota. Os policiais informaram que não houve resistência ou mesmo barreiras do tráfico no caminho até o local.

A polícia também prendeu um homem conhecido como 'Do Mal', que seria gerente do tráfico do Morro do Adeus. Com ele, a polícia também prendeu uma mulher, que seria sua companheira. Foram apreendidos uma farda do Exército e uma granada.

Aproximadamente 2,7 mil homens - entre policiais civis e militares, membros das Forças Armadas estão no Alemão como parte do esforço para livrar as 15 comunidades das garras de traficantes. Blindados da Marinha e do Exército, assim como helicópteros da Aeronáutica, da Polícia Civil e caveirões deram apoio às tropas no solo.

Após o sucesso na incursão, o coronel Mário Sérgio pediu cuidado aos policiais, pois mesmo após a tomada do território bandidos e armas ainda podem estar escondidos.

"Apenas retomamos o território, mas agora é que vem a parte mais difícil e cansativa. Temos que revistar todas as casas. Muitos deles (bandidos) ainda devem estar dentro destas comunidades e precisamos ter muito cuidado", disse Mário Sérgio.

Em meio ao intenso confronto, moradores do Alemão gritaram palavras de apoio aos policiais e muitos se arriscavam nas janelas com máquinas fotográficas e panos brancos que representavam pedidos de paz.

Militares ocupam o Complexo do Alemão: 'Vencemos. Trouxemos a paz para a comunidade', comemora o comandante geral da PM Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia

Ataques começaram no domingo ao meio-dia

A onda de ataques violentos no Rio e Grande Rio começou no domingo 21 de novembro, por volta do meio-dia, na Linha Vermelha, quando seis bandidos armados com cinco fuzis e uma granada fecharam a pista sentido Centro, altura de Vigário Geral. Os criminosos, em dois carros, levaram pertences de passageiros e queimaram dois veículos, após expulsarem os ocupantes. Para o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, as ações criminosas são uma reação contra a política de ocupação de territórios do tráfico, por meio das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e a transferências de bandidos para presídios federais em outros estados.

Na manhã da segunda-feira, cinco bandidos armados atacaram motoristas no Trevo das Margaridas, próximo à Avenida Brasil, em Irajá, também na Zona Norte. Os criminosos roubaram e incendiaram três veículos. No mesmo dia, criminosos armados com fuzis atiraram em uma cabine da PM na rua Monsenhor Félix, em frente ao Cemitério de Irajá. A PM acredita que o incidente tenha sido provocado pelos mesmos bandidos que haviam incendiado os três carros na mesma manhã. À noite, traficantes incendiaram dois carros na Rodovia Presidente Dutra, na altura da Pavuna. Foi o quinto ataque a motoristas em menos de 48 horas. Na Zona Norte, outra cabine da Polícia Militar foi metralhada.

No dia seguinte, as polícias Militar e Civil se uniram para reforçar o patrulhamento pelas ruas do Rio. O efetivo foi redobrado para controlar os ataques dos bandidos. A operação, que se chamou 'Fecha Quartel', suspendeu todas as folgas dos policiais militares do Rio de Janeiro. Mais de 20 favelas foram invadidas e armas e drogas foram apreendidas. Bandidos foram presos e alguns criminosos mortos em confronto com agentes.

Na quarta-feira 24 de novembro, novos ataques: ônibus, van e carros foram incendiados na Zona Norte do Rio, Baixada Fluminense e Niterói. Sérgio Cabral, governador do Rio, desafiou os bandidos: 'Não há paz falsa. Não negociamos'. Em uma reunião de cúpula da Segurança Pública do Estado, ficou decidido que a Marinha daria apoio logístico às operações de resposta aos ataques de bandidos.

Em mais um dia de veículos incendiados espalhados pela cidade, mais de 450 homens - entre polícias Militar e Civil e fuzileiros da Marinha, com o apoio de blindados de guerra da força naval, tomaram a Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Emissoras de tv mostraram, ao vivo, centenas de bandidos armados fugindo para comunidades vizinhas. Cenas históricas que mostraram a atual situação do Rio de Janeiro. Na sexta-feira 26 de novembro, o Exército e a Polícia Federal entraram na batalha.

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A LUTA PELA VERDADE NO GOVERNO DILMA

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Um membro da Anistia Internacional enxerga novas chances de esclarecer os crimes da ditadura: “A chegada de uma ex-torturada à presidência pode provocar reflexão na sociedade”
By Caue-Ameni - Outras Palavras

Por Ana Helena Tavares, no blog Quem tem medo do Lula?

Carlos Alberto Lungarzo é ativista dos Direitos Humanos, sendo membro, desde 1982, da Anistia Internacional – que ajudou a fundar na Argentina, onde nasceu – e voluntário do Alto Comissionado das Nações Unidas para os refugiados. A estes deu sua contribuição no Brasil, América Central e México. Escreveu o livro Vendetta! sobre o julgamento do escritor italiano Cesare Battisti e colabora com duas ONGs da esquerda americana: a “Anwer.org” e a “Move On!”. Para honra minha, é atualmente co-editor do “Quem tem medo do Lula?”, onde publica seus artigos diretamente.

Nesta entrevista, concedida numa agradável noite, em uma das varandas do Campus da UFRJ na Praia Vermelha – onde esteve para participar de um seminário sobre jornalismo – ele fala sobre a necessidade de que se esclareçam os crimes da ditadura militar brasileira.

Para ele, ao requerer acesso aos documentos referentes à atuação de Dilma na ditadura, a mídia quer “criar agitação e confusão”, na tentativa de “suprimir a realidade, através de informações forjadas, que não são corretas – ou que, mesmo sendo corretas, são agitadas e colocadas fora de contexto, produzindo um impacto maior do que teriam naturalmente.” Por outro lado, ele considera que “se for contado o que de fato aconteceu com ela, é grande a possibilidade de aumentar o grau de consciência da sociedade.”

Conclui lamentando que o nosso sistema judiciário seja “uma ditadura, que não presta contas a ninguém, que se impõe por pressão e que usa uma linguagem ininteligível para o povo.” Sem que isto seja mudado, “nada de democracia”.

Você nasceu na Argentina e se exilou no Brasil, depois do golpe lá. Como foi isso?

Foi em 1976. E minha primeira experiência foi vir ao Brasil. O que ficou de lá foram hábitos culturais, mas tudo rapidamente superado, pois me adaptei muito bem ao Brasil. O mais grave que ficou foi a dor da perda dos amigos, saber que estavam sendo assassinados e torturados. Quanto ao Brasil, morar aqui era uma velha aspiração minha. Não necessariamente em Campinas, como morei, mas num local mais tropical, como Bahia ou Rio. De qualquer maneira, gostei muito. Pude apreciar um pouco a diferença das pessoas. A cultura argentina mudou bastante e eles não sabem que mudou. Só quem viveu lá antes, saiu e hoje volta lá, é que percebe. Mas eles são ainda muito arrogantes e o componente racista é muito forte na sociedade. Então, eu comecei a ver o papel dos populares no Brasil – existem muitos marginais e tal – mas há uma cordialidade que eu não encontrava lá. Quer dizer, esse exílio não foi pra mim uma experiência traumática, tanto que fiquei aqui (atualmente em São Paulo).

Você considera que os argentinos são mais racistas que os brasileiros?

Não sei se a intensidade é maior. O que acontece é que o racismo é mais generalizado. Não há lá a mistura de raças que há no Brasil e, não havendo essa miscigenação, a pessoa potencialmente pode ser racista: anti-negro, anti-índio ou coisas do gênero. No Brasil, eu acho que o racismo está restrito a grupos da classe média e da burguesia ou então a pequenos grupos ignorantes. Parece-me que aqui o racismo está menos estendido do que na Argentina. Com relação à atuação, creio que, dentro dos grupos racistas, a intensidade seja parecida.

Você é militante da Anistia Internacional já há 28 anos, como a organização tem visto a decisão do STF brasileiro de não punir os torturadores da ditadura militar?

Muito mal. Recentemente, na minha rede de contatos, na qual está seu blog, eu fiz circular alguns comunicados da Anistia. Oficialmente – o que também é uma posição minha – nós pensamos que isto é uma grande burla, uma grande pirraça contra as pessoas que realmente sofreram por causa disto. É uma consagração da impunidade que, por um lado, significa não fechar nunca mais as contas.

Quais seriam os caminhos para fecharmos estas contas?

Você tem várias formas de aplicar uma justiça restitutiva, restauradora. Há uma que deve ser rejeitada, que é a vingança, como, por exemplo, a que se aplicou em Nuremberg: como os nazistas, enforcando os criminosos de lesa humanidade. Isto seria uma mistura de justiça com vingança, o que eu pessoalmente repudio. Formas mais humanas se aplicaram na Argentina, na Grécia, no Chile, e eventualmente em Israel: julgar estas pessoas e dar-lhes uma pena que não pode ser proporcional aos crimes que foram muito grandes. Uma pena que, pelo menos, garanta à sociedade a sua segurança. Finalmente, numa forma mais conciliatória, haveria uma Comissão de História e Verdade, como foi na África do Sul. Onde as pessoas que participaram do Apartheid, estando de acordo, fizeram uma autocrítica. Isto, para mim, tenciona a entender qual foi a gravidade dos fatos. Mas aqui não se faz nada disso, este é o problema.

Quais outros países ainda devem este acerto à sociedade?

Na situação do Brasil há outros três ou dois países. Honduras e El Salvador também não fizeram, digamos, sua autocrítica. A maioria dos países da América Latina tem feito algo, por pouco que seja. Inclusive, o Peru. País historicamente dominado pela direita e onde é muito difícil passar qualquer motivação democrática. Mas lá eles fecharam as contas. Lá e na Argentina, no Uruguai e até no Paraguai. Então, você tem aqui uma concessão, uma atitude claudicante que pode ter conseqüências negativas no futuro. Pode alentar um novo massacre.

Você acha que a OEA pode vir a pressionar o STF a reverter sua decisão?

Sem dúvida, pode pressionar, não quer dizer que o Brasil vá obedecer. O problema é o seguinte… Há duas coisas diferentes: a ação punitiva e a executória. Para você executar uma decisão teria que haver um poder central. Qual seria a polícia internacional que entraria no Brasil, colocaria esses caras no tribunal e faria um julgamento? Isto não se pode. Mas é verdade que existe uma tendência cada vez maior de se pensar que há uma jurisdição internacional para os crimes de Direitos Humanos. Não para delitos políticos, que não tenham um impacto radical.

Há casos para serem citados sobre a atuação de uma jurisdição internacional?

Há dois casos importantes. Um foi contra o ditador Pinochet do Chile, que fez uma visita à Inglaterra. Neste momento, o juiz Garçón, da Espanha, considerou que os crimes cometidos pela ditadura chilena eram de jurisdição internacional e pediu a extradição de Pinochet para a Espanha. Esteve quase próxima a ser concedida. Houve muitas opiniões favoráveis na própria Inglaterra. Fracassou por causa da ex-ministra, Margareth Thatcher, que se opôs, e uma série de outras coisas. O outro caso foi de um torturador argentino, o capitão Scilingo, um sujeito que tem uma folha corrida impressionante: 150 desaparecidos, 153 aplicações de tortura, e muitos outros crimes. Ele foi detido na Espanha, onde está cumprindo prisão de 30 anos, apesar de não ter cometido nenhum crime lá. Ou seja, é um caso típico de jurisdição internacional, o que é uma tendência do direito humanitário internacional, que vai ganhando força muito devagar. Neste sentido, creio que – e eu falei isso na última reunião de Direitos Humanos lá em Brasília – é necessário que se apresente uma queixa à Comissão de Direitos Humanos da OEA. E, depois disso, é esperar para ver o que acontece. Será um processo lento.

Em que medida a não-punição dos torturadores da ditadura pode estimular a continuação da prática de tortura?

Esta pergunta é excelente, inclusive eu ia dizer algo sobre isso. Eu acho que essa impunidade incentiva. Porque, digamos, o sargento, o cabo ou o tenente que tortura numa delegacia tende a achar que não será atingido. São menos importantes que um general, mas ninguém até agora foi atingido aqui. Apesar de que tortura é crime pela lei brasileira. Mas, se você fizer uma pesquisa, até onde eu sei, punições graves, de mais de 20 anos de prisão, por tortura somente se aplicaram em 3 ou 4 casos em Porto Alegre. De resto, são punição curtas, nas quais a pessoa acaba tendo liberdade condicional, redução da pena, etc… Então, sem dúvida isso vai incentivar e acho que já tá incentivando a prática corriqueira de tortura no Brasil.

Na época eleitoral e também agora, a Folha de S. Paulo andou tentando de todas as maneiras conseguir os documentos referentes à atuação da Dilma na ditadura. Recentemente, o STM (Superior Tribunal Militar) concedeu esse acesso não só à Folha, mas a todos os veículos de comunicação. Qual a importância de essa documentação vir à tona e como você vê o papel da mídia nessa questão?

A importância creio que é praticamente nula, porque todo mundo sabe, a própria Dilma tem falado, que pertenceu à VAR-Palmares, que foi guerrilheira, etc… Provavelmente, a mídia suspeitasse que alguma coisa interpolada – inventada – pelos militares pudesse acrescentar algo. Esperavam que aparecesse algum assassinato, algo assim, que de alguma forma degradasse a imagem da Dilma. Mas não há nada. E eu penso também que o objetivo principal da mídia, em particular da Folha, notadamente durante as eleições, era criar um clima de agitação, de confusão que se juntasse às denúncias de quebra de sigilo bancário e a tudo aquilo. Porque o que há nessa documentação é o que todo mundo sabe. Ainda que ela tenha pegado em armas, não cometeu, ela própria, nenhum ato de violência.

Você chamaria isso de tentativa de golpe?

É um golpe sim. Não um golpe militar, mas é o que chamamos de golpe branco. É querer suprimir a realidade, através de informações forjadas, que não são corretas – ou que, mesmo sendo corretas, são agitadas e colocadas fora de contexto, produzindo um impacto maior do que teriam naturalmente.

Você acha que o fato de que teremos na presidência uma pessoa que foi torturada pode contribuir de alguma forma para a elucidação dos crimes da ditadura e você acha que ela própria poderá ter papel importante nisso?

Bom, quanto a ela própria, eu particularmente duvido um pouco. Acho que a tendência dela, como foi no governo Lula, é de acalmar as coisas. Agora, pode ter um efeito espontâneo na população, no sentido de que as pessoas comecem a refletir sobre o que significou a ditadura. Acho que isso dependerá de como será contada a história da Dilma, de que publicidade será feita dela. Se for contado o que de fato aconteceu com ela, acho que é grande a possibilidade de aumentar o grau de consciência da sociedade.

A nossa sociedade já é totalmente democrática?

Vivemos numa democracia que pode ser que esteja parcialmente consolidada. É difícil de ser derrubada. Acontece que ainda é uma democracia insuficiente. Por exemplo, você conhece e eu também, uma série de pessoas com certa formação intelectual que não lembra em quem votou nas últimas eleições. Para cargos legislativos. Deputados, vereadores. E algumas não lembram nem dos governadores. Então, há uma idéia de que os assuntos políticos estão totalmente fora dos interesses do cidadão. Isso é muito mais graves nas classes populares, onde as pessoas geralmente votam levadas pela propaganda. Ou seja, tá muito confusa ainda a nossa democracia. É verdade que isso acontece também em outros países, como os Estados Unidos, onde também as pessoas não têm muito idéia de porque estão votando.

O que falta para mudarmos esse quadro?

Um primeiro problema seria dar às pessoas educação política para que tenham um voto consciente, o que eliminaria certos nomes que temos no parlamento e que formam um verdadeiro bando de criminosos. Você tem, por exemplo, aquele deputado que propunha fuzilar o FHC – um psicopata extremo, que é militar e defende a ditadura – e tantos outros exemplos, como os responsáveis por massacres no campo e em presídios, chefes de órgãos de tortura, etc. Reconheço, porém, que eles não são maioria. Uma segunda coisa fundamental é modificar o sistema judiciário, que – como disse nada menos que o ministro Marco Aurélio de Mello, a figura mais brilhante do Supremo Tribunal – é uma ditadura, que não presta contas a ninguém, que se impõe por pressão e que usa uma linguagem ininteligível para o povo. Embora até haja bons juízes, inclusive na Suprema Corte, precisamos com urgência de uma justiça formada por gente realmente honesta e séria. Sem isso, nada de democracia. Aliás, deve levar-se a sério a experiência da Suíça, Japão, e alguns países da União Européia, em que o juiz é eleito pela população. Isto tem algumas dificuldades, mas é claro que o sistema atual é totalmente antidemocrático, draconiano e inimigo dos Direitos Humanos.

Clique aqui para ouvir a gravação desta entrevista. Com direito ao forte sotaque argentino do entrevistado.

*Ana Helena Tavares é jornalista, editora-chefe do blog “Quem tem medo do Lula?”.
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